CAPA

Desfaça os nós e crie laços

Aprender a se desfazer de coisas materiais que não usamos ou precisamos; de ideias e relacionamentos que não nos fazem bem é uma forma de exercitar o desapego. Despedir-se do velho e sem utilidade é dar espaço para as novidades

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postado em 27/12/2015 08:00 / atualizado em 27/12/2015 11:20

Juliana Contaifer

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 
O ditado é certo: vão-se os anéis, ficam os dedos. Desta vida não se leva nada de material, apesar do que mostram os apartamentos cada vez menores, porém cada vez mais cheios. Em tempos de consumo desenfreado e relacionamentos líquidos e rasos, dá-se mais valor aos objetos do que aos amores. “A gente acaba associando as coisas que a gente tem às lembranças. E as memórias fazem parte da nossa personalidade. Para algumas pessoas é fácil desassociar o sentimento do objeto. Para outras, é uma dor, uma tortura”, explica a psicóloga Hayssa Nakahara. Não é errado se apegar ao que se associou a algum sentimento. O problema é quando esses objetos cheios de lembrança vão se multiplicando e, aí, trazem sofrimento.

Para a personal organizer japonesa Marie Kondo (veja box), as coisas que acumulamos são responsáveis até por provocar reações no corpo. Em contrapartida, arrumar a casa, jogar fora velhas coisas e doar o que não se usa seria quase terapêutico. Nessa linha, percebe-se que a sociedade está concluindo que ter tempo é mais importante do que ter coisas. O minimalismo volta a ser chique. Pipocam brechós virtuais e físicos, empenhados em passar para frente o que não tem serventia, e organizadoras como Marie fazem cada vez mais sucesso.

Na contramão de quem quer ter e acumular os desapegados conquistam uma vida mais leve. Sem amarras físicas, podem se mudar amanhã para a Europa, para a África ou para a China sem sofrer, um segundo sequer, ao vender seus livros, seus móveis, suas roupas. Podem sim ter muitos objetos, mas tudo vem e vai. Não que seja fácil chegar a esse ponto. A família de Márcio e de Karla, por exemplo, teve que vender tudo o que havia na casa da família. Desde as lembranças da mãe, até a casa em que cresceram. Não fizeram sem sofrimento. Ao virem quase tudo sair pela porta da frente, sentiram um aperto. Mas admitem: foi o melhor.

Em uma sexta-feira de dezembro, uma fila se organizava na porta de uma residência no Lago Norte, nas primeiras horas da manhã. Um segurança controlava o pessoal ansioso por entrar em mais uma casa na qual se coloca tudo o que tem dentro à venda. Dos sofás aos quadros das paredes. Vasos, copos, utensílios de cozinha, espelhos, espreguiçadeiras, cadeiras, mesa de jantar, flores, máquina de escrever. A própria casa. Tudo por um preço mais camarada do que se encontra em antiquários e brechós. Era um garage sale.

O zootecnista Márcio Passos Júnior, 29 anos; a irmã Karla Mendonça, 40 anos, e a mulher dele, a nutricionista Tatiane Alves, 30 anos, abriram a porta com espanto: não esperavam tanta gente. A casa foi construída há 17 anos. Recebeu grandes festas. Viu nascimentos e mortes. Acompanhou o crescimento dos filhos e dos netos da antiga dona. Foi enfeitada com pedras pesadíssimas que vieram da fazenda da família (no dia da instalação, até causaram acidentes de trânsito por chamar a atenção dos motoristas que passavam pelo local). Suas paredes exibiam quadros bordados pela matriarca.

Mas como acontece com toda família, os filhos crescem, casam-se, mudam-se. Com a morte da mãe este ano, Karla se viu sozinha com os dois filhos em uma casa de 1.200m². “Resolvi me mudar para uma casa bem menor, onde a gente se encontra. Eu me sinto mais segura e gastamos bem menos com a manutenção”, conta a produtora cultural. Ela e os irmãos guardaram o que mais lembrava a mãe: alguns quadros e pratarias que ela amava. Doaram as roupas. As joias e as bijuterias foram distribuídas pela família. A casa ficou vazia de gente, mas ainda cheia de móveis. “Acabava ficando mais para os funcionários do que para a gente. Decidimos vender tudo”, explica Márcio.

