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Beleza sem padrão é um grito de liberdade contra a tirania da magreza

Apesar de a maioria da população estar acima do peso, o mundo ainda é ditado por padrões de magreza. Mas há quem dê um grito de liberdade contra essa tirania. Conheça a história de mulheres que, de forma saudável, aprenderam a valorizar e, sobretudo, amar as próprias curvas

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postado em 05/11/2017 08:00 / atualizado em 05/11/2017 15:54

Bonitas e fora do padrão. E daí? Todos os dias, quando se aceitam, milhares de mulheres mostram que a magreza pode ser, sim, superestimada. Apesar do clichê, amar o próprio corpo, independentemente das marcas, do peso ou da estatura, muitas vezes, é a saída para problemas como depressão ou baixa autoestima. Longe de deixar a saúde de lado, essas pessoas conseguem aliar bem-estar e busca pela felicidade, e acabam, sem perceber, quebrando padrões e transformando referências — os jovens, cada vez mais, se apegam a personalidades do mundo conhecido como “plus”.

A pesquisa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o tema indicou que cerca de 56,9% da população com 18 anos ou mais estava com excesso de peso em 2013 — o número correspondente a mais de 82 milhões de pessoas. Entre as mulheres, essa prevalência era de 58,2%. Já o percentual de obesidade estava em 20,8%, sendo 16,8% para eles e 24,4% para elas.

O que desperta a curiosidade de pesquisadores, porém, é a constante transformação nos padrões de beleza. Um estudo feito pela Universidade do Estado da Flórida, batizado de Is plus size equal? — em livre tradução, O plus size é igualado? —, revelou que modelos plus size ajudam a melhorar a saúde mental de outras mulheres e são mais lembradas quando comparadas a tops magras. A pesquisa apontou também que a exposição a “modelos de mídia de tamanho não realista” tem um efeito negativo na “saúde mental e física do consumidor, incluindo a menor satisfação corporal”.

Para a psicóloga e professora da Universidade Católica de Brasília Danielle Souza, os valores e as preferências com relação ao corpo se modificaram ao longo da história, em razão da mídia e dos valores ditados. Privilegiou-se um corpo de modelo alto e magro, sem nenhuma gordurinha, em detrimento dos demais. 

“Observamos um lugar de muito sofrimento na busca pelo peso ou corpo perfeitos”, diz Danielle. “Muitos acham que, chegando lá, encontrarão felicidade e reconhecimento, mas é mais que isso. Precisamos estar conectados com a nossa história genética e buscar uma qualidade de vida que vá além de todos os padrões.”

O processo de aceitação, assim, vai além do que a própria palavra sugere. É preciso, de acordo com a especialista, reconhecer o corpo com todas as formas e defeitos, e dizer em voz alta: “Esse corpo é meu e eu sou feliz assim”. O estímulo à aceitação e à quebra de padrões já vem de todos os lados: na internet, vários blogs e personalidades comparam, remontam looks e compartilham histórias. 

No comércio, comparado ao ano de 2013, por exemplo, as lojas dão mais oportunidade a pessoas que vestem um tamanho maior. Na televisão, as atrizes gordinhas roubam a cena. Nos concursos, as candidatas plus size encantam e reforçam que a beleza vai  muito além de um corpo magro e uma barriga retinha.

Estilo tamanho GG!

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Em um editorial realizado na Casa Cor Brasília, a Revista convidou três das nossas personagens da reportagem de capa para mostrar que autoestima vem de dentro e reflete na hora de se vestir. Além de posar para as nossas lentes, a consultora de estilo Lilian Lemos deu dicas para nossas leitoras plus size acertarem nas escolhas diárias e, acima de tudo, sentirem-se bem com elas mesmas. Thamara Amorelli e Gabriela Villar completam o nosso trio de modelos.
Minhas medidas, minhas regras

A gravidez trouxe muitas realizações, mas também quilos a mais para o corpo de Thamara Amorelli, 34 anos. Ao todo, 50kg. A cada ida à balança, um pouco de infelicidade. Nenhuma dieta foi  suficiente para que a relações públicas voltasse ao peso que considerava ideal. Perdeu 27kg, e ainda luta para emagrecer. Mas, agora, com um diferencial: a aceitação.

