REPORTAGEM DE CAPA

Os muitos caminhos para o encontro de si

O busca por saúde e transcendência são os combustíveis de terapias que escapam ao convencional. Com a mente aberta, é possível embarcar em verdadeiras jornadas de conhecimento

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postado em 15/07/2011 17:38 / atualizado em 17/07/2011 15:26

Rafael Campos

Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press

Atire o primeiro smartphone aquele que nunca pensou durante um momento estressante: “O que estou fazendo comigo mesmo?”. Agora, reflita sobre a semana passada. Quantas vezes você parou e olhou para dentro de si, em vez de manter o foco nos trocentos compromissos do dia seguinte? Imagine como seria sua vida se carros, viagens para o exterior e a grama (sempre mais verde) do vizinho não passassem de aspectos secundários? Provavelmente, essas divagações não lhe são estranhas. O mundo, porém, exige que vivamos para fora, para o que é tangível e material — deixando a impressão de que a vida interior é perda de tempo.

Qual é o verdadeiro objetivo desse período que foi reservado a você neste planeta azul? Se a realidade oferece, a cada ano, novos modelos de tudo que você já tem, o que, de fato, deve ser buscado? Viajar ao interior de si mesmo não é uma tarefa habitual. “Muitas pessoas vivem tão tensas e pressionadas pelo que existe fora que tendem a achar que isso é o natural, quando não é”, afirma a psicoterapeuta Berenice Kuenerz, que coordena o Instituto da Pessoa, centro que reúne diversos tratamentos em prol do equilíbrio.

A ioga e a meditação estão entre as práticas mais conhecidas. São muitos, porém, os caminhos na busca pela transcendência. Aos que torcem o nariz, uma dica: quase todos os adeptos desses ensinamentos tiveram uma vida pregressa de ceticismo — e, agora, não saberiam viver sem eles. Com tantas possibilidades, mudar o foco e se cuidar não precisar soar como esoterismo, até porque a única crença exigida é em si mesmo. Basta desviar os olhos do que se pode ser e começar a enxergar o que se é.

A conquista do presente
Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press

Um emprego com grandes possibilidades de crescimento. Uma carreira que supria os anseios profissionais. Uma situação financeira tranquila e sem barreiras para o consumo. E, mesmo assim, Flávia Araújo, 45 anos, sentia um vazio. “Foram 26 anos buscando algo que me mostrasse quem realmente eu era.” A procura cessou há dois anos, quando a Ascensão Ishaya do Caminho Brilhante entrou em sua vida. Flávia renascia como Anagha Ishaya. A mudança foi tão intensa que ela resolveu disseminar esse conhecimento.

Depois de um retiro espiritual de cinco dias, oferecido pelo seu antigo emprego, ela decidiu que era essa a forma perfeita de garantir sua plenitude. Pediu demissão e foi passar seis meses na Espanha, treinando. “Não havia leitura alguma, não aprendi nenhum conceito. Foi um tempo usado somente para fechar os olhos e encontrar a mim mesma. Agora, posso fazer com que outros também se achem”, explica. Hoje, ensina o que aprendeu: um estado meditativo que pode, inclusive, ser alcançado de olhos abertos. “A mente é um labirinto. A ascensão, como o próprio nome diz, faz com que saiamos desse labirinto e o olhemos de cima.”

Mas o que significa olhar de cima? Anagha explica que, ao usar os ensinamentos, a pessoa gera uma coerência cerebral. Isso faz com que os dois lados do cérebro entrem em sintonia. Assim, as dúvidas e questionamentos, mesmo os complicados, podem ser analisados de forma menos extrema, sem que o sujeito se veja como vítima, gerando mais sofrimento.

