REPORTAGEM DE CAPA

Viver após o câncer

Superada a doença, é chegado o momento de voltar ao cotidiano. Sexo e família são os primeiros pontos a se prestar atenção na busca por qualidade de vida

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postado em 03/01/2016 08:00 / atualizado em 31/12/2015 10:46

"Você está com câncer." Aproximadamente 576 mil brasileiros ouviram esta frase entre 2014 e 2015, aponta o documento Estimativa 2014 — Incidência de Câncer no Brasil, produzido pelo Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). O diagnóstico é apenas o começo de uma árdua batalha. Quimioterapia, radioterapia, cirurgia, acompanhamento psicológico e resiliência costumam ser os ingredientes da receita que pode (ou não) levar à cura. O diagnóstico, contudo, há muito deixou de ser o equivalente a uma sentença de morte. O avanço dos tratamentos, a conscientização e a descoberta precoce dos tumores têm reduzido a mortalidade da doença. Curados, os ex-pacientes experimentam uma espécie de recomeço.

 

A "normalidade" depois da batalha enfrentada é, ao mesmo tempo, assustadora e instigante. Na primeira de três reportagens sobre a vida após a doença, a Revista tenta entender os principais desafios que essas pessoas enfrentam com relação a sexualidade, fertilidade e relacionamentos amorosos. Nas próximas semanas, falaremos sobre o retorno ao trabalho, e como ficam os cuidados com a saúde passado o trauma do tratamento.

 

  

O milagre da vida

 

 

"Antigamente, o problema era a sobrevida. Agora, as pessoas querem qualidade de vida", resume Ricardo Marinho, médico especialista em reprodução assistida da Clínica Pró-Criar Medicina Reprodutiva e coautor do livro Preservação da fertilidade: Uma nova fronteira em medicina reprodutiva e oncologia (Editora Medbook). A idade ainda é um fator de risco para o câncer, mas há muito a doença deixou de atingir apenas os idosos. Pacientes jovens e sem filhos, atualmente, são parte considerável dos novos casos de câncer. Mulheres jovens, que receberam o diagnóstico precocemente e estão curadas (ou com chances quase nulas de remissão) e que desejam engravidar, são uma realidade cada vez mais comum. Crianças e adolescentes que passaram por um transplante de medula, por exemplo, possivelmente serão casos de ex-pacientes que desejarão gerar descendentes. "Nos últimos anos, além da sobrevida ou por causa dela, os procedimentos para tentar preservar a fertilidade avançaram muito", reforça Marinho.

 

Em 2011, Cristiane Bitencourt, 34 anos, estava trabalhando demais. Tanto que, desde que notou um nódulo embaixo do braço, a empresária demorou um ano para procurar um médico. O diagnóstico de câncer de mama veio como um balde de água fria: o casamento de Cristiane estava marcado para dali a 38 dias. O tumor de 2,6cm só crescia. A notícia de que ela provavelmente ficaria infértil devido ao tratamento abalou de vez o emocional de Cristiane. Ela e o então noivo, Lewander Pedrosa, 40, procuraram clínicas de reprodução assistida. Lá, foram informados de que a retirada dos óvulos, feita por indução hormonal, só faria o tumor crescer mais e mais rápido). "Eu me desesperei, mas meu marido disse que preferia me ter ao lado dele do que arriscar me perder", relembra.

 

Arquivo Pessoal
 

 

Sem alternativas naturais para realizar o sonho de ter um filho, o casal resolveu tentar a adoção. Em 2014, Lucas Bitencourt Pedrosa, hoje com 1 ano e 6 meses, chegou. Até o momento, Cristiane não sabe se é ou não infértil. Para impedir que o corpo produza hormônios que poderiam fazer com que a doença voltasse, ela está em menopausa induzida há quatro anos. "Só quando o medicamento for interrompido é que saberei se um dia serei fértil ou não", explica. Apesar da dúvida, pode-se dizer que, hoje, a felicidade do casal está completa. "Era para o Lucas vir para a nossa vida", derrete-se. Além disso, ela transpôs com sucesso a fase mais dura do convalescimento, que inclui a mastectomia e a reconstrução da mama.

