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Correio Braziliense

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REPORTAGEM DE CAPA

O seu talento é o presente

Nada melhor do que ofertar aquilo que fazemos de melhor. Essa é a proposta desta edição, que promoveu a troca de experiência entre pessoas de vários ramos. O resultado é um mimo para você, leitor

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postado em 25/12/2011 08:00 / atualizado em 23/12/2011 21:40

Maria Júlia Lledó

Iano Andrade/CB/D.A Press

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
O ano passou veloz. Experimentamos desafios, tristezas e alegrias para acordar em 25 de dezembro com a sensação de que algo maravilhoso ainda está por vir. Ao despertar, a expectativa é de que aquele presente embaixo da árvore de Natal transforme o domingo em um dia muito especial. Como se pudéssemos ter, no mesmo ano, duas festas de aniversário. E não importa se a caixa com fitas vermelhas embalar um brinquedo, uma roupa ou um livro. O que conta, na verdade, é a intenção de viver e proporcionar uns aos outros um momento de alegria.

Na casa da artista plástica e professora Marcella Ferreira, trocar presentes artesanais é tradição. No estúdio, as peças de papel machê feitas pela artista se abraçam, trocam olhares apaixonados, leem um livro à sombra de uma mangueira. Parecem até que gostam de prosear com a artista quando, desavisados, lhes damos as costas. Marcella se orgulha de cada peça, mas avisa que não é uma mãe possessiva. Se um deles tiver que partir, que se faça sua vontade. No Natal, ela costuma presentear amigos e familiares com versões mais simples. Nada obrigatório. “Tento organizar meu tempo para poder fazer os presentes de Natal. Às vezes, eles são elaborados. Outros, mais simples. Mesmo assim, não deixo passar a festa em brancas nuvens”, avisa.

Inspirada pelo espírito natalino, a Revista experimenta um troca-troca de presentes diferente. Convidamos profissionais de áreas distintas para se conhecerem e ofertarem uns aos outros com o que sabem fazer de melhor. E você? Vai tirar da gaveta aquele talento esquecido no corre-corre diário? À sua maneira, há algo que pode ser feito com as próprias mãos cujo valor é inestimável. Vale a pena abrir a caixa de costuras, ler o livro de receitas da avó… Enfim, deixar a imaginação correr solta para presentear amigos queridos com algo que tenha sua assinatura.

A palavra e suas formas
Iano Andrade/CB/D.A Press
Danyella Proença, 27 anos, e Beatriz Roscoe, 13, se encontraram pela primeira vez numa livraria. Sentadas num banco, cineasta e ilustradora compartilharam um segredo: conseguem dar vida à palavra. Para isso, não é preciso mágica. Só é necessário algumas folhas de papel para que a imaginação se transforme em roteiro ou ilustração. “O papel sempre foi meu ponto de partida. Na infância, escrevia meus livrinhos: As aventuras de Aline. Minha mãe também me contava histórias e, quando esquecia alguma parte, ela inventava. Até hoje, me lembro da história da lambisgoia que não escova os dentes (risos). Se não fosse por ela, talvez não estivesse fazendo cinema hoje”, acredita Danyella.

No enredo de Bia, os motivos que a levaram a ser ilustradora não foram diferentes. “Antes de dormir, pedia para minha mãe me contar uma história. Daí ela vinha com a história da Cinderela, mas eu queria alguma diferente, uma que ela inventasse na hora. Aí a gente foi criando juntas A menina que pescava estrelas, que acabou sendo publicada e até virou filme (dirigido por Ítalo Cajueiro). Minha maior alegria é ilustrar. Neste ano, pela primeira vez, ilustro o livro de outro autor, o escritor JP Veiga. Estou me divertindo”, confessa a precoce ilustradora.

Jovens talentosas, elas encontram semelhanças no caminho da palavra. Aversa a fórmulas, Danyella confessa que basta dar uma olhada ao redor para encontrar uma boa história. Dois amigos papeando na livraria podem ser personagens do roteiro para um próximo filme. “Acho que tanto aquele que conta uma história no cinema quanto o que conta uma história na literatura estão sempre observando. A gente fica de butuca ligada na outra mesa. Estou sempre buscando poesia”, conta a cineasta que, em 2010, teve o curta-metragem Braxília, sobre o poeta Nicolas Behr, exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Beatriz também gosta de ficar de olho no que acontece à volta. No entanto, a adolescente busca em outras fontes o recurso para a criação. “Sempre que minha mãe me contava histórias, criava uma imagem de como seriam os personagens. Na hora de desenhar, era fácil: só colocava no papel. Sempre fui dessas de ficar imaginando”, revela Bia, que, aos três anos, foi co-autora de A menina que pescava estrelas, com sua mãe, a escritora Alessandra Roscoe.

