Embaixadora norte-americana prevê mudanças nos vistos para 2016

Em entrevista ao Correio, Liliana Ayalde fala com propriedade sobre meio ambiente e acordos comerciais. E surpreende ao fazer um relato franco da luta pessoal contra o câncer

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postado em 01/11/2015 08:00 / atualizado em 01/11/2015 12:02

Ana Dubeux , Carlos Alexandre / , Dad Squarisi /Correio Braziliense , Gabriela Freire

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Falar o idioma de Vinicius, Drummond e Guimarães Rosa não é problema para Liliana Ayalde. Em Brasília desde 2013, a embaixadora tem desenvoltura ímpar com a língua portuguesa, graças à oportunidade de ter morado no país durante a infância. O encanto com as praias do Rio de Janeiro deu lugar, na vida adulta, a uma profunda admiração pela cultura e pela biodiversidade verde-amarelas. Liliana está intensamente envolvida no movimento de reaproximação entre Brasil e Estados Unidos, após o traumático episódio de espionagem com a presidente Dilma Rousseff. “Esse tema está superado”, assegura a diplomata, reproduzindo as palavras da chefe da nação brasileira em recente visita oficial a Washington. Liliana relata importantes avanços na agenda bilateral, especialmente nos temas referentes a mudanças climáticas, à emissão de vistos e à internet. Ela acredita em um entendimento, até o primeiro semestre de 2016, para facilitar a entrada de brasileiros que viajam com frequência aos EUA. E diz que é possível estreitar mais laços entre os dois países, em diversos campos. “Estamos trabalhando. Se pudermos fazer mais, vamos fazer mais.” No âmbito pessoal, Liliana Ayalde quebra o protocolo das embaixadas para relatar uma experiência arrebatadora: enfrentar um câncer de mama. Com serenidade e transparência, ela descreve a estratégia adotada na luta contra a doença; a trajetória diferente da irmã, vencida pelo tumor após sete anos; a necessidade de compartilhar sentimentos com médicos e amigos; o apoio da família. Nesta entrevista ao Correio, Liliana Ayalde dá lições que podem ser compreendidas em qualquer idioma.

A senhora fala português muito bem. Como foi aprender o idioma sem sotaque, falando como uma de nós?

Primeiro, eu gosto das línguas. Para ter a comunicação, é essencial falar a língua. Senão, não se conhece bem. Mas o segredo é que meu pai é médico — trabalhava com a Organização Mundial da Saúde — e, quando eu era criança, a gente morou no Rio de Janeiro. Morei lá por três anos, quando eu tinha 11 anos — isso foi por volta de 1969 e 1970. Acho que eu tive a base. Isso ficou em algum lado do meu cérebro e, agora, voltando ao país, tenho acordado esse registro.

Mas a senhora treinava?

Não. Com a agenda da transição e a saída do embaixador (Thomas Shannon), eles precisavam que eu chegasse no momento em que se preparava a visita de Estado da presidente Dilma Rousseff. Eles disseram “não tem tempo” e eu disse que precisava de tempo, que não sabia. E me disseram: “Vai com o espanhol mesmo”. Eu dizia que não era a mesma coisa, mas foi uma revelação para mim mesma. Foi uma caixa que estava fechadinha, mas se abriu, porque eu aprendi na infância.

A senhora esteve em Tocantins...

Viajei para Palmas e acompanhei nossa delegação. Estivemos com oito tribos americanas, que chamamos de American Indian Nations — cherokees, crows e apaches. Também tive a oportunidade de ver as etnias brasileiras entrarem em um estádio. É uma coisa tão linda e difícil de ver. Você pode conhecer uma comunidade indígena, mas lá estavam todas, umas 30 delas. E eles são tão diferentes uns dos outros... As mulheres tinham cabelo comprido, umas tinham franjas, os meninos tinham pinturas e coisas no cabelo. É uma riqueza, uma diversidade muito grande. Eu saí um pouco do protocolo. Quando terminou toda a cerimônia, a presidente e as delegações saíram, mas eles continuaram lá. Eu disse: “Hum, vou conhecer mais” e... pulei a grade! Fui para baixo, estive com eles (os índios) e foi muito emocionante. Foi muito impressionante para os nossos, que entraram em contato com outras culturas indígenas.

