ENTREVISTA //ELIANE BRUM

Era uma vez uma menina que virou palavra

Em Meus desacontecimentos, a jornalista e escritora Eliane Brum revisita a infância e encontra ali a matéria-prima do que é feita: a escrita

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postado em 27/04/2014 08:00 / atualizado em 25/04/2014 16:05

Cristine Gentil

Que palavra poderia definir você, leitor? Seria ela composta, abstrata, adjetivo, plural? Poderia ser uma frase curtinha ou um período com um tanto de orações, cheios de sujeitos, predicados, verbos? Definir-se, investigar-se, escrever sobre si próprio não é fácil. Não foi para Eliane Brum. E olha que a jornalista, documentarista e escritora tem um histórico recheado de prêmios — mais de 40 nacionais e internacionais, não mais importantes do que os textos e os livros que a fizeram merecedora.

Depois de penetrar profundamente no mundo de tantas pessoas em seus trabalhos jornalísticos e enveredar pela ficção com um romance (Uma Duas), ela volta o olhar a si própria, mais precisamente para a menina que foi um dia — e que muito provavelmente é. Mesmo assim, ela encontra o outro. Mãe, pai, tias, avó, empregada são deliciosamente descritos no recém-lançado Meus desacontecimentos. Todos eles contribuíram para o que Eliane se tornaria: “um corpo de letras”. Ao voltar a infância para investigar como a escrita tornou-se parte indissociável de seu corpo, de sua vida e de sua história, a autora nos premia com uma prosa que é pura poesia.

A convite da Revista do Correio, Eliane comenta algumas passagens do livro. E vai além: “Nesses 25 anos de reportagem me aprimorei especialmente em escutar silêncios, expressões e entrelinhas. Mas o que busco, a grande pergunta que move a minha escuta, é compreender como cada um inventa uma vida”.

- Os trechos em itálico foram extraídos do livro Meus desacontecimentos

Lilo Clareto/Divulgação

“Hoje, ao lançar meus anzóis no lago nebuloso do passado, em busca de um mapa cujo único destino sou eu, percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta. Desde pequena, eu tenho muita raiva — e quase nenhuma resignação. A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.”

É perceptível que a escrita é, para você, um caso de vida ou morte — de uma coisa e outra, na verdade. Depois dessa descoberta, em algum momento não conseguiu escrever? Já teve um bloqueio?
Sim. Esse livro é, em parte, uma busca por retomar os sentidos da palavra escrita, depois de ter tido um bloqueio. Em 2011, logo depois de enviar meu romance, Uma Duas, para a editora, eu fui fazer uma reportagem na Bolívia, em um projeto dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) na área da doença de Chagas. Eu estava arrebentada pela escrita do romance e parti para uma exterioridade muito brutal. Estive em aldeias onde 70% das pessoas tinham Chagas, o barbeiro era um inseto-conceito onipresente e tudo isso só acontecia porque eram pobres demais para que a indústria farmacêutica se interessasse por eles. Morriam porque eram os invisíveis entre os invisíveis. Ao mesmo tempo, eram pessoas muito doces, falantes de uma língua muito delicada, que é o quéchua. Em meio à brutalidade daquela realidade, tinham um estar no mundo poético, que me capturou para sempre. Ao final da viagem, fui me despedir da família cuja história contei. Tinha me conectado muito fortemente com a filha mais nova, Sonia, de 11 anos, que também tinha Chagas. Ao me despedir, ela me agarrou pelos dois braços e disse: “Não me deixe morrer”. Eu já tinha estado em realidades ainda mais brutais, em situações-limite ainda mais acentuadas, mas esta foi a primeira vez que alguém fez este pedido para mim, diretamente para mim. Era de pessoa para pessoa, porque a morte era concreta, não uma discussão filosófica. Uma criança com medo de morrer por uma doença negligenciada é algo que faz a gente ter vergonha do mundo em que vivemos, vergonha de nós mesmos. Percebi ali que, contar a história de Sonia não seria suficiente para salvar a vida dela. Voltei para o Brasil e, pela primeira vez, paralisei. Não conseguia escrever uma linha.