 

A quimioterapia terminou em 2012, mas Cristiane ainda precisa fazer uso de medicamentos orais periódicos para se prevenir contra uma recidiva. A libido, naturalmente, mudou. "A mulher é movida a hormônios. O médico até brinca comigo, dizendo que pegou uma moça de 30 anos e a transformou em uma senhora de 65", diverte-se. O humor também foi afetado: falta de paciência e mau humor são os dois "sintomas" que mais a incomodam. "Para o homem, a sexualidade é muito importante, mas meu marido entende. Procuramos outras formas de tentar estimular, pois tenho que pensar nele. Mas não tem jeito: o câncer mudou tudo em nossa vida."

 

 

Ferramentas da ciência

 

A principal abordagem da oncofertilidade ainda é o congelamento de óvulos, embriões, tecidos ovarianos e sêmen. "É importante pensar nessa questão antes do tratamento, que é agressivo", observa o médico Ricardo Marinho. Segundo ele, o objetivo da quimioterapia é ser tóxica às células cancerígenas, mas, na maioria das vezes, a química não é específica. Isso significa que ovários e testículos, por exemplo, podem ser atingidos, comprometendo a função reprodutiva.

 

As mulheres são as mais vulneráveis. Muitas, após o tratamento, deixam de menstruar ou ficam com a reserva de óvulos debilitada. A técnica de fertilização in vitro já não é uma novidade, mas exige de duas a três semanas até que a ovulação e a coleta de óvulos estejam completas. Nem sempre as pacientes podem esperar e não há garantia de sucesso. Como alternativa, existem tratamentos hormonais experimentais, mas faltam resultados conclusivos. "Outra área de pesquisa ainda incipiente é o congelamento do tecido ovariano, mas ainda não sabemos se a técnica funciona", esclarece Marinho. O especialista acrescenta que, se o paciente for criança, nenhuma forma de congelamento se aplica.

 

Fernando Vidigal, oncologista clínico e diretor médico do Centro de Câncer de Brasília (Cettro), reforça que uma das principais dúvidas dos pacientes é sobre a infertilidade pós-tratamento. Ele pondera que cada caso é avaliado individualmente, mas a recomendação geral é que ex-pacientes esperem o corpo se recuperar antes de pensar em uma gravidez. "O corpo acabou de passar por um processo de agressão, tanto pela doença quanto pelo tratamento", completa. "A gravidez exige condições clínicas adequadas."

 

 

O aspecto psicológico

 

 

O diagnóstico e o tratamento para combater o câncer geram estresse psicológico muitas vezes transformador. Raramente alguém que passou pela experiência encara a vida da mesma forma, e a mudança de mentalidade respinga em todos os aspectos da rotina, especialmente no quesito amoroso. A dica é não deixar para remediar o que se pode prevenir: investir em um acompanhamento psicológico antes, durante e depois do tratamento. Isso pode salvar a saúde mental do casal.

 

Helena Moura, psiquiatra e psicoterapeuta, sugere que, no começo, se dê tempo ao tempo. "É normal que no momento do diagnóstico a pessoa tenha uma reação de choque emocional e demore um pouco até ‘cair a ficha’", afirma. Em um primeiro momento, a tristeza é previsível. Depois, precisa ser monitorada. "Não devemos considerar normal uma pessoa com câncer ficar deprimida. Muita gente consegue enfrentar esse momento sem muita angústia emocional, consegue dar valor a outras coisas. Não é normal ficar desesperançoso", aponta.

 

Já se sabe, de acordo com a psiquiatra, que a sobrevivência ao tratamento pode levar à depressão. Não pelo impacto físico do tratamento, segundo ela, mas pelo desgaste emocional. "Se o tratamento tiver causado mutilações e se a imagem corporal for importante para essa pessoa, se ela sempre foi elogiada por isso, pode ser que o impacto da doença seja muito maior", avalia.