Conhece muito o Brasil?

Eu tento aproveitar. Há muito o que fazer aqui, mas, quando tem algum convite... Por exemplo, há duas semanas, estive no Amazonas. Primeiro em Belém (PA) e, depois, no Amazonas. Firmamos um acordo com o Instituto Chico Mendes para fazer uma parceria sobre intercâmbio com o nosso sistema de parques, como trabalhar o tema da biodiversidade com as comunidades locais, como fazer ecoturismo de uma maneira sustentável e trocar práticas. Então, fui para Anavilhanas, lá no Rio Negro, que é um parque nacional. É realmente difícil de chegar.

Foi a primeira vez na Amazônia?
Não. Já estive lá para ver os jogos da Copa, porque os EUA tiveram uma partida lá contra Portugal. Então, quando fui, aproveitei para conhecer um pouquinho do Amazonas. Mas, desta vez, foi mais.

É assim que se conhece verdadeiramente o Brasil...
Sim, mas assim você se dá conta de que conhece tão pouco. Esse acordo é de US$ 11 milhões e eu pensei: “Oh, isso é bastante dinheiro”. Quando eu cheguei a esse parque, que é um parque demonstrativo, o rio em que estava sediado o escritório do ICMBIO tinha dois guardas para o parque. E são não sei quantas ilhas, com apenas duas pessoas para ver tudo aquilo. É muito grande. O país é muito grande.

Se fosse indicar um lugar imperdível para um estrangeiro conhecer no Brasil, qual seria?
Nossa, difícil. Você, como brasileira, sabe bem. A Floresta Amazônica, não tem coisa igual. Não conheço ainda do lado brasileiro, mas imagino que o Pantanal também seja maravilhoso. Eu o conheço do lado paraguaio e me lembro que havia tanta biodiversidade, tantos pássaros...

Há outros acordos com o governo ou com organismos brasileiros a serem destacados?

Temos muitos. Agora, há o tema dos megaeventos porque estamos fazendo os preparativos para os Jogos Olímpicos. Temos o marco de trabalhar no tema de megaeventos. Trabalhamos juntos na Copa do Mundo e, agora, nos preparativos dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. É um trabalho que se faz com diferentes entidades, em temas de segurança, do manejo de multidões. Temos levado grupos de autoridades brasileiras para conhecer como foi a experiência, por exemplo, em uma competição de golfe com muitas pessoas; ou o que aconteceu na maratona de Boston, como as autoridades coordenaram depois que houve o atentado terrorista; como se faz nos aeroportos quando chega gente em aviões privados. Há muitos aspectos e estamos trabalhando de perto com muitas autoridades, não somente a Polícia Federal. Tanto na Copa quanto nos Jogos Olímpicos, estamos prevendo um número grande de americanos. Prevemos que 200 mil americanos venham para os Jogos Olímpicos, sem contar os dois mil atletas, os jornalistas e os representantes corporativos.

Existem mais temas em análise?
Na última semana, tivemos três diálogos simultâneos. Um no tema consular, relativo a vistos estudantis e para as Olimpíadas. Há o tema das mudanças climáticas, em que estamos vendo os preparativos para a COP 21, em Paris. E o terceiro é o tema da internet, tecnologia e comunicação. Estivemos no Itamaraty, com o setor privado, com a sociedade civil e autoridades de diferentes agências governamentais.

