REPORTAGEM DE CAPA

Confissões de quem amadureceu com Brasília

A Revista inicia hoje uma série de reportagens sobre pioneiros que ajudaram a dar alma à capital. O primeiro episódio é com o fotógrafo Luis Humberto

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postado em 27/09/2015 08:00 / atualizado em 05/10/2015 17:29

Cristine Gentil , Flávia Duarte , Luís Tajes

Luís Tajes/CB/D.A Press


Quando a vida começa a parecer breve, é sinal de que há muitas histórias para contar. Envelhecer é colecionar lembranças que nem cabem nessa caixinha de espaço tão limitado chamada memória. É mudar o foco, o interesse, o olhar. É desafiar o corpo físico. É entender quão paradoxal é o tempo, que agora sobra no dia a dia, mas parece tão finito. É ter um acervo de experiências tão rico que merece ser compartilhado. Convidamos quatro pioneiros, que amadureceram com Brasília e ajudaram a dar alma à capital, a abrir o coração. Eles foram mais do que generosos. Falaram sobre a cidade, os planos, os medos, a velhice, o amor e as paixões. Começamos com o fotógrafo Luis Humberto Miranda Martins Pereira.

 

Não é difícil arrancar um sorriso de Luis Humberto; tampouco uma lágrima. Também não é raro ouvi-lo recitar um verso nem fazer uma declaração de amor. "Fiquei um velho chorão", brinca. Piadista, no entanto, não consegue esconder que a conclusão que solta como um chiste não passa da mais pura verdade. Entrega-se ao relembrar as histórias das quais foi protagonista. Em alguns trechos da narrativa, a voz fica embargada e os olhos, marejados. "Na UnB, quando voltei, fiz parte da comissão dos 50 anos e isso me emociona, porque está muito dentro de mim. Eu chorei e o reitor disse assim: ‘Pode chorar!’ E aí tinha uma menina, uma ex-aluna, que acrescentou: ‘Reitor, se for preciso chorar, chama o Luis Humberto’ (risos). Meu Deus, a que ponto cheguei?". A risada sai engasgada. Ele não nega que tem o coração mole. "O que me emociona ainda é essa capacidade do ser humano de ser extremamente canalha, bandido e, ao mesmo tempo, ser capaz de fazer atos de desprendimento extraordinário", conclui.

O choro fácil, o riso farto, a paixão desmedida são traços de uma personalidade inquieta, que garante odiar a rotina. Por isso, nunca a teve. Entregou-se à arquitetura, ao ofício de professor, à fotografia, mais recentemente à poesia. Trabalhou em jornal, revista, no governo, em um hospital. Ele diz que a memória lhe prega peças, mas não se furta a dizer de cor os nomes que merecem ser lembrados, que o ajudaram a construir o roteiro da própria vida.

O desejo pela novidade fez Luis Humberto largar o Rio de Janeiro, onde nasceu, para chegar a Brasília quando a cidade mal tinha sido inaugurada. Do descampado, ele se lembra bem. Pensou que o tempo não seria aliado de empreendimento tão pretensioso. Mas estava errado. Brasília foi erguida e ele ficou. Virou personagem da história da capital. Aqui ele viveu boa parte dos seus 81 anos. Chegou casado, criou os três filhos. Nessas bandas encontrou novo amor e construiu nova família. Teve mais dois filhos. Vieram os netos. Todos candangos. Nas próximas páginas, os principais trechos da conversa com o fotógrafo Luis Humberto.

BRASÍLIA: A CHEGADA
"Vim porque a minha mulher era funcionária da Câmara dos Deputados. Em 1960, vim dar uma olhada antes da inauguração. Nós não queríamos vir. Morávamos em Copacabana, andava lá com minha mulher pela calçada, pela avenida, vendo vitrine às 2h da manhã. Não havia risco. Abandonar aquilo… Quando fiz aquela curva da rodoviária, que vira para o Congresso, vi aquele espaço... Nunca tinha visto um troço daquele tamanho e pensei: ‘Isso não vai ficar pronto nunca’. Passava pelos lugares e tinham placas de ‘começado em…’ e ‘vai terminar em…’. Eu pensava que não ia ficar pronto."

