CASA

O (criativo) lar dos dinamarqueses

Minimalista, elegante e muitíssimo funcional. Os designers do pequeno país nórdico exportam suas ideias para o mundo

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postado em 11/01/2015 08:00 / atualizado em 11/01/2015 16:52

Juliana Contaifer

Wonderful Copehagen/Divulgação

Por volta dos anos 1950/1960, assistiu-se um entusiasmo inédito pela cadeira como objeto de design na Dinamarca. "Graças aos grandes mestres, como Arne Jacobsen, Hans Wegner e outros, o design dinamarquês se tornou sinônimo de linhas arrojadas, de alta funcionalidade e novas formas de pensar. Foi um design inovador frente ao seu tempo — e ainda é assim", explica o embaixador Kim Højlund Christensen. Segundo ele, o design está presente no dia a dia do dinamarquês, que convive com as peças clássicas em casa, no trabalho e nos espaços de lazer — a Embaixada da Dinamarca em Brasília, inclusive, é cheia de exemplos.

Christensen conta que, como o inverno no país é longo e rigoroso, os dinamarqueses costumam permanecer dentro de casa — por conta disso, o design de interiores é priorizado. E não só o mobiliário é inovador. Torneiras, panelas, enfeites, roupas e até uma caixa de primeiros socorros estão entre os itens expostos na mostra Design dinamarquês — Mestres e ícones, que ocorre no Museu da República até 4 de janeiro. "É uma imagem do cultivo de ideias simples da habitação, do cotidiano moderno e da qualidade superior dos produtos em todos os aspectos da vida — das menores ferramentas domésticas até brinquedos de crianças e espaços públicos", conta o embaixador. Por conta desse amor pelo design, a área tem papel muito forte no crescimento da indústria local, e influencia diretamente a economia e a qualidade de vida dos cidadãos.

"O consumo de peças de design, de políticas na área ou da contratação do profissional de design para o desenvolvimento político-social-econômico e cultural do país está muito ligado também ao patriotismo local. Esse pertencimento que respiramos quando moramos nos países escandinavos se traduz em um design de qualidade, que traz um bem viver para as pessoas dentro de suas casas, de seus escritórios, de suas vidas em comunidade. Eles compram peças de design que traduzam a ideologia do país", afirma a designer e professora da Universidade de Brasília (UnB) Andrea Judice, que morou na Finlândia, país vizinho à Dinamarca que também compartilha o interesse pelo design. Ela conta que a relação com o móvel é bastante próxima nos países escandinavos. Não basta comprar — quando os nórdicos usam um bem, eles sentem e experimentam a história por trás do objeto.

Andrea conta que o professor de design Ilpo Koskinen, que dá aulas em uma universidade da Finlândia, afirma que nos países escandinavos, após a Segunda Guerra Mundial, um grupo relativamente pequeno de empresas passou a dominar o mercado, e estes contrataram projetistas-designers para desenvolver produtos que fossem "fáceis" de produzir, com materiais e técnicas locais. "Isso criou uma forte tradição de design nesses países. Um design que respeita e traduz o local em termos socioeconômicos e culturais", explica a professora.


Uma nova onda
Contrariando um pouco a característica funcional da escola dinamarquesa de design, os novos profissionais começam a explorar os lados mais artísticos do desenho de mobiliário. A cadeira Orchid, de Christian Flindt, por exemplo, segue uma tendência mais pop, optando por uma estética diferenciada e pelo choque do espectador em detrimento da funcionalidade. A Veryground Chair, de Louise Campbell, foi feita especialmente para a exposição. Segundo a designer, o desenho, que parece uma renda, foi feito em homenagem ao prazer encontrado nas repetições. O charme da cadeira seria os 240 fios meticulosamente organizados.


Destaque internacional
Alguns itens do design dinamarquês clássico estão presentes no dia a dia do brasileiro. A cadeira Egg, de Arne Jacobsen, foi criada nos anos 1950 exclusivamente para um hotel na Dinamarca e hoje suas linhas orgânicas podem ser encontradas facilmente ao redor do mundo. O mesmo ocorre com a Panton, criada em 1967 pelo designer Verner Panton. Disponível em várias cores, a inovação ficou por conta do desenho que não tem separações — a cadeira é uma peça única.

As peças são tão importantes que se tornaram artigos de exportação e de inspiração para designers de todo o mundo. "Atualmente, há grande foco internacional nos produtos culturais, valores e ideais de design de interiores da Dinamarca, e, nesse contexto, o design dinamarquês tem enorme potencial. Na interação entre cultura e negócios, o design inovador e o desenvolvimento contínuo das competências são condições cruciais para a posição da Dinamarca como país do design", explica o embaixador.

Ao sentar-se na cadeira Kevi (1965), de Jorgen Rasmussen, por exemplo, a pessoa logo assume uma postura sóbria, que reflete a moral no ambiente de trabalho, e as rodinhas inovadoras garantem o movimento sem arranhar o chão. O design é tão bem pensado que a cadeira já teve várias releituras, e o pé giratório hoje é quase obrigatório em cadeiras de escritório. Por ser inovador, os modernos desenhos serviram de inspiração até para designers brasileiros. Cadeiras como a FJ49, de Finn Juhl, por exemplo, lembram muito os trabalhos de Sérgio Rodrigues, considerado o pai do mobiliário brasileiro.

10 pontos focais no design dinamarquês
- Encontro com o novo que veio de fora. Moderação no diálogo com o estrangeiro.
- Construir pontes. Preservar a continuidade do desenvolvimento.
- Habitabilidade. Criação de uma atmosfera nórdica.
- Ferramenta estética. Simplicidade e detalhes.
- Artesanato (artístico) como fonte de inovação para o design industrial.
- Valor simbólico e associativo.
- Perfil empático e social. Foco no usuário.
- Postura antiautoritária. Ascensão para todos.
- Imperativo orgânico. Sustentabilidade.
- O novo temperamento. Design dinamarquês no contexto global.

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