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A beleza dos turbantes também faz a cabeça dos homens

O turbante ganhou status de item fashion e vem, literalmente, fazendo a cabeça dos homens. Porém, há quem defenda que é preciso conhecer as origens de seu uso e respeitar a sua simbologia

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postado em 12/02/2017 08:00 / atualizado em 10/02/2017 17:58

Por André Baioff*

 

O turbante é considerado um adereço fashion para os ocidentais. No Oriente e em outras partes do globo — Índia, Bangladesh, Paquistão, Afeganistão, Oriente Médio, África e também em algumas regiões da Jamaica — porém, esse acessório carrega uma simbologia e é usado culturalmente, há séculos, para designar religiões, costumes e identificar a posição social do indivíduo. Aqui, em terras brasileiras, homens também começaram a usá-lo para resgatar significados raciais ou simplesmente por estética.

 

Anderson Benjamim/Divulgação

O tatuador Hodari Garcia, 25 anos, usa o turbante há tempos. A escolha é resultado de uma tradição de família. Começou com sua bisavó, Isabel Garcia, no Rio de Janeiro, uma das primeiras mulheres negras a usar turbantes como forma de conscientização das questões raciais. Isso norteou a criação da avó do tatuador, a artista Lydia Garcia, como ativista da causa. Juntos, a família de Hodari busca enfatizar a importância da representatividade de raças, adotando, assim, o uso constante do turbante. “A minha família tem histórico de luta e de representatividade racial. Uso o turbante como forma de resistência, porque fui criado desse maneira.”


A mãe dele, Yalê Garcia, por exemplo, faz oficinas de turbantes com o Coletivo Yalodê Brasil, que ensina a usar e adequar os turbantes no dia a dia, com técnicas de amarração e de estilos variados. Ela viaja por todo o país para apresentar a beleza e a identidade negra. Mas, embora o uso de turbantes instigue a reflexão das questões raciais, o tatuador Hodari faz uma ressalva: “É importante dizer que todos podem usar turbantes, sem distinção. Mas pessoas que não são negras precisam estar conscientes de que não basta simplesmente adotá-lo por estética. É necessário entender que ali tem todo um peso cultural e uma história de representatividade”, informa.

O turbante também está atrelado a religiões, como as de matriz africana. “Muitos usam o turbante como identidade religiosa. Há, por exemplo, um estilo de amarração que se chama ‘ojá’, muito comum no candomblé”, explica Hodari. O que leva ao equívoco de interpretar que uma pessoa negra com turbante é necessariamente ligada a uma determinada religião. “Esse pode ser o motivo de receber alguns olhares que, vira e mexe, se incomodam com a minha aparência. Eu fico sério e fecho a cara. Não aceito que ninguém venha com intolerância”, completa.

Genuinamente africanos


Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Os turbantes africanos são coloridos, com muitos estilos e com diversos tamanhos. O camaronês René Martins Mapouna, 26 anos, está, há 10 no Brasil. Ele conta que o uso de turbantes é uma marca cultural do país onde nasceu. “É costume do nosso povo usar turbantes para identificar religiões, tribos e tradições familiares. Cada estilo de estampa tem um significado”, detalha.

Ao vir para a capital federal, René foi estudar na Universidade de Brasília (UnB), onde encontrou a sudanesa Romisa El Karim, 25 anos, e, desde o fim do ano passado, montaram a loja Bantu Style Roupas e Acessórios Africanos. O espaço conta ainda com a colaboração de artesãs da cidade. Os materiais utilizados para confeccionar os produtos vêm de várias regiões da África. “Os tecidos e utensílios que estão à venda são trazidos de fora e fazemos todos os objetos à venda em parceria com algumas mulheres”, diz, René.

Romisa faz workshops e ensina o contexto histórico do uso do turbante na África. “Temos um projeto em que damos palestras e oficinas nas escolas espalhadas pelo DF. Ensinamos várias técnicas de amarração e orientamos sobre a visibilidade africana com a cultura do Brasil”, conta.

Por admiração


Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
O controlador de voo Paulo Willian de Oliveira, 29 anos, tem o turbante como uma peça indispensável no seu cotidiano. A paixão pelo apetrecho começou há dois anos e, desde então, não fica sem. “O único lugar em que eu não uso é no meu trabalho, pelas normas e regras de lá. Senão, estaria sempre com turbante”, detalha. Ele decidiu acrescentar o acessório para  compor seu estilo, inicialmente, pela estética. “A primeira vez em que usei, achei incrível! Tenho de várias formas e cores. E dá para combinar com tudo, basta adequar a cada ocasião”, ensina.

Já o visual merchandising Fabiano Gomes, 30 anos, costuma usá-lo em festas e eventos nas noites de Brasília. “Às vezes, vou à feira assim e ouço cochichos e noto o estranhamento das pessoas. Mas eu gosto de usar e acho bonito”, garante. Aliás, os sócios da loja Bantu concordam que para usar esse adereço o importante é se sentir bem e enxergar esse item como parte da personalidade. “Não basta achar bonito e utilizar porque está na moda”, alerta René.

 

* Estagiário sob supervisão de Flávia Duarte.

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