O processo de reconhecimento do próprio corpo começou há quatro anos, após uma separação. Depois de focar  energias no cuidado da família, ela resolveu dar atenção ao seu bem-estar. “Eu me separei depois de 12 anos e notei que era hora de cuidar um pouco de mim. Decidi que aprenderia a me amar e a me valorizar, independentemente do meu peso.” Paralelamente, a moda plus size no Brasil começou a mudar, e ela buscou dicas de moda, roupas e locais de compras.

Pontos positivos

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
A partir daí, só sucesso. Os exercícios e a alimentação saudável viraram rotina, mas não obsessão.  “Estou tentando emagrecer, mas não sofro com isso. Acho que tudo na vida é baseado em não extrapolar. O importante é cuidar da saúde.” Apesar disso, Thamara admite que as situações de preconceito e gordofobia — ainda tão presentes no cotidiano —, por que passou ficaram marcadas até hoje. 

“A gente tenta superar isso se conhecendo melhor. Olho para a minha barriga e penso em emagrecer mais, mas olho para o meu bumbum e penso que estou gostosa”, brinca. Para ela, o segredo é valorizar os pontos positivos do corpo. “Acho que as pessoas devem começar a enxergar que o diferente também pode ser belo. Todas nós temos coisas de que gostamos em nosso corpo”, garante. 

A mudança, que na vida de Thamara começou de dentro para fora, hoje permite que ela use qualquer  roupa: o importante é estar confiante e bem consigo mesma. No seu armário, sempre há espaço para minissaias, vestidos curtos e biquínis cavados. 

Da luta, um recomeço

Foram anos brigando com a balança. Mas, com a chegada dos filhos, a consultora de imagem Lilian Lemos, 40 anos, entendeu que a vida que levava não era saudável e que seu corpo, quando aceitado do jeito que é, poderia lhe trazer muita felicidade. “Entendi que inteligência não se media pela largura da cintura. Comecei a me amar e me acho bonita assim. Aos 90kg, sou muito mais realizada e feliz do que quando pesava 50kg”, garante.
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Depois de passar por todas as experiências desconfortáveis da mulher com o corpo plus size, Lilian decidiu que era hora de ajudar outras pessoas a se aceitarem ou a aceitarem as mulheres acima do peso. “Hoje em dia, existe todo um movimento comercial em torno dos gordos, e isso faz com que as pessoas vejam nossas necessidades não só de vida, como de mercado.” 

Assim, ela é a primeira consultora de imagem, membro da Associação Internacional dos Consultores de Imagem (AICI), especializada em moda plus. Lilian espera que, com sua experiência de vida e seu trabalho, possa conscientizar lojistas e comerciantes sobre como tratar de forma adequada um cliente. 

“Você está radiante!”
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

“As gordinhas já vêm calejadas, com experiências negativas”, diz Lilian. “Escolhi trabalhar com o plus porque percebi, depois que me tornei uma, como é diferente a relação entre você, o lojista e o mercado.” A discriminação, assegura, ainda é terrível. “Às vezes, quando estou em uma loja, peço um sutiã, e as pessoas falam que não têm nada para o meu tamanho.”

Lilian não entendia por que as plus se vestiam tão mal. “Percebi que a mulher gorda tinha muito mais dificuldade de se encontrar no mercado e combinar acessório do que a magra. Senti que era meu dever ajudar”, conta. Hoje, garante, o mercado se transformou, tanto na modelagem quanto no respeito das vendedoras em relação a tipos diferentes de corpos. “É muito gratificante estar envolvida em algo que faça as pessoas notarem que o plus size é uma forma normal de viver. Se você não se aceita ou não está saudável, mude. Mas, se você se sente bem, não há nada de errado, vá ser feliz!”

Para Lilian, o corpo deve ser ferramenta de felicidade e é isso que ela tenta passar para as clientes. “A felicidade não está ligada ao tamanho do corpo, mas sim à utilidade que você dá a ele. Do que adianta ser magra, caber em todas as roupas e não se sentir à vontade e feliz? Precisamos viver, apesar de tudo.”

Além da consultoria, a moça faz palestras sobre empoderamento e imagem plus size. “Chamar uma mulher de magra se tornou um elogio, e isso é péssimo. ‘Você está radiante’, isso é um elogio. Costumo falar que só devemos nos manifestar se for para mudar de forma positiva a vida de alguém.” 

