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Handmade: Peças fora do óbvio e feitas a mão pedem atenção e cuidado

Com produtos feitos à mão, marcas comandadas por estilistas e empresários da cidade fogem da estética vintage e apostam em um design moderno. Criatividade e ligação com a atmosfera moderna de Brasília pautam as peças dos novos artesãos da capital

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postado em 20/08/2017 08:00 / atualizado em 19/08/2017 22:16

Peças feitas à mão pedem atenção plena de quem as confecciona. São uma retomada à ação humana e à fabricação individualizada. Andam na contramão de grandes indústrias dos centros urbanos, sedentas por lucratividade. Pessoais e únicas, exigem um ritmo mais lento, como tudo que é orgânico e natural. Roupas, acessórios, óculos. Para quem produz itens artesanalmente, o trabalho funciona quase como um refúgio. O processo de descobrimento pessoal vai além da necessidade de rentabilizar ou de expandir negócios.
 
 

“Fazemos os moldes, cortamos, costuramos”, orgulha-se Marcela Torres, da Bruma. Amiga da natureza, a marca brasiliense de vestuário não terceiriza mão de obra. As camisetas e camisas são feitas uma a uma. “Sem dúvida, isso deixa um pouco de nós nas roupas. Entra, inclusive, em uma questão de transmissão energética, algo mais subjetivo”, filosofa Bruno Pinheiro, parceiro de Marcela na empreitada.

É impossível separar o feito à mão da cultura econômica sustentável. “Torcemos para viver o dia em que o ecológico não vai ser um diferencial, mas uma obrigação”, defende Marcela. A Bruma usa tecidos que combinam algodão ecológico reaproveitado do descarte de indústrias têxteis com garrafas pet.

Essa postura aparece em diferentes aspectos de grifes locais. Inaugurada há um ano, a marca de óculos Rever surge como exemplo. A empresa trabalha exclusivamente com acetato italiano, mais durável, leve e maleável, e com grande parte das etapas de criação manuais. Isso evita desperdícios e gera menos resíduos industriais. “Faz parte de quem nós somos e da nossa identidade pensar nos detalhes. Na briga entre qualidade e quantidade, focamos sempre no primeiro ponto. Não queremos vender números astronômicos”, assegura Brice Filiatre, da Rever. 

Para quem ainda não entende o valor agregado, Gustavo Halfeld, cofundador da Quero Melancia, conta como diferenciar a peça feita à mão daquela produzida em larga escala: “Nenhuma roupa fica com a estampa exatamente no mesmo lugar da outra, por exemplo. Temos um cuidado e um carinho muito grande em cada etapa.” No final, explica, as peças adquirem um design mais orgânico, menos padronizado, como ocorre nas produções em larga escala. “Do ponto de vista do preço, acabamos tendo um custo por peça mais elevado, pois a produção é relativamente pequena e cuidadosa.”

O design com pegada mais contemporânea tem, diretamente, influência da cidade modernista onde esses profissionais vivem. “O brasiliense ficou mais apaixonado pela capital de uns tempos para cá. Existe aquele preconceito de ser a sede do governo, muita gente vinculava a política com a cidade. Estamos um pouco mais bairristas, no bom sentido, de querer valorizar e de produzir itens com a cara da capital”, avalia Thaís Fread, que comanda uma marca de acessórios homônima desde 2012.

Uma nova visão

A relação de Brice Filiatre com o segmento ótico é antiga. A família é dona de uma fábrica instalada no SIA. Por lá, são confeccionados modelos para várias marcas do Distrito Federal. Engenheiro civil, o brasiliense Gustavo Fabrino desenvolvia negócios no setor na Alemanha quando, ao retornar ao país, foi “mordido” pela mesma paixão de Brice. No início de 2015, a dupla começou a fazer estudos do que veio a se tornar a Rever, no ano seguinte. “Nossa preocupação era atender diferentes rostos e biotipos, de acordo com a diversidade do nosso país”, explica Brice Filiatre.
 
