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De ator a ativista: conheça Marcos Palmeira por trás das telas

Artista global, ele atende todos os requisitos de um cobiçado galã. Fora dos palcos e das novelas, porém, Marcos Palmeira prefere ter reconhecidos seus trabalhos como empresário de orgânicos, fazendeiro, ativista ambiental e defensor das causas indígenas

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postado em 17/07/2016 08:00 / atualizado em 15/07/2016 18:03

Ronaldo Nina/Divulgação
Marcos Palmeira, 52 anos, é um homem comum. Apesar de dispensar apresentações, o ator/galã, que já foi indicado ao Emmy Internacional, em 2013, pela série Mandrake, é também empresário do ramo da agricultura orgânica, dono de um armazém e de uma fazenda especializados nessa linha de produtos. Mas não se enxerga como alguém diferente: "A visibilidade da minha profissão não me torna especial nem me dá o direito de fazer as coisas por conta disso", afirma. %u3000

Marcos se casou pela segunda vez este ano. O palco do enlace com a diretora Gabriela Gastal foi a fazenda da família dele no sul da Bahia. Lá estavam, além de parentes e amigos, funcionários da fazenda e conhecidos da pequena cidade de Itororó. Convidaram pessoas que são referência na própria vida. A festa teve banda da cidade e um cantor que anima vaquejadas na região. Nada de paparazzi ou lista VIP recheada de famosos. "Foi incrível. Sempre na simplicidade, não teve uma conotação promocional. Eu sou assim."

Marcos gosta de debater política, de levantar as bandeiras dos temas que apoia. Usa a fama que tem para discutir a causa indígena, o problema do agronegócio, a importância da alimentação orgânica e também a corrupção no país. Fala rápido, fala com paixão, mas com jeito manso. Conversar com o ator pelo telefone é como bater papo com alguém conhecido. Talvez seja pelo forte sotaque carioca, tão informal, talvez seja pela naturalidade com que divide suas opiniões ou por causa da voz que se tornou popular depois de ele fazer 38 filmes e mais de 20 novelas.

O ator/empresário conversou com a Revista e falou um pouco de tudo: política, religião e projetos futuros. De novela, da convivência com os índios, de agricultura orgânica. O resultado dessa bate-papo tranquilo você confere nas próximas páginas.

Convivência com os índios

"Fui passar um tempo com os índios em 1978. O meu pai (o cineasta Zelito Viana) fez um documentário sobre os xavantes e eles foram lá para casa no Natal. Depois, eles me convidaram para ir a uma festa que ia ter na aldeia, e, a partir daí, começou minha relação com os índios de modo geral. Eu estava no fim da adolescência. Foi um choque incrível na minha vida. Estava tendo uma festa, que é quando os adolescentes viram adultos. Eu estava lá, exatamente participando disso. São danças, rituais indígenas. É um mês todo de festa.

Tive a oportunidade de voltar anos depois. Participei da mesma festa, mas desta vez como padrinho de uma criança. Foi em 2004, para fazer o documentário A’uwe, para levantar as questões deles, entender o quanto melhorou ou piorou nesses anos todos. O documentário virou uma série, que virou um programa na TV Cultura. Foi o primeiro programa sobre índios. Tudo o que dizia respeito à causa indígena, a gente passava. Era uma janela para eles.

Era um programa que tinha um fôlego enorme e estávamos passando para produções internacionais ligadas aos índios. Infelizmente, quando mudou a presidência da tevê, João Sayad não se interessou mais e as coisas ficaram muito difíceis. Ele logo perguntou: ‘Quem é que se interessa por índios no Brasil?’. Colocamos a viola no saco, e fomos embora. Se a gente tivesse uma tevê pública decente no Brasil, era um programa perfeito. Quem está pensando no Brasil? Quem se preocupa com este país? Eu não sei. É complicado."
 
O Vale das Palmeiras

"Tenho uma fazenda orgânica em Teresópolis, a Vale das Palmeiras, e um armazém, no Leblon. Acho que a agricultura orgânica é o que realmente interessa. É um alimento nutritivo, de verdade. É um negócio no qual você fomenta o pequeno produtor, onde você produz com qualidade. Por que as mães procuram produtos orgânicos para os filhos? Por que a grávida tem tanta preocupação com a alimentação? Porque a alimentação é fundamental.

Acho que existem coisas pontuais acontecendo no sentido de popularizar a alimentação orgânica, mas enquanto não virar política pública… Hospital, por exemplo, só poderia servir comida orgânica, e aí você mudaria toda a cadeia produtiva no entorno, no hospital, na escola, na creche. Começaria a fazer sentido. Começaria a fazer volume. Não existe nenhum marketing atrás da agricultura orgânica bancando a gente. Já o agronegócio tem empresas enormes por trás.