Três dicas infalíveis de estilo

(por Lilian Lemos)

1 - Use a roupa do seu tamanho! O que mais “estraga” um look são peças grandes, que desvalorizam as curvas, ou roupas coladas, que revelam tudo.

2 - O combo jeans, t-shirt e blazer funciona sempre! Escolha o seu estilo de jeans preferido — seja flare, seja desbotado ou skinny —, a camiseta que você ama (folgada, customizada ou mais justa) e arremate com um blazer de arrasar: boyfriend, spencer ou smoking. É um look apropriado para várias ocasiões.

3 - Como já dizia a ícone da moda Iris Apfel: “Se você tiver um único vestido preto e os acessórios certos, você tem 50 vestidos”. Pense nisso. Repetir roupa é bacana e sustentável. Gaste com uma peça que realmente lhe favoreça nos quadris, no busto, nas costas. Acrescente os acessórios que remetam à sua personalidade e arrase!

Amor acima do peso

Assim como tantas outras mulheres, a estudante Gabriela Villar, 21, apostou nas dietas e nos exercícios para perder o peso que tanto a incomodava. Mesmo assim, a genética e o biotipo fizeram com que tudo fosse em vão. “Em vários momentos, nós nos apegamos a algo que nunca seremos, em razão da nossa própria estrutura corporal. Acabamos nos cobrando mais ainda e perdendo a saúde mental, que é o que mais importa”, lamenta.
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Para ela, o preconceito no mundo dos jovens é ainda mais forte. “Todos acreditam que somos incapazes de nos amar do jeito que somos. Não é bem assim.” Depois de se desapegar das cobranças impostas pelo mundo digital e pelos corpos perfeitos, Gabriela pôde, finalmente, se aceitar. A partir daí, a felicidade e o alívio não deram espaço a dúvidas ou à baixa autoestima.

 “Eu me amo muito. Descobri no que eu era boa e que cada um tem um propósito nesta vida. É nisso que me apego”, conta Gabriela. “Entendi que gordo não é palavrão e que não tinha motivos para me sentir menos do que outras pessoas.”

Um lugar no mundo

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
A estudante garante que é fundamental estar de mente aberta para compreender que todos merecem  ser felizes. O foco, para ela, está no amor-próprio e em se colocar em primeiro lugar, antes de tentar agradar às pessoas ao redor. “A preocupação de quem vive perto é com a minha saúde, mas, pelo preconceito, todos se preocupam com outras coisas que envolvem a aceitação e o bem-estar.”

Para a psicóloga Danielle Souza, a família precisa acolher a pessoa dentro das suas diferenças e entender que elas fazem parte do cotidiano. “As pessoas não são iguais e isso passa pela questão do corpo. A família precisa ter diálogo com a criança desde pequena, para que na vida adulta ela entenda as diferenças e perceba que seu corpo pode ter um lugar no mundo, e que, mesmo com dietas, cada um é cada um.”

 Segundo a profissional, existe um julgamento instalado tanto do próprio plus size quanto da cultura, que massifica, o tempo todo, a ideia do sobrepeso. “Essas questões estão sempre marcadas pela estética e pela saúde e, muitas vezes, colocadas no lugar de uma doença. Precisamos nos desvencilhar um pouco disso”, recomenda.

Durante o processo de aceitação, é importante procurar um terapeuta, que ajudará a entender melhor seu corpo e percepções, ressignificando memórias e experiências tão dolorosas. “Reconhecer esse ideal de perfeição é reconhecer o próprio corpo e se aceitar. Se não houver cuidado, o sujeito vai entrando em uma condição de sofrimento muito forte, que pode gerar outros desdobramentos, além da dificuldade com a autoimagem”, alerta.

Beleza:  Paulo Rogério Studio

Produção e styling: Rachel Sabino e Carolina Militão

Assistente de fotografia: Augusto Costa

Serviços: 

Levi’s ParkShopping e Conjunto Nacional

Julia Plus ParkShopping

Via Faro Taguatinga

www.mitishoes.com.br

Agradecimentos: Casa Cor Brasília Uma Assessoria


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