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Como recursos de coaching e hipnose podem ajudar na busca da felicidade?

Coaching, hipnose, programação neurolinguística, autoajuda. São muitos os recursos empregados hoje para atingir o sucesso na profissão, o autoconhecimento e a satisfação pessoal. Quem adere a esses métodos facilmente se encanta com os resultados. Mas há quem alerte para o risco de se buscar fórmulas prontas

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postado em 11/12/2016 08:00 / atualizado em 09/12/2016 21:04

A profissão, que antes era a motivação para começar o dia, já não empolga mais. Os problemas sentimentais parecem pesar no peito, enquanto as dores de cabeça, frutos do estresse, não dão sossego. Os problemas descritos são comuns e compartilhados; a dificuldade é lidar com eles. O resultado disso é uma explosão de métodos e tratamentos que prometem potencializar habilidades, alcançar o tão sonhado equilíbrio emocional, aumentar a concentração e o foco, entre muitas outras coisas. A procura por serviços motivacionais parece acompanhar a busca por autoconhecimento, mas saber a hora de "desmamar" dos treinadores de habilidades é importante para aprender a andar com as próprias pernas. Afinal, precisamos mesmo de tutores para tudo?

 

 

 

A necessidade de orientação, especialmente profissional, segundo Vladimir Melo, especialista em psicologia clínica e mestre em psicologia pela Universidade Católica de Brasília, tem vários motivos — que vão desde uma vontade momentânea de alcançar um determinado objetivo até uma necessidade mais preocupante de apoio psicológico. "Além disso, não é possível dizer se isso é uma necessidade real do indivíduo ou se é uma demanda criada pela mídia, que há muito tempo inunda a sociedade com ‘receitas de bolo’", comenta.

O problema é que tais receitas, segundo o psicólogo, atingem um público que precisa de ajuda especializada, já que a necessidade não se resumiria unicamente à motivação. "Pensando nisso, a formação desconhecida de um coach deve ser encarada como um perigo diante da vulnerabilidade psicológica de certas pessoas", alerta. O conceito adotado pela sociedade atual sobre o que é sucesso — ser sempre o melhor, com o salário mais alto e, de preferência, em um cargo de chefia — também é apontado pelo especialista como uma possível explicação para a cada vez mais voraz busca por serviços personalizados.

Para cada problema e pessoa, há uma solução mais adequada. Os livros de autoajuda, por exemplo, seriam voltados para pessoas interessadas em alcançar um crescimento pessoal, segundo Vladimir Melo. Já o coaching teria como proposta algo mais profundo, em que o indivíduo fará uma análise de sua situação atual e uma projeção de onde quer chegar. "Não é possível falar objetivamente sobre ganhos psicológicos, sobretudo depois que o Conselho Federal de Psicologia emitiu uma nota de esclarecimento, alertando para a diferença entre as práticas psicológicas e o coaching", pondera Melo. (Veja quadro). "Como essa prática ainda não é legalizada no Brasil e, portanto, não tem um conselho fiscalizador, não conhecemos bem os limites da prática, nem temos acesso às avaliações dos seus procedimentos e técnicas."

Diante de um mercado cada vez mais competitivo, a oferta de serviços individualizados, segundo Vladmir Melo, "tem criado na sociedade a ideia de que o sucesso está associado a um método sob medida". "Esse tipo de serviço costuma ser apresentado como um diferencial para uma performance acima da média", completa. "Por isso, não se pode dizer que a busca por essa ajuda específica está necessariamente relacionada à autoestima, mas, sem dúvida, é de grande conveniência para pessoas inseguras e sem iniciativa para organizar as próprias atividades."

 

"Às vezes, temos questões no nosso modelo mental que fazem com que tomemos as mesmas atitudes. Consequentemente, temos os mesmos resultados. Quando você se dá conta dessa crença, percebe seus padrões de erros."
Régis Amorim, 37 anos
Procurou a programação neurolinguística

 

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
Seja coaching, seja livros de autoajuda, seja assistindo a vídeos motivacionais, o fato é que, cada vez mais, as pessoas procuram formas de se entender e compreender as mudanças que acontecem ao longo da vida. A programação neurolinguística, abreviada como PNL, foi a forma escolhida por Régis Amorim, 37 anos. A PNL é basicamente uma técnica que busca desvendar as estruturas internas de pensamento e emoção que levam a cada comportamento. A lógica é que, para mudar de atitude, é preciso entender por que eles acontecem e de onde eles vêm. A teoria o encantou. "Comecei a me interessar por ferramentas de desenvolvimento humano porque estava buscando melhorias pessoais", detalha o gerente de projetos.

