As batalhas de rima do DF: os gladiadores do intelecto

Jovens se reúnem para treinarem o intelecto. Eles se enfrentam em batalhas de rima: uma brincadeira com as palavras que ocupa os espaços da cidade, valoriza a cultura com debates sobre temas políticos e sociais

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postado em 07/05/2017 08:00 / atualizado em 06/05/2017 17:15

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
As batidas do hip-hop se misturam às do rap e às do reggae. As “minas” se unem aos “manos”; os mais velhos recebem os mais novos; as satélites ocupam o Plano Piloto. São assim as batalhas de rima, ou batalhas de MC, do Distrito Federal: agregam, somam e fortalecem. Cada vez mais fortes e numerosos, esses encontros invadem todos os espaços da cidade com cultura e representatividade.


Muito distante do conceito violento do termo, as batalhas são permeadas por atmosfera pacífica e divertida. Seja na Praça do Relógio, em Taguatinga, ou no Museu da República, no coração da capital federal, as pessoas chegam, cumprimentam os amigos e conhecidos, riem e conversam enquanto entram no clima para duelar e assistir às apresentações.

Uma ou duas pessoas circularam pela multidão com um caderno e uma caneta. Parecem ímãs, seguidos de perto por uma rodinha de MCs. Eles são os responsáveis por anotar os nomes que serão sorteados para batalhar nos duelos de rima e de raciocínio rápido.

O objetivo é que os mais corajosos e talentosos desafiem o outro a debater temas pela combinação de sons das palavras. É hora de os caras se provocarem, se alfinetarem nas brincadeiras. As meninas aproveitam para trazer à tona temas espinhosos e tão reais em suas rotinas, como feminismo.

Em algumas listas, o número de inscritos passa de 50. Normalmente, 16 são sorteados e começam as eliminatórias. No instante em que a batalha se inicia, a multidão empolgada se mantém em silêncio para acompanhar as farpas trocadas entre os competidores. Mas quando um MC “manda muito bem”, é impossível conter o grito de aprovação. Um sonoro “ooooou” se faz ouvir e o adversário precisa pensar rápido para garantir o mesmo apoio da plateia. Afinal, o voto dos espectadores têm o mesmo peso da escolha dos dois juízes.

Os ânimos parecem se exaltar durante os duelos. Rolam alguns xingamentos, ofensas e palavrões, arrancando gritos da multidão. Uma vez terminado o round, os MCs riem, dão as mãos e alguns até se abraçam, garantindo que a rivalidade se limita ao microfone.

O vencedor ganha moral. Suas ideias são aplaudidas. As crianças querem fazer foto ao lado dele. Costuma ganhar quem pensa mais rápido e consegue “vencer” o outro “intelectualmente”, ainda que a temática seja lúdica e provocativa.

É difícil não se contagiar com aquele ritmo de fala e de música. Sem perceber, muita gente entra no clima, mexe o corpo na cadência da percussão e vibra com as tiradas inteligentes dos duelistas. As batalhas acontecem todos os dias da semana, em diferentes lugares da cidade e, apesar de a maioria ser jovens adultos e adolescentes, é possível ver famílias, crianças e até um público mais maduro de olho no movimento.

A batalha das batalhas

Hugo Gonçalves/Esp.CB/D.A. Press

A Batalha do Museu é a mais antiga entre as que estão em atividade no DF. Completou cinco anos e se transformou em um ponto de encontro de outras batalhas da cidade. Todos os domingos, a partir das 16h, uma média de 150 a 300 pessoas se reúnem entre a Biblioteca Nacional e o Museu da República para assistir aos melhores do DF duelando.

Toda semana, 10 batalhas são sorteadas e os ganhadores têm vaga garantida para essa apresentação. O último campeão também está dentro e as cinco vagas remanescentes são sorteadas entre os que colocaram o nome na lista. O momento é de expectativa e todos esperam a oportunidade de rimar com os vencedores.

A história da Batalha do Museu começou em 2010. Na época, só existiam três batalhas no DF: na Praça do Bicalho, no Conic e no Recanto das Emas. A periodicidade também era diferente e elas só aconteciam uma vez por mês. “Quando o MC perdia, ficava indignado, pois tinha que esperar um mês para ter a chance de se redimir ou de ter uma revanche”, lembra Thiago Afonso Rocha, 25 anos. Mais conhecido como MC TR, o servidor público é um dos organizadores da Batalha do Museu.

