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Gordura no cérebro é tudo de bom

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postado em 15/07/2015 13:00 / atualizado em 15/07/2015 11:43

* Por Ricardo Teixeira

AFP PHOTO / MIGUEL MEDINA



A teoria da evolução defende a tese que nós humanos chegamos até aqui com o cérebro que temos pelo menos em parte graças ao nosso padrão de alimentação. Há uma série de evidências paleontológicas que nos aponta que existe uma relação direta entre acesso ao alimento e tamanho do cérebro, e que mesmo pequenas diferenças nesse acesso podem influenciar a chance de sobrevivência e o sucesso reprodutivo. Entre os hominídeos, pesquisas mostram que o tamanho do cérebro está associado a diversos fatores que em última instância refletem o sucesso em se alimentar como é o caso da capacidade de preparar alimentos, estratégias para poupança de energia, postura bípede e habilidade em correr.  

O consumo de ácidos graxos da família Ômega 3 é a mais estudada interação entre alimento e a evolução das espécies. O ácido docosahexanóico (DHA) pode ser considerado o ácido graxo mais importante para o cérebro, já que é o mais abundante nas membranas das células cerebrais e são considerados essenciais por não serem produzidos pelo organismo humano, que precisa obtê-los por meio de dieta. 



Este ano a prestigiada revista Neuron publicou os resultados de uma pesquisa bem interessante que mostrou que somos o que somos graças à abundância de gordura em nossos cérebros. Esse conteúdo de gordura é de importância gigantesca, pois é a principal matéria-prima das membranas celulares e são essas membranas que permitem a sinalização elétrica entre os neurônios.

Pesquisadores do Instituto Max Planck na Alemanha avaliaram o conteúdo de mais de cinco mil tipos de moléculas de gordura no cérebro de humanos, chimpanzés e roedores. Eles demonstraram que o cérebro dos humanos tem uma variedade de lipídios muito maior que o dos outros animais. Na história da evolução, homens e chimpanzés se originaram de um ancestral comum em uma época semelhante. Acreditava-se que esse conteúdo de gordura do cérebro não devesse ser muito diferente, mas a análise mostrou que somos três vezes mais avantajados. Já o conteúdo de gordura não foi diferente quando se comparou o cerebelo dos homens e chimpanzés. Essa é uma região do sistema nervoso mais arcaica e comum a todos os vertebrados e não é o que nos faz tão diferentes.

* Dr. Ricardo Teixeira é neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília e professor da pós-graduação em divulgação científica e cultural da Unicamp. Escreve às segundas neste espaço.
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