CAPA

Colocando-se no lugar do outro

"A empatia é a força mais poderosamente perturbadora do mundo, só fica atrás do amor." A frase é da professora canadense Anita Nowak, que pesquisa esse sentimento e como ele pode mudar a sociedade

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postado em 01/01/2017 08:00 / atualizado em 29/12/2016 15:41

Sem empatia, sobra intolerância, bullying, violência. Sem gastar um segundo imaginando como o outro se sente, de onde vem, em qual contexto foi criado, ao que foi exposto, sem se lembrar que cada um tem sua história e sem tentar entender como é estar na pele do outro, surgem os crimes de ódio, as discussões acaloradas nas redes sociais, o fim de amizades de uma vida toda. É preciso ter empatia para aprender que não existe verdade absoluta, que tudo depende do ponto de vista.

Segundo uma pesquisa da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, o Brasil não é dos países mais empáticos do mundo. Sim, somos conhecidos pela alegria e pela hospitalidade, mas quando falamos em se colocar no lugar do outro e tentar entender o que ele sente, ainda estamos muito longe do ideal. O estudo analisou respostas de um questionário aplicado em 61 países, com 104 mil pessoas, que tentava medir compaixão e empatia em situações hipotéticas. O Brasil ficou em 51º na lista, atrás de países como o Equador, Arábia Saudita, Peru, Dinamarca e Emirados Árabes, por exemplo.

Mas o problema do egocentrismo e da falta de amor ao próximo não é exclusivo dos brasileiros. É uma preocupação mundial.

 

Afinal, o que é?

 

Juarez Rodrigues/CB/D.A Press
 

 

A empatia é, em termos simples, a habilidade de se colocar no lugar do outro. Por exemplo, se você, leitor, escuta uma história sobre uma criança que teve muitos problemas de saúde, que vem de uma família muito pobre, e se comove, é possível ter dois tipos de emoção: o dó, que é a simpatia; ou se colocar no lugar daquela criança, imaginar o que ela passou e tentar entender o que ela sentia, enxergar o panorama a partir dos olhos dela. “É ser sensível a ponto de compreender emoções e sentimentos de outras pessoas”, explica Rodrigo Scaranari, presidente da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional.

E é uma característica que pode, sim, ser aprendida ou, pelo menos, treinada. Para Rodrigo, o exercício passa pelo autoconhecimento: para compreender a emoção do outro, é preciso conhecer e entender o que se passa dentro da própria cabeça. “Assim como podemos treinar os bíceps na academia, e ficar mais fortes, podemos ser cada vez mais empáticos com a prática. A plasticidade do cérebro torna isso possível”, explica a professora Anita Nowak, pesquisadora da empatia e diretora da Área de Iniciativas Sociais e Econômicas da Universidade McGill, em Montreal.

Mas por que nos colocamos no lugar do outro? Para o psicólogo, psicanalista e professor João Ângelo Fantini, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a empatia seria “uma forma de restabelecer um contato com um objeto de amor perdido, uma parte incompreendida do sujeito”. Enxergamos no outro uma humanidade compartilhada, sentimentos que também temos e que são aplicados em situações completamente diferentes. Por reconhecermos nós mesmos no próximo, temos empatia.

Tal sentimento é uma via de mão dupla: beneficia também o emissor. “A empatia é, sem dúvida nenhuma, uma das habilidades mais importantes para que se tenha uma boa convivência social, interferindo diretamente tanto no sucesso pessoal como no profissional. Ao entender melhor as emoções e as necessidades de cada um, temos menos dificuldades para lidar com eventuais conflitos pessoais em qualquer ambiente ou situação”, afirma Rodrigo.

No caso do acidente com o avião da Chapecoense, por exemplo, por que a mobilização foi tão grande? Por que sofremos tanto? “A morte é uma das mais fortes possibilidades de desenvolver empatia, pois estabelece um contato direto da dor do outro com a nossa: também vamos morrer, então nos tornamos solidários”, explica João Ângelo Fantini. “Acredito que, no caso da queda do avião, eram pessoas jovens, com sonhos a realizar, mas que foram bruscamente ceifados das suas possibilidades. Esta narrativa, no meu entender, reproduz de forma geral a história pessoal de grande parte das pessoas: nascemos sem saber nada, sonhamos um futuro, tentamos nos preparar para ele e, na maioria das vezes, temos que nos conformar com um futuro que não é o que esperávamos.”