Em 2008, Régis embarcou para os Estados Unidos para fazer um curso de formação em PNL. À época, ele e a mulher planejavam o primeiro filho. Um dos principais objetivos do treinamento, segundo ele, foi fortalecer o lado emocional antes da paternidade. "Queria ter recursos para dar educação e suporte emocional (para a criança), que é uma das coisas mais importantes da vida, mas que ninguém ensina", justifica. Os recursos que adquiriu, contudo, não foram úteis apenas no planejamento familiar. Aos poucos, colegas de trabalho e amigos começaram a perguntar mais sobre o método que havia melhorado tanto a vida de Régis. "Comecei a ajudar uma série de pessoas próximas por dois anos até que comecei a ter demanda de pessoas que eu nem conhecia", relembra.

A procura pelo PNL incentivou Régis a investir mais fundo na atividade. Ele se profissionalizou e, atualmente, trabalha também com neuroaprendizagem (técnica que leva em conta padrões de aprendizagem). Fobias, autossabotagem, busca por objetivos e o impacto dos fracassos são os temas que mais levam as pessoas à porta de Régis. "O grande diferencial dessa técnica, para mim, foi a quebra de crenças limitantes", comenta. "Às vezes, temos questões no nosso modelo mental que fazem com que tomemos as mesmas atitudes. Consequentemente, temos os mesmos resultados. Quando você se dá conta dessa crença, percebe seus padrões de erros."

No caso de Régis, o maior obstáculo para o seu sucesso era o pensamento "eu não consigo". "Eu me deparava com as dificuldades e não tentava o suficiente", resume. Pensando nisso, seu maior foco de estudos foram os padrões de sucesso: o que as pessoas vitoriosas tinham em comum? Geralmente, elas trocam o "não consigo" por "não tentei o suficiente". Um dos grandes impeditivos de uma vida mais leve e prática, segundo Régis, é acreditar que o que sentimos é fruto do ambiente — sabe aquela pessoa que sempre "te irrita"? — e não de uma interpretação pessoal do que acontece ao redor. "Nós não aprendemos como as emoções se formam, como acontecem os padrões emocionais. O processo emocional é de dentro para fora. Os fatos são objetivos, a gente é que gera nossas emoções."

Os mecanismos de insegurança atuam, principalmente, quando estamos prestes a tomar decisões importantes na vida. O sentimento, explica Cláudio Meneghillo Martins, psiquiatra e diretor-secretário da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), é perfeitamente natural. "Sempre que passamos para uma nova etapa, não estamos totalmente preparados ainda, pois, antes da mudança, estamos na zona de conforto", detalha. "Antes de sermos promovidos, por exemplo, bate uma angústia interna e, para algumas pessoas, esse estresse simplesmente não é tolerável." Acontece que o estresse é como um elástico: para alguns, estica quando puxado. Para outros, arrebenta. "Isso não quer dizer que uma pessoa é melhor que a outra. Só temos que nos adaptar aos nossos limites", compara o médico. De nada adianta, por exemplo, forçar uma pessoa que não tem perfil empreendedor a abrir uma empresa.

 

Quem busca uma maneira de alcançar a tal alta performance pessoal, mais cedo ou mais tarde, dará de cara com o coaching. Estigmatizado por uns e endeusado por outros, o método tem como mote o autogerenciamento. Uma vez que o indivíduo descobre quais são suas capacidades, tem condições de traçar metas para alcançar seus objetivos. Os propósitos podem ser os mais variados possíveis: de mudar de profissão a aprender a arrumar o armário, há coaches para todo tipo de demanda. Mari Lannes, representante da Sociedade Brasileira de Coaching em Brasília, explica que o método não é uma terapia, não tem a ver com psicologia, não é um aconselhamento, consultoria e muito menos autoajuda — título que os adeptos, aliás, abominam. "É um conjunto de procedimentos e ações para que a pessoa possa atingir uma meta", define.

