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Incentivar brincadeiras antigas pode ajudar no desenvolvimento das crianças

Resgate dos brinquedos de antigamente ajuda crianças a aprenderem a se expressar, lidar com os sentimentos, resolver conflitos e respeitar regras e companheiros

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postado em 12/11/2017 07:00 / atualizado em 10/11/2017 16:33

Minervino Junior/CB/D.A Press

 
Você já reparou no seu filho brincando? Usando apenas a imaginação, ele consegue resolver os mais variados tipos de situações. Basta uma pedrinha para o mundo se transformar em uma amarelinha, ou alguns colegas para uma fuga de quem pega quem. Isso acontece porque é no brincar que a criança trabalha o desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Apesar de os benefícios das brincadeiras lúdicas serem inesgotáveis, as crianças têm cada vez menos tempo para elas, nos dias atuais, consumidos por agendas lotadas de atividades extracurriculares e pelo uso de aparelhos eletrônicos.

Os jogos são meios naturais que permitem à criança se expressar, libertar os sentimentos e descontentamentos. As brincadeiras servem como instrumento de estruturação do indivíduo e não trabalham apenas uma capacidade, mas várias, como percepção motora, equilíbrio e orientação espacial, explica a pedagoga Mônica Costa, do Maristinha Pio XII. “Elas fazem com que as crianças aprendam com prazer e alegria, o que é importante para o conhecimento e fa ormação pessoal delas.”

Por meio do jogo, a criança compreende o mundo à sua volta, aprende regras, testa habilidades físicas, como correr, pular, aprende a ganhar e a perder. O brincar também desenvolve a aprendizagem da linguagem e a habilidade motora, diz Mônica. A experiência do brincar, de acordo com a educadora, cruza diferentes tempos e lugares. “Passado, presente e futuro estão envolvidos em cada atividade que vem trazendo benefícios a todas as gerações.”

Outra vantagem especial da brincadeira em grupo é favorecer alguns princípios básicos, como o compartilhar, a cooperação, a liderança, a competição e a obediência às regras. Como o jogo é uma forma de a criança se expressar em circunstância favorável para manifestar seus sentimentos e desprazeres, o brinquedo passa a ser a linguagem dos pequenos.

Por esse motivo, os pais estarem presentes nas brincadeiras e atividades dos filhos é essencial, orienta Mônica. São nesses momentos que se torna possível compreender os medos e anseios da criança, além de permitir a criação de um vínculo e intimidade entre a família. “Isso faz toda a diferença no crescimento deles, porque ali eles enxergam o suporte que terão durante a vida.”

Tanto os jogos como os outros brinquedos, os livros de histórias infantis ou simplesmente a imaginação permitem que toda a família participe e interaja. “No Maristinha, investimos nessa aproximação”, diz Mônica. “Além das atividades lúdicas que desenvolvemos na escola, passamos outras para que sejam realizadas em casa, com a participação dos pais. Isso reforça o vínculo entre a família.”


Unidos para o esconde-esconde

Minervino Junior/CB/D.A Press
Energia é o que não falta na casa de Daniela Takahafhi, 38 anos. Mãe de Caio, 7, e Isabela, 5, a fisioterapeuta faz questão de colocar os eletrônicos de lado e incentivar as brincadeiras em grupo. Tudo à base do olho no olho. “Saber lidar com o outro é essencial, e enxergo muito isso através dessas atividades.” Entender regras, saber esperar, cooperar, respeitar e ter autocontrole são alguns dos benefícios que a mãe percebe nos baixinhos quando apostam na ludicidade.

A idade próxima favorece o convívio, e os irmãos sabem aproveitar a companhia um do outro. Quando chegam da escola, descem para encontrar os colegas da quadra. A mãe logo afirma: “Eles amam esconde-esconde. Toda vez é uma farra!” Os jogos, nos quais está implícito o perder e o ganhar, permitem que a criança possa começar a trabalhar a resistência à frustração. 

“A melhor parte é que conseguimos brincar todos juntos. Brincamos de pular corda, amarelinha e outras coisas. Um dia, a gente estava brincando de adoleta e achei o máximo. É tão raro ver isso”, diz Daniela. Em cada atividade lúdica, a criança explora e reflete sobre a realidade e a cultura na qual está inserida, interiorizando-a. Experimentar diferentes papéis sociais por meio do faz de conta permite que a criança compreenda o outro e se sinta como ele, construindo uma preparação para a entrada no mundo adulto.

