CRÔNICA DA CIDADE

A música de uma vida

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postado em 25/03/2016 08:00 / atualizado em 24/03/2016 17:13

José Varella/CB/DA Press
Sobre a mesa, repousava a caixinha preta. Na verdade, um estojo. Sérgio Morais levantou as travas e abriu com cuidado. Um narrador nato, pois saboreou o quanto pôde o momento prévio à revelação. Agora, todas as atenções convergiam para o instrumento metálico. A flauta principal de Altamiro Carrilho (1924-2012) dormia em berço aveludado. Na linhagem do choro, Altamiro segurava uma ponta da corda. Na outra, Joaquim Callado (1848-1880). Durante décadas, foi um no céu e outro na terra. Agora ambos olham por Sérgio, professor da Escola de Choro Raphael Rabello.

“Eu pensava: ‘Quantos gravações que eu cresci ouvindo foram tocadas nessa flauta?`. Poxa, os dedos dele passaram aqui. A boca encostou ali... Para uns, um pedaço de metal, um instrumento que não guarda nada, mas acredito que tenha essa coisa da energia. Foram muitos anos, muitos países viajados... Isso aqui é um paninho que protege a prata, para não escurecer. Fiz questão de manter até o santinho, que, se não me engano, é o arcanjo Gabriel. Tem o cheiro de fungo, porque muito antiga. Tá do jeito que ele deixou. Esse é um trofeuzão.”

Sim, um prêmio, que realiza a última vontade do mestre flautista. Todavia, o reconhecimento do legítimo herdeiro musical encerra apenas um capítulo. Muito precocemente, Sérgio experimentou emoções fortes. O prelúdio dessa história: “Meu pai trabalhou de tudo um pouco, mas grande parte da vida dele foi em edifícios residenciais do Plano. Nasci no bloco K da 314 Sul. Quando ele foi mandado embora, a gente morou um tempo na invasão da Telebrasília. Depois, ele foi ser porteiro num prédio da 314 Norte. Desde pequeno, com 6 anos, eu tocava flauta doce, porque fiz Escola Parque”. O primeiro instrumento, de brinquedo, foi fruto de uma pirraça homérica no Jumbo da 516 Sul, para desgosto da mãe.

Aos 13 anos, alguns fatos se alinharam até formar uma coincidência. “Ouvi um som arrebatador ecoando na quadra.” É que morava na vizinhança um músico profissional. Podemos dizer que, a partir daí, o adolescente montou campana até ser ouvido “acidentalmente” por Norberto Rocha, da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. E, de fato, foi um encontro decisivo, embora os efeitos não tenham sido imediatos. Primeiro, Sérgio precisava de uma flauta transversal. “Comecei a procurar emprego para comprar uma. Tinha que importar, era uma fortuna, um sonho bem difícil.” Sob protestos do pai, tornou-se porteiro.

A poupança, porém, nunca fazia frente à inflação do período. Essa constatação conduziu a um passou ousado: Sérgio fez um apelo numa emissora de TV. A cartinha enviada teve a sorte de ser lida por Aliene Coutinho, que providenciou uma reportagem emocionante. No mesmo dia em que as imagens foram ao ar, o jovem foi presenteado com um instrumento top de linha. O passo seguinte foi uma combinação mágica de aprendizagem musical com Norberto e Odette Ernest Dias, que culmina num recital de formatura na Escola de Música de Brasília. Eu gostaria muito de contar esse episódio, mas o espaço exige brevidade. Enfim, Sérgio me disse tudo isso para alertar: vale a pena prestar atenção nos outros. E concluiu: “Vibrar é produzir som. E produzir som é vibrar as pessoas.”
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