ESPIRITUALIDADE

Depois da passagem

Demoramos a assimilar a perda de um ente querido. Nessas horas, a fé costuma desempenhar um papel importante

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postado em 28/06/2015 08:00 / atualizado em 26/06/2015 13:11

"Quando a tempestade demora a passar / A vida até parece fora do lugar / Não perca a fé...", conclama um samba, famoso na voz de Diogo Nogueira. A canção é um alento a quem atravessa o difícil momento do luto. Apesar de ser a única certeza que temos, é sempre duro absorver a morte dos entes queridos. Nessas horas, muitos buscam forças na religião, seja lá qual for. "As religiões fazem mais que dar uma palavra de consolação, elas interpretam, ou seja, dão significado a algo inexplicável", pondera o professor Eurico Antônio Gonzalez, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília.

Não existe, é claro, garantia de que a dor se dissipará. A sensação de absurdo resiste a explicações racionais. "A ciência só aponta fatos causais, coisas vistas. É uma limitação dela. Já a religião liga os dois lados: o que a gente vê com o que não vê", complementa o sociólogo. A Revista ouviu pessoas de vários credos e se deparou com diferentes modos de lidar com o fenômeno da morte.

 

 

Tempo de reflexão

O budismo é conhecido por difundir a positividade. Nessa doutrina, tudo tem uma explicação e uma lição a ser aprendida. Portanto, a experiência da morte é um momento de rever conceitos esquecidos em vida. Há 17 anos dirigente do Templo Budista Shin Terra Pura, na Asa Sul, o monge Sato (foto) explica que todas as pessoas fazem algo bom, que justifica a sua existência. Por isso, todos podem "despertar", ou seja, tornar-se um buda. "Essa é uma diferença das religiões monoteístas: nelas, você não pode se tornar algo sagrado", compara o monge. Aos olhos dos budistas, a morte também tem outro significado. Nessa etapa, o sujeito rompe mais um elo do ciclo de reencarnações e salta de nível, a depender do karma acumulado, o que é motivo de alegria. Esse sentido ameniza a tristeza de amigos e parentes.

A gestora pública Sarah Gomes, 34 anos, e sua família são praticantes da linha Nichiren Daishonin. Ela perdeu o pai, vítima de um câncer, em 2009. A cerimônia foi de acordo com os preceitos da crença. No oratório de Gohonzon, objeto de devoção dessa vertente, estava presente um sacerdote que deu início às orações. Em seguida, houve o momento do shoko: o oferecimento de incenso em memória da pessoa falecida. O ritual foi marcado pela serenidade e, segundo Sarah, trouxe alento e consolo aos presentes. "Havia pessoas de outras religiões, mas é engraçado como a energia do ambiente foi transmitida até para quem não segue nossos preceitos", constata.

O monge vincula a tranquilidade nos funerais à disposição budista em aceitar a morte como parte da vida. O sofrimento é inerente à existência, no entanto, é convertido em reflexão. "Existem os ofícios do sétimo dia e da semana. Depois, há os do primeiro, do terceiro e do sétimo ano. Os primeiros sete dias são os mais importantes para que a família e os amigos se despreguem da saudade." A proposta não é rejeitar a memória do falecido(a), mas se acostumar com a sua ausência. A cerimônia, depois de sete dias, acontece para lembrar verdades fundamentais. "A primeira coisa a ser relembrada é a impermanência. Tudo passará — as coisas, as pessoas, os fenômenos —, e as ações devem ser feitas enquanto ainda estamos aqui. A segunda rememoração tem a ver com a interdependência: na dor da separação, você percebe que não teria se desenvolvido sem a ajuda do outro. A morte nos dá a visão de que existe muita coisa a ser feita", aponta. A partir da celebração de primeiro ano de óbito, são distribuídos comes e bebes pela família. É um costume de reconhecimento pela presença das pessoas que se reuniram para meditar sobre as lições propiciadas naquela ocasião.