Vai fazer 20 anos que tenho a fazenda. Melhorou muito a recepção do público em relação aos produtos. É um mercado em ascensão, sem dúvida, que cresce 30% ao ano. O Brasil continua tendo um potencial orgânico e ambiental muito forte. A novela (Velho Chico) está falando de agricultura orgânica, agrofloresta, e ter esses temas dentro de uma novela da Rede Globo é algo muito importante.

Lancei por último uma marca de chocolates, a Vale das Palmeiras, que é uma parceria com a fazenda de cacau da minha família no sul da Bahia, a Cabana da Ponte, com a Chokolah, de São Paulo. Fizemos um chocolate realmente maravilhoso, 70% cacau. Tem com nibs e sem, que são pedacinhos de cacau. É uma delícia."
 
Caiua Franco/TV Globo%u3000

 
Paternidade

"A gente sempre tem a vontade de ser pai de novo, mas agora não estou mais tão ansioso para isso. Minha mulher tem filhos, eu tenho uma filha (Júlia, 8 anos, do casamento com a diretora Amora Mautner). Mas uma criança é sempre bem-vinda. A experiência da paternidade tem sido incrível. De certa maneira, me enraizou. Ganhei uma liberdade com mais consistência. A maturidade traz muito isso.

Eu não fico catequizando minha filha com nada, tento ser o melhor exemplo que posso. Ela vai ter o discernimento dela, a própria personalidade. Ela é livre. Mas é uma criança que se alimenta superbem, muito bem-humorada. Ela tem o espírito da família que é de gente muito engraçada. Não tenho nenhum tipo de cobrança, não idealizo o filho perfeito. Estou muito feliz com ela.

A guarda dela é compartilhada. No somatório do mês, ela acaba ficando uns dois dias a mais com a mãe. Fazemos muitas coisas juntos: vamos para a fazenda, ela adora ler, passear com cachorro. Júlia é muito companheira, é minha parceiraça. É muito parecida comigo, tem um lado muito urbano e um bastante rural, de se sentir à vontade..."

Medicina antroposófica

"Trabalho com biodinâmica há 20 anos. Comecei lá atrás, com a antroposofia na agricultura. Conheci as ideias de Rudolf Steiner, que foi quem criou a biodinâmica, e descobri a aplicação disso em várias questões: na educação, na agricultura, na medicina. Também tinha uma tia homeopata, que se especializou em antroposofia e me indicou a doutora com quem me trato há uns 10 anos. Estou muito feliz, tenho me dado muito bem com essa abordagem. A minha filha também toma as bolinhas.

A antroposofia trabalha como a agricultura, que é a extrema fertilização do solo. Na medicina, é a extrema fertilização do ser humano. Ela enxerga o indivíduo, que é um ser específico, dentro do Universo, em um cosmos. Ela trabalha exatamente na prevenção, que é um pouco do princípio da homeopatia, mas também atua na solução do problema. Melhora a sua saúde para que você tenha uma vida saudável. Ela não cuida só da doença, mas olha você como um todo, seus dramas, suas dificuldades, suas inseguranças, e atua nessa área. Não chega a ser uma terapia, mas ajuda bastante nessas questões de ansiedade, de medo, por exemplo.

São remédios manipulados. No Brasil, alguns laboratórios fazem, mas o grosso mesmo são produtos da beleza, que a gente consegue muitas vezes quando viaja para fora. A Weleda, por exemplo, é uma marca incrível, na qual todos os produtos são antroposóficos.

Não sei o que é medicina alopata há mais de 10 anos, mas sempre tive essa visão mais alternativa. Não descarto em uma emergência, uma cirurgia, não dá pra negar a medicina. Mas acho que não pode ser usada para tudo, não pode ser preventiva. Hoje, não se respeita o ciclo do vírus, você já atua. As pessoas tomam antibiótico para tudo e se esquecem do todo. Quando veem, estão com o intestino, o estômago, a boca, a garganta ferrados. São os efeitos colaterais."
 
Ronaldo Nina/Divulgação
Equilíbrio

"Estou sempre em busca de equilíbrio. A gente nunca está completamente equilibrado, nem o Dalai Lama consegue. É um exercício que tem que ser prazeroso. Não pode ser uma coisa que te traga sofrimento. Tem que fazer parte da sua essência, de querer estar em equilíbrio. Faço terapia há uns 14 anos, mas sempre procuro também terapias alternativas, massoterapia, massagem para equilíbrio dos chacras. Acho que é isso que os planos de saúde deviam pagar para deixar de ser plano de doença."

