Encontro com o Chef

Reproduzindo as receitas da mãe, doceira faz sucesso com delícias húngaras

Gabriela Korossy abriu restaurante em cujo cardápio tenta reproduzir os pratos feitos pela mãe, natural da Hungria. Entre uma receita e outra, ela desvendou uma bela história familiar, que compartilha em forma de receitas

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postado em 02/08/2017 15:37 / atualizado em 02/08/2017 16:18

“Köszönöm!” O senhor agradece à Gabriela Korossy, em húngaro, logo depois de se deliciar com uma fatia de Dobos torte, tradicional torta da nação onde nasceram os pais. A iguaria tinha sido preparada pelas habilidosas mãos da confeiteira, filha de húngaros, como ele. Diante da gratidão do cliente, Gabriela responde no mesmo idioma. O homem se desculpa e diz que não consegue mais falar a língua dos pais. Mas, para surpresa de ambos, continua a se comunicar em húngaro, que um dia lhe foi tão familiar.

Carlos Vieira/CB/D.A Press

Emocionado, ele conta que a torta o fez se recordar da mãe. “O idioma foi voltando à mente dele”, diz uma também emocionada Gabriela. “Trazer à tona esse tipo de memória afetiva me faz imensamente feliz.” E alegrias como essa têm sido uma constante na vida da doceira desde que ela e o marido, Laycer Tomaz, abriram o Duna, há pouco mais de três meses. A casa, um misto de café e confeitaria, é especializada na culinária da Hungria, esse pequeno país europeu tão rico cultural e gastronomicamente.

Mais que isso, o Duna — nome do rio que corta Budapeste, o Danúbio, no idioma original — é um resgate da própria história de Gabriela, que você, leitor, conhecerá nas próximas linhas.

Tradição

Todas as receitas do Duna são da mãe de Gabriela, Katarina, morta em 1992. “Fiz inúmeros experimentos até chegar aos aromas e aos sabores iguais aos da minha mãe. Nesse processo, ia anotando as receitas.” Jornalista de formação, Gabriela cresceu de acordo com os hábitos húngaros, o que incluía a alimentação. “Só comecei a almoçar comida brasileira quando entrei na faculdade, no restaurante universitário.”

Como é tradição em sua terra natal, ela e os dois irmãos quase nunca saíam de casa sem os pais. Os passeios em Uberlândia, cidade mineira onde nasceu, costumavam se restringir a visitar outras famílias húngaras. “A cozinha, portanto, era o nosso parque de diversões.”

Exímia cozinheira, Katarina costumava ensinar as delícias do seu país aos filhos. “Tudo era preparado de forma muito lúdica. Nós provávamos a massa crua, a víamos crescer, fazíamos experiências”, relembra. E, assim, Gabriela foi aprendendo os segredos da gastronomia daquele país. Do pai, marceneiro, ouvia com frequência a tradicional história do seu povo. “Sempre me senti mais húngara que brasileira”, confessa.
 

E toda essa tradição é traduzida no Duna. Além da Dobos, tortas tradicionais, como a Blaha Lujza e a Esterházy, fazem parte do cardápio. “O mais interessante da confeitaria húngara é que cada torta tem uma história real por trás”, empolga-se Laycer, também apaixonado pela cultura da companheira. A Dobos torte, por exemplo, conta o casal, estava exposta em uma das mais tradicionais feiras anuais de confeitaria de lá quando a princesa austro-húngara Sissi provou e a elegeu como a melhor do evento. A delícia tinha sido criada pelo confeiteiro de nome Dobos.

As sopas também têm feito sucesso, especialmente nos dias frios, entre os frequentadores da casa. “Os húngaros são conhecidos como os maiores tomadores de sopa do mundo”, lembra Laycer. E aproveita para oferecer outra especialidade do Duna: os pães de queijo. Sim, por lá, também há essa delícia, só que, em vez de ser preparado com polvilho, é usado trigo. Ele vai muito bem com goulash pörkölt, um prato típico feito à base de carne desfiada. Porém, as tortas feitas à base de frutas, como a de maçã, da qual Gabriela compartilha a receita com os leitores ,são os xodós da confeiteira. “Elas eram as preferidas da minha mãe”, justifica. “Ela as preparava como ninguém.”

