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Setor de Surpresas Sul

O Conic é como um clássico do rock'n'roll: mais cedo ou mais tarde, as novas gerações o descobrem e o incorporam com uma quantidade absurda de energia e criatividade

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postado em 03/04/2016 08:00 / atualizado em 01/04/2016 12:14

Na concepção de Brasília, Lucio Costa pensou em um lugar no centro da cidade que fosse referência para a cultura, para a diversão dos moradores da capital federal. Pensou em algo parecido com a Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro; na Times Square, em Nova York; na Champs Elysées, em Paris; em Piccadilly Circus, Londres. Pensou em painéis luminosos, travessas, bares e cafés para reunir a população da cidade, em cinemas de arte para entreter os brasilienses nos fins de semana.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Foi assim no começo. O Conic, inaugurado em 1967, foi ocupado por algumas embaixadas e órgãos públicos. Era frequentado pela sociedade da nova cidade. Mas, com a criação do Setor de Embaixadas, as representações internacionais saíram dos prédios e, com elas, boa parte dos frequentadores.

 

"A partir da década de 1970, o desenvolvimento das comerciais da W3, o Gilberto Salomão e Conjunto Nacional contribuíram para o enfraquecimento do comércio na região", explica o arquiteto Rogério Rezende em sua tese de mestrado Centro de Brasília: projeto e reconfiguração: o caso do Setor de Diversões Sul — Conic.

 

De lá para cá, o Setor de Diversões (SDS) passou por poucas e boas. Já foi conhecido pela prostituição e pelo tráfico de drogas, já abrigou festas homéricas em seus subsolos, teve seus cinemas substituídos por igrejas. Viu o melhor e o pior que Brasília tem a oferecer.

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

Hoje, é a representação fiel de um centro de cidade grande. Parece um pouco decadente para quem passa apressado, mas quem para percebe um lugar cheio de vida, de diversidade. É no Conic onde todas as tribos se encontram, e cada uma delas é completamente apaixonada pelo SDS, por seus caminhos e surpresas. É um caldeirão que vem, pouco a pouco, se reinventando, concentrando pessoas que não medem esforços para transformar o espaço, mesmo sem a ajuda (financeira) do governo.

 

Na alegria e na tristeza

 

Uma das figuras mais clássicas do Conic é o livreiro Ivan da Silva, 66 anos. A história do livreiro nos becos do Setor de Diversões é longa. Chegou em 1980. "Um amigo estava fechando uma livraria aqui e eu estava saindo de uma sociedade em uma livraria. Resolvi abrir a minha, com a minha cara, do jeito que eu queria. O Henfil veio inaugurar", lembra. Por muitos anos, a Livraria Presença foi uma das mais importantes de Brasília, referência na área e, hoje, empresta seu nome como apelido para o livreiro. Ivan da Silva virou Ivan da Presença.

 

Seis anos depois, Ivan abriu, perto do Dulcina, o Café e Bar Belas Artes. "Estava chegando uma tendência de livraria com um café em que as pessoas pudessem ficar lendo, resolvi abrir o meu perto da Presença", conta. Ponto de encontro obrigatório entre formadores de opinião, profissionais liberais e estudantes da cidade, o Belas Artes reinou até 1995. Naquele ano, o livreiro fechou também a livraria. Fecharam cinemas, teatros. "Quem consome livro de arte e cultura é classe média, e, na época do Collor, a classe média ficou sem dinheiro. Fechou tudo aqui", explica.

 

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

 

Ivan passou cinco anos procurando o que fazer até que o então prefeito do Conic sugeriu que o livreiro ocupasse uma banquinha que sempre foi abandonada. Nasceu aí o Quiosque Cultural, que vende livros usados (alguns raros) e serve de ponto de apoio para longas partidas de xadrez durante a tarde e para ocasionais saraus literários. Ivan continua tentando viver de livros, mas tem seu posto ameaçado. No ano passado, a Terracap pediu as chaves do Quiosque e, depois de muita luta e pressão popular, Ivan permaneceu onde estava. Agora, a última notícia é que o prédio onde fica a banquinha está à venda — e o livreiro deve se entender com o novo dono, se houver. A luta continua.

 

Apesar de animado com os novos rumos que o Setor de Diversões está tomando com o Dulcina Vive!, Ivan ainda acha que falta muito para voltar aos tempos de glória. "Para mim, o Conic hoje está de acordo com a situação da sociedade brasileira. Está estacionado, sem espaço para provocação. Antigamente, isso aqui era um espaço de criatividade. Dez cinemas, vários restaurantes. Hoje não tem mais provocação. A juventude precisa chegar e ocupar o Conic com novas ideias e novas energias", afirma. Está feito o convite.

 

Leia a reportagem completa na edição nº 568 da Revista do Correio. 

 

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Raimundo
Raimundo - 03 de Abril às 15:36
Ó céus! Clássico do rock'n'rol. Que fim triste para o rock'n'rol!