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O monge no topo da montanha

Há 100 anos nascia Thomas Merton, pensador cristão cuja mensagem pacifista continua inspiradora

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postado em 01/03/2015 08:00 / atualizado em 28/02/2015 20:20

Gustavo Falleiros

Reprodução da internet

"No centro comercial da cidade, fui subitamente tomado pela consciência de que eu amava todas aquelas pessoas, que eram minhas e eu era delas, que não poderíamos ser estranhos uns aos outros, embora fôssemos totalmente desconhecidos (...) Ah, se todo mundo pudesse dar-se conta disto! Mas isso não pode ser explicado. Não há como dizer às pessoas que todas elas andam pelo mundo brilhando como o sol!"*

 

O encontro de Thomas Merton com a compaixão se deu assim, em um dia banal de 1958, ao dobrar a ruidosa esquina da Fourth Street com a Walnut, na cidade de Louisville, Kentucky (EUA). Àquela altura, já era um autor cristão de renome, sempre lembrado por A montanha de sete patamares, a autobiografia de sabor literário e dolorosamente sincera publicada 10 anos antes. A popularidade era ainda mais surpreendente em se tratando de um monge trapista, recolhido na Abadia de Gethsemani desde 1941.

Na aparência prosaico, o episódio da Fourth Street teve implicações importantes — e não só para seu protagonista. "Podemos tomar essa experiência como mística, pois fica patente que Merton penetrou num mistério que se desdobrou e frutificou, numa aproximação de Deus jamais imaginada por ele mesmo. A experiência foi além e conduziu muitas outras pessoas — até hoje e em diversos países — a penetrarem em semelhante mistério", aponta Fernando Paiser, coordenador executivo da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton (SAFTM).

Coincidência ou não, nos meses que se seguiram à epifania, Merton mudou sensivelmente o teor de seus escritos. Ele agora era um advogado da paz mundial, com críticas severas ao intervencionismo norte-americano e à sociedade de consumo. O ativismo lhe rendeu o apelido de "monge beatnik", reprimendas de seus superiores e o entusiasmo de toda uma geração, que o via como "lastro moral" dos Estados Unidos, sobretudo quando as baixas na Guerra do Vietnã vieram à tona.

Essa inclinação pelos oprimidos ajuda a entender por que o padre Louis (nome de sacerdócio de Merton) foi considerado um pioneiro da teologia da libertação, ainda que o movimento seja posterior à sua morte. Resta pouca dúvida, porém, sobre a contribuição do trapista para o diálogo Ocidente-Oriente. Ele cultivou a amizade de diversos líderes religiosos, como o dalai-lama, e dedicou livros ao zen e ao budismo. Por triste ironia, perdeu a vida em Bangcoc, na Tailândia, quando finalmente obteve permissão para deixar o claustro e viajar. Foi vítima de um choque elétrico em 10 de dezembro de 1968.

*Reflexões de um espectador culpado. Editora Vozes, 1970, p. 181.


ENTREVISTA//FERNANDO PAISER, coordenador executivo da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton (SAFTM).

Manoela Paiser/divulgação

Sendo Merton um comentador tão agudo de sua época (Vietnã, Gandhi, URSS), não ficou datado? O que é perene em seu pensamento? Por que ler Merton? Por onde começar?

Thomas Merton escrevia tanto sobre assuntos eternos, como a contemplação e a espiritualidade monástica (entre outros) como sobre assuntos de sua atualidade. Ele foi um arauto dos direitos dos mais fracos antes mesmo de Igreja se posicional "oficialmente" em sua opção preferencial pelos pobres. Mesmo lendo sobre problemas de sua época como a guerra do Vietnã, o comunismo e o risco de uma hecatombe nuclear, podemos entrever seu pensamento sobre problemas fundamentais da existência humana, como o amor ao próximo e a Deus (ou a falta dele), a fé em suas mais diversas manifestações e a esperança... Para que quiser se aprofundar em Thomas Merton, uma sugestão é sua autobiografia A montanha dos sete patamares. Livro que o projetou internacionalmente e foi tido como as Confissões do século 20.

O senhor poderia comentar a relação entre Merton e a espiritualidade oriental, sobretudo o zen e o budismo?
Se Merton não tivesse morrido acidentalmente em Bangcoc, muito mais teríamos sobre a espiritualidade do Oriente. Thomas Merton como um ativista da paz, foi um grande incentivador do diálogo inter-religioso e da tolerância. É muito propalada sua amizade com o Dalai Lama, mas Merton foi muito amigo também de Thich Nhat Hanh, o monge budista vietnamita, ainda vivo, com quem travou em grande dialogo pela paz em plena guerra do Vietnã. É digna de nota a hipocrisia humana, tanto de alguns cristãos católicos quanto de alguns budistas que declararam, na ocasião de uma visita de monge budista à Thoma Merton em Ghetsemani que estavam confraternizando com o inimigo. (a observação veio de ambos os lados). Devido a isso e a seu posicionamento contra a guerra do Vietnã (tanto de Merton quanto de Hanh) ambos fora perseguidos e vigiados. Merton teve suas correspondências monitoradas e escritos censurados e Hanh foi impedido de entrar no Vietnã. Até hoje vive na França. A relação de Merton com a espiritualidade oriental se explica, entre outras coisas, pela sua ânsia em encontrar Deus e a Verdade em todos os aspectos do sagrado. Quer ocidentais, que orientais. Para Merton, todo ser humano é capaz de Deus, onde quer que esteja e como quer que Ele seja concebido, não importando seu padrão cultural ou de crença. Daí sua capacidade de compreender e aceitar as diferentes manifestações da adoração ao eterno e infinito. 

Onde vemos o legado de Merton hoje? Ele é inspirador para leigos e religiosos? Deixou continuadores?
Thomas Merton continuam a influenciar gerações e é leitura obrigatória para que quer se aprofundar na mística cristã moderna, tanto para leigos como para religiosos e prelados. Evidentemente sua influência se faz notar com maior profundidade entre os cristão de vida consagrada, especialmente de vida monacal. Seu legado vai além de escritos, pinturas, desenhos e fotografias. Seu verdadeiro legado é espiritual e até nosso dias conduz as pessoas ao caminho da verdade e da vida. Hoje, todo o acervo deixado por Merton e cuidadosamente preservado pelo Thomas Merton Center na Bellarmine University, no Kentucky, EUA, onde há também a ITMS - International Thomas Merton Society. Entidade que trabalha para divulgar o pensamento mertoniano através de diversas atividades como palestras, mostras, work shops, etc. Em outros países como o Canadá, Irlanda, Inglaterra, etc. também encontramo entidades semelhandes. No Brasil, já há 18 anos temos a SAFTM - Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton que se dedica a divulgar o pensamento do monge trapista. Dentro da SAFTM tempos duas entidades muito importantes: GLPTM-SP e GLPTM-RJ (Grupo de Leitura Partilhada de Thomas Merton). São grupos presenciais que se reúnem mensalmente para  partilhar e vivenciar os textos e pensamentos de Thomas Merton sempre a partir de um de seus livros. Atualmente existem no Brasil dois grupos, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro.

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