O papel dos pais

Para Daniela, participar das brincadeiras faz parte da rotina. “Não basta o momento de fazer dever, tomar banho, almoçar. É mais do que isso, é algo prazeroso para a família toda.” Além disso, brincar é uma forma segura para as crianças encenarem suas angústias e agressividades e, assim, tentar elaborar e resolver os conflitos internos com a ajuda de quem os ama. “Vejo que, em muitas famílias, os pais passam muito tempo fora, mas acredito que devemos valorizar o tempo de qualidade com as crianças, mesmo que seja pouco. Nós aproveitamos para conhecer nossos filhos e aprender mais sobre eles.”

Primeiro, deve-se pensar na brincadeira como questão histórica e cultural. De acordo com a psicóloga do desenvolvimento Danielle Sousa, o fato de muitas crianças não brincarem com a mesma frequência de antigamente revela não só grande ascensão dos recursos tecnológicos, mas também sobre a vida dos pais. Professora do curso de psicologia da Universidade Católica de Brasília, ela afirma que as crianças têm passado muito mais tempo em creche e escola. “Assim, os pequenos têm abdicado das brincadeiras de rua, limitando-se ao incentivo das instituições.”

Imaginação

O ato de brincar contribui para que a criança se desenvolva integralmente, por isso a importância de garantir esse direito. Quando se fala do desenvolvimento motor, físico, psicológico e social, o brincar passa por todas essas aprendizagens infantis. “A brincadeira corresponde à imaginação, e elas brincam por necessidade de desenvolvê-la. Esse papel é fundamental no desenvolvimento psíquico com  o uso da imaginação em ação.”  

É a ludicidade que possibilita à criança adentrar no momento de necessidade e desvendar o que aquela atividade traz para ela. São funcionamentos diferenciados, nos quais se torna necessário criar diferentes possibilidades para seguir a atividade.

Para Danielle, esse é um trabalho que deve começar logo nos primeiros momentos da infância, pois os benefícios são inúmeros. Ela alerta que os pais não devem usar as brincadeiras somente como forma de estimular a capacidade cognitiva da criança. “É natural que eles queiram incentivar a inteligência, mas temos que ter cuidado para não intelectualizar a brincadeira o tempo todo, porque podemos impossibilitar que os pequenos criem as suas possibilidades”, explica. “É preciso que tudo aconteça de forma espontânea, sem pressão para suprir interesses específicos.” 

Tudo como antigamente Em um mundo cada vez mais urbanizado, industrializado e informatizado, a tendência é que muitas das brincadeiras tradicionais percam espaço nas preferências infantis. Mesmo assim, jogos e brinquedos como a peteca, a amarelinha, a ciranda, a pipa e a cama de gato têm um valor cultural inestimável.

Milene Soares, pedagoga e professora de ludicidade e corporeidade do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), fez um estudo aprofundado sobre a história das brincadeiras, em seu mestrado sobre educação lúdica. “É incrível porque grande parte dessas atividades e jogos é tão antiga que não há registros com datas específicas.”

A única certeza, segundo Milene, é que a questão lúdica já era trabalhada antes de qualquer cultura, desde os primórdios. Ela afirma que o ato de brincar resgata historicamente a importância de conviver com o outro e, de forma quase inconsciente, absorver conhecimento. Todo brinquedo e brincadeira pode ensinar algo, assegura.

Mas Milene lembra que é importante, de tempos em tempos, abrir mão dos brinquedos industrializados e dispor de um momento para interagir com os pequenos. “Desde a origem do ser humano, entendemos que o primeiro contato com a expressão e a emoção é por meio do brincar. Dentro das possibilidades lúdicas, a criança enxerga divertimento e criatividade.”

São brincadeiras ao ar livre, de roda e em grupo que trazem dimensão da interação e da capacidade de resolver problemas. “É ali que você descobre potenciais e limitações não só físicas, mas também emocionais. É uma orientação corpórea da lateralidade.”