De uma forma ou de outra, enxergamos nos jogadores da Chapecoense algo que poderia ter acontecido com qualquer um. João Ângelo lembra também dos colombianos, que surpreenderam os brasileiros com demonstrações de empatia e simpatia — eles sofreram como se a perda fosse deles também. “Isto parece um bom exemplo de como o inconsciente trabalha mais em nossas emoções e no comportamentos do que imagina nossa pretensa lógica. Parece-me que a própria ideia de que a empatia ficou ‘no passado’ explica o processo da empatia, pois nos tornamos empáticos somente a algo que representa aquilo que foi perdido em nós mesmos. Um sentimento, que embora nos pareça em falta, nunca terá fim.”

 

A chave da paz 

 

Para a pesquisadora Anita Nowak, da Universidade McGill, é a empatia a chave para a sobrevivência da raça humana. Em tempos tão intolerantes, o exercício de se colocar no lugar do outro evitaria maiores problemas. “Infelizmente, como seres humanos cheios de falhas, nossa tendência é empatizar com pessoas parecidas conosco. Assim,  desconhecidos em outras situações inspirariam menos empatia. É algo que deve ser superado se quisermos nos libertar da mentalidade “nós contra eles”, muito presente na sociedade hoje. Esse tipo de pensamento está por trás de cada grande guerra e cada pequena disputa. Se aprendemos a empatizar melhor uns com os outros, poderíamos conseguir a paz”, afirma. Anita conta que é preciso agir — só sentir empatia não é suficiente.


O filósofo e pesquisador australiano Roman Krznaric, fundador do Museu da Empatia e da Biblioteca da Empatia (veja box), explica no ensaio O efeito da empatia que, atualmente, as pessoas estão muito focadas em problemas individuais. “A mensagem principal desta pesquisa é que nós precisamos instigar uma mudança cultural do ‘comprar’ para ‘pertencer’ — de valores extrínsecos para intrínsecos —, de modo que a identidade e o bem-estar sejam baseados mais na qualidade dos relacionamentos e no senso de pertencimento a uma comunidade do que no tamanho da nossa conta bancária ou nas ofertas de um lifestyle de luxo”, afirma Roman. Segundo o filósofo, é preciso fazer uma “revolução da empatia”. 

Transformar a realidade

Kit Reyes/Divulgação Litro de Luz Brasil
 


A história de Vitor Belota, 27 anos, traduz exatamente o que Roman Krznaric e Anita Nowak falam. Fez de sua empatia e solidariedade uma carreira. Nunca sofreu com falta de luz ou precisou de um banco de leite, mas conheceu pessoas que necessitavam. Colocou-se no lugar delas e fez o possível para ajudar a resolver o problema.

A primeira experiência ajudando o próximo foi um trabalho de faculdade que pedia que cada grupo criasse um projeto social. Foi a primeira vez que Vitor pôs, de fato, a mão na massa. Sempre viu um senso de responsabilidade social muito grande nos pais, que faziam doações a instituições. Mas, ele próprio nunca tinha tomado parte em um projeto. O grupo de Vitor implantou um banco de leite em um hospital.

Depois disso, formado em administração, trabalhando 8 horas por dia na área e ainda cursando direito, sentia-se estressado. Assistiu a palestras sobre voluntariado, lembrou de amigas que já tinham trabalhado em escolas no Quênia. Sugeriu para os colegas que doassem o dinheiro que sobrou do antigo projeto da faculdade: “Vamos doar. Eu levo”. Pediu demissão, largou tudo e foi para a África com a cara e com a coragem.

A princípio, Vitor ajudaria a construir uma escola e daria aula de inglês e de matemática. “Era uma viagem que significava muito pra mim, mas, chegando lá, percebi que o impacto daquilo não era tão forte assim”, lamenta. Não se deixou abater. Percebeu um problema e decidiu resolvê-lo: as salas de aula eram muito escuras. Pesquisou, descobriu o projeto Liter of Light, que, no Brasil, tornou-se Litro de Luz, e implementou uma alternativa à luz elétrica em mais de 14 escolas no Quênia. A ideia é encher garrafas com água e alvejante e colocá-las nos telhados. Expostas à incidência dos raios solares, pelo processo de refração da luz na água, os recipientes conseguem iluminar o ambiente. Cada garrafa fornece a mesma quantidade de luz que uma lâmpada de 55 watts, com a vantagem de não emitir gás carbônico.