No coaching, a ideia é que o cliente seja "levado a buscar novos entendimentos e alternativas para ampliar realizações e conquistas", segundo Lannes. O indivíduo é estimulado a pensar no futuro mais do que em processos do passado. "São reflexões para que essa pessoa possa atuar de forma segura no mundo em que vive, tanto na vida profissional quanto pessoal", completa. A profissão, contudo, ainda não é legalizada, o que gera preconceito até entre alguns professores que adotam o método. "Existem certificações de órgãos independentes. O preconceito existe, mas é mais por causa de pessoas que falam que são coaches sem estudar."

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Não raro, quem adere ao método se envolve tanto que acaba fazendo parte dele. É o caso de Luciana Glasner, 40 anos. O aconchego da zona de conforto traz segurança, mas, ao mesmo tempo, uma monotonia que nem sempre é sinônimo de felicidade. Para ela, a urgência de mudar acabou ficando maior que a tranquilidade de saber o que vai acontecer. Luciana era instrutora e dona de um estúdio de pilates quando engravidou há três anos. Ela se programou para permanecer afastada do trabalho por um ano após o nascimento do filho, Bento Glasner Basilio. Quando a hora de voltar ao batente chegou, contudo, tudo parecia confuso e sem sentido. "Era como se eu não fizesse mais parte da empresa", descreve.

Eis que uma aluna vem com uma possível solução: recém-formada em um curso de coaching, ofereceu seus serviços a Luciana em troca de experiência. A empresária aceitou ser cobaia. "Comecei a enxergar a minha situação, como estava a minha vida naquele momento e encontrei uma forma de voltar", resume. As mudanças, ela garante, não se deram apenas no âmbito profissional — uma vez que a própria empresa passava por um período delicado financeiramente. Com a cabeça tranquila, Luciana conseguiu se organizar e planejar uma forma de reerguer seu negócio. Na vida pessoal, tudo também voltou, aos poucos, a se encaixar.

A experiência foi tão boa que Luciana resolveu continuar por esse caminho: investiu em um curso para ser, também, coach. Hoje, é também proprietária da Azin Empreendedorismo Criativo, empresa com foco em gestão de pessoas em que ela coloca em prática as ferramentas que aprendeu. "Passei a entender de uma forma mais madura que, quando você está dentro de um contexto, não está enxergando a situação de fora e não sabe direito o que está acontecendo, o que está te incomodando", analisa. "O coaching me fez sair daquilo e ampliar minha consciência de onde quero chegar e o que me impede."

A empresa pré-cursos de autoconhecimento era, na definição de Luciana, semelhante a um quartel. Funcionário bom era o que chegava 15 minutos antes de cada aula, sempre muito bem disposto e com um indefectível sorriso no rosto. A empresária conta que adotava, literalmente, uma cartilha de conduta. Em seu novo empreendimento, o foco de Luciana é trabalhar de uma forma "mais humana": autonomia para a equipe, motivação baseada em confiança e bem-estar, olho no olho. "Agora sei que é melhor eu dar autonomia ao instrutor, para que ele dê a melhor aula que pode dentro do contexto dele. Aprendi a ter mais empatia."

O mundo do coaching, contudo, tem muitas nuances. Se, por um lado, a motivação extra é profundamente bem-vinda, por outro, tanta informação pode sufocar. "Comecei a ver que o coaching motiva, mas chega em um ponto em que a pessoa não sabe mais o que fazer com tanta motivação", reforça. Além do serviço, Luciana buscou uma luz em outras ferramentas, que também tivessem como mote olhar para dentro de si mesma.

O processo de transformação pessoal de Luciana espalhou-se por todos os aspectos de sua vida: do trabalho mais eficiente ao modo como educa Bento, tudo agora passa antes pela peneira da humanização. "Hoje, dou autonomia para meu filho fazer as escolhas dele, claro que sempre com a minha orientação. Mas quero que ele seja livre para exercitar a criatividade dele", exemplifica. "Se não fossem esses cursos que faço, talvez ele fosse criado dentro de um quartel, porque sempre fui muito disciplinada. Estou muito mais feliz."

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