Na área de internet, um dos temas é segurança?
Sim, a segurança cibernética está inclusa. O diálogo é bastante técnico, mas inclui isso. Brasil e EUA enxergam a importância de uma internet aberta e livre. Compartilhamos o modelo de multistakeholders e estamos trabalhando muito bem. Outra delegação vai voltar para o fórum da internet, em João Pessoa. Temos quase 30 pessoas de diferentes agências para essa reunião. São muitos temas e sempre temos que estar à frente, pois a tecnologia avança muito rápido, especialmente no tema de segurança da internet.

Nós vamos tanto aos Estados Unidos, há algum avanço sobre a questão da isenção de vistos?

Esse tema ainda está sendo discutido. Entendo que o Brasil está procurando facilitar o processo de visto e a entrada dos americanos para os Jogos Olímpicos, porque serão muitos pedidos nas embaixadas e consulados ao mesmo momento. É por um tempo específico. Não sou autoridade brasileira, mas o ministro (do Turismo, Henrique Eduardo Alves) indicou que é algo que se está trabalhando para facilitar a entrada dos americanos. Essa vai ser uma oportunidade para o mundo conhecer o Brasil e não somente o Rio de Janeiro. Já se sabe que o americano, quando viaja, é o que mais fica, é o que mais gasta. Não sei se é o que mais volta, mas é alguma coisa assim. Então, a ideia é aproveitar a janela dos jogos para que a pessoa viaje também a Salvador, ao Amazonas e não fique somente no Rio. Acho que estão fazendo um investimento para o futuro no turismo.

Mas o Brasil negocia a isenção de vistos com os EUA e isso não avançou.
O que tem sido falado é o Global Entry, que seria uma espécie de autorização para facilitar a entrada das pessoas que já têm visto. No caso de empresários, para famílias de estudantes e turistas que viajam muito, isso se justifica. A presidente Rousseff e o presidente Barack Obama firmaram um compromisso para que trabalhemos nesse tema a fim de ter algo concreto no primeiro semestre de 2016.

Na sua chegada ao Brasil, o debate era a questão da espionagem. A senhora disse que esperaria um pouco para comentar o assunto. O momento crítico passou?
Vou repetir o que a presidente Dilma Rousseff disse em Washington: esse tema está superado. Nossa agenda bilateral é ampla, estamos olhando para o futuro, como disse o presidente Obama, e estamos trabalhando todos os temas que se priorizaram bilateralmente. Três estão avançando: temas climáticos, temas consulares, temas de internet. Temos um diálogo comercial, em novembro. Temos também temas comerciais, de ciência e tecnologia, de segurança e defesa, energia. O que aconteceu foi um pouco difícil. Quando cheguei, havia tensão nessa relação. Mas agora estamos trabalhando muito bem, em política de alto nível e em nível técnico.

A senhora mencionou que a agenda comercial é ampla, mas do lado brasileiro já houve manifestações de preocupação com o tratado Transpacífico. Essa questão pode se tornar um impasse nas relações bilaterais?
Temos lido alguns pronunciamentos sobre a preocupação com o TPP, mas a agenda está aí. Estamos trabalhando. Se pudermos fazer mais, vamos fazer mais. O tema do TPP é relacionado com os 12 países que firmaram o acordo. Isso é todo um processo que vai ter que começar agora. Estaremos focados na ratificação do acordo, na implementação, e cada país vai passar por isso. Então é um começo. Mas nosso trabalho aqui vai continuar.

Como tem observado as manifestações do governo brasileiro para flexibilizar as regras do Mercosul, no sentido de se permitir acordos bilaterais entre os membros do bloco e outros países?
Eu não gostaria de comentar temas concernentes ao Mercosul, porque desconheço os detalhes. O que posso dizer é que, na nossa agenda, estamos trabalhando para maximizar as oportunidades. Já temos um comércio bilateral de US$ 100 bilhões, nos dois sentidos, mas achamos que podemos fazer muito mais. Tem alguns temas muito mais complexos: trabalhista, tributário, logística. Na parte de infraestrutura, estamos muito interessados em aproveitar o momento. Há muito interesse de empresas americanas em fazer investimentos, especificamente em portos. Na última semana, a primeira parte da concessão de portos foi publicada. E comuniquei ao ministro de Portos o interesse de muitas de nossas empresas em participar. Então, são esses passos que vamos aproveitar.