De volta ao Brasil, o empreendedor social descobriu que a falta de luz elétrica era a realidade de muita gente por aqui também. Oficialmente, em 2014, fundou a Litro de Luz Brasil. Em agosto deste ano, a ONG chegou ao Distrito Federal. Com uma grande carência de iluminação pública, o Sol Nascente foi a primeira região agraciada. A comunidade recebeu 31 postes de luz com a tecnologia das garrafas.

Bem-sucedido, o Litro de Luz chegou a ganhar o primeiro lugar do prêmio St. Andrews para o meio ambiente, batendo mais de 500 concorrentes. Com o prêmio de 100 mil dólares, foi possível iluminar quatro das 600 comunidades ribeirinhas sem fornecimento de energia elétrica na Amazônia — Dominguinhos, Bararuá, Jacarezinho e São Jorge do Membeca.

Empreendedorismo social virou, então, uma carreira para Vitor. “Que outra profissão me permitiria passar 30 dias dormindo em uma rede no meio da Amazônia? Qual outro trabalho me colocaria na mesma mesa que um vencedor de um prêmio Nobel como Muhamma Yunus?”, pergunta. Vitor conseguiu unir o útil ao agradável e encontrou realização pessoal e profissional ao ajudar o próximo. “Trabalhar na área social nos permite viver em um mundo muito mais otimista. Quando converso com amigos que trabalham em empresas tradicionais, percebo um clima muito pessimista. Essa foi uma mudança muito boa na minha vida”, afirma.

Atualmente, além de compor o conselho da Litro de Luz, ele trabalha no Projeto Visionários, voltado para o ensino de empreendedorismo social a jovens na faixa dos 25 anos. “Unir empreendedorismo social e educação, que é minha paixão, foi uma solução perfeita pra mim”, afirma Vitor. Na prática, são formados cerca de dez grupos e eles passam quatro meses ajudando a resolver o problema de alguma organização social. Durante esse tempo, os participantes têm como mentores grandes executivos, como Roberto Grossman, CEO de uma das maiores agências de publicidade brasileiras. Os cinco grupos que se destacam vão para a segunda fase do treinamento, que consiste em colocar um projeto próprio em prática. Os dois vencedores recebem R$ 50 mil e R$ 20 mil, respectivamente, para seguirem com seu negócio social.

“Pode-se achar triste a realidade de crianças africanas, por exemplo. Agora, para você realmente ser empático, conseguir se colocar no lugar delas, entender de verdade o que estão passando, é importante conhecer essa realidade de perto. Foi uma das experiências que mais me marcou nessa trajetória. Estar perto das comunidades ou do público é o único jeito de desenhar um serviço que seja útil. É preciso ter uma empatia grande com a realidade deles, ter uma ideia clara do que é estar na pele deles”, afirma o empreendedor social.

 

Um caminho desde a infância

 

 

Arquivo pessoal
 


Para reverter o cenário de crianças que crescem cada vez mais centradas em si mesmas e nos próprios problemas como reflexo da sociedade atual, a ONG americana Roots of Empathy (Raízes da Empatia) atua em escolas tentando ensinar os pequenos a se colocar no lugar do outro. Uma vez por mês, durante nove meses, uma sala de aula recebe um bebê e sua família, além de um instrutor, para que as crianças acompanhem o crescimento da confiança e dos laços emocionais de outras pessoas. Frequentemente, eles começam a enxergar nos colegas emoções que aprenderam com os instrutores.

Os resultados deste experimento são crianças menos agressivas, que combatem o bullying por entender como o outro se sente, e que têm inteligência emocional mais apurada, entendendo as próprias emoções. O programa é internacional, mas o ensino da empatia pode ser feito de diversas outras maneiras.

A servidora pública Clara Fagundes, 32 anos, por exemplo, considera importante estimular a filha, Helena, 3 anos, a conviver harmonicamente com os outros e com o meio ambiente. Fez questão de escolher para a pequena uma escola que seguisse os mesmos valores apreciados por ela. “Minha mãe já era muito adepta ao diálogo comigo nos anos 1980, mas, hoje em dia, há tantas outras questões que não são discutidas, como a do desperdício”, cita Clara.

