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Conheça histórias de crianças que exercitam a solidariedade desde cedo

Algumas crianças revelam de modo espontâneo sentimentos de empatia. Aos pais, cabe apoiá-las e sugerir desafios compatíveis com a idade

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postado em 09/10/2016 08:00 / atualizado em 08/10/2016 15:25



O sonho de toda mãe e todo pai é que os filhos sejam felizes e que, uma vez crescidos, usem seus talentos para o bem. Às vezes, porém, os pais percebem nos pequenos uma vocação precoce para a solidariedade — e passam a incentivá-los. "Quando falamos em educação em nível social, de empatia, isso tem que ser feito em contexto. A família tem que dar o exemplo", aconselha a psicopedagoga Cíntia Torres.


Minervino Junior/CB/D.A Press
Na verdade, a disposição contrária é mais comum: os pequenos atravessam normalmente uma fase egoísta, pois ainda não formaram uma consciência do "outro". "Com os pais, eles aprendem o que é atenção e carinho e, assim, passam a oferecer ajuda aos coleguinhas, por exemplo. Estimular as crianças com práticas que as levem a fazer o bem, como plantar uma árvore ou cuidar de um animal, podem estimular o senso de solidariedade desde cedo", esclarece a psicóloga Joyce Cassimiro.

 

O casal de servidores públicos Bruna Alencar e Fabiano Alencar instiga esse sentimento em Felipe, 6 anos, de uma forma leve: a doação de brinquedos. "Quando o quarto começa a ficar muito cheio, nós já falamos que está na hora de doar. Tem tanta gente que precisa e tanta coisa que acaba ficando de lado", explica Fabiano.

 

No ano passado, Felipe fez questão de doar alimentos a um abrigo de mulheres grávidas e crianças. A iniciativa veio depois de presenciar uma cena que lhe tirou o sono: a família passou de carro por alguns contêiners de lixo na quadra comercial perto de casa. Neles, adultos e crianças procuravam comida. Felipe perguntou à mãe o que aquelas pessoas estavam fazendo e ficou agoniado com a resposta. "Mãe, não é justo pessoas comerem comida do lixo. A gente tem que dar comida a eles. Eles estão com fome", protestou.

 

Felipe não se conformava com o que tinha visto. Os pais relatam que, ao chegar em casa, o pequeno abriu a geladeira e começou a esvaziá-la. A mãe precisou conversar muito para acalmá-lo. "Vixi, mãe, então vou ter que estudar mais para trabalhar e ganhar mais dinheiro para ajudar essas pessoas", desabafou. E, assim, Bruna fez a promessa de que a família ajudaria os mais necessitados. Segundo a psicóloga Joyce Cassimiro, em situações como essa, o melhor a fazer é mesmo acolher os sentimentos da criança — explicar o que pode ser feito e que todos precisam cooperar para fazer do mundo um lugar melhor.

 

Emocionada com a sensibilidade do filho, Bruna relatou o episódio em uma rede social. A repercussão foi grande, de modo que amigos dela também resolveram doar alimentos. A história se espalhou também pela escola, mobilizando outros pais. "Não precisavam ajudar especificamente o abrigo escolhido. Se fizessem algo bom onde moram já seria ótimo", explica Bruna. A partir do empenho do garoto, foi criada uma verdadeira corrente.

 

Detalhe importante: no supermercado, na hora de comprar as doações, Felipe proibiu a doação de qualquer coisa que tivesse origem animal. Por decisão própria, ele é vegano. Desde cerca de 2 anos, recusa-se a comer carne por amar os animais. Foi um período difícil para os pais, acostumados com a alimentação tradicional e preocupados com a saúde do filho, mas, depois de muita insistência, os pais cederam à escolha. Com o tempo, ele parou também de consumir leite e ovo. Hoje, a mãe também é vegana, e o pai trocou a carne bovina e de frango por peixe.

 

Uma ativista precoce da libertação animal

Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press

Elisa de Veiga tem 8 anos e, desde março passado, não consome nenhum tipo de carne, além de se recusar a usar qualquer produto que seja testado em animais. Segundo a mãe, a advogada Ludmilla de Veiga, a filha sempre teve essa consciência sobre os bichos. "Ela leu sobre isso na internet e decidiu que não comeria carne. Não tem nenhum vegetariano na família, foi por conta própria", explica.