Aprender brincando

O brincar desempenha um papel importante na socialização da criança, permitindo-lhe aprender a partilhar, a cooperar, a comunicar e a relacionar-se, desenvolvendo a noção de respeito por si e pelo outro, bem como sua autoimagem e autoestima. Para Petrus Barros, 33 anos, tudo se resume a aprender brincando. Ele é pai de Helena, 5, Cecília, 3, e Catarina, 1.
Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press

“Através dos brinquedos, sem formalidade alguma, elas absorvem inúmeros conceitos”, conta Petrus. Ele e a mãe das pequenas, Cleonice Duarte, são professores e, por isso, as meninas vivem a rotina de brincadeiras. Sem televisão em casa, os pais fazem questão de sempre estimular as atividades lúdicas. E garante que elas aproveitam muito. “Brincam com o cachorro, correm no quintal e se divertem.”

Com tanto incentivo em casa, Petrus e Cleonice conversam muito sobre quando a criança perde a magia pela escola. “Sempre nos questionamos sobre que dia elas vão acordar e não querer mais ir à escola. Tentamos mostrar para as três que o aprendizado e as brincadeiras devem ser conciliadas.”

Os dois concordam que os pais têm um papel fundamental no que diz respeito à preparação dos espaços, à seleção dos brinquedos e aos contextos a serem explorados. São esses quesitos que proporcionam à criança um ambiente enriquecedor para a imaginação infantil e que estimulam as interações sociais com outras crianças, familiares e amigos.

Intermediação

E o “enriquecedor”, é claro, não significa proporcionar brinquedos caros. Ao contrário, são meios que permitem a exploração de diferentes linguagens como a musical, corporal, gestual e escrita. E o adulto pode e deve participar sempre.

“Existem brincadeiras da nossa época que ficam em desuso e acho importante encontrar tempo para apresentá-las às crianças. Se somos hoje o que somos, foi graças a tudo que aprendemos lá atrás, então não podemos esquecer do que nos foi dado”, reconhece Petrus. 

Na interação, o adulto sempre tem oportunidade de conter e ajudar a criança na elaboração das inquietações que surgirem durante a brincadeira, bem como enriquecer e estimular a imaginação da criança, despertando-lhe ideias e questionando-a para a descoberta de soluções. 

Muito além de brincar e correr

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Na família da psicóloga Camilla Nunes, 37, as brincadeiras guiam o aprendizado dos baixinhos João Pedro, 10, e Bettina, 8. Como forma de estimular o desenvolvimento, aos 6 meses de idade, os dois começaram a fazer aula de música e psicomotricidade. Hoje, é a diversão que dita as regras e a evolução emocional e intelectual dos irmãos.

“Vejo muito a vivência em sociedade refletida em cada atividade. Eles assimilam o respeito e as regras necessárias para viver em grupo. Vai muito além de brincar e correr, por exemplo. Trata-se de uma formação de valores para cidadãos de bem”, explica a mãe.

É a amarelinha, o jogo de tabuleiro, o pular corda e o pique-pega que auxiliam as crianças na descoberta de si e do mundo. A brincadeira não é o objeto em si, mas um conjunto de estratégias e habilidades que possibilitam experiências que revelam o mundo e as desenvolvem para o futuro. “Teve um dia que a Bettina me deu uma aula de xadrez. Achei o máximo, porque ela explicou do jeitinho que aprendeu. Conseguimos passar um tempo fazendo algo prazeroso e cheio de ensinamentos”, conta a mãe, orgulhosa.

Durante a semana, sempre sobra um tempinho para brincar, mas a diversão é garantida mesmo nos finais de semana. “Reunimos os dois, os primos e os colegas e partimos para o rancho. Lá, todos brincam de tudo um pouco, montam a cavalo, andam de bicicleta, escalam árvores e se jogam nas brincadeiras”, conta Camilla.

Na escola

Ao longo do tempo e com os avanços tecnológicos, brinquedos e brincadeiras foram mudando, mas o prazer da criança em brincar é o mesmo. Assim, é fundamental que a escola incentive isso, porque é uma continuidade de casa. Os filhos de Camilla chegam do colégio felizes, contando as atividades que tiveram. “Acho isso incrível. O papel dos professores é orientar esse processo, com projetos que ajudem no desenvolvimento e nas habilidades específicas de cada faixa etária.”