A festa de aniversário de Helena foi na escola. Não produziram lixo, não foram usados enfeites descartáveis. As crianças ajudaram na organização e em toda a decoração: até os mais velhos, que não a conhecem, ajudaram. Além disso, em vez de receber um presente de cada colega, a aniversariante ganhou apenas um presente coletivo, feito pelos próprios colegas: uma casinha de papelão. Sem egoísmo, todos brincaram com o presente e, no fim, Helena levou à sua casa.

Clara faz questão de dizer que o ambiente não é utópico e que, é claro, que há eventuais brigas e desentendimentos. Ela frisa, porém, que a diferença é a forma de lidar com essas situações. “Tem que ser por meio do diálogo, explicar sempre por que tal coisa é errada. Fazer com que se coloquem no lugar do outro perguntando como ela se sentiria se fizessem aquilo com ela”, explica. Além disso, as regras na escola são feitas em conjunto, portanto, se alguém bate em um colega ou burla alguma outra regra, sabe que está agindo contra algo que já tinha concordado em não fazer. Dessa forma, consegue-se apresentar a empatia e a solidariedade como práticas no dia a dia e não só em uma situação limítrofe, estereotipada, como no Natal e outras datas.

Clara cita um verso do poeta Manoel de Barros que diz: “Repetir, repetir, até ficar diferente”. Os pequenos erram, mas aprendem, e os frutos dessa criação que estimula a pensar nos sentimentos e nas necessidades dos outros são colhidos diariamente. Helena tem uma amiga intolerante a lactose. Sempre pergunta se as coisas têm leite para checar se ela pode comer ou se fará mal à amiga. Na festa de aniversário, não só os adultos se preocuparam em ter opção para quem tivesse restrições alimentares, mas também a aniversariante.

Uma crítica que Clara faz a tentativas de fazer com que uma criança de classe média seja solidária é que, muitas vezes, esse sentimento deve partir só dela. Ela deve doar os brinquedos, por exemplo. Ou, pelo menos, os pais não a fazem ver que muita gente também é solidário a ela. “O grande problema da caridade é a criança estar sempre no polo que doa, então, tem que passar por essa parte de receber também. Fortalece a empatia”, explica. Na festa de Helena, por exemplo, vários artigos de decoração foram emprestados, o que fez com que a menina se sintisse agraciada com o carinho dos outros, além de aprender que deve devolver.

Pode ser difícil para uma criança ver outras ganhando presentes e não receber nada. Mas não para Helena. Os amigos do trabalho da mãe fizeram uma campanha de arrecadação de brinquedos para doar a uma creche. Clara perguntou à filha se ela queria ir, explicou que os presentes eram para as crianças e não para ela. A resposta: “Eu já tenho muito brinquedo, né, mamãe?” A pequena acompanhou a doação com sorriso no rosto, chamou todas as crianças de “primas” e se divertiu muito.

 

 

Atitudes para desenvolver e treinar empatia

 

Compreenda sentimentos e emoções dos que o cercam:


Antes de julgar e criticar, coloque-se no lugar do outro, buscando entender os motivos de tais ações. Se alguém age com agressividade, por exemplo, talvez seja uma forma de defesa de quem já foi agredido e ferido no passado.

Concentre-se nas pessoas e aprenda a ouvir:


Uma grande qualidade das pessoas empáticas é sua capacidade de ouvir. E isso é facilmente perceptível, já que esses indivíduos normalmente ouvem mais do que falam e, quando falam, baseiam-se não só no que ouviram, mas também em outras percepções sensoriais.

Trate os outros como você gostaria de ser tratado:


Eis um dos princípios básicos da empatia: se você espera respeito, trate os outros com respeito. Se você deseja ser tratado com igualdade, não faça você mesmo distinções.

Imagine o que você faria no lugar do outro:


Se a outra pessoa estiver agindo de uma maneira incompreensível ou se você discute com alguém que tem atitudes e pontos de vista completamente diferentes dos seus, em vez de encarar esse outro como um rival, rotulando-o com os mais diversos títulos, que tal imaginar como você reagiria no lugar dele?

Fonte: Rodrigo Scaranari — Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional.

 

Leia a reportagem completa na edição nº 607 da Revista do Correio

 

 

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