Entre um assunto e outro, Danyella e Bia dividiram experiências e falaram sobre o gosto pela leitura. Até que, sem querer, Bia encontrou um de seus livros, O jardim encantado, em uma das prateleiras. Esse, Bia ilustrou aos sete anos. Hoje, ela se envergonha do estilo da época. “Era muito criança ainda”, justifica. Mesmo assim, a jovem ilustradora reconhece a ousadia e a coragem que teve, incentivada pela mãe, para pintar o sete no mercado editorial. Na contracapa, fez uma dedicatória a Danyella: "Para Danyella, todo o encanto deste jardim! Beijos, Bia Roscoe".

A cineasta já prometeu: assim que receber uma cópia de Braxília, vai presentear Bia e, quem sabe, contar um ou outro segredo da sétima arte. Antes de despedirem, Danyella deixa escapar: também gostaria, um dia, de lançar um livro infantil. “Se chama Nunu e a fada-canção e foi inspirado na minha amiga, a artista plástica Luciana Paiva. Nas artes, ela lida com objetos do dia a dia. Pode ser um botão, uma embalagem de chocolate amassada, um alfinete. Nunu lança um olhar lúdico para os objetos e faz arte de todas as pequenezas encontradas por aí com a ajuda de uma fada-canção.” Bia aconselha a nova amiga a se jogar nessa nova história. “Nada é impossível. Basta sonhar.”

Mãos milagrosas
Iano Andrade/CB/D.A Press
A ceramista brasiliense Andréia Porto, 27 anos, abre um largo sorriso ao colocar as mãos na massa. Quer dizer, na argila. Ela mal percebe que os olhos automaticamente se fecham ao expressar alegria. Deve ser para que a criatividade possa correr solta, no escuro, sem direção, pela oficina onde trabalha. Formada em artes plásticas, a jovem foi apresentada à cerâmica por uma professora da faculdade. Tomou gosto pela textura da argila e logo começou a criar pequenas esculturas. Até que uma forma em especial seduziu a artista: gordinhas em poses para lá de sensuais. A primeira delas, Andréia criou há cinco anos. Desde então, assim que as obras saem do forno, a ceramista batiza cada uma com nomes de mulher.

Pedro Vasco, 37 anos, também usa as mãos para expressar outro tipo de arte. Após graduação, mestrado e doutorado nas áreas de química e bioquímica, o português percebeu que não pertencia a laboratórios e salas de aula. Em 2006, na cidade do Porto, ele começou a fazer os primeiros cursos de massoterapia. Radicado em Brasília há pouco mais de um ano, Pedro dedica-se à massagem com fins terapêuticos e pode dizer, sem cerimônia, que ao “moldar” o corpo das pessoas que passam pelo Spa & Cia. tira-lhes os nódulos de tensão para proporcionar relaxamento e bem-estar.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Como foi o encontro

Numa terça-feira despretensiosa, massoterapeuta e ceramista trocaram figurinhas sobre o talento que para ambos se revelou na palma da mão:

— Pedro, vamos começar a fazer uma peça sentada, que é mais fácil. Quer um avental?
— Olha… Aviso que não tenho jeito para desenho, artes…Nada.
— Depois disso aqui, você vai ver como é simples. Vai conseguir fazer sozinho em casa… Quando percebeu que poderia usar as mãos como ferramenta de trabalho?
— Minha formação é química e bioquímica. Dava aulas na faculdade em Portugal, mas todos os dias havia uma pausa e fazíamos massagem uns nos outros. Sempre tive vontade de fazer cursos na área. Depois, quando conheci minha mulher (ela já trabalhava nessa área há mais ou menos cinco anos) e comecei a fazer cursos com ela. Minha formação nessa área começou em 2006.
— Nossa…(risos)! Eu também comecei a fazer esse trabalho com argila em 2006.
— Que coincidência! No meu caso, tinha terminado meu doutorado em química, mas depois comecei a gostar tanto dos cursos de massagem que larguei a faculdade. Você deve ser boa para fazer massagem porque é preciso força para moldar essa argila...
— Meus amigos dizem que tenho a mão pesada (risos). Bem, vou te ensinar a fazer uma gordinha, mas depois você descobre seu estilo. O meu, surgiu naturalmente. Desde a infância, sempre fui gordinha. Alguns dizem que essa inspiração vem do inconsciente do artista. Só sei que não foi premeditado. Foi instintivo mesmo. Algumas pessoas até me perguntam se faço uma referência a Botero (artista plástico colombiano), mas não. Fui conhecer o trabalho do artista depois… Pedro, cuidado para não deformar a peça. Conduza as mãos levemente.
— Isso não é fácil (risos). A única vez que mexi com argila foi quando criança. Mas isso aqui é muito bom.
— Fico o dia inteiro aqui trabalhando. Já teve peça que comecei de madrugada e terminei só no outro dia. Começo uma e, até aquela primeira secar, começo outra…Tá vendo, Pedro: é fácil. Você também sente que o tempo voa quando você faz uma massagem?
— Sinto. É quase a sensação que tenho ao meditar, como se estivesse em transe. É muito bom. Também dou muitos cursos. No caso da massagem, vejo o contrário do que está acontecendo comigo agora. Ao fazer uma escultura, no começo achamos tudo difícil, mas, de fato, não é. E no curso de massagem, as pessoas acham que é fácil demais e quando começam a fazer percebem que não… Andréia, você escuta música ou fica em silêncio enquanto está produzindo?
— Gosto de ouvir música instrumental, música calma.
— Eu também. Sempre música calma durante a massagem. O que leva mais tempo para moldar?
— O rosto. Tem peças para as quais já fiz muitas caras. No final, a última me vence por cansaço (risos).
— Na massagem a parte que toma mais tempo são as costas, por ser uma zona de tensão. Mas também o pescoço e cabeça tomam tempo e devem ser bem trabalhadas na massagem.
— Pedro, acho que faço o mesmo que você ao massagear. Será? No final, são artes diferentes, mas com a mesma ferramenta.
— Acho que sim. Aprendi com você a moldar uma escultura. Agora, te ensino a “moldar” o corpo para aliviar as tensões. Combinado?
— Combinado. Mas acho que vou sair em vantagem (risos).

Biscoito regado com poesia
Iano Andrade/CB/D.A Press
O cheiro de doce de banana perfuma o teatro quando a poeta maranhense Lilia Diniz, 39 anos, encena o espetáculo Cora dentro de mim. No palco, a atriz reproduz pensamentos da poeta goiana: “Fiz doces durante 14 anos da minha vida. Foi um tempo muito fértil. Fiz amigos, criei histórias. Verdades, mentiras. Fui melhor doceira que poeta”, declama. Graças ao doces, Cora Coralina conseguiu publicar alguns livros e desse jeito, meio doceira, meio poeta, Lilia também faz sucesso com a peça.

A intimidade com o tacho e os versos se deu na infância. A curiosidade — e necessidade — a conduziram para dentro da cozinha. Lá aprendeu a dar sabor à comida com azeite de coco de babaçu. A poesia, essa se encarregou de pegar-lhe pela mão quando criança. Era Lilia quem escrevia as cartas que a mãe ditava de um jeito e a menina escrevia de outro, rebuscando-lhe o pensamento. Profissionalmente, Lilia se dedicou ao ofício de poeta em 1994. De lá pra cá, publicou três livros e aguarda o lançamento do próximo, previsto para janeiro.

Para Lilia, poesia tem gosto, textura, cheiro, sabor. Mas numa terça-feira chuvosa, depois de conhecer a doceira suíça Trudy Mathias, 76 anos — radicada no Brasil desde os cinco meses de idade —, Lilia não tem dúvidas: há mais semelhanças que diferenças entre o fazer verso e o fazer biscoito. Trudy concorda. É preciso inspiração, ritual, paciência e amor. As receitas que a doceira reproduz há 60 anos estão bem guardadas na memória e num amarelado caderno. Já foram repassadas a filhos e netos. São eles, os mais novos, que ajudam a avó a confeitar os biscoitos de canela, café, chocolate, entre outras variedades. Ficam de olho, observam e esperam um descuido da vovó para comer o quitute.