O maior sonho de Elisa é poder recolher os animais abandonados da rua. "Quando eu crescer, vou ter uma casa muito grande só pra ter todos os animais que eu resgatar", diz. Certa vez, a pequena se recusou a participar de uma visita da escola ao zoológico. "Eu não gosto. Fico imaginando se me tirassem da minha mãe e me colocassem num lugar para todo mundo ficar olhando", conta. Na casa em que vive com a mãe e o padastro, Elisa tem dois cachorros. Um deles foi resgatado.

Ludmilla coleciona várias histórias engraçadas protagonizadas por Elisa. Houve uma ocasião em que a pequena decidiu criar uma joaninha. "Ela colocou numa caixinha com vários furos e tentou alimentar, mas a joaninha morreu. Eu tive que mentir que ela estava se fingindo de morta", recorda. Outra decisão de Elisa, mais radical, foi deixar de visitar a avó na fazenda. "Eu tive aula de geografia um dia e descobri sobre a agropecuária. Eu não sabia que as vacas e os bois iam para o abate, e, na fazenda da minha avó, tem", justifica a ativista precoce.

Sobre a questão do veganismo da filha, Ludmilla relata que nunca se opôs e procurou orientação de uma nutricionista. "Eu tive uma criação muito restritiva por parte dos meus pais, então eu tento apoiar a Elisa. Ela tem a opinião muito forte, mesmo com 8 anos — é assim desde pequena", observa.

 

Chega de empadinhas e brigadeiros!

 Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Pedro Fioravante, 6 anos, também acha errado matar animais para os humanos comerem. "Se eu disser que uma coxinha é de cachorro, vão se assustar, mas e o frango?", compara. Para ele, não há distinção entre uma vaca e os animais domesticados e que vivem em apartamento, como gatos, peixes, pássaros — e também como o seu cachorro, Thor. Se a mãe de Pedro, Laísa Fioravante, 28, dá uma bronca, Thor vem imediatamente defendê-lo. Se quem fez algo errado foi o Thor, Pedro também intercede. "Eu converso com ele, falo para não fazer mais. Não grito, não bato", conta. Na granja do tio, o menino é amigo de galinha. Na casa de um amigo, de um gato.

Pedro tinha uma influência forte para ser vegano e vegetariano: os próprios pais. Apesar disso, os dois nunca impuseram a alimentação diferenciada ao filho. Em casa, a alimentação era mais restrita, mas, na rua, com avós, tios e tias, ele comeria o que quisesse: bolo, sorvete, chocolate e carnes em geral. Com o tempo, ele mesmo optou por não comer essas coisas, apesar de não ter nenhum problema com o gosto. É uma questão de ideologia mesmo.

"Nós deixávamos ele em festas de aniversário, cheias de empadinhas e brigadeiros, e ele voltava com fome", conta Laísa. Pedro, então, começou a pedir para mãe organizar uma lancheira quando fosse para essas festinhas. "Nós ainda tentamos conversar com ele, que não tinha problema ele comer, se quisesse, mas foi uma escolha dele. Disse que amava os animais", relembra. Com relação ao brigadeiro, além de ter leite, não o interessava — ele gosta mesmo é de paçoca.

Os pais resolveram, então, levá-lo a um nutricionista para garantir uma dieta equilibrada. Em substituição à carne, o profissional recomendou que comesse muitas verduras verde-escuras e que fizessem checapes com frequência. Pedro não conhece mais nenhuma criança vegana. Os amigos dele estranham a restrição alimentar, mas não implicam. Ele conta que o que não pode faltar na lancheira é castanha. Além disso, a mãe sempre coloca alguma fruta — uva, melancia, banana, ameixa etc. A manteiga de Pedro é de amendoim e ele gosta dela com um pouco de melado no pão.

