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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

(Re)conhecendo Brasília

O estilo de vida 100% brasiliense ainda não foi mapeado pelos guias turísticos convencionais. Mas a simples consciência de que a cidade tem características peculiares ajuda a renovar nosso olhar


postado em 16/03/2014 08:00 / atualizado em 14/03/2014 20:25

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
Faça uma experiência. Abra a ferramenta de pesquisas Google, na área reservada a imagens. Digite Brasília. Pronto? O resultado da pesquisa é alarmante: Brasília não passa da Catedral, da Esplanada dos Ministérios e da Ponte JK. Segundo uma pesquisa da Secretaria de Turismo, 5,3% dos visitantes que chegam à capital não têm sequer uma imagem turística ou referência da cidade. A grande maioria dos que escolhem Brasília como destino conhece só aquilo que a televisão mostra, o centro do poder. O Congresso, os ministérios. Imaginam a cidade fria, seca e sem esquinas, onde as pessoas não andam na rua e onde moram todos os políticos corruptos. Mas quem vive aqui sabe que a capital tem mais a oferecer, tanto aos turistas quanto aos moradores.

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
Brasília é um museu a céu aberto, uma cidade planejada com ideais modernistas e com maravilhas da arquitetura concebidas por Oscar Niemeyer. Quando menos se espera, salta aos olhos um painel de Athos Bulcão ou um jardim assinado por Burle Marx. Os prédios com pilotis permitem a circulação dos pedestres e fazem parte da infância de quem foi criado no Plano Piloto. Com vocação esportiva, o brasiliense ocupa os parques e o lago a qualquer hora do dia. E o céu é um espetáculo à parte.

"Brasília é muito conhecida no exterior pela imponência da arquitetura. Não é só monumentos, existe um conceito, um ideal modernista. Existe um porquê nas superquadras, um plano educacional revolucionário foi pensado para a capital. Brasília é muito mais que Niemeyer — o urbanismo é uma obra de arte", conta a turismóloga Tatiana Petra. Muito da cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade não é conhecido nem por quem viveu a vida toda na capital.

"As pessoas não sabem o que é Brasília. A cidade é uma coisa datada no tempo. Fazendo uma comparação, é como Ouro Preto, que é uma cidade barroca, do século 18, com todos os ideais da época. Brasília é uma cidade modernista, da década de 1950, com tudo o que se achava importante em 1950. Brasília é uma cidade-exemplo", afirma o historiador Ricardo "Gás" Cima. Ele garimpa e vende postais dos tempos da construção, assim como revistas que tentavam convencer os cariocas a trocar o Rio pelo cerrado. Em uma delas, lê-se que as noites na capital eram "alegremente pacíficas". Existia também antipropaganda, é claro. Um dos cartões, por exemplo, afirma que Brasília é um "porre" — esses, que falam mal da cidade, são mais caros.

"Já vi até convite para a inauguração de Brasília e tenho uma história em quadrinhos que conta a construção da cidade, datada de 1959. É uma coisa que eu apostei, e tem gente que está colecionando essa história. Faz muito sentido porque esse material é do início da cidade e deve ser preservado — é como se fosse o Rio de Janeiro no tempo de Tomé de Souza", conta. E essa cidade, para Ricardo, é tão emblemática que, fatalmente, vai ser transformada em centro histórico. As regiões fora do Plano Piloto já começam a se diferenciar em estilo — o Sudoeste e o Noroeste, por exemplo, estão próximos do centro, mas não compartilham do projeto inicial. "Acredito que nem a Asa Norte entre, mas as quadras iniciais da Asa Sul, como a 308, a 108, a 307 e a 107, eventualmente, vão se diferenciar tanto que a tendência é se tornarem um centro histórico", acredita.

Mesmo com toda a importância, os princípios nos quais a cidade foi fundada são feridos a cada dia por síndicos que proíbem as crianças de brincarem debaixo dos blocos, por moradores que votam por reformas que transformam os prédios originais e por associações que são contra a revitalização das quadras de esporte. Sinal que algo vai errado no saber-viver candango.


