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TEATRO

A rotina dos artistas brasilienses em cartaz na capital paulista

Atuando na montagem brasileira do clássico musical My Fair Lady cinco brasilienses levam o nome da cidade ao mundo teatral. A rotina dos artistas é cheia de disciplina e treinamento

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postado em 03/11/2016 13:24 / atualizado em 03/11/2016 14:01

Eles não conseguem se levantar antes das 10h. O acordar tarde pode ser confundido com boemia e até mesmo com preguiça, mas está mais próximo da necessidade. Os artistas brasilienses em cartaz com o musical My fair lady, em São Paulo, só podem se despedir dos personagens ao fechar das cortinas, o que ocorre depois da meia-noite. Alguns, como o ator e cantor barítono Sandro Christopher, 45 anos, que está hospedado em um flat, acordam cedo para tomar café da manhã e precisam voltar para debaixo das cobertas por mais algumas horas. Caso contrário, fica difícil manter o ritmo das danças até tarde da noite.
 
João Caldas/Divulgação
 
 
A rotina de um artista ainda carrega uma aura de festa, de farra — o que não deixa de existir nas risadas e na cumplicidade trocada nos bastidores e nos jantares pós-espetáculo —, mas a disciplina e o trabalho são intensos. Os irmãos Ana Paula, 26, e Rafael Villar, 33, costumam ir direto para casa depois da apresentação, salvo se houver uma balada realmente imperdível. Eles, assim como os colegas de palco Fred Silveira, 43, e Daniel Cabral, 26, decidiram se mudar em definitivo para a capital paulista. Agora, formam uma grande família.

Quando o cansaço ainda não tomou conta, parte do elenco gosta de se juntar em uma mesa de bar para relaxar a mente. Nos dias em que não precisam estar no teatro, aproveitam para se reunir na casa de alguém para jogar, conversar e fofocar um pouco — ninguém é de ferro! Às quintas e sextas-feiras, o grupo tem apenas uma sessão para performar. O musical começa às 21h, mas os artistas precisam estar no teatro pelo menos duas horas antes. O primeiro compromisso é o aquecimento corporal, feito com a coreógrafa. Exercícios de alongamento e de consciência física fazem parte desse momento.

Em seguida, vem a preparação na qual algumas cenas do espetáculo são repetidas, geralmente aquelas em que a produção percebeu falhas. São feitas correções individuais e em grupo, e cada artista recebe uma nota de acordo com a performance. Pouco antes da peça, todos voltam aos bastidores. Os camarins são mistos: nem os protagonistas têm seu próprio espaço, o que facilita a interação do elenco. Em espelhos iluminados, daqueles que vemos em filmes, os brasilienses Sandro e Fred, que encarnam Alfred Doolittle e Freddy Eynsford-Hill, respectivamente, começam a se maquiar, passando base e preparando a pele.

João Caldas/Divulgação
Enquanto isso, alguns já têm as madeixas preparadas pelos cabeleireiros. Entre repuxadas e pinceladas, e antes de entrar de vez nos figurinos e nos personagens, os artistas aproveitam para comer alguma coisa e garantir forças para o que virá. Antes de cada sessão, o ritmo é intenso e a atmosfera, de uma ansiedade coletiva. “Estar me apresentando em um musical desse tamanho, com profissionais desse porte, é um sonho se tornado realidade”, confessa Ana Paula, que encarna diversos papéis: uma florista, uma criada, uma dama e uma dançarina.

Após três horas de espetáculo, os artistas levam pelo menos meia hora para se livrar dos figurinos, perucas, e da maquiagem mais pesada. Alguns preferem tomar banho em casa, outros saem do palco direto para o chuveiro. No fim, é difícil deixar o teatro antes de 1h da manhã. Rafael e Daniel, assim como Ana Paula, encarnam diversos personagens ao longo do musical, o que aumenta a pressão e a correia na coxia. Aos sábados e domingos, a loucura é em dosa dupla. São duas sessões, com apenas uma hora de intervalo.
 

Brasília e a arte 

O diretor de My fair lady, Jorge Takla, há 44 anos no ramo e com mais de 100 espetáculos no currículo, considera Brasília um celeiro de artistas.Ele conta que, além dos cinco brasilienses com os quais trabalha atualmente, já dirigiu inúmeros outros. Conheça a prata da casa em cartaz em São Paulo.