A primeira da qual Thiago participou foi uma batalha em São Paulo, em 2011 e, dois anos depois, tornou-se parte da organização do evento no Museu. “Ostentar a expressão MC antes do meu nome é uma responsabilidade. As pessoas saem de casa para ouvir o que nós temos a dizer e, estando à frente do movimento, passei a me cobrar mais. Tenho que agir corretamente, pois não posso levantar bandeiras na rima e não me comportar de acordo nas ruas”, acredita.

 
"O monstro apareceu, o monstro apareceu;
A bagaça é nossa na Batalha do Museu!"
 

Antes, MC TR e outros artistas da cena do rap de Brasília dispunham de poucas opções para rimar. Em 2012, teve um desafio entre o DF e Belo Horizonte, cidade com tradição nas batalhas. O grupo de amigos de Thiago alugou uma van, e oito brasilienses seguiram para o duelo. “Lá, tivemos contato com grandes nomes da rima, com caras que começaram rimando com Emicida. No fim, um dos nossos MCs chegou à final e voltamos muito empolgados. Vimos que éramos bons e podíamos seguir em frente. Quando chegamos aqui, o MC Zen criou a Batalha do Museu”, lembra.

Assim como MC TR, os estudantes Carlos Roberto Jesus de Souza, 20 anos, e Israel dos Santos Pereira Lopes, 15 anos, são figurinhas carimbadas em tais encontros. Carlos, mais conhecido como Draw, rima há dois anos e já foi campeão da Batalha do Museu diversas vezes, aliás, participa de uma disputa todos os dias. “Para mim, é diversão, distração e aprendizado. As rimas alegram meu dia e me sinto honrado de poder alegrar o dia de alguém com as minhas (rimas)”, afirma.

Apesar de mais jovem, Israel também já foi campeão da Batalha das Batalhas. “É mais que um hobbie, é um trabalho. O valor que tem para a comunidade é enorme, as batalhas têm o poder de tirar os jovens do crime. Eu digo isso porque é verdade, foi assim comigo”, completa.

 

Ocupar para rimar


As pessoas que se reuniam toda semana nesse monumento da Esplanada dos Ministérios sentiram falta de ter eventos parecidos em suas cidades e as batalhas começaram a se multiplicar. Hoje, acontecem cerca de 30 por semana, espalhadas por todo o DF e entorno.

Um grupo de MCs de Taguatinga resolveu criar a Batalha do Relógio. O objetivo era descentralizar e transformar a Praça do DI em mais um ponto de encontro dos rimadores do DF. Para escolher o local, os idealizadores consideraram a facilidade de acesso — ao lado da estação de metrô —, e a possibilidade de transformar a imagem da praça, associando o lugar a um espaço de atividade cultural.

“A praça tem vida, muita cultura e potencial. Queremos tirar esse preconceito que a ronda”, afirma o MC Thiago Cardoso Martins, 24 anos. Um dos idealizadores dessa batalha, e mais conhecido como Cardoso, o MC ressalta que criar cultura em um lugar tão carente de opções de diversão gratuitas é uma grande oportunidade. “Aqui, todo mundo tem voz e pode propagar a cultura.”


A batalha nasceu há três anos e acontece todas as quintas. As inscrições começam às18h e o sorteio ocorre por volta das 19h30. O evento já chegou a reunir 200 pessoas e tem público diversificado. Muitas famílias se unem aos jovens para assistir às rimas, pessoas que estão só de passagem param para curtir o som e alguns aproveitam o momento de lazer para levar os cachorros para passearem.

O MC Silas Augusto Pessoa da Cunha, 21 anos, se diz orgulhoso de fazer parte do movimento. “Aqui, até os playboys rimam. Queremos celebrar a diversidade e lutar pelo que achamos certo. Mostramos para a polícia que respeitamos o espaço e ajudamos a torná-lo melhor. É um aprendizado. Hoje, consigo dar felicidade para minha mãe e a respeito muito mais. É importante mostrarmos isso para outros jovens”, ressalta.

O design gráfico Nauí Lopes Paiva, 31 anos, acredita que o movimento tende a crescer cada vez mais. “Vivenciei o início da Batalha do Museu e participei da criação da do Relógio. Vejo isso com muito orgulho e percebo que instiga um certo empreendedorismo nos MCs, sempre tentando aumentar e valorizar o rap”, comemora.

 

MC Nauí
“Focar dentro de ti pra todo bem florescer
Com toda leveza e toda nobreza
Retirando toda impureza
Pra vir a grandeza, beleza, riqueza”


Rimando entre os meninos, a estudante Letícia Ribeiro Farias, 17 anos, a Fugazi, mostra que também tem voz. Ela começou a rimar há seis meses e frequenta uma batalha por dia, incluindo a do Relógio. Na última semana, ganhou outras disputas da cidade e foi rimar no Museu. “No início, eles diziam que eu ia gaguejar, que não ia conseguir. Mas quando criamos coragem e ganhamos, eles passam a nos respeitar mais” afirma, sobre o machismo que ainda ronda o mundo dos MCs.