 

Ensinando cidadania

Luísa Teixeira de Moura, 10 anos, está no movimento escoteiro há pouco mais de um ano. Por causa da idade, ela é ainda lobinho. Os participantes se dividem por faixas etárias em: pioneiros (dos 18 aos 21 anos), sêniores (dos 15 aos 17), escoteiros (dos 11 aos 14) e lobinhos (dos 6 aos 10). Cada um desses grupos tem a sua própria promessa. A dos lobinhos e, consequentemente, a de Luísa é "fazer o melhor possível para: cumprir meus deveres para com Deus e a minha pátria; obedecer a Lei do Lobinho; e praticar todos os dias uma boa ação". A ideia é que eles tentem sempre dar o melhor de si em tudo o que fazem.

 

Minervino Junior/CB/D.A Press

A mãe de Luísa, a servidora pública Marília Augusta Teixeira de Moura, 43, já havia participado do movimento, então, perguntou à Luísa se ela queria conhecer. Quis, gostou e ficou. O irmão mais novo conta os dias para entrar também. Ele tem só 5 anos. "O grupo escoteiro trabalha muito a autoconfiança, o respeito ao próximo", explica a mãe.

Luísa está sempre disposta a ajudar, esteja ela em alguma atividade de sua "alcateia" ou não. No último acampamento do qual participou, na semana passada, uma colega perdeu o arganel, que prende o lenço que usam. Ela não pensou duas vezes e ajudou a procurar. Em casa, ela trata o irmão mais novo com carinho e é respeitosa com os pais.

Segundo Átila Costa, presidente do Grupo Escoteiro José de Anchieta, que se reúne no Parque da Cidade, o movimento escoteiro é voltado para ações de educação que construam jovens mais conscientes. "Na escola, é tudo voltado para nos avaliar. Aqui, não", compara Luísa. Átila ressalta outro diferencial: "No ensino tradicional, aprende-se tudo separado. Na vida real e nos encontros de escoteiro, é tudo misturado".

O grupo já fez coleta de óleo e oficina de sabão. Com isso, aprenderam sobre a importância de reciclar e reaproveitar o que parece não servir para nada. Os encontros dedicados à consciência ecológica são vários. Em outra ocasião, foram plantadas quase mil mudas de ipê. Trouxeram as aulas de ciências e biologia para a prática e ainda deram lições de cidadania. Luísa já plantou espécimes do cerrado e tem orgulho em especial de um flamboyant. Além disso, a menina participou de um mutirão para recolher lixo na beira do Lago Paranoá.

E tem mais: a lobinha também se engajou na arrecadação de brinquedos e roupas para creches da cidade. A campanha foi feita com o grupo de palhaços chamado Anjalhaços. Ajudar a quem precisa é importante no movimento escoteiro, afinal, quando se vira pioneiro, aos 18 anos, a palavra de ordem é "servir". Luísa não vê a hora de virar escoteira, quando completar 11 anos, e não pretende largar o movimento tão cedo. 

 

Uma carta comovente

Internet/Reprodução

No mês passado, uma carta destinada ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comoveu não só a Casa Branca, mas o mundo inteiro. Impressionado com a foto do garoto sírio Omran Daqneesh, de 5 anos, que havia acabado de ser resgatado dos escombros de um prédio bombardeado em Aleppo, Alex, 6, resolveu fazer algo a respeito. Então, escreveu um apelo ao presidente norte-americano: "Você pode, por favor, buscá-lo e trazê-lo para a nossa casa? Nós estaremos esperando por vocês com bandeiras, flores e balões. Vamos dar a ele uma família e ele será nosso irmão". No texto, Alex se propõe a emprestar sua bicicleta e seus brinquedos, já que Omran não tem nenhum. Ele também se mostra interessado em aprender a língua de Omran e conta que tem um amigo sírio na escola. As palavras de Alex foram citadas pelo presidente Obama na cúpula das Nações Unidas sobre a crise dos refugiados.

 

Cabelo que salva

Internet/Reprodução
O americano Thomas Pulos, 8 anos, também tomou uma atitude bonita após se sensibilizar com a história de Kissy Andrews, uma menina que precisou raspar o cabelo por causa do tratamento contra o câncer. Por dois anos, ele deixou os cabelos crescerem com o intuito de doá-los para a confecção de perucas. Como seus fios são crespos, foi bem trabalhoso. Chegou a usar tranças por um tempo, pensou em desistir, mas seguiu em frente e, no mês passado, alcançou seu objetivo. Os cabelos foram suficientes para três perucas.

 

 

 

 

 

 

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