As irmãs Alexia e Andrea Hughes, 24 e 29 anos, respectivamente, conseguiram alcançar esse estado em que o cotidiano, com seus percalços habituais, é visto sob o olhar de um observador. As duas descobriram a Ascensão Ishaya por motivos distintos. “Tinha dificuldade com meditação e estava passando uma fase muito difícil no trabalho, chorando fácil e tendo muitas dores de cabeça. Com essa técnica, em pouco tempo me senti diferente e melhor”, lembra a psicóloga Alexia. A professora de ioga Andrea voltou a morar com a irmã e percebeu os benefícios da ascensão. “Pensei: acho que há algo de errado comigo porque ela está tão bem. Experimentei e vi as mesmas coisas acontecendo comigo.” Andrea acredita que a grande vantagem dessa técnica é trazer a pessoa para o presente.

Sem alongamentos ou exercícios, a ascensão se baseia em quatro práticas: a apreciação, o agradecimento, o amor e a compaixão, aprendidas em retiros que duram cerca de 20 horas, divididas em três dias. “Elas quatro formam um vórtice de percepção que vai se abrindo, com emoções que transbordam do corpo para fora”, frisa Anagha. O alívio espiritual é quase imediato, segundo os relatos dos praticantes.

Há também os que querem alívios que vão além do espiritual. Luanda Iida de Carvalho, coordenadora do Espaço Luanda de terapias de equilíbrio, explica que lá os alunos, normalmente, chegam já em um turbilhão de dores físicas que os impede até de desejar algo que vá além da cura dessas aflições. “Eles chegam bem desconfiados. Aos poucos, percebem os outros benefícios que práticas como essas podem trazer.” Uma das mais procuradas é o iogilates, que mistura ioga e pilates. Segundo Luanda, cada meia hora de aula é dedicada a uma das modalidades.

“O pilates fortalece, dando mais força, e depois temos os benefícios das posturas terapêuticas do ioga. Isso sempre respeitando os limites de cada aluno.” A própria Luanda teve sua experiência pessoal de entender a necessidade de buscar essas práticas no dia a dia. Durante anos, a professora observou a mãe praticando ioga, sem demonstrar maior interesse. Até que, em uma viagem ao Japão, como forma de reencontrar o passado, viu que precisava fazer mais por si mesma e decidiu se valer do que estava no DNA da sua família. “O que percebo hoje é que não há época para começar. Qualquer terapia de autoconhecimento chega no momento certo.”

O universo dança
Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press

Rudolf Steiner era um incansável na tentativa de ampliar o conhecimento. Ao idealizar a antroposofia, no início do século 20, o austríaco criou métodos que inspiraram diversas técnicas de encontro com o próprio ser, estabelecendo paralelos entre a natureza humana e o universo. Sua obra ainda hoje inspira trabalhos que envolvem música, educação, expressão corporal  e uma vasta gama de conceitos. “No caso da euritmia, uma mãe o procurou querendo uma dança pra a filha que envolvesse o lado espiritual e não só o corpo. Foi assim que ele a pensou”, conta a professora de euritmia Clarisse Barreto Raynaud. A técnica, conhecida como a arte do movimento, parece uma coreografia.

Porém, como esclarece a especialista, ela vai mais longe ao agregar a cada movimento uma capacidade curativa, que reverbera nos órgãos do corpo. “O que tornamos visível na euritmia? Os sons da fala. Trabalhando com as vogais e as consoantes, mostramos que seus sons e os movimentos que eles exigem atuam no corpo e no espírito.” A euritmia se divide em três vertentes. A artística, base das outras, é a que mais se aparenta a um espetáculo de dança comum. Na euritmia pedagógica, voltada para as crianças, os temas vistos em sala de aula ganham ação, em formas interpretativas que conseguem tocar, além da mente dos pequenos, seus sentimentos.

Há também a curativa, em que os fonemas são usados diretamente para o tratamento de certas patologias. “Uma pessoa que tem prisão de ventre, por exemplo, usa fonemas com a letra ‘r’, que vão atuando no intestino. Isso, de certa forma, atenua as dores”, garante Clarisse. A antroposofia também pode ajudar pessoas por meio da criação musical, usando o que é feito pelo próprio aluno para ajudá-lo na busca interior. O kântele, instrumento de origem finlandesa, é um dos exemplos mais característicos dessa abordagem. Pouco conhecido no Brasil, ele é encontrado em, praticamente, todas as casas da Finlândia.

