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A magia do Natal existe, assim como o espírito natalino

Pesquisa da Dinamarca tenta mapear no cérebro a presença do espírito natalino. Longe das universidades, quem ama a data afirma que a emoção que acompanha esta época vem do coração

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postado em 18/12/2016 08:00 / atualizado em 18/12/2016 09:12

Por Raphaele Caixeta e Vitor Sales *

 

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 

Casas enfeitadas, músicas alegres, comida farta e atos de solidariedade são elementos essenciais para se preparar para o Natal. Em dezembro, mensagens de amor ao próximo enchem o coração da população, mas, na verdade, pesquisadores dinamarqueses descobriram que o espírito natalino não está necessariamente no peito, e, sim, no cérebro. Em um estudo publicado no jornal científico britânico The BMJ, uma equipe de investigadores do Rigshospitalet, hospital afiliado à Copenhagen University, deu os primeiros passos para localizar o tal espírito de Natal na mente humana. Usando uma máquina de ressonância magnética, eles mapearam quais as regiões do cérebro são ativadas nesta época do ano.

A pesquisa nasceu da vontade de ajudar pessoas que não conseguem entrar no clima festivo. “Em todo o mundo, estima-se que milhões de pessoas são propensas a exibir deficiências no ‘espírito de Natal’, depois de muitos anos celebrando esse dia”, explicam os pesquisadores. “Nós chamamos isso de síndrome do ‘Bah! Humburg!’ — que pode ser traduzido como ‘síndrome da farsa’, nome que faz referência ao personagem Ebenezer Escrooge, criado por Charles Dickens, que acredita que o Natal é uma mentira comercial. A localização precisa desse espírito é um passo fundamental para ajudar esse grupo de pacientes”, afirmam.

Para o estudo, os pesquisadores recrutaram 20 voluntários dinamarqueses. Metade (oito homens e duas mulheres) foram catalogados como celebradores da festa. Os outros (mais uma vez, oito homens e duas mulheres) foram classificados como pessoas sem afinidade com a data. Os voluntários foram submetidos à ressonância magnética funcional de seus cérebros, enquanto assistiam a uma série de 84 imagens, usando um óculos de vídeo. Algumas das imagens evocavam a época do ano, como as ceias e ambientes com decorações típicas.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Embora ambos os grupos tenham mostrado fluxos semelhantes de sangue em seus cérebros, uma análise mais aprofundada dos exames revelaram diferenças importantes entre eles. Ao assistir às cenas natalinas, as pessoas que disseram comemorar a data demonstraram maior atividade sanguínea em várias áreas específicas do cérebro, incluindo os lóbulos parietais e o córtex pré-motor.

Os lóbulos parietais, apontam os pesquisadores, têm sido associados, em estudos anteriores, à “autotranscendência”, um traço da personalidade que demonstra predisposição para a espiritualidade. Já o córtex pré-motor frontal foi identificado como a área do cérebro na qual as pessoas compartilham emoções com os outros. “Embora alegres e intrigantes, os resultados devem ser interpretados com cautela”, explicam os investigadores. “Algo tão mágico e complexo como o espírito de Natal não pode ser totalmente explicado, ou limitado, por uma atividade cerebral mapeada”, concluem.

Segundo o psicólogo Vladimir Melo, muitos sentimentos atrelados a essa época podem ter relação com as lembranças da infância ou com acontecimentos marcantes. Ele ainda acrescenta que o estágio da vida da pessoa também é algo que deve ser levado em consideração na hora de avaliar as emoções experimentadas no Natal. “O início de uma família, por exemplo, pode ser um momento propício para cultivar a imagem de Papai Noel e o hábito de dar presentes”, esclarece o psicólogo. E mesmo que o costume de celebrar não seja muito forte na família, ele garante que ainda há um grande apelo social e comercial da data, o que torna quase praticamente impossível se manter completamente indiferente às comemorações.
 

Cadê Papai Noel?


Algumas pessoas perdem o encanto com a data assim que a crença em Papai Noel é desfeita. A ideia de não ter um bom velhinho por trás de toda magia, luzes, surpresas e sentimentos positivos pode ser desmotivante para alguns. A expectativa de os presentes, simplesmente, “aparecerem” embaixo da árvore é trocada pelas filas longas dos shoppings; a fartura da ceia, substituída por horas espiando o pernil assar são alguns detalhes para quem chega à vida adulta, ou à adolescência, e descobre que a poesia da época é fruto da imaginação humana.
 
 Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
 

Mas esse não é o caso da universitária Ana Beatriz Azevedo, 18 anos. Acostumada a passar a data com a família e sempre cheia de planos com as primas, para ela, o Natal nunca perdeu o que chama de “vibe diferente”. É assim que ela define o sentimento de chegar em casa, depois de um dia cansativo, e se deparar com a decoração natalina, que, segundo ela, traduz uma “sensação de fim de ano”: hora de fechar ciclos, iniciar outros e curtir as tão esperadas férias.