Sarah conta que seu pai é lembrado pela família e amigos diariamente, ao recitarem, pela manhã e a noite, o Gongyo e Daimoku. "Essas preces são oferecidas à felicidade dos que já se foram, pois entendemos a morte como uma continuidade da vida e não um fim", explica. Sato ressalta que o surgimento de consciência simboliza a projeção de luz na vida das pessoas por meio dos novos e antigos budas. A isso, devemos agradecer.

Tudo em vida se rende à morte

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Acostumado a organizar os cultos de falecimento no Centro Espírita Ilê Egungú Ejibarabagi, Cristiano Gomes da Silva (foto), 37 anos, teve que realizar também a celebração fúnebre do próprio pai. Vindo de uma família que segue os preceitos do candomblé, o professor de lutas marciais não conteve a emoção. Era alguém próximo demais que estava sendo entregue a Itunlá (lugar para onde o espírito vai renascer na vida eterna).

Apesar de haver uma festividade, é um momento sério. O ritual é interpretado como o desligamento do aiê (terra) para o orum (céu), e todas as pessoas vivas devem contribuir na passagem. O velório e o enterro precedem os três dias de ritual, onde é oferecido comida ao orixá guardião daquele ser e entoam-se cantigas em orumbá (dialeto africano), com a intenção de esclarecer e evoluir o espírito que se foi. O costume, denominado de axexê, ocorre uma única vez se o falecido for filho(a) de santo. Se for um pai ou mãe de santo, será realizado durante sete dias seguidos e, depois, repetido no primeiro, no terceiro, no sétimo, no 14º e no 21º ano para que todas as obrigações do finado com a casa espírita sejam feitas.

Durante o período de luto, o templo suspende as atividades. A duração pode ser de três meses, para um filho (a) de santo, ou de um ano, para um pai ou mãe de santo. A pausa é uma orientação dos orixás, e diz respeito à crença de que o espírito do falecido continua na instituição por um tempo, enquanto não completa seu caminho evolutivo.

Inserido nesse contexto, Cristiano afirma que sua dor só não foi maior porque, até o momento de o caixão ser baixado, ele sentia a presença protetora do seu orixá. "Quando o enterro foi completado, eu tive um momento só meu em que desabei no choro", rememora. "Na hora do carrego, quando entregamos a pessoa para o outro lado da vida, senti uma fraqueza, mas agora sou muito feliz por saber que meu pai ainda está presente do outro lado, ele não se acabou". Hoje em dia, Cristiano e sua família são mais unidos. Continuam servindo os seus orixás para que, na passagem de um mundo para o outro, sejam recebidos por eles. "É uma preparação para o encontro com a ancestralidade", conclui.

Divisor de consciência

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

 

A vida de Rosemary Guido (foto), 59 anos, estava nos trilhos no ano de 2006. Seguia até um pouco maçante. Sua rotina era cuidar da família, ajudar voluntariamente no Centro Espírita e trabalhar no Banco do Brasil. Em um sábado de manhã, a tranquilidade foi interrompida por um telefonema. Do outro lado da linha era a sua mãe, avisando que o irmão tinha sido assassinado.

No Rio de Janeiro, cidade natal de Rose e sua família, Luiz Augusto Pereira, 45 anos, administrava uma lanchonete com a esposa, Rosane Montalvão, 41 anos. Ao encerrar o expediente, numa sexta-feira, Luiz, a mulher e uma funcionária foram surpreendidos por três assaltantes. As vítimas foram rendidas e baleadas. O irmão e a cunhada morreram na hora. Ao ouvir a notícia, Rose achou que estava sonhando.