(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)



Olhar estrangeiro
A publicitária Cláudia Costa, brasiliense, só foi perceber o potencial da capital ao receber dois amigos espanhóis. "Fiz o roteiro clássico de Catedral e Esplanada, mas tirei um dia para mostrar a nossa rotina, os lugares que eu frequento mesmo. Levei os dois à Água Mineral e ao Eixão, nas superquadras. Eles adoraram! Acharam superdiferente, que era como viver em uma maquete. Afirmaram que é uma cidade cheia de segredos escondidos. E nada disso estava na internet", conta. Cláudia explica que nunca teria achado Brasília tão interessante se não tivesse sido alertada pelos colegas estrangeiros. Foi aí que resolveu criar um blog, o Welcome to Brasília, que começou como uma tese de conclusão de curso e hoje recebe visitas de pessoas de todo o mundo que querem descobrir a cidade além dos pontos turísticos. "Brasília é mais do que concreto. Tem tudo, e coisas que nem quem mora aqui conhece. Comecei a perguntar pros meus amigos sugestões de lugares interessantes e descobri alguns que eu nunca tinha ouvido falar. A gente, que sempre morou aqui, acaba se acomodando, deixando pra outra hora", afirma.

E se quem mora não dá importância, imagine se o turismo vai prestar atenção. É aí que a pesquisa do Google faz sentido. "A arte está integrada à arquitetura e as duas estão no cotidiano da cidade. Nós queríamos apresentar a capital para os turistas, explicar o que é essa percepção de uma cidade modernista, com um cotidiano muito diferente e vivo. Mas não fazia sentido mostrar para o visitante o que o próprio morador desconhecia", explica a turismóloga Patrícia Herzog. Por isso, ela e Tatiana Petra, da Tríade Patrimônio, desenvolveram um programa que apresenta os azulejos de Athos Bulcão para os alunos de escolas. Os pais logo ficaram sabendo e, no boca a boca, as duas foram sendo solicitadas para mostrar essa cidade "adormecida" para grupos de moradores e visitantes. E assim nasceu o Experimente Brasília, que propõe pequenas experiências do estilo de vida brasiliense.

Para quem acha que esse estilo de vida é raso, já que a capital reúne gente de todo o país e é notadamente uma cidade onde as pessoas se organizam em grupos, está enganado. O lifestyle brasiliense é bem claro. "Essa vivência de quem cresceu nas superquadras, brincando debaixo do bloco, é transformadora nas nossas vidas, no nosso olhar, nas nossas relações", afirma Patrícia. E, apesar de ser uma cidade sem praia, o lago faz as vezes de mar, o parque mostra que o brasiliense gosta mesmo de estar ao ar livre, praticando esportes, e os pilotis, tão famosos, só são entendidos por quem é daqui. "Eu gosto de levar os turistas para se sentar debaixo de um bloco, e eles não conseguem entender que é um espaço público, ficam perguntando se pode mesmo estar ali, levantam se uma pessoa passa. Não ficam nem um pouco confortáveis", conta Tatiana.

Por que tudo está fechado?
Brasília não tem muitos pontos turísticos clássicos. E, entre os poucos, a maioria está fechada. A Torre de TV Digital, inaugurada em 2012, está passando por obras de instalação técnica, impermeabilização e ajustes na estrutura. Por isso, as visitas do mais novo cartão-postal de Brasília seguem suspensas e sem prazo de abertura para o público. A Torre de TV também está interditada e as visitas ao mirante, suspensas. A torre passa pela primeira grande reforma em seus 47 anos e a previsão de abertura é no aniversário da cidade, em 21 de abril. Já os elevadores, que também estão em obras, só voltam a funcionar em maio. O Espaço Lucio Costa, que fica na Praça dos Três Poderes e é conhecido pela maquete da cidade, também passa por reformas para acessibilidade e restauração — só abrirá as portas em junho. O Espaço Oscar Niemeyer está fechado e o processo licitatório para a reforma segue em curso, ou seja, não há previsão de retorno. A Concha Acústica também está em obras até maio e o Museu de Arte de Brasília (MAB) foi interditado pelo Ministério Público e aguarda licitação para ser reformado. Puro descaso com os visitantes. Se não fosse a Copa do Mundo, será que os monumentos seriam reformados? E como ficam aqueles que chegam à cidade agora?

Leia a reportagem completa na edição nº 461 da Revista do Correio.

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