A eleição norte-americana pode ter impacto significativo na agenda EUA-Brasil?
Não. A agenda que se estabeleceu é quase de Estado-Estado, independentemente do governo. Por exemplo: vai trocar a importância do comércio? Não, porque é aumento de prosperidade para o Brasil e para os Estados Unidos. Talvez o jeito, talvez a maneira. A troca de tecnologia, ciência e inovação, os nossos países vão manter. Projetos em educação, também. Queremos que mais americanos venham para cá, que mais brasileiros sigam para lá. Não acho que nenhum desses temas é mais democrata ou republicano.

Nem mesmo a questão consular? Imigração?

A parte de imigração é outro tema. Sim, há diferenças. Mas, na nossa agenda de trabalho bilateral, não temos um tema de imigração, além da preocupação com o que está acontecendo com os sírios. Tanto o Brasil como os Estados Unidos acolhem os refugiados, e, nesse sentido, vamos continuar. Não sei se um governo republicano tem uma diferença nesse sentido. Sobre a nossa legislação em relação à imigração, são enfoques bem diferentes.

Acabamos de passar pelo Outubro Rosa. Gostaria de falar a respeito?

É um tema muito pessoal para mim, porque sou sobrevivente. Sou vítima do câncer de mama. Sou sobrevivente. Além disso, perdi uma irmã. Minha irmã caçula morreu depois de uma batalha de quase 7, 8 anos contra o câncer de mama. Deixou três filhas jovens. Eu me cuidei muito, mas saí vítima. O que foi muito surpreendente, porque eu fazia tudo que tinha de fazer. Eu mesma descobri, fazendo o toque. Eu disse para o médico: “Olha, tem alguma coisa”. E ele dizia: “Não, está tudo bem”.

Tem tempo? Quando foi?
É bastante recente. Antes de vir ao Brasil. Fui diagnosticada em 2012, passei por cirurgia, por quimioterapia, por radioterapia. Passei por todas as emoções: de muita angústia, de medo, e de cada pessoa. Fala-se só da mulher, mas o câncer de mama também afeta os homens. Cada pessoa é diferente, reage de um jeito. Minha irmã, eu vi sofrer. Mas o processo dela foi distinto do meu. Fiz o exame, meu câncer não foi hereditário. Foi muito diferente do da minha irmã, mas houve uma coincidência. Por quê? Não sei. Não quero nem pensar. Porque agora eu sobrevivi.

E qual mensagem a senhora gostaria de transmitir?

É uma coisa muito pessoal. Foi muito importante o acompanhamento da família, dos amigos. Eu preferi compartilhar, porque isso era uma terapia. Mas outras pessoas preferiram ficar com isso. Em algumas sociedades — não conheço a realidade brasileira —, isso é como um tabu. Ninguém fala. E, para mim, tem que se falar. Além disso, é uma coisa muito recente — ainda estou tomando medicamentos, somente após 5 anos é declarada a cura. Sei que é uma batalha difícil, que você precisa de acompanhamento de um bom time de médicos, nos quais você tenha confiança, a quem você possa falar, perguntar. É uma doença, uma coisa em que você não sabe nem o que fazer. E há muitas decisões. Você é a única pessoa que pode decidir. Tiro um? Tiro dois? Não tiro? Fica uma metade? Vou para isso? Não faço? E, se faço isso, o que vai acontecer? O que vou sentir? E o meu cabelo?

E o processo de quimioterapia é desgastante...

E para a mulher... Minha irmã era muito vaidosa. Para ela, o cabelo era... Nossa! Como é que vou perder o cabelo?! Para mim, eu sabia que ia perder o cabelo. Eu dizia: “Tá, vou perder o cabelo”. Mas, no momento em que eu perdi, foi traumático. Eu pensei que estava preparada, mas não estava. Ninguém prepara você. Então você precisa ter um time de médicos com quem possa falar.