Religião

"Tenho uma relação com os índios muito próxima até hoje. Primeiro com os xavantes e, agora, com os xingus. Não tenho uma religião específica, mas acho que a minha está muito focada na natureza. Tenho muita fé, sou um cara bastante positivo na minha vida e no meu cotidiano. Acho que bom humor é tudo, é o segredo da vida. O espiritismo tem uma coisa interessante, os orixás também são muito interessantes, pois lidam com as forças da natureza, nas quais acredito muito. Acho muito perigosa esta mistura de religião com política. Vemos o que a bancada evangélica é capaz de fazer, uma coisa que não tem nada a ver com o Evangelho. São grupos que se utilizam da religião para se beneficiar."

Envelhecimento

"Eu me sinto cada vez mais próximo da maturidade que a gente busca. De certa maneira, tento me manter com o máximo de saúde possível, continuar jogando futebol, tênis, fazendo pilates, andando de bicicleta, carregando minha filha no colo. É tentar ter essa qualidade de vida. Acredito que a vida não foi feita para ser longa, foi feita para ser larga. Ampla. Procuro amplitude, qualidade de vida, melhorar o meu dia a dia.

Digo que quando fiz 40, foi minha melhor fase. Minha mãe até não gostou, falou que parece coisa de velho. Eu não me troco por dois de 20, de verdade. Agora, estou tirando outros benefícios, na experiência, na qualidade do meu trabalho. Eu me sinto muito mais preparado como ator, entendo muito mais algumas questões que não entendia. Acredito que vai ter um momento em que a gente entra em declínio, mas, até lá, já vamos ter lidado com tantas coisas que chegará de uma forma natural. Acho que já estou jogando o segundo tempo. Não tenho pretensão de viver até os 100 anos, mas tenho a pretensão de viver bem hoje."

O agronegócio no Brasil

"Fiz um trabalho de agricultura sustentável com os xavantes por um período, mas essa relação com os índios enfrenta muitos problemas. Não existe uma política indígena até hoje. Quando a gente vê esta campanha do agro tão forte, esta coisa da salvação do Brasil, infelizmente, continuamos a acreditando na produção de matéria-prima e pouco no desenvolvimento da cadeira produtiva, que é quem produz alguma coisa nesse país.

Acho que o problema é business. Temos uma bancada ruralista muito forte no Congresso. Eles falam em nome dos produtores, mas, na verdade, são produtores de soja e de milho, que são commodities. Eles não produzem comida, quem faz isso é a agricultura familiar. Eles têm marketing. Todo mundo está ganhando ali. Nós saímos de uma ministra da agricultura, a Kátia Abreu, e agora estamos com o Blairo Maggi. A coisa só vai piorando.

Para mudar? Tem que mudar a política brasileira. Mudar tudo. Infelizmente, a gente vê que não houve mudança. Passamos 14 anos de governo PT, tivemos o governo do PSDB e nada foi feito de verdade que mudasse essa realidade. A gente teve estabilidade econômica, que foi muito importante, na época do governo FHC, acho que ali tivemos alguns avanços. Mas a política agrária… Eu fico muito impressionado quando eu vejo o MST defendendo o PT. Eles deviam estar revoltados com o PT, que teve a chance, mais de 10 anos, e não conseguiu fazer a reforma agrária. É muito estranho.
 
Ronaldo Nina/Divulgação
Política

"Estou ligado à Rede Sustentabilidade porque acredito que eles enxergam um pouco mais além do próprio umbigo. Mas que também têm que ficar atentos para não virar algo totalmente diferente no futuro.

Toda vez que a Marina Silva vem ao Rio, procuro promover um encontro com ela. Ela tem um discurso, que transcende à própria Rede, sobre o entendimento da formação de um novo cidadão, que é essa consciência da participação da população, de ser ativo. Todos nós somos políticos, temos atitudes políticas. Não tem como fugir.

Quando se dá uma oportunidade para a Marina falar, ela toma conta. Ela tem capacidade de articulação, é muito inteligente e não está contaminada. Marina Silva não é uma eterna candidata à presidência, não sabe nem se vai concorrer às próximas eleições. Ela quer fomentar essa discussão, que a gente saia da mentira, que abra as cartas na mesa, com clareza. Isso é o que está faltando. Tem muita hipocrisia, muita demagogia.

Acho importante fomentar essas discussões. Todo mundo não tem uma opinião? Vamos ouvir as opiniões então. Vamos discutir e não só ficar no ‘sou a favor disso, sou contra aquilo’. Vamos entender: eu posso ser contra algumas coisas que você acha, mas podemos ter um ponto em comum que permita que sigamos juntos.

Tem que vir gente jovem, no Ministério Público mesmo. O Brasil tinha que se unir contra a corrupção. A melhor forma de unir o país é dar força para a Lava-Jato, para o Ministério Público.