O kântele usado para o tratamento espiritual, contudo, não é o mesmo do folclore nórdico. De acordo com Adriana Pirola, uma das poucas terapeutas a adotá-lo no Brasil, o instrumento foi adaptado por Rudolf Steiner para que as experiências oníricas fossem as únicas alcançadas. “A escala de sons é diferente. Ele retirou o dó, que remete ao terreno, e o fá, que gera um semitom. Assim, não é preciso ter conhecimento de teoria para fazer música. Todos os sons são harmônicos.” As aulas reúnem até cinco participantes, que tocam em grupo para criar uma unidade de pensamentos. “Cada um chega e mentaliza o que quer naquele dia: tranquilidade, foco, menos ansiedade. O som traz esse desejo.”

Adriana frisa que tudo depende do objetivo do aluno. Alguns desejam sim se alfabetizar musicalmente. Outros, como ela diz, apenas satisfazer a criança interior. Nos dois casos, diante da tranquilidade trazida pelo som, a possibilidade de se fazer música é clara. “O que o Steiner fez foi dar harmonia e quietude a tudo que sai do kântele. Os tons são entidades arquetípicas e vibram em uma frequência que atua no nosso corpo nos harmonizando. Não é esoterismo, é matemática.”
O analista de sistemas Jorge Arruda é a prova desse sentimento de realização. A vida inteira pautado pelo racionalismo, viu seus paradigmas abalados quando, aos 56 anos, iniciou-se no kântele. “Hoje me conheço mais, pois o canto e o instrumento refletem as minhas tensões. Como tenho uma profissão que exige muito do intelecto, preciso ver o outro lado, menos racional e agora consigo me entender melhor.”

Já a professora Alice Melo Ribeiro, da Universidade de Brasília (UnB), descobriu o instrumento graças aos filhos Arthur, 6 anos, e Clarice, 8, que o praticavam na escola. Hoje, os três tocam juntos, em uma união familiar que vai além da educação musical das crianças. “Sinto que elas ficam mais tranquilas quando tocam. E, em uma época em que vivemos tanto para fora, ele se mostra ideal para que eu me dê um momento exclusivo para mim mesma. É essa a maior vantagem.”

Holístico e gratuito
Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press

Há quem leia sobre terapias alternativas e pense que o preço cobrado não compensaria a viagem espiritual. É fato que muitas delas podem sim pesar no orçamento. Um kântele, por exemplo, custa, em média, R$ 350. Contudo, mais que valores, há gente precisando de um apoio espiritual que vá além do que a medicina pode oferecer com medicamentos. Foi o que pensou o doutor em filosofia Rex Thomas, quando criou, no ano passado, a ONG Terapeutas Sem Fronteiras. Graças ao trabalho voluntariado, mais de 400 atendimentos gratuitos já são realizados por mês, em São Paulo, onde a organização foi fundada.
“Senti que, no Brasil, o que as pessoas mais buscam é ajuda emocional. Tanto que isso reflete até na violência vista na sociedade. Mas, ao mesmo tempo, poucas pessoas têm condições de bancar essas terapias”, afirma Rex. Tendo isso em mente, ele entrou em contato com diversos profissionais que, munidos dessa vontade de ajudar, se integraram ao Terapeutas sem Fronteiras. A ONG já atua em Sorocaba, Rio de Janeiro, Curitiba e também em Brasília, onde é coordenada pela terapeuta Maria Soares Rodrigues e conta com cerca de 50 voluntários.