E o apoio familiar é fundamental.
Sim. É importante também uma rede de pessoas que tenham passado por isso. Aqui, se alguém me procura e diz: “Olha, estou passando por isso, o que eu faço? O que vai me acontecer? Como você se sente quando perde o cabelo?”. Eu escrevo: “Passa”. A quimioterapia era horrível. Eu não podia comer. No meu caso, em relação ao coquetel, a opção era: não tomar e morrer, ou tomar e não sentir os meus pés e minhas mãos. Mas cada um é diferente. Por exemplo: nunca vomitei.

Continuou trabalhando?
Decidi que era importante deixar o trabalho. Naquele momento, a secretária (Hillary) Clinton me chamou para fazer um trabalho com a Cúpula das Américas. Ia precisar de muita viagem. Era uma missão incrível, porque eu tinha trabalhado muito na região. E minha chefe ia ser uma mulher. Quando fui diagnosticada, vi que tinha de fazer esse e aquele exame, e tudo muito rápido. Eu disse: “Não posso”. Não posso ficar pensando que tenho de ir a essa reunião, concentrar-me nessa outra reunião, fazer uma viagem aqui, balancear os dias dos exames com isso, com outro... Não. Essa é minha prioridade. É preciso fechar os olhos e deixar o trabalho aí.

Esse período durou seis meses?
Sim. Mais ou menos seis meses.

Reagir de forma natural ajudou?
Para mim, ajudou. Eu podia me concentrar. No momento em que achei que era oportuno, voltei.

E como foi dizer para a família?
Muito difícil. Acho que minhas filhas ainda não querem lembrar. Primeiro porque sabiam que eu tinha perdido uma irmã. Achavam: minha mãe pode morrer. Não sabem a diferença entre um tipo de câncer e outro, imagino. E também porque coincidiu com a transição para a adolescência, voltávamos para os Estados Unidos, faziam amigas novas, nova casa, nova escola. Tudo se juntou. Foi difícil para elas e para meu marido também. O apoio deles foi muito importante. Mas eu também pensei que era importante dar atenção aos meus pais, porque eles perderam uma filha, podiam pensar que iam perder outra. Eu dizia: “Está tudo bem! Vai dar certo!”. Isso também ajudou. Decidi fazer tudo que era necessário. O que não posso fazer mais, é o que Deus quer fazer.


O que acha de ter uma presidente americana mulher? Uma presidenta?  
(Risos). Vai ser um toque diferente, se acontecer. Mas, por que não?    

As senhoras têm uma relação boa. Até se parecem.  
Sim? (risos) Não sei se poderia resistir onze horas naquela audiência (no Congresso norte-americano, no último dia 23, quando Hillary foi questionada sobre o atentado de Benghazi em 2012).       

Ela se saiu muito bem.    
Eu me pergunto se um homem resistiria (risos). Porque não fariam esse nível de insistência. Houve até um momento ofensivo, em que um congressista rasgou um papel. Mas ela resistiu. Fez muito bem.     

O preconceito em relação às mulheres é forte no seu país?  
Agora, acho que não. Na realidade, o interessante é ver o que acontece depois de um presidente negro. Acho que essa questão da mulher nem faz parte do debate.     

Aqui no Brasil, fala-se que a presidente Dilma sofre esse preconceito. A senhora considera isso?  
Tem de estar na pele para poder comentar. Não sei. Entro em muito evento, muita reunião em que sou a única mulher. Eu acho que, pelo fato de eu ser embaixadora dos Estados Unidos, não me ignoram, né? (risos) Não sei se seria diferente. Mas não me sinto discriminada em nenhum momento, aqui. Em outro país, sim.       

E sua relação com Brasília?  
Adoro Brasília, cada dia mais.       