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
  

Em um mercado dominado por gigantes do varejo mundial, a marca de óculos caminha em sentido contrário. As peças são feitas em pequena escala. O desenho é manual e concluído com o auxílio de softwares específicos. Mais artesanal, o processo é conhecido como fresado.

A estrutura do óculos começa a partir de chapas de acetato importadas da Itália. Mais maleável, leve e flexível, a matéria-prima permite maiores ajustes. “Os óculos precisam ter uma ergonomia e se adaptar ao rosto do cliente”, conta Brice. Uma das maiores preocupações é o conforto. “Em função dessas características, a durabilidade da peça é grande. Chega a décadas!”, garante o sócio, Gustavo. 

As chapas de acetato são cortadas apenas nos tamanhos em que serão usadas. Isso evita desperdícios — filosofia sustentável que a Rever defende desde fundada. O corte inicial (fresar) é apenas a primeira parte de muitas etapas, como a colagem, o acabamento e o polimento. O último é feito individualmente, sem o uso de verniz. Ou seja, os óculos não descascam.

A indústria, em geral, usa outro método, o injetado, em que o acetato é submetido a altas temperaturas e colocado dentro de um molde plástico. A produção, nesse caso, é em larga escala e pouco personalizada. “Sempre acreditamos em fazer a diferença. Em Brasília, há uma grande oferta de grifes conhecidas, mas nossa proposta causou impacto pelo que tem de novo na identidade”, destaca Brice Filiatre.

Essa sequência de cuidados não acaba na fábrica. Continua na loja. Com um plano de negócios metódico e milimetricamente planejado, ambos focaram nos detalhes como um fator surpresa para o público. Até o projeto arquitetônico da loja, na 309 Sul, foi desenhado por eles.

A evolução em termos de design e parcerias é constante. Uma delas, mais recente, foi firmada com o design de mobiliário Danilo Vale. Celebração a Brasília, os itens são batizados com nomes que remetem à história da capital, como o visionário Dom Bosco. Ao todo, a Rever tem 22 modelos.  As armações da Rever custam a partir de R$ 368.  
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

A praia é para todos

Estampas florais, cores alegres e modelagem cortininha. Esqueça o imaginário comum. Nada disso pontua os biquínis, maiôs, bodies e até peças de vestuário da Helmet Clothing, marca criada em Brasília, há cinco anos, pela publicitária Daniela Pesce e a estilista Paula Francisco. Ousadia é a palavra certeira para definir os valores da empresa de viés alternativo. A começar por propor moda praia em uma cidade que não é litorânea. “Pouca gente sabe, mas o segundo lugar em que mais se vende biquíni no Brasil é Brasília. As pessoas compram aqui e usam em outros estados, no Lago Paranoá, em clubes, na Chapada dos Veadeiros”, exemplifica Daniela.

No método de fabricação, a Helmet evoca os tempos da vovó, com corte manual e costura finalizada na máquina. Na estética, a onda é outra. Tons mais escuros e temas soturnos dominam o leiaute. As estampas não são literais. Lembram constelações e estrelas, em uma nítida ligação com a astrologia. Mas não só. A fabricação é manual e elas aproveitam todas as partes do tecido. O que não serve (geralmente, recortes de 5cm x 5cm) é doado a cooperativas especializadas em reaproveitamento.

Dessa maneira, cerca de 100 itens são fabricados todos os meses. “Percebemos que a sociedade está aderindo ao consumo feito à mão, muito mais consciente. Queremos ir contra o descartável. Quero que o cliente tenha um produto que dure o máximo possível, tanto em termos de estética quanto de qualidade. E não estamos sozinhas. Esse nicho não para de crescer. Vemos muitas pessoas selecionando a marca que compram por esses ideais”, pondera Daniela.

Hot pants e maiôs podem transitar do dia para a noite em um interessante jogo de sobreposições. A demanda levou a marca a desenvolver também roupas para dias mais frios, caso dos moletons. As peças vão de R$ 50 (cada uma das peças do biquíni: top ou calcinha) a R$ 250 (body ou moletom). 
Ed Alves/CB/D.A Press
 

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