A ONG não tem objetivo de substituir qualquer tratamento médico. Ao contrário, o desejo é aumentar as possibilidades de cura espiritual, sempre aliadas à medicina, respeitando todos os credos. O fisioterapeuta Ricardo Pontes é um dos que oferecem os serviços de forma gratuita. Para ele, a certeza de que vai ajudar é motivo suficiente para embarcar no projeto. “Sem falar que, aqui, tenho contato com os mais diversos tipos de terapia, e podemos fazer uma troca de experiências.” A ONG pode ser contatada por telefone, seja para quem precisa de ajuda, seja para os que desejam ajudar.

“Nosso objetivo é, acima de tudo, oferecer ao paciente uma bagagem do que ele pode fazer por si mesmo para resolver os desafios que o afligem. Problemas graves, como depressão, podem ser amainados com as terapias que oferecemos aqui”, frisa Maria Soares Rodrigues. A professora Maria Elisabete Moraes, 51 anos, paciente de Ricardo Pontes, acredita que a oportunidade é salutar, pois mostra que a ajuda emocional é tão importante quando a estritamente física. “Também sou voluntária e vejo o quanto nós podemos fazer uns pelos outros”, arremata.

A potencialidade dos pequenos
Muitos pais entendem que a busca por equilíbrio deve ser algo iniciado na infância. Mesmo que eles não tiveram qualquer experiência nesse sentido quando crianças creem que seus filhos merecem aprender algo que vá além dos livros. A Escola Moara, única em Brasília a usar a pedagogia Waldorf, ainda sofre os preconceitos de sua filosofia. Entre os pais dos alunos, porém, a defesa do método é fervorosa.

Essa abordagem enxerga o desenvolvimento humano em setênios, ou seja, cada sete anos da vida representam uma fase, que deve ser respeitada em suas limitações, não importa que estímulo suplementar o mundo ofereça. Assim, um mesmo assunto é dado de forma diferente para cada idade. “De 0 aos 7 anos, temos a fase do querer: brincar, correr, subir em árvores são as atividades mais importantes. Dos 7 aos 14, trata-se do sentimento, despertando esse gosto pelas coisas do planeta. Depois é o pensar, mais cognitivo, dos 14 aos 21”, explica a professora Clarisse Barreto Raynaud.

Na escola, não há provas nem livros didáticos, sendo todo o conhecimento repassado pelo professor. Este tem a responsabilidade não só pelo conteúdo, mas como ele irá conseguir integrar isso à arte, com aulas que envolvam música, teatro, dança e pintura. “Aqui, a educação é baseada em três âmbitos: cabeça, sentimentos e ações no mundo. Esse tripé tem de ser equilibrado, para que a criança se desenvolva integralmente”, afirma Vanda Amaro, outra professora da escola. Ela afirma que a pedagogia Waldorf nada contra a corrente do que é tido como ideal para a educação. Como as cobranças são, aparentemente, menores, muitos tendem a acreditar que, dentro desse método, os filhos não serão educados corretamente. “Os pais que matriculam seus filhos aqui percebem nisso um fundamento para elas. Quem não consegue, não fica. Vai achar que o filho está atrasado, que a escola não serve.”

A jornalista Rita Medeiros, 34 anos, é uma das que aposta. Mãe de Manuela, 3, ela lembra que a filha já esteve em escolas tradicionais, nas quais sua adaptação foi ruim. “Aqui, respeitam o tempo dela. Nos seis meses que está matriculada, sinto que a minha filha está mais segura de si, que confia em si mesma.” O bem-estar da menina é o melhor argumento para superar eventuais críticas, aponta a jornalista. “Um pai que matricula seu filho aqui vai aprender junto, conhecendo a pedagogia. Mas basta ver o sucesso dos alunos que saíram daqui para comprovar que ela funciona. Aqui há um cuidado com o lado espiritual da criança.”

SERVIÇO
ONG Terapeutas sem Fronteiras — Apoio emocional gratuito
(61) 3522-4447
www.terapeutassemfronteiras.org.br
maria10.ivette@gmail.com
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