Por quê?
Sempre acreditei profundamente — e continuo acreditando — na narrativa como instrumento de transformação da vida e, em especial, das realidades injustas. Mas, naquele momento, duvidei. Se escrever não a salvaria, de que adiantava escrever? Tive de fazer um profundo movimento interno para compreender que, se escrever era pouco, também era muito. Era o possível. E o possível é suficiente e insuficiente ao mesmo tempo. Caminhar sobre esse fio da navalha é, afinal, a delicadeza da vida. Depois de duas semanas de paralisia (e 7kg perdidos), nas quais nenhuma letra saiu de mim, voltei a escrever. A história de Sonia e sua família é um capítulo do livro Dignidade!, que marca os 40 anos dos MSF. Mas, a partir deste momento, passei a sentir uma necessidade profunda de buscar os sentidos da palavra escrita na minha vida. Buscar também para poder perdê-los, já que a vida é essa constante reinvenção dos sentidos. Eu já tinha escrito uma parte de Meus desacontecimentos, na qual contava o papel das pessoas anônimas na minha história. Mas, desde o meu grande confronto com a impotência, passei a ficar obcecada por entender como a palavra escrita me salvou. Mas, ao mesmo tempo que me salvou, no passado, e me salva, no presente, também me lança constantemente no vazio, me obrigando a viver uma vida viva. Me salva e também me “dessalva”, porque nada nos salva de fato. Meus desacontecimentos é o percurso dessa busca.

Que momento de uma reportagem (ou artigo ou livro) é alegria e que momento é sofrimento?
Acho que é sempre uma mistura dos dois. Sempre que escrevo, alterno epifanias e abismos. Sou um tipo dramático (riso).

“Eu sempre fui uma criança que olhava e olhava e olhava. A melhor forma de me descrever nessa primeira infância era com dois olhos castanhos observando o mundo de um canto. Acho que até hoje só mudei de tamanho.”

No livro, você voltou os olhos a si própria. É mais difícil escrever sobre a própria vida do que sobre a vida dos outros?
Acho que não. Eu tenho tanta empatia pelas pessoas cujas histórias eu conto, porque para contá-las tive de habitá-las por algum tempo, que sempre me sinto muito tomada. A diferença maior, me parece, está sendo na hora de publicar. Tem sido bem complicado, muito mais do que eu esperava que fosse. Me sinto tão nua que, em alguns momentos, não sei como sair de casa. Tipo: Se tirei a minha roupa, se até mesmo arranquei a minha pele, como me apresento ao mundo?

Você diz “Me percorri”. Esse caminho tem volta? Visitará outros momentos de sua vida?
Não sei. Tenho um projeto, mas é sobre a vida de um outro. E ainda é um projeto. Escrevo por absoluta necessidade. Por enquanto estou encerrando essa escrita dos Meus desacontecimentos, lançando o livro. A gente bota o livro no mundo e nunca sabe que caminhos o livro vai seguir, como será lido, em que se transformará. Depois, vem o vazio. É preciso viver o vazio. É dele que nasce o que precisa nascer, mas está lá no fundo do fundo.

“Dizem que meu pai quebrou um vaso do hospital ao saber do meu nascimento. Meu pai, tão sério, tão contido, quebrou. Eu era o vaso quebrado? Quinze anos depois, quando eu mesma me abri para parir uma menina loira de olhos azuis, me senti um vaso quebrado.”

Lilo Clareto/Divulgação

Gravidez na adolescência é uma experiência (quase) indescritível. Pensa em escrever sobre esse momento da sua vida? Por que “um vaso quebrado”?
Às vezes eu escrevo sobre a experiência da gravidez e do parto, como numa coluna chamada O Bebê Alien, que está no meu livro A menina quebrada. Essa experiência, a de ganhar um corpo de mãe antes de ter um corpo de mulher, também atravessa alguns capítulos de Meus desacontecimentos, mas de forma sutil. Há muito dela na minha ficção, tanto no romance como em contos, de formas enviesadas. Acho que ela sempre estará, de alguma forma, naquilo que escrevo, porque é uma parte muito forte do que me constitui, ainda que eu vá dando outros sentidos para as minhas memórias. Por que um vaso quebrado? Porque tenho uma literalidade muito forte, quase assustadora. Só quem me conhece intimamente alcança o quanto eu misturo o corpo de letras com o corpo de carne. Quando fiz sexo e engravidei, me senti um vaso quebrado. Era uma sensação literal. A imagem estava na minha. Achava estranho que, quando me olhava no espelho, via lá uma adolescente de cabelos pela cintura — e não um vaso rompido. Levei muitos anos para perder essa autoimagem e essa sensação de ser em cacos. Um dia percebi que continuava sendo em cacos, mas esses cacos formavam um vitral. O que faz toda a diferença. Hoje, sou um vitral que está sempre mudando, mas sou um vitral.