Foi às pressas para a capital carioca. Sozinha. Ela sentia como se estivesse sendo guiada para fazer suas obrigações de primogênita. A primeira parada foi a mais difícil: devia liberar o corpo no Instituto Médico Legal (IML). Não conhecia ninguém, por isso ficou admirada quando uma senhora se aproximou para perguntar se precisava de algo. Rose contou a história. A anônima se apresentou como agente funerária e falou que iria ajudar. "Ela resolveu tudo. Era como se estivessem me levando pela mão", lembra.

Apesar da dolorosa circunstância, ela e os pais, já idosos, estavam tranquilos no dia do sepultamento. Havia choro, mas não sentimento de revolta. "No dia do velório, as pessoas chegavam perto da gente e falavam coisas do tipo ‘a justiça vai ser feita’, tentando oferecer consolo, mas não era isso que eu sentia dentro de mim", conta. Rose chegou a rogar que a mãe fosse compreensiva com os responsáveis pela tragédia, porque, afinal, eles poderiam não ter uma base de amor e religião. "Nesse momento, a doutrina espírita foi fundamental para alentar o meu sofrimento", reconhece.

Marta Antunes, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), relata que, no meio espírita, é recomendado o desapego ao longo da vida. "É um processo de preparação do kardecista para o momento da separação carnal. A maior preocupação percebida nas comunicações mediúnicas é a adaptação do espírito à nova realidade", exemplifica. Essa percepção é preparada com muita leitura e palestras. Não há formalismos no momento da morte, e o desespero não é bem-vindo. "A oração, de qualquer origem, é poderosa. Geralmente, os familiares procuram intuitivamente a casa espírita ou algum lugar religioso para rezar. Isso ajudará o morto em seu caminho espiritual", esclarece.

Ao ser procurada por um jornal sensacionalista, Rose não quis dar entrevistas. "Não ia adiantar tornar o caso público. O luto tem que ser vivido por você até o fim, compartilhar a dor com o outro não irá diminuir a que estou sentindo". Seus pais foram procurados pelo delegado para mostrar os criminosos capturados. O convite foi recusado. A opção de se distanciar de sentimentos ruins foi uma maneira de não arranjar outros problemas e encarar a adversidade de forma menos egoísta. Para o espiritismo, a ausência do corpo físico é comparado à falta que uma pessoa faz quando se muda para outro país. A comunicação, porém, é mantida por meios diferenciados.

"A morte do meu irmão foi um divisor de águas na minha vida porque descobri que dor nenhuma mata; que nunca estamos sozinhos e temos que aproveitar a companhia de quem amamos porque não sabemos quando eles partirão. Além disso, pude vivenciar todo o aprendizado da doutrina espírita. Adquiri mais confiança", conclui.

A verdadeira Páscoa

 

 

Nascidos em berço cristão, os irmãos Luiz Fernando, 34 anos, e Luiz Gustavo de Souza Moreira, 30, passaram, em 2001, por uma situação desestruturante: perderam a mãe. A matriarca era, para os dois, um modelo a ser seguido. "Como ela foi percussora de muita coisa no movimento católico de Brasília, sempre a acompanhávamos nos seus trabalhos", explica Luiz Fernando, que é fonoaudiólogo.

Laísa Aparecida de Souza Moreira tinha 44 anos quando faleceu. A operação bariátrica tinha sido um sucesso. Porém, uma semana depois, surgiu uma inflamação, que rapidamente evoluiu para uma infecção generalizada. Não resistiu.

A notícia atingiu os filhos como um golpe. "Fui pego de surpresa. Foi como um blecaute", compara o caçula, Luiz Gustavo, professor de educação física. Entretanto, no dia do velório, Luiz Fernando conta que sentiu uma força enorme dentro de si. "Um consolo de Deus, pois estava consciente do acontecimento, mas estava em paz por saber que ela alcançou seu objetivo de vida. Por isso, a tristeza não me abateu". Com esse discernimento, o primogênito conseguiu a lucidez necessária para receber os amigos que chegavam em bando. Consolou o irmão, que não participou o tempo todo da homenagem.

