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A liberdade de estar só

Longe da idealização romântica que vê na relação com o outro a fórmula da felicidade, muitas mulheres rompem com esse padrão para viver as delícias de morarem sozinhas

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postado em 10/04/2016 08:00 / atualizado em 07/04/2016 12:37

"Que minha solidão me sirva de companhia." A frase, escrita por Clarice Lispector em Um sopro de vida, é um reflexo do que acontece com 70 milhões de brasileiros. Esse era, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o número de pessoas que moravam sozinhas em 2014. Mas o que pode soar como uma realidade angustiante, ganha a cada dia nuances mais leves. Para muita gente, não ter que dividir o espaço e/ou a vida com ninguém é sinônimo de liberdade. Com essa inspiração, a ilustradora mexicana Idalia Candelas criou uma série de desenhos, em preto e branco, que mostram as delícias de morar sozinha. As imagens fogem da ideia de que é impossível ser feliz sem companhia, pelo contrário. Revelam as maravilhas por trás dessa condição, que traz a oportunidade do autoconhecimento. Inúmeros motivos podem levar uma pessoa a morar sozinha — divórcio, estudo, trabalho em uma cidade diferente — mas a experiência ganha novas cores quando a vontade de ser livre é a opção. Nesse universo, as mulheres aparecem, cada vez mais, como protagonistas.

Idalia Candelas/Divulgação

 

Pesquisa feita pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas), também em 2014, mostrou que 46% das pessoas que moram sozinhas no país são mulheres. Dessas, 31% têm entre 25 e 34 anos. A idade de média em que os brasileiros estão se casando também aumentou, o que interfere diretamente no crescimento dessa taxa. Muita gente prefere experimentar a vida antes de se aventurar na divisão da cama, das contas, das responsabilidades e das decisões. Algumas sequer sonham com isso. Para muitas mulheres, o casamento não é mais obrigação. A maternidade também é apenas uma opção.

 

Andrea Guimarães, 51 anos, servidora pública, aos 9 revelou a uma prima o sonho de morar sozinha. O desejo passou. A jovem havia sido criada para se casar, ter filhos. Aos 27, tinha um namorado que amava muito. Ele, porém, precisou mudar de cidade e o relacionamento acabou. O casamento deixou de ser uma opção e, concursada e com boa situação financeira, Andrea viu que o próximo passo a ser dado era justamente sair da casa da mãe. Não estava, no entanto, tão feliz quanto a maioria das pessoas quando compram o primeiro apartamento. "Eu tinha sido criada de uma forma muito tradicional, num romantismo exagerado", relata.

 

Na nova fase, Andrea precisou desconstruir a idealização que a cultura patriarcal impôs a ela. Com o tempo, Andrea percebeu que morar sozinha está longe de ser sozinha. "Eu aprendi a valorizar cada relacionamento que tenho. Não apenas os amorosos. Invisto muito nas amizades", conta. Não espera convites para fazer nada. Ela mesma convida, e está preparada para ouvir negativas. Tem a vida estruturada para fazer programas sozinha, se for o caso.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press

Os amigos a veem como uma pessoa forte. Deles, nunca recebe julgamentos. Um ou outro confidencia uma pontinha de inveja que sente da liberdade que ela tem. Uma única vez que se sentiu agredida por ser sozinha. Uma vizinha descobriu que, quando jovem, Andrea rejeitou um homem que queria se casar com ela. Sem pudor algum, comentou: "Não quis o fulano, acabou sozinha".

Amores

É claro que Andrea teve outros namorados além daquele do início da vida adulta, com quem acreditava que se casaria. Por 12 anos, manteve um relacionamento sério, mas cada um na sua casa. Ele tinha filhos, o que complicava uma possível união. "Nós nos amávamos e tínhamos liberdade", conta. Por não ter filhos, a servidora pública tinha muito mais disponibilidade, então, conta que precisou se treinar para dar espaço ao outro e não se deixar ser manipulada por conta da condição de estar sempre disponível. A julgar pelo tempo que passaram juntos e o carinho com que Andrea se refere ao ex, é fácil apostar que os dois tiveram uma ligação de muito sucesso.

 

A servidora pública não tem problema em dividir espaços. De uma família de cinco irmãos, gosta da casa cheia e morar sozinha não significa estar com o apartamento vazio. Ele é preenchido com a presença de dois cachorros e de fotos que trazem lembranças das inúmeras aventuras que viveu, como de um curso de mergulho.

 

Leia a reportagem completa na edição nº 569 da Revista do Correio. 

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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guilhermina
guilhermina - 16 de Abril às 18:38
Nos dias de hoje, de poucos valores familiares e morais, ter marido e filhos é só um trabalho a mais. Poucos se dispõem a cuidar de alguém! A grande maioria das pessoas está a fim só de sugar o outro. Os melhores amigos de alguém, não são maridos, esposas e nem os filhos e, sim nossos cachorros, que nada exigem!
 
guilhermina
guilhermina - 16 de Abril às 18:34
Nos dias de hoje, de puro individualismo, ter marido e filhos é só um trabalho a mais para a mulher, já que poucos estão dispostos a se doar e, a imensa maioria das pessoas está a fim só de sugar o outro. Viva a liberdade!
 
Célio
Célio - 12 de Abril às 07:56
Uma bela desculpa para quem deseja justificar sua forma diferente de viver, mas a velhice virá, sim virá. existe uma frase bem conhecida do maior filósofo que já existiu, ele era chamado de SALOMÃO: " Aquele que vive isolado busca seu próprio desejo; insurge-se contra a verdadeira sabedoria". Provérbios Cap. 18 v 1
 
Flavio
Flavio - 11 de Abril às 08:09
De fato, sozinhas e mal amadas.