DE ARQUITETO A PROFESSOR

"Voltei em 1961, pela divisão de obras do Ministério da Educação (MEC), e não tinha muito o que fazer. Isso aqui era um deserto. Descobri que no andar de baixo havia um arquiteto muito importante, que eu conhecia de nome: Alcides da Rocha Miranda. Era chamado de velho Alcides. Desci e puxei conversa; eu tinha uns 27 anos, e ele deve ter me achado interessante. Ele morava na 107 Sul, em um bloco atrás do meu. Como eu não tinha carro, pegava carona com ele. Isso se transformou em uma amizade. Com isso, eu ganhei muito. Vim armado para fazer arquitetura. Outro dia, abri um armário numa sala que tenho lá no Liberty Mall e dei de cara com as coisas que trouxe e houve uma certa emoção. Bateu fundo… Era um rolo de papel-manteiga, usado para desenhar; os compassos suíços, que enferrujaram… Tenho horror da palavra destino, mas houve um desvio. O encontro (com Alcides da Rocha Miranda) mudou completamente a minha vida: virei professor. Não só isso, eu virei e gosto."

UnB, PAIXÃO ABSOLUTA

"Uma vez me perguntaram: ‘Você é fundador da UnB?’ Fui um deles, mas não fundei sozinho. Havia um pessoal muito interessante lá, um rapaz chamado Darcy Ribeiro, muito promissor e que me ajudou muito (risos). Minha relação com a universidade é de paixão absoluta. Entrei na UnB antes de existir a UnB. Havia o projeto, a conversa com os parlamentares. Quando veio o primeiro projeto de obra na UnB, Oscar (Niemeyer) não estava interessado. Então, Darcy (Ribeiro) chamou Alcides, que andava com ele o tempo todo. Ele foi um cara importantíssimo e nunca foi suficientemente reconhecido. Ele é autor daquele prédio baixinho da Faculdade de Educação e pensavam que eram do Athos Bulcão. Ele era o cara que tinha uma carreira e não ia ficar disputando espaço com Athos. Pompeu de Souza dizia que Alcides não podia ser santo porque santo tem pecado, e Alcides não tinha."

O GOLPE
"Em 1964, a universidade foi invadida. Eles entraram com a polícia mineira comandada pelo Exército e fizeram o diabo. Apreenderam e assustaram todo mundo. Invadiram de manhã, começaram a saquear, a levar as coisas para o prédio onde funcionava a biblioteca. Tínhamos levado equipamento e eu tinha uns filmes. Eles perguntaram o que era: disse que eram filmes de família, que podiam ver. Eles queriam levar. Aí eu disse: ‘Não vai não’. Disse que era meu e eu estava mostrando. Tem uma hora que você tem uma coragem... A pior coisa do mundo é a impotência, não ter como reagir. Só soube, anos depois, que tinha um cara na porta que destravou a metralhadora. Acho que ele não ia atirar coisa nenhuma. Acredito eu... Tive o doutorado interrompido pelo golpe, porque fizemos a demissão coletiva pela impossibilidade de continuar a universidade. Nós nos demitimos, 220 pessoas, coletivamente. Com isso, assumi o trabalho como fotógrafo profissionalmente."

