FITNESS & NUTRIÇÃO

Conheça famílias brasilienses que optam por uma vida sem carros

São vários os projetos e defensores da substituição dos meios de transporte pela caminhada. Andar para cumprir as obrigações do dia a dia melhora a saúde e o meio ambiente

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postado em 29/01/2017 08:00 / atualizado em 28/01/2017 15:49

A maioria dos brasilienses reclama que é muito difícil viver sem carro por aqui. Na época da construção, fazia sentido um plano urbanístico com foco na circulação de automóveis, já que o lema do governo federal era desenvolver o país economicamente. A representação dessa meta era o desenho da nova capital e a entrada de montadoras no Brasil. Mas o contexto hoje é outro: excesso de carros, congestionamento e poluição.

Em Brasília, caminhar, pedalar e correr são vistos apenas como exercícios físicos. Raramente, são opções para chegar ao trabalho, à padaria ou a um compromisso qualquer. Em vez de andar uma hora até a academia, muita gente pega o carro para fazer esteira em um ambiente fechado. Porém, o profissional de educação física e criador da Personal em Casa, Hugo Albuquerque, explica que a mudança de hábito seria de extrema importância. “Movimentar-se, seja lá o motivo, beneficia a circulação sanguínea e diminui a pressão arterial.”
 

 
O urbanista americano Jeff Speck, autor do livro Walkable city (em tradução livre, Cidade caminhável), defende que é imprescindível se libertar da dependência de carros, mas, para isso, é necessário tornar as cidades mais aprazíveis para o pedestre. Ele pontua que as mais bem colocadas, no ano passado, na 18ª pesquisa anual de Qualidade de Vida, da empresa de consultoria Mercer (um ranking de qualidade vida), são as com design urbano mais amigável para quem quer se locomover de forma mais sustentável e saudável. Brasília está em 106º lugar em qualidade de vida, a primeira do Brasil. Mas, sobre ser uma cidade propícia a caminhar ou não, ainda há controvérsia.

Muitos problemas tornam a cidade hostil: ciclovias sem continuidade e calçadas sem manutenção são alguns deles. Também há uma questão cultural, que faz com que pessoas que moram a poucos quilômetros do trabalho peguem o carro até lá, quando o próprio trajeto poderia ser um bom exercício aeróbico diário.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Mesmo sem uma atividade física específica, o engenheiro civil aposentado Geraldo Pereira da Costa, 84, sempre se movimentou muito. Quando jovem, fazia faculdade em Belo Horizonte e não tinha carro. Então, subia e descia ladeira todo o tempo. Já formado, as obras em que trabalhava sempre demandaram muita força física e ele estava sempre ativo. Quando ainda morava no fim da Asa Sul, fazia quase tudo a pé e tudo isso lhe garantiu um envelhecimento mais saudável.

Geraldo reconhece que fazer muitas coisas sem precisar de transporte é um privilégio de quem vive em locais estratégicos. Agora, morando no Lago Sul, tenta manter o ritmo. Toda manhã, caminha na calçada paralela à pista principal, nas proximidades da sua casa. O trajeto está em bom estado, é arborizado e agradável. Muitas coisas ele resolve andando até o Gilberto Salomão, a pouco mais de 3km de distância. Outras vezes, precisa do carro. Quando isso acontece, estacioná-lo perto não é prioridade: “Nunca me preocupei em parar o carro próximo do destino. Gosto de caminhar, de me movimentar”, conta.

Só no pedal


O biólogo Uirá Lourenço, 38, e a tecnóloga de saneamento ambiental Ronieli Barbosa, 36, têm dois filhos, Cauã, 8, e Iuri, 7. Eles não têm carro, mas cada um da família é dono de uma bicicleta. Além delas, eles ainda têm o trenzinho, apelido que deram à magrela na qual cabem duas pessoas pedalando e duas crianças, uma menor e uma maior. Eles a usam quando vão percorrer distâncias maiores, que oferecem mais risco para os pequenos. Como Cauã e Iuri cresceram, o trenzinho ficou apertado. A cadeira menor foi desativada e, agora, o mais velho pedala com o pai. Iuri vai na cadeira de trás e Ronieli comanda a bicicleta.

Ronieli e Uirá estão em forma e com a saúde impecável, mesmo sem fazer nenhum esporte específico. Só a movimentação do dia a dia já lhes garante isso. Moradora da Asa Norte, Ronieli faz tudo por ali pedalando. Ao trabalho, em Sobradinho, ela vai de ônibus, mas as caminhadas até a parada já são bons exercícios. “Lá, eu ainda pego uma ladeira”, conta. Quando adolescente, morava em Vitória, no Espírito Santo, e andava muito de bicicleta. Depois, parou. Mas, quando conheceu Uirá, retomou o hábito.
 
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 
 
O marido, Uirá, morava em São Paulo e usava carro até para distâncias curtas. Quando decidiu fazer o teste e pedalar, não largou mais. “Depois fui fazer um intercâmbio e morar fora, vendi meu carro e nunca mais comprei outro”, relata. Ele se tornou um ativista pelo uso de transportes menos poluentes e, principalmente, das bicicletas. Com uma colega, criou o “Brasília para pessoas”,  projeto que defende uma cidade com mais gente na rua. “O objetivo é promover reflexão sobre a mobilidade urbana na cidade, incentivar o deslocamento saudável —  a pé e de bicicleta — e os modos coletivos de transporte”, diz a página no Facebook.

Quando a família morava em Águas Claras, o trabalho dele ficava no fim da Asa Norte e, ainda assim, ia de bicicleta. Atualmente, ele trabalha no Setor de Indústrias Gráficas. A distância é bem menor, cerca de 7km, mas o meio de transporte é o mesmo. Faça chuva,  faça sol. Como o trajeto não é tão longo, ele não precisa tomar banho quando chega. No máximo, troca a camisa. Mesmo assim, ele fez uma campanha na empresa para que colocassem bicicletários adequados e oferecessem estrutura para quem precisasse tomar banho depois da pedalada. O resultado foi positivo e ele alcançou a meta.
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