João Pedro e Bettina estudam no Le Petit Galois, escola que promove, semanalmente, momentos de V.A. (Vivendo e Aprendendo) e B.C. (Brincadeiras de Criança). “Quando os assisto participando, vejo que brincam de brincadeiras da minha infância, que usam o corpo e aproximam os colegas. É legal saber que isso acontece e que eles podem ser crianças de verdade, livres e felizes.” A escola desenvolve atividades com jogos clássicos como queimada, amarelinha, pula-corda, carrinho de rolimã e pique-pega, sempre mediadas pelos professores.

O ideal, segundo Camilla, é que os educadores trabalhem com as crianças de igual para igual, mas, ao mesmo tempo, intermediando e exercendo um papel de guia e mentor. Na escola, eles sobem em árvore, pulam amarelinha, correm de um lado para o outro e até fazem os próprios brinquedos utilizando apenas sucata. 
Carlos Vieira/CB/D.A Press

Camilla faz questão de frequentemente perguntar aos filhos se estão gostando da escola e como anda a rotina. Em uma dessas conversas, o filho, João Pedro, afirmou com convicção: “Lá a gente estuda muito, mamãe. Temos que ser bem inteligentes. Mas também brincamos bastante e eu adoro”. Para a mãe, ficou a certeza de que está investindo no melhor para eles. “O tempo da criança precisa ser respeitado. Não adianta só cobrar nota e estudos, então é bom saber que está tudo balanceado.”

“Desce pro Eixão”

Queimada, pula elástico, pula corda, amarelinha, pique bandeirinha e até corrida de saco. No primeiro domingo de outubro, as brincadeiras tradicionais de rua marcaram presença no “Desce pro Eixão”. O evento gratuito reuniu famílias em mais de 20 atividades à moda antiga e foi organizado por alunos do Curso Técnico em Eventos do Instituto Federal de Brasília (IFB).

Gregory Di Medeiros, um dos responsáveis, explicou que o intuito do evento, além de colocar a turma em contato com a comunidade, é resgatar a cultura de brincadeira de rua. “A programação era para os pais também. Todos puderam brincar e se divertir juntos, sem se preocupar com as obrigações que ficaram em casa”, explicou.

Os organizadores já estão planejando marcar o próximo encontro. São mais de 15 atividades divididas em duas áreas — “vapt-vupt”, para recreação com algum brinquedo específico, como corda ou elástico, e outro espaço para atividades em grupo, como queimada e pique pega. “O melhor é que as crianças podem se divertir com os pais também. Chamamos todos para viajar no tempo, deixar os eletrônicos de lado e dar uma chance para se divertir à moda antiga”, conta Gregory.

Fácil, barato e divertido 

Os benefícios das brincadeiras de rua, em grupo, e que utilizam o corpo e a mente são incontáveis. Em ação, as crianças desenvolvem  múltiplas linguagens, organizam os pensamentos, descobrem regras, tomam decisões, compreendem limites e desenvolvem a socialização e a integração com o grupo. 

O melhor de tudo é que, além de se divertir, todo esse aprendizado prepara as crianças para o futuro, quando terão de enfrentar desafios semelhantes às brincadeiras. Por isso, separamos algumas atividades que vão além das mais conhecidas para aprender brincando.

Elefante colorido
Escolha um participante para comandar a brincadeira. Ele deve ficar na frente dos demais colegas e dizer alto: “Elefante colorido!”. Os outros respondem: “Que cor?” Então, ele grita o nome de uma cor, que deve ser tocada pelos participantes o mais rápido possível, antes que sejam pegos pelo comandante. O primeiro a ser capturado vira o próximo a liderar a brincadeira.

Oficina de fantoches
Com rolos de papel higiênico, papel toalha cortado ao meio, ou ainda pacotes para pipoca, mais canetinhas, giz de cera, pedaços de lã, cola branca e enfeites à sua escolha, é possível criar fantoches divertidos com as crianças e depois montar até um teatro.

Eu sou eu, e você é você
Peça para que cada criança deite em cima de pedaços grandes de papel kraft. Desenhe a silhueta de cada uma delas e entregue de volta, para que elas possam completar com olhos, boca, nariz, roupas e o que mais acharem importante.

Batata quente
Os participantes se sentam em círculo e uma pessoa fica de fora. Eles vão passando uma bola bem rápido, de mão em mão, e o que está de fora, de costas para o grupo, grita “batata quente, quente, quente, queimou!”. Quem estiver com a bola quando o colega disser “queimou” é eliminado da brincadeira.
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