“Com este livro, um corpo morreu, é preciso encontrar a forma de outro. Um percurso que, em mim, se faz com palavra e carne.”

Que forma (ou que palavra) tem ‘esse novo corpo’, depois do ponto final deste livro?
Ainda não sei. Esse livro está tendo um parto difícil. Andava me batendo pela casa, literalmente, porque não estava sabendo muito bem quais eram os contornos do meu corpo. Faz algumas semanas que parei. Mas ainda está muito confuso pra mim quem serei depois desse livro. Eu tinha uma expectativa de alcançar maior liberdade depois desse percurso tão fundo pelas minhas memórias de infância. Achei que teria uma possibilidade maior de reinvenção de mim mesma — e também da minha escrita. Mas a liberdade é um desejo — e é da natureza do desejo nos escapar. Ainda está tudo muito nebuloso. Talvez eu tenha uma resposta melhor daqui a alguns meses.

“Ela (a avó) era cheia de contos e eu tinha ouvidos gulosos. Desde pequena, sou capaz de permanecer horas só escutando, sem a necessidade de falar de mim mesma.”

Qual é o maior aprendizado dessa escuta atenta?
É pela escuta que alcançamos o mundo que é o outro. E eu sou fascinada pela vida dos outros. O que escuto também ilumina partes escuras de mim mesma. Embora eu escreva sobre vários assuntos, e quando escrevo sobre algum assunto estudo muito para me autorizar a abordá-lo, acho que o que eu entendo mesmo é de gente. Pode ser uma pretensão absurda dizer isso, mas acho que a escuta de gente me ensinou a conhecer gente. Nesses 25 anos de reportagem me aprimorei especialmente em escutar silêncios, expressões e entrelinhas. Mas o que busco, a grande pergunta que move a minha escuta, é compreender como cada um inventa uma vida. Com tão pouco, tão nu! Acho essa capacidade humana, a de fazer da própria vida uma ficção, de uma beleza tão pungente, que quando falo nisso me dá vontade de chorar.

“Enquanto escrevo, minha avó me observa sem nada dizer. Instalei minha escrivaninha-xerife bem ao lado de sua máquina de costura. Mantenho as linhas, as agulhas e os dedais intactos, na impecável organização que ela deixou ao morrer. Invento para mim mesma que ela se orgulha de mim. E confidencio, malvada: ‘Vó, tirei o acento do nome dele no livro que estou escrevendo. Homem como ele não merece chapéu’.”

“Minha avó descendia de uma família que falava com os mortos. Não como algo assustador ou sobrenatural, não havia fronteiras entre o mundo de cá e o de lá. Nem grandes revelações. Eram fantasmas bem domésticos.”

Lilo Clareto/Divulgação

Você descreve sua avó de uma forma adorável. O que ela ainda conta e como “seus ouvidos gulosos” a escutam hoje?
Ah, minha avó é uma pessoa muito especial pra mim. Então, dei um jeito de ela continuar viva. Trato ela como se viva fosse. Ela vive na minha escrita, vive dentro de mim, vive ao meu redor, pela casa. Agora mesmo, ao responder sua pergunta, enchi os olhos de lágrimas aqui. Eles ainda boiam enquanto te escrevo. Porque ela teve uma vida muito bruta, como eu conto no livro. Uma vida sem palavras. E o que ela mais valorizava era a escrita, as histórias, os livros. Ela morreu antes de saber que eu viraria uma escritora. Ela morreu antes de poder ler minhas histórias. E eu queria tanto que ela tivesse sabido que eu escreveria. Então, invento que ela sabe. Sigo a tradição dos fantasmas da família, da minha maneira. Agora mesmo minha vó me olha com aquele olhar de ternura infinita que ela tinha quando me espiava. Mas ela não me conta mais histórias, agora sou eu que as conto pra ela. Hoje minha vó é uma presença. Minha casa é impregnada dela, dos seus móveis, do seus objetos, mas transformados pela minha ânsia de que a vida dela tivesse continuado, mas continuado com palavras, com desejo. Então ela dá a volta ao mundo, vive aventuras, através de mim. Transformei ela em ausência, como naquele poema do Drummond. Não falta, mas ausência. Uma ausência presente. Assim, nós duas dançamos pela casa, pelo mundo.