 

 

O amor contra o medo

 

Além do óbvio impacto na saúde geral, o câncer e seus tratamentos são capazes de mudar o metabolismo, o humor, a forma de encarar a vida e, claro, os relacionamentos amorosos. No caso de Fernanda Santana Miranda, 35 anos, a doença fez com que sua relação se transformasse em algo ainda mais significativo. Ela descobriu o câncer de mama em 2013. Solteira, enfrentou dolorosas sessões de quimioterapia, radioterapia, mastectomia e uma cirurgia de reconstrução de mama. O medo de morrer, de não saber lidar com a feminilidade modificada pela perda e substituição dos seios, além da queda de cabelo, são as lembranças mais marcantes da época. Logo que o tratamento terminou, em 2014, a assessora conheceu Silvia Badim Marques. As duas se apaixonaram instantaneamente.

 

À época, Fernanda fazia tratamento com bloqueadores hormonais, para evitar que os tumores voltassem. "Foi um recomeço. Eu dizia que 2014 tinha sido um ano de renascimento, já que me curei e estava vivendo um relacionamento com uma pessoa especial." Os bons ventos trouxeram ainda uma nova proposta de emprego. Tudo estava dando certo, até que, em junho de 2015, uma tosse insistente não deixava Fernanda em paz. Remédios, atividade física, litros de água, nada parecia dar jeito. O oncologista estranhou e a tomografia revelou o duro golpe do destino: Fernanda estava com metástase pulmonar. No dia seguinte, a quimioterapia voltou a ser uma realidade. "A gente já falava sobre se casar em 2016. Foi um baque, uma rasteira." A doença havia retornado com força total e o medo de morrer, também. "Na primeira vez, você trata com expectativa de cura. Quando há metástase, os médicos não falam mais em cura, só em controle."

 

Arquivo Pessoal
 

 

Dessa vez, Fernanda não estava sozinha. Ela e a parceira pesquisaram sobre homeopatia, fitoterapia, meditação e o que mais pudesse ajudar. Os tratamentos alternativos amenizaram os efeitos colaterais da quimioterapia e fortaleceram o casal. Silvia levou-a para Abadiânia (GO) para meditar, para centros budistas, para exames e consultas. Fernanda precisaria de seis ciclos de quimioterapia. Ao fim do quarto, contudo, a maioria dos tumores havia sumido e os que insistiam em ficar já não tinham metabolismo algum. "Minha recuperação foi muito mais rápida, fiquei mais confiante. Antes eu era acompanhada só pelos profissionais do centro de oncologia. A questão afetiva fez toda a diferença. Quando eu só queria chorar, era ela que me reerguia."

 

Como na maioria dos casos, a vida íntima do casal estacionou. Não que a libido tivesse ido embora: era a cabeça que não estava preparada para pensar em mais nada que não a cura. Somados à turbulência emocional, os enjoos e o ressecamento causado pelos medicamentos impediam qualquer tipo de contato sexual no começo do tratamento. "É um momento que passa, mas nem todos os companheiros e companheiras entendem isso", completa Fernanda. "É um momento em que o relacionamento ‘ata’ ou ‘desata’. No nosso caso, nos uniu ainda mais."

 

A fase final do tratamento consistia na cirurgia de retirada dos ovários. O momento foi especialmente delicado. "A Silvia já tem o Bernardo, de 9 anos, que mora com a gente, mas queríamos um filho em comum", explica Fernanda. A ideia era usar os óvulos de Fernanda e, por inseminação artificial, implantá-los em Silvia. O câncer mudou os planos. Antes da operação, Fernanda ainda precisou passar por um ciclo preventivo de quimioterapia. Na semana da última sessão, o casal resolveu não adiar mais nenhum projeto: alugou uma casa do jeito que sempre sonharam, com quintal, piscina e horta.

 

Fernanda pensa sobre o futuro com emoção. O pânico causado pelo retorno da doença transformou-se em inspiração para viver o presente com toda a intensidade que o agora merece. "O câncer metastático é muito associado à morte. Mas conheço pessoas que estão há anos sem quimioterapia e com câncer e que têm qualidade de vida", justifica. A retirada do ovário está marcada para janeiro. O sonhado filho virá no futuro, por meio da adoção. Até lá, a ideia é aproveitar o momento ao máximo. "Tenho muita certeza de que 2016 vai ser um ano bom. A prioridade agora é curtir a gente, nossa casa e nossa família."

 

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