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

Fugazi afirma que é importante não levar as ofensas para o lado pessoal e que gosta de batalhar tanto com meninos quanto com meninas. “As meninas costumam ser menos agressivas, algumas até se elogiam nas rimas. Os meninos não têm essa: seja homem ou seja mulher, pegam pesado e isso me ajuda a rimar melhor”, acredita.

 

Luta de pensamento


O Teatro de Arena da Universidade de Brasília é inspirado nas edificações antigas, onde o público assistia a espetáculos de dramaturgia e também combates. Usado pelos alunos em diversas situações, como na divulgação de resultados de vestibular e festas, o espaço completa seu destino e se torna palco de entraves inesquecíveis na Batalha da Escada. Diferentemente do que ocorria na Antiguidade, as lutas não são corporais, mas sim intelectuais.

A Batalha da Escada é uma das mais recentes na cidade. Em dois anos de existência, já conquistou um dos maiores públicos entre  as outras. Todas as quartas-feiras, a partir das 18h, cerca de 500 pessoas se reúnem para assistir aos duelos que começaram como uma brincadeira entre amigos.


A batalha segue um esquema próprio. Se a lista de inscritos tiver menos de 25 pessoas, 16 são sorteados para batalhar. Quando as inscrições ultrapassam 25, o número de rimadores pula para 20. Pela grande quantidade de interessados, os organizadores implantaram um sistema de cotas. Entre as vagas sorteadas, duas pertencem às mulheres e outras duas aos que estão rimando pela primeira vez.

Na organização do projeto desde o início, os estudantes Raphael Steigleder, 24 anos, e Rafael Montenegro, 23, estavam presentes na primeira noite em que os criadores André Henrique e Pedro Alencar se reuniram. “A estreia vez não foi nem na Arena, foi debaixo da árvore que fica do lado. Éramos um grupo de poucos amigos, tocando violão e ao som de celular, quando começamos a rimas por diversão”, revela Raphael.

Os encontros continuaram acontecendo toda semana e, um mês depois, os amigos se surpreenderam com a presença de quase 50 pessoas. No terceiro mês, o público chegou a 100 estudantes. Para que o evento não perdesse a essência, foi criada uma comissão de organização.
Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

Parte do movimento desde o início, Rafael afirma que a batalha é um aspecto fundamental da sua vivência como estudante e indivíduo. “A gente ajuda a UnB a cumprir seu propósito. É um movimento estudantil, e nós trazemos uma cultura marginalizada para dentro da universidade, incentivando a criatividade e criando um espaço de diálogo. Era isso que Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira queriam”, acredita.

 

"UnB, 18h, quarta- feira, mil grau
Batalha da Escada, degrau a degrau"


Lucas Cândia, 24 anos, faz parte da gestão da batalha há cinco meses. Ele filma e edita as pelejas. Um pouco tímido para rimar, garante que cumpre seu papel ao cuidar da divulgação do projeto. Para Lucas, a Batalha da Escada tornou-se um espaço de representatividade cultural, que atrai gente que não estuda ali para dentro da universidade, tornando-a mais democrática. “As pessoas vêm de todos os lugares. Vemos a periferia representada, conquistando seu direito e seu espaço. Ocupar esse lugar é muito importante. Conseguimos deixar o ambiente mais crítico, menos preconceituoso. É uma integração por meio da cultura hip-hop”, acredita.

Assim como os colegas, Joaquim Barbosa dos Santos Júnior, 22, é um dos organizadores. Joaquim acredita que auxiliar na criação e na manutenção do evento é fazer algo pelo seu próprio ambiente, ocupando o espaço e tirando a frieza da cidade.

Os amigos afirmam que o público da batalha é heterogêneo e que as rimas seguem uma linha mais ideológica e social. “Acho que é menos sangrenta. Os MCs não se atacam, trocam ideias. Uma vez até disseram para gente que para batalhar na Escada tinha que estudar e se preparar primeiro”, ri Raphael.