A morte em vida é constante na narrativa, em várias passagens do livro, e uma vivência no seu trabalho. Até que ponto há vida na morte e morte na vida?
Acho que vivemos várias vidas numa só. Ou pelo menos temos essa possibilidade. Desde que tenhamos a coragem de constantemente recriar nossos sentidos. Se os sentidos de uma vida permanecerem imutáveis, estáticos, acredito que vivemos uma vida morta. Mas, se conseguirmos perceber o que já deixou de fazer sentido e conseguirmos deixar essas partes mortas para trás, se tivermos a ousadia de aguentar ficar no vazio por um tempo, porque ser é perder-se, se enfrentarmos essa tarefa árdua que é reinventar a vida, arriscando-se ao novo e conscientes de que não há garantias, acho que essa é uma vida viva. A vida é justamente esse movimento em que aquele que é se move duvidando do que é. Assim, acho que morremos várias vezes para renascer de outras maneiras. Não acredito em outras vidas após a morte física, concreta. Acho que vivemos várias vidas nesta vida. E essa é uma possibilidade fascinante. É essa certeza, a única que temos, de que vamos morrer um dia que nos dá a perspectiva de que precisamos viver cada dia com intensidade, fazer de cada dia uma aventura nesse mundo. Não digo intensidade e aventura como algo grandioso, como ter de atravessar o Saara ou subir a parede sul do Aconcágua todo dia, mas me refiro a não perder de vista o encantamento, a delicadeza que é um dia humano. Ser capaz de olhar para o mundo, para os outros e para nós mesmos com a percepção do mistério que é tudo isso. E não adiar, porque só temos o hoje para tentar viver a melhor vida que podemos. A morte, tanto como a figura sempre presente na minha infância, como conto no livro, e a morte como algo que investiguei como repórter, por anos, me deu essa consciência. A de estar presente no dia, a de perceber a grandeza das pequenas coisas, a de me esforçar para ser o melhor que posso ser para quem está perto de mim e me transformar em letras com o máximo de verdade possível na minha escrita, que é minha expressão no mundo. A consciência da morte me ajuda a ter uma vida viva.

“Eu era rodeada de mulheres bondosas demais, e tristes, muito tristes. No mundo onde eu nasci ser mulher era suportar a vida. O fardo, a cruz, dia após dia. Essas eram as santas, as putas não me foram apresentadas.”


