CAPA

O amor pode ser uma doença? Faça o teste e descubra se você ama demais

O amor é idealizado como o mais nobre e desejado dos sentimentos. Mas, se excessivo, é como veneno. Mata quem ama e quem é amado. A dor do amor em exagero pode ser mais nociva do que a falta dele

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postado em 16/07/2017 08:00 / atualizado em 14/07/2017 17:52

No século 16, Luís de Camões definia o amor como “um fogo que arde sem se ver”, “uma ferida que dói e não se sente”. Para Santo Agostinho, a medida do amor é amar sem medida. Amar com cada célula do corpo, além de todas as circunstâncias, custe o que custar. Embora muito romantizada na literatura, no cinema e na música, a ideia do sentimento desmesurado e sem limites pode se transformar em uma mazela quando levada ao pé da letra. Considerado tão nocivo quanto outros vícios, como o alcoolismo ou a adição em jogos de azar, o chamado amor patológico causa sofrimento, angústia e desespero para o doente e para o objeto de desejo.


Maurenilson Freire/CB/D.A Press
Segundo Andrea Lorena da Costa, psicóloga e neuropsicóloga do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria (IPq), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o amor é considerado patológico quando o indivíduo presta cuidados de forma excessiva ao parceiro, “de forma a deixar de lado interesses e amigos/familiares anteriormente valorizados”. Seria, em outras palavras, a personificação do ditado “o amor é cego”. Muitas vezes, ainda de acordo com a pesquisadora do Ambulatório do Amor em Excesso (Amore) da USP, a pessoa até já tentou dar fim a tal comportamento excessivo, porém, sem sucesso.

Tal qual dependentes químicos, os viciados em amar são obcecados. Carmita Abdo, psiquiatra, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), explica que a situação se desenvolve como uma dependência, em que uma pessoa nutre um sentimento tão absorvente por outra que acaba causando mais sofrimento que prazer. “É um sentimento intenso que, correspondido ou não, traz sofrimento na medida em que foge do que seria considerado possível ou habitual”, define a especialista.

Os acometidos pela febre do amor enfermo são incapazes de levar o cotidiano de maneira tranquila. Estão sempre preocupados com a pessoa que é objeto de amor, mas a sesnação de posse supera o próprio ciúme. “Não é uma compulsão sexual, não é uma necessidade física. É a necessidade de ter aquela pessoa de uma forma muito mais intensa e absorvente, de modo que fica impossível a convivência”, completa Carmita. “O relacionamento se torna extremamente angustiante para ambas as partes, pois há sempre uma falta que nunca se satisfaz.”

Perceber-se como um amante patológico não é tarefa simples. Afinal, como não considerar real um sentimento tão intenso? O sinal vermelho de que o amor talvez não esteja saudável deve acender quando a vida parece estagnada, de acordo com Andrea Lorena da Costa, psicóloga e neuropsicóloga da USP. “De tão fixado(a) no parceiro(a), a qualidade de vida decai, assim como a vida profissional”, exemplifica a especialista. “Outras vezes, familiares costumam reclamar da postura da pessoa diante do relacionamento.”
 

Características de uma mulher que ama demais

  • Vem de um lar desajustado, em que suas necessidades emocionais não foram satisfeitas;
  • Como não recebeu um mínimo de atenção, tenta suprir essa necessidade insatisfeita por meio de outra pessoa, tornando-se superatenciosa, principalmente com homens, aparentemente, carentes;
  • Como não pode transformar seus pais nas pessoas atenciosas, amáveis e afetuosas de que precisava, reage fortemente ao tipo de homem familiar, porém, inacessível, o qual tenta transformar pelo seu amor;
  • Com medo de ser abandonada, faz qualquer coisa para impedir o fim do relacionamento. Quase nada é problema, toma muito tempo ou mesmo custa caro demais se for para “ajudar” o homem com quem está envolvida;
  • Habituada à falta de amor em relacionamentos pessoais, está disposta a ter paciência, esperança, tentando agradar cada vez mais. Está disposta a arcar com mais de 50% da responsabilidade, da culpa e das falhas em qualquer relacionamento;
  • Sua autoestima está criticamente baixa, e, no fundo, não acredita que mereça ser feliz. Ao contrário: acredita que deve conquistar o direito de desfrutar a vida;
  • Como experimentou pouca segurança na infância, tem uma necessidade desesperadora de controlar seus homens e seus relacionamentos;
  • Mascara seus esforços para controlar pessoas e situações, mostrando-se “prestativa”;
  • Está muito mais em contato com o sonho de como o relacionamento poderia ser do que com a realidade da situação;
  • Tem tendência psicológica, e com frequência, bioquímica a se tornar dependente de drogas, álcool e/ou certos tipos de alimento, principalmente doces;
  • Ao ser atraída por pessoas com problemas que precisam de solução, ou ao se envolver em situações caóticas, incertas e dolorosas emocionalmente, evita concentrar a responsabilidade em si própria;
  • Tende a ter momentos de depressão, e tenta preveni-los com a agitação criada por um relacionamento instável;
  • Não tem atração por homens gentis, estáveis, seguros e que estão interessados nela. Acha que esses homens “agradáveis” são enfadonhos.