Aquela votação do impeachment mostrou o que a gente já sabia. Na época do Collor, foi igual. Os mesmos que criticaram os deputados que estavam dedicando voto à família fizeram isso na época. O discurso só interessa quando é a seu favor. Não existe o discurso da ideologia verdadeira pelo Brasil. Quem está abrindo mão do quê? Tá todo mundo ganhando, todo mundo mamando nas tetas do governo. É revoltante. Sindicalizamos demais o país. Dividimos o Brasil ao meio. "

Ação como figura pública

Ajudo tendo coerência, produzindo o que produzo, procurando alimentos orgânicos, tendo uma alimentação saudável. Tentando ter o mínimo de equilíbrio na minha vida, nas minhas decisões. Não ser radical. Sabe, acho que falta entendimento. Está tudo muito radicalizado dos dois lados. Todo mundo está muito opinativo, mas tem coisas que não sei opinar, não me posicionei ainda, então, vou pensar, não vou opinar. As pessoas têm que pensar. Porque quando você vê, está agindo a favor de um grupo.

Estou em uma campanha com alguns artistas pelas 10 medidas anticorrupção do Ministério Público. O discurso que se construiu nos últimos 10 anos é de: ‘se você não está comigo, então está contra mim.’ O PT criou muito isso, onde eles ficaram donos do que é bom para o Brasil e qualquer pessoa que discordasse quer o mal do país. Isso não nos beneficiou em nada. Está na hora de as pessoas se unirem. Tenho amigos de infância brigando, se desentendendo por causa de política. O bom disso tudo é que elas estão discutindo política, se interessando mais, pensando melhor em quem vão votar."
 
Ronaldo Nina/Divulgação
Embaixador da Anistia

"Sou muito amigo do Átila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil, há uns 10 anos. Acho o trabalho deles incrível e a gente tem que ampliar o leque. O que acontece na política é um reflexo de tudo o que construímos no país. Não tem investimento em educação, o negro ainda sofre preconceito. O que eles estão fazendo com a Lava-Jato, que as pessoas ficam revoltadas, fazem todos os dias nas favelas. Chegam lá e chamam o cara pra ser interrogado, entram dando porrada, dando tiro. Mas não dá nem para culpar a polícia, ela é despreparada e foi criada para isso. Isso me dá um pouco de angústia, ver que não vai mudar nada tão cedo. Mas acho que cada um tem que fazer a sua parte e tento fazer a minha."

A novela Velho Chico


"É uma novela muito rica. O casamento perfeito entre o Benedito Ruy Barbosa e o Luiz Fernando Carvalho. Todos os diretores têm uma afinidade muito grande e é um tema que me interessa. Considero que a melhor cara do Brasil está no interior, assim, poder falar de agrofloresta em uma novela das 20h é importante. É interessante por dar uma opção ao agronegócio, porque agricultura orgânica e a agrofloresta também é agronegócio, mas de outro tipo. Eu me sinto superconfortável de estar neste papel. Entrei de olhos fechados, não sabia como seria, pois a sinopse não dizia quase nada. A gente vai desenvolvendo e estou muito à vontade. É uma parceria antiga com todos os diretores. Já trabalhei muito com eles."

Futuro profissional


"Acabando essa novela, que foi uma grata surpresa e estou adorando fazer, começo um documentário chamado Manual de sobrevivência ao século 21, que mostra o que está sendo feito no Brasil para a melhoria da qualidade de vida. É muito interessante. Dirigido pelo João Amorim, que é um cara focado nas questões ambientais. Vamos mostrar experiências que dão certo. É quase um reality show. Vou ser o âncora e ter acesso a várias dessas experiências.

Começamos a gravar em novembro. Tenho um descanso de 15 dias depois de terminar a novela e começamos a fazer o documentário. A ideia era fazer no mundo inteiro, mas não conseguimos verba. Foi uma dificuldade muito grande para conseguir apoio. Vamos focar aqui no Brasil. Estou muito animado, pois tem a ver com o que eu acredito. O que faço com o meu trabalho na agricultura orgânica é isso, um fomento da melhora da qualidade de vida. Procuro criar ações hoje que eternizem, algo que leve a uma vida melhor.

Em agosto, estreia no Multishow a série E aí... Comeu.? Fiquei muito feliz com o que eu li, tem qualidade de texto. O Bruno (Mazzeo) foi muito feliz. A série tem uma dinâmica muito equilibrada, muito otimista, que espero que o Multishow banque. Desta vez, o roteiro vai mais fundo na vida pessoal dos personagens, é mais rico nesse sentido. É muito interessante e acredito muito no projeto."

 
 
 
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