 

Empoderamento feminino no hip-hop


Apesar de haver diminuído nos últimos anos, o machismo ainda é muito presente nos espaços do hip-hop. As mulheres são aceitas nas batalhas e, muitas vezes, ganham dos rapazes, mas ainda enfrentam ofensas e uma certa dose de preconceito. Para ter um pouco mais de liberdade nas rimas e treinar para vencer as batalhas semanais, um grupo de amigas criou a Batalha das Gurias (BDG). O evento acontece uma vez por mês e se tornou itinerante, passeando pelo DF e até mesmo por outros estados, como Goiás e São Paulo.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Idealizadoras do projeto, as estudantes Dihéssika Wendy, 20 anos, e Camila Rodrigues Oliveira, 20, contam que o grupo começou com quatro mulheres e hoje já soma 15, que participam de todas as edições. Di, como Dihéssika é mais conhecida, conta que, no início, rimava com os homens e continua participando das disputas mistas, mas que muitas meninas começam na Batalha das Gurias e, só depois de praticar bastante, têm coragem de participar de eventos maiores.  “Comecei em Sobradinho e aprendi a lidar com as coisas mais pesadas e a bater de frente. É bacana, mas nas nossas batalhas temos um espaço maior para falar sobre feminismo e sobre questões sociais e políticas. Isso nos fortalece.”

Apesar de achar a Batalha das Gurias mais acolhedora para quem está começando, Di afirma ser importante manter a presença feminina nos outros eventos. “A Escada é o lugar que mais tem ‘minas’ rimando, depois da BDG. Tem melhorado muito e estamos cada vez mais presentes, rompendo o machismo, sendo bem recebidas. E ainda ganhando as batalhas regionais. Isso nos empodera”, comemora Di.

Camila passou quase dois anos assistindo às rimas antes de ter coragem de participar de uma. “Não me via como protagonista, só como plateia. Na BDG, tive coragem de rimar pela primeira vez e foi incrível. Hoje, já me sinto à vontade para participar de outros encontros”, conta, animada.

A estudante ressalta que, apesar da vergonha de se apresentar para grandes públicos, as batalhas têm um valor fundamental em sua vida. “É muito importante no processo de criação de identidade. Isso me ensinou a romper barreiras, conhecer pessoas a participar de debates diferentes e me inserir nesse contexto”, afirma.

 

"Lugar de mulher é onde ela quiser e não só onde você quer que ela trabalhe. Lugar de mulher pode ser sim no palco fazendo freestyle"

 

A BDG é pioneira, foi a segunda batalha só de “minas” a ser criada no Brasil. Camila e Di se dizem orgulhosas e, ao mesmo tempo, sentem o peso da responsabilidade de representar as mulheres do país e da capital dentro da cultura hip-hop. Para elas, a BDG é um encontro de guerreiras cheias de empoderamento.

Na BDG é proibido tocar no adversário e ter falas racistas ou homofóbicas. “Essa coisa de encostar no outro já deu até confusão em batalha. Sobre racismo e homofobia não precisa nem falar, né?! Não aceitamos”, garante Di.

 

O campeão é brasiliense!

Henrique Franzozi/Divulgação

O brasileinses Sid, 20 anos, é o atual campeão nacional de batalhas de rima. Aos 16 anos, resolveu “brincar” de rimar com um grupo de amigos e ficou surpreso com a facilidade. “Foi até engraçado, fiquei superempolgado, não dormi e rimei a noite inteira. Passei uma semana tentando rimar com minha mãe, com meu irmão e com qualquer pessoa que falasse comigo”, lembra.

Passou um ano rimando sozinho. “Gostava muito, mas não conhecia ninguém que fizesse isso, então, praticava só”, conta. No Ensino Fundamental, Sid se inscreveu na Batalha de Sobradinho. “Ganhei a primeira, perdi a segunda. Mas foi muito massa porque percebi que eu conseguia batalhar com quem rimava mesmo. Aí, eu comecei a ir a todas”.

O estudante conta que chegou a enfrentar um certo preconceito por ser morador do Lago Norte e chamado de “playboy” pelos MCs. Mas, assim que rimou pela primeira vez, passou a ser respeitado e querido pelo seu talento. “É uma família. Apesar da desconfiança do início, fui recebido de braços abertos quando mostrei por que estava ali. Foi a primeira vez que me senti aceito de verdade”, afirma.

Em 2015, viu MC Alves batalhando e indo para a final do campeonato nacional. “Era muito fã dele e quando o vi chegando na final, me senti inspirado. Disse para mim mesmo que eu queria ser o próximo. Passei a ir à batalha todos os dias e cheguei a ganhar nove, em uma única semana. Nas eliminatórias, batalhei com ele e isso foi um marco na minha vida.” Depois de vencer seu ídolo, Sid foi classificado e viajou para Belo Horizonte, trazendo na mala o título de campeão nacional. 

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