Fonte: Grupo Mada Brasil, extraído do livro Mulheres que Amam Demais, de Robin Norwood.
 

Coração adoentado

Maurenilson Freire/CB/D.A Press

Ninguém sabe como nasce um amor, muito menos um doentio. Algumas teorias da psicologia, contudo, tentam desvendar quando e como um dos sentimentos mais nobres do mundo torna-se sombrio. Uma delas é a hipótese fundamentada na psicodinâmica. Quem a explica é Andrea Lorena da Costa, psicóloga e neuropsicóloga do Programa de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria (IPq), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP: “A origem pode ser a vinculação com a mãe ou com o(a) cuidador(a) na primeira infância. Por volta dos quatro anos, a criança está altamente ligada à mãe e vice-versa, e o comportamento materno nesse vínculo, percebido pela criança como inconstante, pode deixar cicatrizes para o relacionamento amoroso.”

Ainda sobre o tratamento recebido durante a primeira infância, Carmita Abdo, psiquiatra coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da USP e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), chama atenção para alguns fatores ambientais que podem contribuir para o nascimento do amor sem medidas. “Algumas situações vivenciais, como uma perda afetiva importante que se transforma em uma frustração, associada a um perfil de personalidade não trabalhado na infância, acaba levando essa pessoa a desenvolver e a manter essa falta de controle emocional.”

Mas quem estaria mais vulnerável ao amor patológico? Ainda de acordo com Carmita, notam-se sinais de risco desde muito cedo. “É possível observar que aquela criança que se fixa em determinadas pessoas e tem dificuldade em dividir as amizades acaba tendo mais dificuldade em viver naturalmente os relacionamentos”, detalha a psiquiatra.

Muitas vezes, o amante patológico acredita que é mais apaixonado do que as demais pessoas ou que tem mais capacidade de se envolver que os outros. Porém, assim como outras enfermidades, o amor patológico apresenta sintomas (como a ilusão de ser “mais entregue” do que o normal). “Percebemos que a obsessão evolui e deixa de ser o quadro principal. Deixa de ser caracterizada por afeto profundo e passa a ser definida por uma ansiedade grande”, completa Carmita Abdo. “Essa pessoa tem a autoestima precária, não respeita sua identidade, se submete a situações constrangedoras, tem instabilidade emocional e pode apresentar problemas afetivos não resolvidos na infância.”

Sinais de um amor enfermo

  • Prestar cuidados excessivos ao parceiro;
  • Ter sintomas de abstinência na ausência do parceiro ou diante da ameaça do rompimento, como sudorese e taquicardia;
  • Tentativas de controlar o comportamento do parceiro;
  • Sintomas depressivos e ansiosos;
  • Falta de apetite;
  • Insônia;
  • Taquicardia;
  • Falta de ar.

Fonte: Andrea Lorena da Costa, psicóloga e neuropsicóloga; Carmita Abdo, psiquiatra.
 

Teste:

Sou uma Mulher que Ama Demais?

1) Você se torna obsessiva com os relacionamentos?
( ) Sim ( ) Não

2) Você mente ou evita pessoas para disfarçar o que ocorre numa relação?
( ) Sim ( ) Não

3) Você repete atitudes para controlar a relação?
( ) Sim ( ) Não

4) Você culpa e acusa seus relacionamentos pela infelicidade da sua vida?
( ) Sim ( ) Não

5) Você procura agradar  às pessoas com quem se relaciona e se esquece de si mesma?
( ) Sim ( ) Não

6) Você só se sente viva ou completa quando tem um relacionamento amoroso?
( ) Sim ( ) Não

7) Você já tentou diversas vezes sair de um relacionamento, mas não conseguiu?
( ) Sim ( ) Não

8) Você sofre mudanças de humor inexplicáveis?
( ) Sim ( ) Não

9) Você sofre acidentes devido à distração?
( ) Sim ( ) Não

10) Você pratica atos irracionais?
( ) Sim ( ) Não

11) Você tem ataques de ira, depressão, culpa ou ressentimentos?
( ) Sim ( ) Não

12) Você já teve ataques de violência física contra si mesma ou contra outras pessoas?
( ) Sim ( ) Não

13) Você sente ódio de si mesma e se auto justifica?
( ) Sim ( ) Não

14) Você sofre doenças físicas devido às enfermidades produzidas por estresse?
( ) Sim ( ) Não

15) Você cuida excessivamente dos membros de sua família?
( ) Sim ( ) Não

16) Você não consegue se divertir sem a presença do (a) seu (sua) parceiro(a)?
( ) Sim ( ) Não

17) Você se sente exausta por assumir mais responsabilidades em um relacionamento?
( ) Sim ( ) Não

18) Você se sente incompreendida por todos?
( ) Sim ( ) Não

Resultado:


Se você respondeu SIM a duas ou três das perguntas acima, é possível que você seja uma MADA.