Na fornada, tem estrela, coração, árvore de natal, ovelha… A maioria das fôrmas tem um século de vida e não cede a vez às mais novas. “Ainda vou usá-las, mas por enquanto, as mais antigas são as melhores”, aposta Trudy. “E poesia? Também tem gosto de biscoito?”, pergunta Lilia. A doceira logo faz que sim com a cabeça. “Gosto muito de Pablo Neruda”, conta Trudy.
Enquanto a doceira ensina a poeta a confeitar o biscoito com um glacê feito de açúcar e suco de limão, as duas conversam como se já fossem comadres. Dessa vez, o assunto é amor. “Já sou casada há 53 anos”, conta Trudy, que fez biscoitos para o então namorado e hoje marido, fã das guloseimas e delícias que ela prepara na cozinha. Lilia já foi casada quatro vezes — e sempre presenteou com poesia os amores que passaram pelo caminho. No entanto, os pais da poeta são os que mais ganham versos embrulhados em folha de buriti.

A prosa se estende pela tarde. Durante o cafezinho, Lilia e Trudy decidem trocar presentes. Para selar uma amizade que acaba de começar: uma caixa de biscoitos e um livro embalado em caixa de doce. Cada uma, a seu modo, não deixa tradições as familiares esmorecerem. Juntas, prometem fidelidade a versos e biscoitos. Ah, e à amizade…

Mailänderli — receita para 40 biscoitos
Massa
125g de manteiga ou margarina (temperatura ambiente)
125 g de açúcar ou açúcar de confeiteiro
1 ovo
1 gema
1 pitada de sal
1 limão
260 g de farinha
3/4 de uma colher de chá de fermento em pó

Cobertura
2 gemas
1 colher de sopa de leite
1 ponta de faca de açúcar

Modo de fazer
Bater a manteiga até ficar mole e lisa; colocar o açúcar, ovo e a gema aos poucos. Acrescentar sal, raspas da casca de limão, farinha e o fermento. Amassar a mistura até ela se transformar em uma massa homogênea. Cobrir a massa e deixá-la na geladeira por uma hora. Depois, abrir a massa para que tenha a espessura de 5mm. Dispor sobre ela diversas formas (estrela, coração ou qualquer outra da sua preferência). Antes de ir ao forno, colocar a cobertura no biscoito: misturar as gemas com leite e açúcar, pincelar a parte de cima do biscoito e levar ao forno a 200°C, após ser pré-aquecido por 12 minutos.

Biscoito de poesia

Por Lilia Diniz

Um bloco ou caderno sempre por perto
Um grama de inspiração
Meia dúzia de metáfora
Uma xícara de alegria ou dor
Duas colheres de palavras ritmadas
Uma pitada da luz da lua
Duas gotas de sol
Cinco pedidos feitos a estrelas cadentes
Raspinha de duas lágrimas (alegres ou não)
Oito notas musicais (afinadas ou não)
Dica: enquanto prepara os ingredientes tenha à vista o Livro das perguntas, do poeta Pablo Neruda.
Pegue o bloco ou o caderno de noite ou de dia
Solte toda a inspiração em cada pedacinho do papel
Triture a metáfora em imagens inusitadas
Pegue as duas colheres de palavras ritmadas e as notas musicais e dissolva com as raspinhas das duas lágrimas em banho-maria
Coloque as duas gotas de sol para aquecer a mistura junto com os cinco pedidos
À noite pegue os ingredientes e finalize com aquela pitada da luz da lua
Convide os amigos para um recital na sala, no quintal ou no barzinho e sirva os biscoitos acompanhados de um gole de Carlos Drummond, um petisco de Nicholas Berh e várias rodadas dos poetas que você mais gosta.
Rendimento: milhares de porções
Validade: a vida inteira
Tipo de prato: à sua escolha (serve a qualquer hora)
Calorias: 100% de alegria total
Categoria: curativo da alma
Dificuldade no preparo: começar

Agradecimentos à Livraria Cultura (Casa Park) e à Casa das Artes (102 Norte)
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