BRASÍLIA FERIDA
"Ferreira Gullar disse uma coisa muito interessante: ‘Brasília é linda, formosa, de arquitetura única, mas vocês vão ver o momento em que Brasília se encontrar com o Brasil’. Esse momento está chegando, não para. Ele é um gerúndio, que vai, vai… Houve um negócio muito sério em Brasília que não se pode deixar de considerar. O golpe de 1964 fez de Brasília talvez a cidade que mais tenha sofrido com a supressão de direitos. Você não tinha liberdade para nada. Não foi um golpe econômico e político, foi um golpe contra a inteligência brasileira. Essa cidade, na verdade, é a culminância de um processo de afirmação brasileira. Tinha o Cinema Novo; a indústria automobilística; a Bossa Nova; uma Brasília feita no interiorzão, feita, apaixonadamente, por mão de obra brasileira. Vejo Brasília agora como Maria Elisa (filha do arquiteto e urbanista Lucio Costa) disse outro dia, correndo o risco de ser um aviãozinho cercado por torres de todos os lados. Qualquer ano vem um bando de velhinhos estrangeiros passando aqui no ônibus e vão mostrar ‘Brasília Vieja’, que vai ser esse conjunto por aqui (Asa Sul) com, talvez, o setor comercial. Vejo perigo, porque a voracidade dos empresários é imensa. O uso da inteligência é só para o mal, é algo que me assusta. Fico aterrorizado de ver isso. Brasília sofre um julgamento. A cidade sempre foi careta, sempre foi. As pessoas passam e são alheias a você, como se não você existisse. Já foi melhor, as pessoas eram muito solidárias. Mas gosto daqui, meus filhos todos nasceram aqui. Minha vida toda foi feita aqui."

O FOTÓGRAFO

"Eu me tornei um profissional (de fotografia) com o nascimento do meu primeiro filho, em 1962. Descobri que fotografia era muito mais interessante, muito mais rica e que devia ser muito mais respeitada do que de fato é. Então, comprei uma câmara de segunda mão. Hoje em dia, nem se compra mais câmera. É tudo com celular. Isso não me dá nenhum desgosto, pois acho que as pessoas têm direito ao exercício de fotografar. Fotografia é uma coisa lúdica e, ao mesmo tempo, um processo de descoberta de você mesmo. Até vir para essa casa nunca tive foto minha na parede. Quando senti que a coisa valia a pena, ganhei de ‘presente’ de uns amigos — era emprestado, mas até hoje não devolvi — os anuários de fotografia. Não eram extraordinários, mas te mostravam a fotografia como sendo algo importante. Abandonei a arquitetura, que era minha graduação, e passei a fotografar. Eu disse: ‘Não posso ficar com essa coisa de fotografar fim de semana para mostrar para os amigos e eles cochilarem na mostra’. Slide hipnotiza. Fiz contato com uma agência e eles me rejeitaram, sabe-se lá Deus o porquê. Levei anos para descobrir que meu portfólio era bom, mas meu currículo era todo acadêmico. Peguei o mesmo material e mandei para a editora Abril. Havia a revista Realidade, e o papo foi outro."

O JORNALISTA
"Eu trabalhava na revista Veja, quando apareceu a Isto É. Estava cansado de rotina. Rotina eu não consigo (um casamento pode durar sem cair na rotina, tem que namorar sua mulher o tempo todo, não por obrigação, mas porque quer). Eu tinha carro, secretária, equipamento completo, mas chegou uma hora que eu cansei de bater boca com os mesmos caras. Tinha um péssimo editor de fotografia, que era um ótimo fotografo. Um grande escritor tem que ser presidente da Academia Brasileira de Letras? Tem não! Fiquei 10 anos na Editora Abril. Trabalhei para várias revistas e isso me obrigava a me adaptar a necessidades diferentes. Era aos tapas. Fui editor do Jornal de Brasília, que tinha acabado de ser lançado e era muito espelhado no Jornal do Brasil. A ideia era fazer um suplemento dominical no qual se comentasse mais profundamente os fatos da semana. Foi uma aventura. Mudamos o layout do jornal, descobrimos pessoas interessantíssimas. Tinha uma tiragem vagabunda e nós duplicamos. Vivi coisas incríveis."

 

Merece ser lembrado
 Arquivo CB/D.A Press


Alcides da Rocha Miranda: foi arquiteto, pintor, desenhista e professor carioca. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes, foi técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Foi cofundador da Universidade de Brasília, onde atuou como o primeiro diretor da Escola de Arquitetura e Belas Artes, passando a cadeira de arquitetura posteriormente a Oscar Niemeyer.

