Brasileirinhos acima do peso

Bullying, diabetes, hipertensão, baixa autoestima. Essa é a realidade de muitas crianças que sofrem as consequências da obesidade

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postado em 15/03/2015 08:00 / atualizado em 12/03/2015 17:32

Carolina Samorano

Durante muito tempo, os números na balança foram um tipo de preocupação exclusiva dos adultos. Diabetes, problemas cardiovasculares, hipertensão, além de brigas com a aparência e transtornos de humor nunca fizeram parte do rol de doenças que comumente acometem crianças e adolescentes. Foi-se o tempo. Hoje, os jovens estão no centro do debate sobre o excesso de peso. As crianças começam, finalmente, a sentir as consequências da facilidade dos alimentos industrializados e da tecnologia que, na visão de especialistas, faz dos infinitos canais de televisão e dos jogos nos tablets e nos computadores opções muito mais atraentes do que brincadeiras na rua e nas quadras de esportes. Como resultado, crianças antes consideradas apenas fofinhas estão indo parar cada vez mais cedo nos consultórios de nutricionistas e endocrinologistas. Em muitos casos, com quadro de doenças associadas ao excesso de peso, como gordura no fígado e diabetes.

Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, que têm nos cardápios de fast food o centro da cultura alimentar, os altos índices de sobrepeso entre os pequenos são uma antiga realidade. Por aqui, somente nas últimas décadas os dados começaram a causar alarde entre médicos e especialistas. Nos países em desenvolvimento, superado o problema da desnutrição em crianças, o sobrepeso é o desafio da vez. Segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o excesso de peso triplicou tanto em meninos quanto em meninas de 5 e 9 anos entre 1974 e 2009. Entre 1974 e 1975, apenas 10,9% dos garotos tinham excesso de peso e 2,9% eram obesos. Entre as garotas, esses índices eram de 9,8% e 1,8%, respectivamente. Em 2009, no entanto, 34,8% deles tinham sobrepeso e 16,6% eram obesos. Entre elas, 32% tinham excesso de peso e 11,8% eram obesas, 10 vezes mais do que nas últimas décadas.

Entre adolescentes, os números são igualmente preocupantes: se em 1974 apenas 0,4% dos meninos eram obesos, em 2009, a taxa atingiu 5,9%. Para as meninas, a estatística saltou de 0,7% para 4% em 35 anos. Ao que parece, os números acompanham uma tendência global de "engordamento" dos países em desenvolvimento, que passaram a ter mais acesso aos hábitos pouco saudáveis dos primos ricos. De acordo com um estudo divulgado no início do ano passado por um instituto britânico, o número de adultos acima do peso ideal ou obesos em países como China, Índia, Brasil e Indonésia quadruplicou desde 1980, o que pressupõe, ainda segundo o documento, um "enorme aumento" de casos de ataques cardíacos, derrames e diabetes em um futuro não muito distante.

Histórico familiar

A obesidade infantil é assunto de repercussão global, mas, no Brasil, é Brasília a cidade que lidera o ranking do problema. Segundo um levantamento de 2012 feito pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde, uma em cada três crianças de 5 a 10 anos está acima do peso na capital, índice próximo ao do Rio Grande do Sul. Rebeca Coutinho, 8 anos, engrossa essa estatística, mas, desde os 5, luta para deixá-la. "Ela sempre foi grandona. Nasceu parecendo um bebê de dois meses. As pessoas sempre deram mais idade para ela", conta a mãe, a dona de casa Francisca Coutinho, 45.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press


Francisca é diabética e também briga com peso. No ano passado, ela frequentou um grupo de controle de obesidade no Centro de Saúde do Recanto das Emas. O programa, implementado em algumas unidades no DF, dura um ano e inclui acompanhamento com nutricionistas e médicos, programa de reeducação alimentar e incentivo à atividade física. "Perdi, mas ganhei tudo de novo. Foi um ano complicado para mim e nem sempre eu podia comparecer às reuniões. Quero fazer de novo", conta.

Com o histórico familiar e os picos de pressão que a pequena apresenta mesmo tão novinha, o pediatra que acompanha Rebeca no Centro de Saúde logo ligou o alerta. Aos 5 anos, a menina foi encaminhada para acompanhamento com nutricionista. O especialista estabeleceu regras um pouco mais rígidas para a dieta de Rebeca. "Ela é criança, então, eu tento não ser radical. Antes, tinha mania de trazer salgadinho e biscoitos recheados do supermercado. Hoje, compro coisas saudáveis, faço suco de fruta em casa e substituí as bolachas pelas integrais. Pirulito e chocolate, de vez em quando, eu libero. Não dá para cortar tudo", conta a mãe. A garota confessa não ser muito fã dos biscoitos integrais, mas tem se esforçado para não entrar na adolescência com sobrepeso — até porque o assunto foi motivo de chateação na escola no ano passado. "Uma colega da sala dela me disse que uma menina a xingava no intervalo, a provocava perguntando o que uma baleia estava fazendo fora da água", lembra Francisca.

 

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