Se você respondeu SIM a mais de quatro perguntas, é mais provável que você seja uma MADA.

Mesmo que você não se encaixe nas perguntas acima, mas, ainda assim, sofra por amor e queira ajuda, procure uma reunião do grupo Mada.
 

Em busca da cura

Maurenilson Freire/CB/D.A Press

Natalia* é uma das conselheiras e integrantes do grupo Mulheres que Amam Demais (Mada). O programa, baseado nos 12 Passos e 12 Tradições de Mada, é uma adaptação do programa usado pelos Alcoólicos Anônimos (AA). Por meio de reuniões, as integrantes conversam sobre amor, dependência, resiliência e superação. O grupo não se apoia em psicólogos, psiquiatras ou terapeutas, mas na empatia. “Acreditamos que a mulher que ama demais veio de uma família disfuncional, o que poderia ser um dos motivos para o problema surgir”, explica.

No Mada, apenas a mulher pode se definir como alguém que ama demais. Há, no entanto, formas de se descobrir e de se ajudar (veja quadro e faça o teste). De acordo com a filosofia do grupo, a mulher é, também, livre para escolher se procura tratamento especializado ou não, além do programa de recuperação do Mada. “O nosso tratamento se baseia em espelhos, não em conselhos. Ao participar das reuniões do nosso grupo, a pessoa poderá partilhar seu problema e ouvir outras partilhas. Assim, o tratamento acontece”, detalha. “Sugerimos a participação em pelo menos seis reuniões, como se fosse a primeira vez, para que a pessoa se identifique e decida se é uma mulher que ama demais e se o programa tem algo a lhe oferecer.” As reuniões são gratuitas e não é necessário confirmar presença, fazer inscrição ou pagar taxas.

É claro que amar em demasia não é o melhor cenário, mas também não é um beco sem saída. O importante, de acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, é entender o quadro em sua essência. “Não dá para abrir mão de uma psicoterapia, para a pessoa entender o que está fugindo do controle, trabalhar o apego exagerado e melhorar a autoestima, além de aprender a ter maior domínio sobre suas emoções”, argumenta.

Muitas vezes, especialmente no início do tratamento, os pacientes precisam de medicamentos para limitar seus excessos. Por sua atuação em sintomas repetitivos, Carmita Abdo diz que os antidepressivos são, geralmente, a primeira escolha dos médicos. “São medicamentos úteis para controlar sintomas exagerados, quando a pessoa não tem controle dos próprios atos e emoções. Servem para ela ter melhor domínio sobre seus impulsos.”

Além da medicina tradicional, há quem encontre ajuda na medicina holística. Márcio Ferrari, terapeuta holístico que acompanha um grupo Mada, baseia seu tratamento em aspectos que vão além do viés psicológico. A construção da personalidade, as crenças limitantes dos antepassados (como mãe, pai, avós) e toda a herança psíquica do indivíduo são levadas em consideração no caminho para a cura. “O holístico considera os problemas como sendo oportunidades de crescimento espiritual”, define. “Tudo começa no autoconhecimento.”

Para Márcio Ferrari, viemos ao mundo não para amar, necessariamente, mas para aprender a fazê-lo. Segundo ele, observar a repetição de padrões é a chave para se entender. “É muito comum atrairmos pessoas do mesmo padrão. Acredito em um universo autoconsciente, em que a lei da atração faz com que nos aproximemos do que a gente precisa. O padrão vai se repetir até que a pessoa possa fazer uma mudança vibracional.” Nessa lógica, a dependência seria, então, uma oportunidade para olhar para dentro de si mesmo. “Mudar não é fácil porque temos uma tendência a nos acostumarmos, inclusive, com a dor, com o sofrimento e com a tristeza”, completa.

O amor de dentro para fora — em que situações negativas são vistas como chances de crescimento e o amor-próprio é considerado prioridade — seria, para Ferrari, o começo de uma jornada livre das relações patológicas. “A maioria das pessoas têm problemas de relacionamento com elas mesmas. É preciso ter uma percepção de mundo diferente, olhando tudo com mais abrangência e profundidade, pensando: ‘Por que eu atraí essa pessoa? O que o universo quer me dizer com isso?’ Quando a gente se propõe a olhar o amor-próprio, o amor ao próximo acontece.”
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