Segundo Luiz Fernando, o ambiente tornou-se alegre, com música, pessoas orando e cantando. O clima de celebração acompanhou todo o sepultamento, até o cemitério. A aparente tranquilidade com que o momento foi conduzido causou estranhamento por parte de alguns parentes. "Houve comentários do tipo: ‘Nossa, nem parece que a mãe deles está morta’. Não rebati e não me abalou. Sabia que aquela atitude era reflexo do que estudei na minha crença", pondera Luiz Fernando.

O padre Paulo de Matos, dirigente do grupo católico Caminho Neocatecumenal, define a morte como a passagem para o pai celeste, ou seja, a verdadeira Páscoa. "Esse pensamento muda radicalmente a atitude em um velório, pois, apesar da dor, cremos que a pessoa ressuscitará", interpreta. Ele reconhece a diversidade de comportamentos perante a perda. "Cada paróquia se manifesta segundo seu carisma. Alguns preferirão momentos de silêncio a cantos e orações."

Os irmãos Moreira continuam firmes — a saudade da mãe é constante, mas a fé venceu a escuridão.

Dor, bênção e milagre juntos

 

Arquivo pessoal
 

 

"O crente tem a consciência de que é um pecador. Demonstra a sua sabedoria colocando em prática os ensinamentos de Deus. Dessa forma, cria uma relação direta e não abstrata com Jesus. Podemos sentir uma energia, uma força, mas é importante que nos coloquemos à disposição desse Deus, para entendermos sua história de amor", prega o pastor Rodrigo Luiz de Lourenço, da Igreja Evangélica Bola de Neve.

 

Foi com esse ensinamento em mente que Viviane Valadão, 35 anos, atravessou o momento mais tempestuoso de sua vida. Mãe de Nicole, hoje com 7 anos, a servidora pública planejou com o marido, o professor Robson de Sena, 41, ter o segundo filho. Não tardou a engravidar. Desta vez, de gêmeos. Porém, durante uma viagem, Viviane começou a sentir fortes dores no peito. No hospital, recebeu o diagnóstico: síndrome de Hellp, decorrência da pré-eclampsia ou hipertensão na gravidez. As consequências são graves, com risco de morte para a gestante.

Não havia UTI no lugar. Os bebês nasceriam extremamente prematuros, com apenas 29 semanas. "Em todos os momentos, colocávamos a situação na mão de Deus. Confiávamos muito, mesmo sofrendo. Tinha certeza que tudo iria dar certo", recorda Viviane. A gestante conseguir retornar em uma ambulância. Já internada, fizeram o parto imediatamente. As crianças nasceram com vida, porém permaneceram entubadas. "Tive alta, mas a nossa rotina era a UTI. Orávamos muito por eles e cantávamos", conta. Os médicos jamais esconderam a gravidade da situação.

Durante a madrugada, receberam a notícia de que haviam perdido um dos bebês. A primeira reação, além do pranto, foi a de orar. "Perdi o chão. O meu refúgio foi na oração, em pedir para que fosse feito o melhor", recorda. Pela primeira e última vez, Viviane segurou a pequenina nos braços. "Era muita informação para absorver." Não há rituais na igreja evangélica: o sepultamento foi feito de forma simples, com a presença de um pastor e dos familiares. Na visão evangélica, o consolo é uma dádiva do Espírito Santo.

Uma semana depois, o outro bebê ficou em estado muito grave. "Nesse momento, senti muita insegurança. Não entendia o propósito de Deus", desabafa. "No hospital, fiz a oração mais difícil da minha vida: entreguei o Guilherme (o filho) nas mãos de Jesus." É aí que a história tomou novo rumo. Após 59 dias de angústia, o pequeno recebeu alta. Hoje, é uma criança absolutamente saudável. "Considero-me uma pessoa curada de alma. Deus fez a obra completa, porque salvou eu e o meu filho."

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