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Quatro vezes Brasília 4

Numa homenagem aos 56 anos da capital do Brasil, parte da equipe da Revista monta um mood board particular com referências de um lugar que não é só um lugar: na verdade, é um caso de amor. Nascidos em décadas diferentes, cada um a seu tempo e a seu modo, descobrimos que há muito em comum nas lembranças e nas vivências, mesmo entre gerações distintas

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postado em 17/04/2016 08:00 / atualizado em 15/04/2016 20:43

QUEM:
Juliana Contaifer

Nascida no Rio em 1990
Nascida para Brasília em 1991
Pais e irmã brasilienses
Criada debaixo dos prédios da Asa Norte

Sempre fomos nômades. Meus pais nasceram em Brasília para se conhecerem na faculdade no Rio de Janeiro, onde nasci. Quando eu tinha menos de 1 ano, voltamos todos para a casa da minha avó, na 404 Norte. De lá mudamos para a 416 Norte, onde me lembro muito de descer e catar amoras nas árvores do fim da Asa Norte; 411 Norte, 106 Sul, Águas Claras, que no começo era só barro e pó e, por ser longe, passávamos as tardes na casa da minha avó, na 412 Sul, nos prédios sem pilotis.

De Águas Claras, fomos para a 408 Norte, a 116 Norte. O destino seguinte foi a 412 Norte, nosso primeiro apartamento próprio, com um janelão na sala que quase deixava a enorme árvore vermelha crescer dentro de casa. Meus pais e irmã se mudaram para São Paulo, eu estudava na UnB e eu fui morar em uma quitinete no Lago Norte. Minha irmã passou no vestibular, voltou para Brasília, e nos mudamos para a 402 Norte, um dos prédios que inundam a cada chuva e que é um ímã perfeito para cigarras. De lá, voltamos, depois de muito tempo, para a Asa Sul, onde estamos contentes com as enormes janelas, as árvores e a vista do horizonte.

 

Arquivo Pessoal
 

Nessa vida de mudanças, de caixas e caminhões, ainda nos refugiamos durante reformas nas casas dos tios em Sobradinho e em Ceilândia. Passei boa parte da minha infância debaixo do bloco da casa dos meus primos no setor Lucio Costa ou debaixo dos nossos próprios prédios. Andei a cavalo muitas vezes na chácara da minha tia no Gama. Fiz muitas amizades, me pendurei em infinitos trepa-trepas, subi e caí de muitos abacateiros, brinquei de pique bandeirinha, caí de patinete na brita, desci correndo entradas de garagens, dancei Spice Girls no estacionamento, usei casquinhas de cigarra como broche.

Aprendi a andar de bicicleta no Eixão, em um domingo; fui atacada por coruja nos gramados indo para a escola; brinquei muito na piscina do clube; fiz aniversário no boliche da W3 Norte; namorei escondida atrás da pilastra. Vi Godzilla no Cine Karim, na primeira fila; assisti a filmes muito estranhos na Academia de Tênis; andei o Minhocão pra cima e para baixo; estudei na biblioteca da UnB para passar no vestibular; me perdi no Parque Olhos D’Água e acabei achando uma nascente; dei a volta no fim da Asa Norte muitas vezes para não ter que subir as temidas tesourinhas quando tirei carteira de motorista.

E sempre fui encantada com esse céu enorme e colorido. Esse céu que me acompanha onde eu vou, é comparação em toda cidade que eu visito. Foi o que mais me fez falta durante meu intercâmbio, e é, para mim, a melhor parte da seca (assim como os ipês-amarelos e as festas juninas, compensação para os lábios rachados).

Lembro muito das visitas da minha avó, que hoje mora no Rio. Era programa clássico assistir à missa na Dom Bosco e prestar mais atenção nos vitrais, nas sombras e no lustre do que no padre; seguir para a Catedral e comprar muitas flores secas para enfeitar a casa. Quando ela estava aqui, era dia de turista, de comer no Xique Xique e comprar pipoca na Praça dos Três Poderes. E de escutar as histórias de quando ela veio para Brasília e Brasília não era nada, dos dias de lavar roupa no Lago Paranoá, das amizades pioneiras que nunca mais se viram, do clima de construção de um sonho.

 

Ed Alves/CB/D.A Press
 

Acho lindo Brasília ter se transformado nessa cidade cheia de gente diferente, de tudo quanto é lado, com tudo quanto é sotaque, e que é uma cidade diferente e especial não só pela arquitetura, mas por quem vive nela. Adoro visitar meus amigos e ver as influências dos estados natais das famílias na decoração, passear com minha cachorrinha debaixo dos corredores de árvores, sair do trabalho e olhar o pôr do sol pelo retrovisor do carro. Já comprei muita briga com quem diz que Brasília é estranha, que não funciona porque não tem esquina, que só tem político corrupto. Já ri de quem me pergunta se eu moro no cockpit ou na cabine do avião, de quem fica com medo de passar debaixo de um prédio e ser expulso pelo porteiro.

Com 30 anos a menos que Brasília, acho que envelhecemos juntas. Nossos aniversários só têm 20 dias de diferença e a cidade vai evoluindo enquanto eu vou crescendo. A cada dia, ela me mostra novas opções, novos lazeres, novos caminhos, novas pessoas, novas experiências e novas belezas. Aqui é onde me sinto segura, mesmo quando a criminalidade sobe; onde sei chegar em qualquer lugar e encontrar qualquer coisa. Só sou carioca na Carteira de Identidade.

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