Diante de tantas opções típicas do país europeu, não é à toa que o lugar se tornou uma espécie de ponto de encontro de nascidos por lá, residentes ou de passagem por Brasília. “Nunca pensei que tivessem tantos por aqui.”

Sonho realizado

O desejo de Gabriela em ter um café é antigo e, por muitos anos, foi compartilhado com o pai, Korossy Mihaly. Depois da morte do patriarca, em 1994, o sonho permaneceu adormecido. Isso até o ano passado, quando, depois de uma temporada de três meses em terras húngaras, Gabriela e Laycer voltaram decididos a pôr o plano em prática.

“Um dia, Laycer disse que queria me mostrar uma loja. Quando cheguei a um estabelecimento fechado, não entendi nada. Daí, ele falou que tinha alugado o espaço para ser o nosso café”, conta Gabriela. Repórter fotográfico, o marido, hoje, fica em tempo integral dedicado ao Duna. A mulher ainda se divide com o trabalho na Câmara dos Deputados, apesar de comandar de perto a equipe de confeiteiras que mantém na casa. “Nada vai para a vitrine sem antes ter passado pelo meu aval”, garante.

Resgate de uma história

Tanta dedicação vai além do lado profissional. O Duna é um resgate da vida de Gabriela, que, até pouco tempo, quase nada sabia das suas origens, uma história que remonta do pós-guerra. Em 1949, a mãe dela, originária da cidade de Szeder, desembarcou no Brasil. Dois anos depois, foi a vez de o pai, que nasceu em Temesvár, região posteriormente incorporada à Romênia, aportar por aqui.

No Brasil, eles se casaram e tiveram três filhos. Mas nunca gostaram de falar sobre o passado ou sobre os parentes que tinham deixado no Velho Continente, especialmente a mãe. “Ela era uma mulher muito alegre, mas, sempre que a gente perguntava sobre sua vida na Hungria, ela se retraía e chorava. Como via que aquilo deixava a minha mãe muito triste, fui parando de fazer perguntas.” O pai seguia o estilo da mulher e se mantinha reservado.

arquivo pessoal
Katarina morreu e, dois anos depois, foi a vez de Mihaly cair doente. “Ele já estava bastante debilitado quando eu, meio de brincadeira, perguntei: ‘Eu não tenho irmãos por aí, né? Eu não vou descobrir agora que você tem outros filhos?’ E ele respondeu: ‘Eu, não!” Aquilo deixou Gabriela perturbada.

Muitos anos depois, sem nenhum dos dois para tirar as dúvidas que pairavam sobre Gabriela, Laycer incentivou a mulher a correr atrás de suas origens. Propôs que ela escrevesse um texto em húngaro e postasse, no Facebook, uma foto antiga que a mãe guardava. Na imagem, uma senhora aparecia ao lado de uma criança. Ele achava que, com a divulgação, encontrariam alguma pista de quem eram aquelas pessoas.

A postagem não surtiu o efeito esperado e, passado um ano, Laycer decidiu republicá-la. Dessa vez, o resultado foi completamente diferente. “De repente, comecei a receber milhares de mensagens, em húngaro, de gente dizendo que queria ajudar a resgatar minha história”, recorda-se Gabriela. Tevês e jornais húngaros a procuraram para que ela contasse o pouco do que sabia sobre o passado e, assim, quem sabe, descobrir algo.

“Uma mulher nos procurou desesperada, achando que tinha sido roubada, pois ela tinha a mesma foto que postamos, exceto pelo fato de a senhora estar sozinha, sem a criança”, conta Laycer. E, assim, Gabriela soube que a mulher da foto era a sua avó materna e a criança… Bem, ela era sua irmã. Sim, antes de embarcar para o Brasil e começar uma nova vida, Katarina tinha tido duas filhas na Hungria. E a “mulher desesperada” era prima da confeiteira.