Por quê?  
Porque é aberta, tem um céu maravilhoso. Cada dia, é uma cor diferente. Você pode respirar.
É tranquila. É politicamente agitada. Adoro poder vir à embaixada e fazer três, quatro reuniões na manhã sem ter de lutar com o trânsito. Eu me sinto mais produtiva. Isso seria impossível em São Paulo.       

A senhora frequenta o comércio local. Esteve na Apoena (projeto social voltado para a confecção de roupas) outro dia.    
Ah, sim! Comprei uma blusa bordada das senhoras que fazem o projeto. Acho que não conheço Brasília o suficiente, porque não dirijo. Não posso. Se pudesse dirigir, seria mais gostoso.      
 
Suas filhas estão aqui?  
Uma delas. Uma está no último ano da escola aqui, a outra está na universidade nos Estados Unidos.     

A senhora chegou ao Rio aos 11 anos. Passou três anos lá. Que lembranças guarda? Também é uma cidade de que a senhora gosta muito.  
Sim. É muito gostoso. As praias...     

Mas prefere Brasília?  
Cada cidade tem seu encanto. É difícil dizer o que eu prefiro, porque como você vai comparar Brasília com Rio de Janeiro, Rio de Janeiro com Brasília? É muito diferente, não tem comparação. Sou da filosofia de que, se você está em um lugar, procure o que você gosta. Se você procura algo negativo, vai encontrar: “Ah, que calor, etc.” Mas, no Rio, eu lembro muito, por exemplo, dos nossos passeios para fora da cidade com a família. E era na Barra da Tijuca (risos). Agora, é tudo na cidade. Fazíamos piquenique. Era uma vida muito gostosa. Caminhava facilmente, agora não sei se faria isso. Pegar o ônibus para a minha aula de violão. Eu tinha onze anos, ia sozinha. Era um momento diferente. Mas o Rio é uma cidade muito linda. Para qualquer ângulo que você olha, tem uma foto.    

 E a crise brasileira?  
Acho que é uma pergunta para vocês, né? (risos) Eu observo. Cada dia é um capítulo diferente. Muitas vezes, é difícil compreender, porque é muita coisa acontecendo junta. Então, para um estrangeiro, é difícil entender as implicações.       

Às vezes, é difícil até para nós.  
É complicado, mas tem instituições fortes. Essa é a parte boa. As instituições trabalham, funcionam. Acredito que, depois disso, o país vai sair forte e melhor. Temos confiança. Eu me reúno muito com empresas americanas para ver como estão, o que estão fazendo. Muitas delas têm quase 100 anos aqui. E ninguém está falando em sair do país. Tem confiança, apesar da crise. Porque é um parceiro importante, um mercado importante, uma das democracias importantes na região. Mas, descrever o que está acontecendo, é difícil.       

E o avanço histórico entre Cuba e EUA?
 Já era hora dessa reaproximação. Estou muito entusiasmada em ver como o presidente Obama tem feito tudo o que está dentro de sua autoridade para avançar. Algumas pessoas dizem: “Ah, mas ainda tem o embargo”. Mas agora temos embaixada de Cuba em Washington, embaixada dos Estados Unidos em Havana. Temos uma relação na qual podemos nos sentar para falar. Nosso enviado especial sobre mudanças climáticas saiu do Brasil para lá, para falar de um tema que afeta Cuba, afeta os Estados Unidos, afeta o Brasil. Isso é histórico. Antes não podíamos ter esse tipo de conversa. Não estaremos de acordo em muita coisa, mas temos agora a mesa onde podemos nos sentar, falar e entender. Direitos humanos continuarão sendo um tema que, seguramente, o governo cubano não estará de acordo, mas vamos continuar pondo na agenda. É um processo. Acho que vai por um bom caminho.

 

 

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Helton
Helton - 03 de Novembro às 09:08
Ótima entrevista, parabéns aos repórteres e a embaixadora, é muito bom ler uma entrevista tão bem elaborada e dinâmica.