 

 

 

 

SARAH: TRABALHO E EMOÇÃO
"Fui convidado para trabalhar no Sarah Kubitschek, porque era amigo do Campos da Paz e ele tinha fé em mim. Tem uma lente lá no museu do Sarah que ele me deu. Isso é uma coisa que emociona, porque as coisas estão impregnadas pelo tempo. Lá, fiz o diabo. Conheci o Tetê Catalão, um poeta incrível, despretensioso. Eu digo a ele que tem de publicar essas coisas, e ele diz que já mandou pra um e pra outro. Eu digo: as coisas são assim mesmo. A urgência da gente não é a urgência dos outros. Têm pessoas generosas e outras que não querem nem saber. Sou ao mesmo tempo crente e descrente. Eu pertenço à raça humana, não posso me demitir, nem me aposentar. A experiência do Sarah foi fantástica. Fiquei lá cinco anos. O Pompeu (de Souza) me chamou para ser secretário executivo da Fundação Cultural, um embrião da Secretaria de Cultura. Tinha autonomia, cargo de confiança. Fique 11 meses. Quando a coisa é boa, aparece um demônio: veio Zé Aparecido (José Aparecido de Oliveira, ex-governador de Brasília entre 1985 e 1988), conhecido como Zé Colmeia. A visão política dele era ser amável e simpático. Ele reunia todo mundo e ficava conversando abobrinha. Queria recuperar Brasília. Aparecido embestou comigo, e eu com ele. Estava fazendo um bom trabalho. Era diretor da Fundação e do Teatro Nacional. Aí me convidaram voltar para a UnB."

A VOLTA AO CÂMPUS
"Lembro-me do começo da universidade, quando eu dei minhas primeiras tímidas aulas, e depois, quando eu voltei (quando Cristovam Buarque era reitor), ‘desassombrado e desaforido’, como diria Odorico Paraguassu, encontrei as pessoas dispostas, sem ter essa coisa só de passar no vestibular, de ganhar um diploma, nada disso… Queriam alguma coisa maior e meus alunos tinham isso. Cristovam estava disposto a recuperar a universidade. Fui recontratado no começo de 1986, e aí começa o banditismo. Dois departamentos queriam que eu fosse pra lá, um deles, o meu de origem, de artes. Aí ficou aquele "nhe-nhe-nhém" que a universidade tem um pouco. O tempo lá é regido por aquele relógio, que tem um mostrador enorme com ponteiros preguiçosos, que parecem não passar. Quando assumi, me colocaram como professor assistente, como se não tivesse feito nada nos últimos 20 anos. Mas estava tão feliz com a volta que nem liguei. Com o tempo, fui ficando esperto. Subi pra adjunto 3; com a reintegração, 4. Depois, pedi concurso para titular, que antes era consequência da carreira. Fiz um documento solicitando abertura do concurso. Passei e aí me deram o título de professor. Sinto muita falta, mas não aguentava mais a rotina, as chaturas… Estou aposentado desde 1992, mas ainda assumi o programa Humanidades, da UnBTV. Fiquei um ano. Nunca fiz nada que não gostasse, mas claro que sempre consegui ganhar menos passando de um lugar a outro. Diz minha mulher que é vocação da família (risos)."

A FAMÍLIA

"Gosto muito dos meus netos. Quarta-feira é dia do lanchinho e a gente se reúne, mas não é obrigatório. Minha relação com eles é boa, são muito queridos, mas não fico dando mil conselhos. Não fiz isso nem com meus filhos, não quero ficar professoral. Detesto isso. Procuro ter uma relação boa com meus filhos. Fui um pai liberal. A primeira geração de filhos começou em 1962. Essa geração de agora é muito penalizada, muito diferente da outra, com uma maneira diferente de encarar a vida. Tem uma coisa muito engraçada: todo mundo querendo ser diferente, mas sendo igual. Todo mundo se veste do mesmo jeito e ocupa o tempo do mesmo jeito."

TELEVISÃO, POESIA E AMOR
"A televisão te ocupa muito. Não demonizo a televisão, a televisão tem muita coisa boa, mas exige de você um esforço que não é brincadeira. Eu só leio poesia. Minha mulher é chegada a ficção. Sou uma tartaruga para ler, me desconcentro. Estou fazendo um livro de poemas, para a surpresa de muitos e para o arrepio de outros. Eu já avisei à minha mulher, que é professora de português e conhece muito de literatura, e fica em cima, critica mesmo. Mas não a deixo ver não. O nome do livro vai ser Para Márcia. Eu disse que, quando eu ganhar o prêmio Nobel póstumo, ela não vai receber porque faz muita crítica sem ver. Ela fica com medo de passar vergonha, de ser vaiada … (risos)."