No mundo em que vive hoje, as mulheres são felizes? Os fardos não são mais tão pesados?
Não sei se é uma questão de felicidade. Hoje a felicidade virou um produto de consumo, e nesse formato ela não me interessa. Acho que os desafios de criar uma vida são sempre grandes. E são maiores para uma mulher. Parte desse desafio, hoje, é não se deixar encaixotar numa narrativa padrão sobre o que é ser uma mulher, que vai desde a quantidade de sexo por semana até a forma de se vestir. Não se deixar encaixotar num padrão do que é ter sucesso na vida. Não deixar que os outros definam como a gente vai viver. Dá muito mais trabalho, porque tudo isso tem de ser construído cotidianamente. A liberdade demanda enorme esforço, porque nos obriga a questionar nossas escolhas o tempo todo, assim como a assumir nossas perdas e equívocos, porque não há mais ninguém para culpar, já que nos responsabilizamos totalmente por nós mesmos. Dá muito trabalho não se deixar conduzir por dogmas, assumir o protagonismo da própria vida, habitar-se. Não é um caminho fácil, porque tudo está em aberto. Mas acho que vale a pena. E acho que esse caminho é hoje uma possibilidade para um número muito maior de mulheres. Na época da minha avó e também da minha mãe e das minhas tias os limites eram muito mais cimentados e os espaços, mais apertados. Um casamento era para sempre, uma mulher casar e não ter filhos era inaceitável, trabalhar fora e se expressar fora de casa era uma conquista para poucas, o sexo era extremamente reprimido. Acho que avançamos, sim, mas insistimos em criar padrões que nos prendem e confinam. É preciso se perguntar de onde vem o fardo que supostamente carregamos. Será que ele é mesmo nosso? Será que não somos nós que o inventamos ou que pelo menos o aceitamos? Acho que viver para descobrir como se quer viver é, sim, uma possibilidade. E é também um ato de resistência. Mas tem um custo, que muitas mulheres e também homens não querem pagar. Nesse caminho, sabe-se que não há garantias. De fato, em nenhum caminho há garantias. Mas, no caminho em que se busca a liberdade de ser e de se inventar, não há mais a possibilidade de ilusão de garantia e também de segurança. Acho que muitos reclamam do que os aprisiona, mas, de fato, não querem se arriscar porque acreditam não conseguir viver sem a ilusão do controle sobre a vida.

Uma vez, num artigo sobre uma discussão sobre prostituição na França, você disse que a prostituição é um debate que precisa ser enfrentado no Brasil. Continuamos no mesmo patamar?

Divulgação
Continuamos. E a França, por exemplo, só regride. Acho impressionante como as pessoas têm dificuldade, ainda hoje, de respeitar a escolha de uma mulher por ser prostituta. Aí vão me dizer que muitas não tiveram escolha. É verdade. Se formos por aí, podemos fazer uma pesquisa em todas as profissões para ver quem de fato acha que teve total escolha sobre o que faz. Mas isso é bem diferente de trabalho escravo. No caso das trabalhadoras domésticas, por exemplo, ninguém nunca se preocupou se limpar, passar, cozinhar e cuidar dos filhos dos outros era a sua escolha de vida. É muita hipocrisia, quase má fé. E há também as mulheres que escolheram, as que gostam, as que se realizam na prostituição. Estas incomodam muito mais essa sociedade ainda tão reprimida. (Como assim, uma mulher é tão dona do seu corpo que inclusive vende uma relação sexual?) Enquanto permanece esse embate, extremamente perverso, as prostitutas ficam na marginalidade, sem direito a ter condições melhores e mais seguras de trabalho, sujeitas à violência, desprotegidas. A quem isso serve? A questão de fundo ainda é o controle sobre o corpo das mulheres. E especialmente sobre a sexualidade. Basta ver o quanto a “vagina”, mesmo como imagem e como palavra, ainda é censurada, como aconteceu tempos atrás, na transmissão de uma palestra na Academia Brasileira de Letras e também no título do livro de Naomi Wolf, na livraria virtual da Apple. Escrevo bastante sobre isso na minha coluna. Toda essa questão do parto e mesmo do número absurdo de cesarianas no Brasil é uma questão do controle e intervenção no corpo da mulher. O parto normal é tão marginalizado no sistema de saúde brasileiro por vários motivos, mas também porque passa, literalmente, por uma vagina. Enfim, cada um desses temas têm seu histórico e suas particularidades, mas é atravessado pela questão do controle sobre os corpos pelo Estado.

“As cartas de amor da minha avó provam que não há reparação para a palavra escrita. Essa foi uma lição definitiva para a neta que um dia se tornaria repórter e contaria histórias de gente. Eu sempre soube que, se errasse — e algumas vezes errei —, não haveria maneira de reparar.”