Não foi fácil. Os irmãos pensaram em anunciar os móveis na internet e vender peça por peça. Mas não se põe preço sentimental nos objetos. “Perguntaram quanto valeria um quadro bordado pela minha sogra e respondi que1 milhão de reais. Precisamos de alguém de fora para colocar o preço. No fim das contas, vendemos por 60 reais”, conta Tatiane. Acabaram contratando um serviço de garage sale, que, juntamente com a família, definiu o preço de cada coisa. O serviço ainda incluiu a responsabilidade pelos pagamentos, pela entrega e pela propaganda do negócio.

A reportagem visitou a família no dia da venda. Enquanto conversávamos, o segurança ajudava um senhor a carregar o sofá porta afora. Um grupo de estrangeiros discutia sobre eletrodomésticos na cozinha. Uma senhora munida de uma trena media um móvel de escritório. “É estranha esta sensação de muita gente em casa pegando suas coisas. É seu, né?! Tudo isso é um retrato da nossa vida. Dá vontade de cancelar tudo, deixar pro ano que vem”, define Márcio. “Foi muito estranho abrir a porta e ver as pessoas correndo. Senti o coração apertado”, completa Tatiane. Mesmo assim, foi a melhor opção. A família concorda que dói menos vender tudo de uma vez do que ver as peças desaparecendo aos poucos.

Apesar da difícil decisão de se desapegar de objetos que remontam a história da família, os três consideram que é necessário deixar as coisas irem para que possam seguir em frente. As casas vão ficando cada vez menores e não há espaço para guardar tudo o que se gostaria. “Infelizmente não cabe. Precisamos ficar com as boas lembranças e se despedir de objetos”, afirma a nutricionista. “Dá um saudosismo, mas precisamos continuar”, conta Karla.

O garage sale foi um sucesso e quase tudo foi vendido. A próxima etapa é encontrar um novo dono para a casa. “Mas aí vai ser um sofrimento maior. Apesar de não morarmos mais aqui, ainda frequentamos. Tem dia que dá vontade de tomar banho de piscina ou de fazer uma festa. Ainda mantemos um pouco o laço. Agora, sem os móveis, sem água, vai ser difícil. É uma casa muito grande, parece que estamos andando em um museu vazio. Faz eco. É muito triste”, explica Márcio.


Os 10 mandamentos de Marie Kondo


Bom jeito de desapegar é reorganizar a vida, e, convenhamos, é melhor começar pelo armário. Depois de um colapso nervoso, há 11 anos, que acabou em um desmaio, a japonesa Marie Kondo teve uma iluminação: “Devemos ter ao nosso lado apenas objetos que nos dão alegria.” De lá para cá, escreveu quatro livros e conquistou milhões de leitores com suas dicas de organização doméstica. Além de sugestões interessantes que ajudam a organizar e gastar menos espaço, ela fala muito sobre como a grande quantidade de coisas acaba afetando o corpo.

1) Arrume tudo de uma vez. Nada de escolher apenas um cômodo para arrumar. A dica é mergulhar de corpo e alma na organização.
2) Descarte. Junte tudo o que é parecido, velho, nunca foi usado ou é inútil. Sem dó nem piedade.
3) Jogue fora tudo o que não te traz alegria. Guarde só o que te traz boas lembranças.
4) Separe por categoria. Juntando todos os livros de todos os cômodos, por exemplo, é mais fácil decidir o que fica e o que vai.
5) Dê visibilidade. Organize de forma que tudo o que você tem fique acessível e à vista. Assim, não se esquece de nada.
6) Deixe objetos sentimentais por último. Decidir se desfazer de coisas que ligadas a sentimentos é um processo longo e difícil.
7) Evite intromissões. A arrumação feita por uma pessoa sozinha costuma ser mais eficiente e sem espaço para dúvidas.
8) Silêncio. Marie acredita que organizar a casa tem um quê de meditação. Aproveite o momento.
9) Não gaste dinheiro com produtos especiais para organização. Segundo a organizadora, a bagunça não será magicamente resolvida por estar em caixas. Ao longo do tempo, elas se juntam ao caos.
10) Torne a organização um ritual. Leve a arrumação para o dia a dia e evite bagunçar a casa.
 
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