João Caldas/Divulgação
1 - Rafael Villar, 33, ator e cantor

Em São Paulo há 10 anos, o estudante da Universidade de Brasília (UnB) fazia direito antes de largar tudo para seguir sua verdadeira vocação. Trabalhou como professor de canto e preparador vocal de diversos espetáculos. Além de My fair lady, atuou em Evita, Abram alas, Chiquinha Gonzaga vai passar e Histórias da caixola.
“Brasília tem alguma coisa”, declara. Para ele, a força da música na cidade explica, em parte, a grande quantidade de artistas revelados. “As pessoas brincam, dizendo que é a água do Lago: ‘Vamos engarrafar e trazer para cá’”, brinca. Rafael aproveita férias e promoções de passagem para estar sempre em Brasília, na companhia dos familiares.
 
2 - Daniel Cabral, 26, ator, cantor e bailarino

A carreira começou na Néia e Nando Companhia Teatral, quando Daniel tinha 11 anos. “Sempre me vi como artista”, conta. Voltada para o público infanto-juvenil, a companhia trabalhava muito com espetáculos da Disney, o que despertou o gosto de Daniel pelo mundo dos musicais.
Depois de fazer cursos de jazz e sapateado, além de canto e teatro, e de participar de diversas montagens em Brasília, o artista se mudou para São Paulo assim que completou 18 anos. Fez faculdade de teatro na capital paulista e consolidou a carreira participando de musicais na cidade. Apesar de sentir saudade, Daniel não voltaria para a capital. “Eu me sinto realizado aqui, e minha família saiu de Brasília. Já os amigos, eles me visitam quando podem.”


3 -  Ana Paula Villar, 26, atriz e cantora

Ana saiu de Brasília há apenas dois anos e tinha determinado que o teste para My fair lady seria “tudo ou nada”. Caso não conseguisse a vaga, partiria para o plano B. “Eu me formei em pedagogia e, mesmo amando o teatro, é muito frustrante ouvir tanto  ‘não’ da forma como ouvimos nesse meio”, desabafa. O plano alternativo não foi necessário. Enquanto trabalhava como professora de canto, acabou passando e, agora, faz parte do elenco de um dos musicais mais famosos de todos os tempos.
Assim como os colegas de elenco, optou por viver em São Paulo em razão da maior oferta de empregos artísticos e, assim como o irmão, está em Brasília em todas as oportunidades. “Além da minha família, tem todos os meus amigos de infância e de faculdade”, completa.


4 -  Fred Silveira, 43, ator e cantor

Fred nasceu em Brasília e começou a estudar musicais aos 18 anos, quando entrou no Projeto Novos Talentos do Teatro Nacional Claudio Santoro. Participou de diversos espetáculos acadêmicos na capital enquanto fazia testes para peças em outras cidades. No fim de 2000, fez um teste para uma montagem de Les miserables e decidiu que aquele seria um momento decisivo: ou a carreira artística deslanchava, ou faria concurso público. Fred passou no teste e se mudou para São Paulo no ano seguinte, tendo participado de uma série de espetáculos. “Costumo dizer que nossa vida é de atleta olímpico: temos uma disciplina militar para nos mantermos na carreira”, afirma.

A relação com a capital continua forte. “Sinto saudades, se pudesse ter (em Brasília) tudo que tenho aqui, em termos de carreira, não teria nunca me mudado. Foi onde aprendi tudo”, declara. 


5 - Sandro Christopher, 45, cantor e ator
 
Nascido em Campo Grande, mudou-se para Brasília aos oito anos e se considera um típico candango.
Sandro tem mais de 60 óperas em seu repertório e já se apresentou em salas da Itália, da Rússia, dos Estados Unidos, entre outros países. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, onde é sócio de uma produtora.
Sandro saiu de Brasília para se aprimorar, uma vez que  aqui o mercado artístico trazia poucas oportunidades. Foi estudar música na Europa. “Saí de Brasília e do Brasil porque não existia — e ainda não existe — muito mercado para a ópera”, conta. “Acho que o artista pertence ao mundo, só cresce quando conhece outros lugares e culturas — é importante ser uma pessoa do mundo”, acredita.

O cantor visita a capital com frequência para ver a família. “Essa é minha relação com a cidade: minha família, meus amigos de adolescência, meu primeiro professor de canto (o Francisco Frias) e a grande incentivadora da minha carreira, Asta-Rose Alcaide”, completa o artista, que participou de montagens consagradas, como a Ópera do malandro, O fantasma do theatro e A noviça rebelde.
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