Qual o pior erro que alguém (repórter, editor…) pode cometer no exercício do jornalismo, em especial quando contamos histórias de pessoas?
Acho que o maior erro, ou o erro de base, é não escutar. Quando me refiro a escutar, não me refiro a algo simples. Escutar qualquer um escuta. Mas escutar, de fato, é uma escolha profunda. Uma escolha de vida, mesmo. Essa escuta a que me refiro, mesmo surdos, no sentido da não audição, são capazes de fazer. Pessoalmente, não acredito que seja possível fazer uma reportagem sem fazer a escolha da escuta. Escutar é empreender o movimento arriscado de se esvaziar de si, de suas visões de mundo, de seus preconceitos, de seus julgamentos, para ir o mais vazio possível em direção ao mundo do outro, ao mundo que é o outro. E depois fazer esse caminho de volta preenchido por uma outra experiência de estar no mundo. Escutar é se desabitar por um momento para ser habitado pelo outro. É isso que eu chamo de escuta e acho que essa escuta é o principal instrumento de trabalho do repórter. Nosso primeiro ato, na reportagem, é interno. Antes de encarar as ruas concretas do mundo de fora, onde vivem as pessoas e as histórias, cada uma delas um mundo singular, precisamos fazer esse gesto de atravessar a rua de nós mesmos. Se a reportagem não começa assim, acho que não a alcançamos. Podemos geograficamente atravessar o mundo, viajar até o Sudão do Sul, por exemplo, mas voltaremos de lá contando sobre o que já sabíamos, contando sobre teses prévias, contando sobre nossa ideia prévia sobre aquele país, sobre nós mesmos. Vamos até bem longe sem sair do lugar. Porque não fizemos o movimento essencial da escuta, que exige muito, mas muito mesmo, de nós.

“Sou uma moradora de rua com casas temporárias carregando pela vida uma bagagem da qual não consigo nem quero me livrar”

Podemos descrevê-la de certa forma como uma andarilha que fixou residência na transitoriedade das histórias? Nesse caso, que bagagem é fundamental levar de um lugar a outro, de uma história a outra?
Que linda essa descrição. Fico honrada com ela. Acho que, sim, eu vivo nesse movimento, sou um ser em trânsito. A bagagem sou eu mesma. E às vezes ela é pesada. Nesse livro, busquei reconstituir um corpo de sentidos para deixá-lo para trás, num movimento constante pela busca da liberdade de ser. Espero sempre que a bagagem que sou eu mesma fique menos pesada. Como sou muito literal, perdi sete quilos nos últimos meses de escrita. Essa é uma curiosidade. Sempre que perco peso por conta de alguma experiência transtornante da escrita, perco sete quilos de uma vez. Aconteceu quando voltei da Bolívia, e aconteceu agora de novo. Parece que volto a um certo peso corporal. Neste livro também perdi cinco teclas do meu teclado – três vogais e duas consoantes. Por ordem: e, a, o, s, t. Eu ia escrevendo, e elas iam se suicidando (risos). O pessoal da assistência técnica da Apple achou muito divertido. Por fim, quando descobri que, por um erro de finalização editorial haviam sido suprimidas cerca de duas linhas do meu livro, o que levou a uma reimpressão imediata, perdi um dente. Sempre que escrevo, perco alguns pedaços literais pelo caminho. Como você vê, estou mais leve. (risos)

Além da escrita, o que é capaz de fixá-la no mundo, de fornecer equilíbrio e serenidade? Espiritualidade, meditação, amigos, família?
A coisa que mais me fixa no corpo (e portanto no mundo) é o sexo. Acho que sexo é o que me deixa mais presente em mim mesma. E o amor, que me fixa no outro de outra maneira. Preciso muito tocar as pessoas, quando abraço alguém, abraço mesmo. Estou sempre acariciando as pessoas que amo, seja marido, filha, amigos. Meus lançamentos de livros duram horas porque eu toco em todo mundo. Mas todo dia eu preciso sair de mim por algum tempo, para me centrar de novo, porque a realidade é um pouco excessiva pra mim. Todo dia eu preciso ler literatura, entrar no mundo de um outro, um mundo que ecoa em mim, mas é de um outro. E, ultimamente, ando viciada em seriados. Totalmente viciada. Posso falar horas sobre seriados. É um outro jeito de sair da realidade, entrando na realidade pela ficção. Vejo pelo menos um episódio por dia de algum seriado pelo qual estou obcecada no momento. Então, livros, seriados e cinema fazem parte do meu cotidiano. Se eu não tiver esse espaço diário, tenho dificuldade de me centrar. Também faço muitas coisas com o corpo. Pilates e dança, principalmente. Sem essas encarnações cotidianas minha cabeça escapa e é difícil trazê-la de volta.

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