Infelizmente, quando Gabriela começou a encaixar as peças do seu passado, as duas irmãs já tinham morri do, assim como os avós. Ela, porém, teve contato com o sobrinho e com os primos. Como os protagonistas estavam mortos, ela não conseguiu montar todo o quebra-cabeça da história, mas descobriu fatos importantes.

Pouco antes de embarcar para o Brasil, Katarina deixou as duas filhas em um orfanato e seguiu com o então marido, pai das crianças, para a Itália. “Não sei quais motivos a levaram a fazer isso”, reflete Gabriela. “Só sei que, ao saber que minhas irmãs estavam em um orfanato, o meu avô materno foi até lá, pegou as meninas e tirou o nome do pai delas da certidão de nascimento.”

Na Itália, ao que parece, a vida de Katarina também não foi fácil. Lá, o marido a abandonou por outra mulher. Foi quando, provavelmente, ela decidiu começar uma vida nova no Brasil.

Katarina trocou de sobrenome e, quando desembarcou no Rio de Janeiro, trazia um bebê de 9 meses nos braços. Um outro mistério que Gabriela ainda espera desvendar. Ela tentou rastrear o paradeiro desse garoto, mas não conseguiu evoluir muito. A última notícia que teve foi da década de 1980, quando ele morava em São Paulo.

No fim do ano passado, Gabriela seguiu com Laycer e a filha para uma temporada na Hungria. Ela conheceu parte da família e, sobretudo, a cultura com a qual foi criada, mas nunca a tinha visto de tão perto. “Ninguém acreditava quando Gabriela dizia que era brasileira. Ela fala, inclusive, com o sotaque da região da família materna, Szeder”, fala o marido.

“Eu nunca vou saber o que levou a minha mãe a tomar tais decisões. Só sei que ela era uma pessoa extremamente carinhosa e que sofria muito com o passado”, resume Gabriela. E é, por meio da comida, que aprendeu a fazer com Katarina, que ela tenta resgatar a sua história e a de tantas outras pessoas, como a do senhor do início desta reportagem. “Só sei que estou muito feliz. Cozinhar é um ato de amor. Produzir algo com as mãos que vai deixar o outro feliz é algo indescritível.”

Torta de maçã

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 

Massa

Ingredientes
  •  80g de manteiga
  •  80g de açúcar refinado e peneirado
  • 1 gema
  •  160g de farinha de trigo

Modo de fazer
  • Bata a manteiga até fica cremosa e acrescente o açúcar, a gema e, por último, a farinha de trigo.
  •  Amasse bem com a mão até ficar uma massa homogênea.
  •  Leve para a geladeira. A massa pode ser mantida refrigerada por até três dias ela serve de base para outras tortas.

Recheio

Ingredientes
  •  6 maçãs
  •  100g de açúcar
  •  1 colher de sobremesa de canela em pó
  •  1 pouco de suco de limão

Modo de fazer
  •  Depois de higienizadas, descasque as maçãs e passe em um ralador grosso ou corte em lâminas bem finas.
  •  Acrescente o açúcar, a canela e o limão. Misture bem e ponha na geladeira por pelo menos duas horas.
  •  Passado esse tempo, esprema as maçãs até tirar o excesso de líquido.

Suspiro

Ingredientes
  •  3 claras
  •  100g de açúcar refinado
  •  Raspas de um limão

Modo de fazer
  •  Misture o açúcar e as raspas do limão e deixe de repouso.
  •  Batas as claras na batedeira até o ponto de neve. Em seguida, acrescente o açúcar com limão.

Montagem

  •  Pegue a massa que estava na geladeira e coloque em formas individuais ou de bolo, na espessura que preferir. Leve ao forno preaquecido a 170ºC (temperatura baixa), por 10 minutos.
  •  Retire, acrescente o recheio de maçã e, por cima, o suspiro.
  •  Leve ao forno em temperatura ainda mais baix (90ºC), por cerca de 70 minutos. Caso o seu forno não tenha tal temperatura, deixe a porta entreaberta.
  •  A torta pode ser servida quente ou gelada.
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