PAIXÃO E CASAMENTO
"Tenho a felicidade de ser casado com uma mulher com a qual converso muito. A gente amanhece conversando depois de 29 anos de casados. Ela é bem mais moça. Nós nos casamos em dois dias. Tinha me separado, feito outra tentativa que não deu certo e um amigo insistiu para nos conhecer-mos. Um dia, estava em um seminário temático, sobre amor, paixão, abandono. Eu me encontrei com ela lá, a peguei na porta e disse: ‘Vamos sair para jantar’. Ficamos conversando cinco horas. Da segunda vez, mais cinco. Depois, eu a levei em casa e fiquei lá, tomando conta dela. Às vezes, as pessoas procuram no casamento uma compatibilidade absoluta. É preciso saber levar e não ficar brigando. As grandes encrencas surgem de bobagens. Tem que saber se retirar de campo na hora certa, relevar. Há no ser humano um potencial de encrenca que não tem tamanho. Parece um felino escondido atrás da moita esperando o momento para saltar no seu pescoço e acabar com a tua vida. Outra coisa é gostar, ter paixão. Não existe mar de rosas, mas tem de ter prazer em estar junto. Se estou vendo futebol e ela quer outra coisa, eu cedo. Tenho outra televisão no quarto, mas prefiro ficar com ela. São coisas muito pessoais. Não há segredo para um casamento duradouro. Eu recito para minha mulher: ‘Se minha paixão você atribui à doença senil, não quero um diagnóstico preciso, não quero remédio, e muito menos a cura’."

A VELHICE
"Tenho 81 anos e não me acho tão velho assim, tenho um futuro promissor (risos). Na velhice, discar o número certo de um telefone é uma aventura de resultados absolutamente inesperados. A velhice é chata, incômoda, é doença, é dor. De repente, começa a fase das homenagens, das condecorações, das aulas magnas e as pessoas ficam assustadas: ‘Ele ainda está vivo?’ Já fiz isso! A doença é uma condição natural. Estou como sócio-atleta do Sarah (hospital). Há cinco anos, vou por razões diversas. Quando fico bom de uma coisa, aparece outra. Mas não adianta lamentar. Eu tenho uma família e as pessoas que estão comigo. Tenho sorte. Dia desses estive com um ex-aluno meu. Ele estava em crise porque estava fazendo 50 anos. Quando completei 50 anos, foi quando voltei para universidade, quando me casei de novo, quando tive minha primeira filha do segundo casamento, depois tive o segundo… Não posso me queixar dos meus 50 anos. Falei que ele deixasse de frescura. A idade é uma coisa irrevogável: ela vem, o tempo te atropela. E vamos parar com essa bobagem de ‘vamos aproveitar enquanto se está moço’. Você aproveita enquanto está moço, quando está maduro, quando está velho... Há mil maneiras. Eu me lembrei de um fotógrafo alemão chamado Helmut Newton, que morreu aos 85 anos, atropelado, não de morte morrida ."

A MORTE

"Não aprecio a morte com agrado não (risos). É um mistério, não se sabe o que vai acontecer, se você vai simplesmente e fica sem a memória do que ficou por aqui, se perde a consciência... Os espíritas devem ficar doidos ouvindo eu falar isso. Aliás, os espíritas, entre os religiosos, são os mais generosos que conheço. Tem uns católicos que vou te contar… Quando eu me lembro da inquisição e das cruzadas... Não tenho medo exatamente, mas tenho um certo receio, de entrar numa escuridão sem saber o que é. Gosto da vida, então, se, de repente, essa coisa cessa assim… Perdi um irmão mais novo que eu. A morte é muito próxima, ela está o tempo todo pertinho de você, faz parte da vida. É claro que, falando no abstrato, é lindo, agora, vai morrer para você ver. O negócio já fica complicado."

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