“Como somos seis primas com idades muito próximas, o Natal sempre foi sinônimo de brincadeiras, presentes e comida boa”, relembra Bia, animada. Para ela, a véspera é o dia mais esperado, no qual a ansiedade e a felicidade ficam mais afloradas. “Mesmo depois de todas nós descobrirmos que o Papai Noel é uma fantasia, ainda ficamos muito ansiosas para saber quais serão os presentes. É uma tradição na nossa família”, admite.

Alguns trocam a animação de criança por uma cara emburrada na hora da ceia ou fazem questão de reclamar nas redes sociais com posts mal-humorados. Mas Ana Beatriz prefere manter os hábitos da infância e ainda ajuda a decorar a casa dos pais e dos avós. “Sempre tomo a responsabilidade de decorar a casa porque amo como fica. Decidi, este ano, ajudar meus avós porque eles já estão com 80 anos e não conseguem mais fazer. Minha avó fica muito feliz. Ela adora a casa enfeitada.” A estudante também curte as brincadeiras de amigo-oculto, o clima festivo e amoroso e, claro, as comidas “boas”. Perguntada sobre quais seriam, ela faz uma lista: “Chester, tender, rabanada...” 

 
No Polo Norte, não. Ele está em Brasília


Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Se brasiliense fosse, Papai Noel estacionaria seu trenó na Mansão Santa Fé, no Park Way. Elisabeth Sales poderia ser facilmente consagrada à Mamãe Noel do cerrado. O lugar em que fica instalada a mansão do bom velhinho deveria ser, naturalmente, um esconderijo só revelado na data exata e com a motivação certa. Camuflado em um dos condomínios nobres de Brasília, disfarçado em uma quadra tão comum como as outras, o acesso à casa é feito por meio de uma rua asfaltada. Diante da porta, não se sabe muito bem o que se vai encontrar lá dentro. Do lado de fora, tudo parece normal.  Em uma placa de identificação, lê-se Mansão Santa Fé.

Adentrar pelo jardim já propicia outro tipo de experiência, que poderia ser considerada sobrenatural, não fosse o prévio conhecimento de que um Papai Noel de verdade não mora ali. As luzes — que cobrem arbustos, plantas e pendem do teto — cumprem o papel de dar ao local uma aura mágica, não só para os pequenos, mas também para gente grande, que exibe brilho no olhar e logo saca os celulares para fotografar aquele ambiente encantador no qual está envolta.

A anfitriã da festa leva os convidados para fazerem um tour pela casa, que foi, durante seis meses, preparada para a ocasião. O que mais se ouve são gritos extasiados das crianças, que correm de um lado para o outro, animadas com a exploração da casa, que, a cada passo, oferece algo novo para se ver ou tocar. Os adultos se contentam em alternar as exclamações e os suspiros que denunciam a emoção de voltar, pelo menos por alguns minutos, ao sentimento de ser criança.

Uma das primeiras a chegar, a servidora pública de 54 anos, Elaine Laus, deixa a casa com um olhar sonhador e um sorriso imenso no rosto. Por um bom tempo, as únicas palavras que consegue pronunciar são: “É lindo! É mágico!”. Depois de um tempo, consegue expressar a emoção de visitar pela primeira vez aquela casa: “Fiquei encantada, extasiada, maravilhada. É tudo muito delicado, muito bonito em cada detalhe. Estou emocionadíssima”. A servidora pública, que visitou o espaço com a filha e os netos, afirma que a melhor sensação foi a de relembrar a infância e o mundo encantado do bom velhinho.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Era a segunda vez que a psicóloga Andreia Peixoto, 40, visitava aquele lar encantado. Acompanhada das duas filhas pequenas e de amiguinhos delas, ela tentava mostrar o máximo possível à garotada. “Acho importante incentivar o espírito natalino para que elas acreditem no Natal e relembrem o nascimento de Jesus. Então, sempre aproveitamos este momento para conversar sobre o verdadeiro significado da festa.”  Andreia ainda revela que, mesmo que tenha tido muito envolvimento com o Natal quando criança, na vida adulta o tal “espírito natalino” foi deixado de lado e só resgatado quando deu à luz as filhas.

A ideia de transformar o sonho em realidade é da empresária Elisabeth Sales, que decora sua casa e abre as portas para visitação, um ano sim e outro não, há 24 anos. De cara, quem vê aquela figura animada recebendo os visitantes percebe que existe ali um amor imensurável pela festividade. E quem ousaria dizer o contrário diante do empenho dela, durante seis meses, para preparar aquele cenário? “Desde agosto, já estou vivenciando o Natal”, revela.

Elisabeth conta que sempre respeitou as tradições natalinas de sua família, como, por exemplo, a data certa de montar o presépio, e sempre se preocupou em transmitir o espírito natalino para parentes e até para desconhecidos. “É muito gratificante quando uma pessoa me conta que antes não tinha o costume de comemorar a data e agora o faz por causa da casa do Papai Noel”, diz. Sim, ela acredita piamente na existência dele. “Dia 24, ele chega aqui e me emociono. É isso que eu acho que não podemos deixar morrer. A vida já é muito séria, por isso não podemos deixar a magia acabar.”  
 
 

* Estagiários sob a supervisão  de Flávia Duarte
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