Capa

Jovens magistrados reduzem a distância entre o Judiciário e a sociedade

Estudiosos, modernos e antenados nas mudanças sociais, juízes quebram barreiras

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.
Cada vez mais é possível deixar de lado a imagem de um tribunal cheio de juízes com ar sisudo e inalcançável e um vocabulário formal e incompreensível, que estabelece barreiras com os cidadãos do outro lado. O olhar voltado para as questões sociais e a busca de uma efetiva aproximação com a população como ferramenta de promoção da justiça têm se aliado à juventude dos novos magistrados para mudar a cara do Judiciário brasileiro.

Antenada, atenta ao valor das redes sociais para o compartilhamento de informações que realmente importam, a nova geração de juízes surpreende. Quem imaginaria, décadas atrás, encontrar magistrados com menos de 30 anos assumindo um cargo de tamanha responsabilidade, que exige não só anos de prática como um profundo conhecimento do complexo arcabouço que envolve a justiça de um país?

De acordo com a Associação de Magistrados do Distrito Federal (Amagis), a  idade dos juízes aprovados nos últimos concursos vai de 25 a 38 anos. A última leva tomou posse em 2015 — 10 juízes substitutos da Justiça do Distrito Federal, entre eles quatro mulheres e seis homens. A média de idade segue a tendência do quadro de servidores de órgãos como o Superior Tribunal de Justiça (STJ), por exemplo, onde 79% dos funcionários estão na faixa dos 18 aos 35 anos.

Apesar da pouca idade, os novos juízes se revelam com maturidade necessária para vestir a toga e julgar, com equilíbrio, questões que vão muito além da legislação. Eles reconhecem, nos mais velhos, as fontes de que não podem abrir mão na busca de um Judiciário forte, atualizado e justo. E, por trás da seriedade imposta pela rotina sobrecarregada de processos , ainda encontram tempo para cultivar hobbies, lazer e curtir intensamente a família e os amigos.

A sabedoria se reflete no uso que eles fazem das redes sociais. A internet serve, principalmente, como ferramenta de aproximação entre justiça e público. No Instagram, alguns juízes têm mais de 50 mil seguidores. Muitos que também são professores usam o YouTube para levar conteúdos aos alunos.

A equipe da Revista esteve com os juízes Jaylton Lopes, Lorena Ocampos, Theresa Figueiredo, Samer Agi, Fabriziane Figueiredo e Fábio Esteves para acompanhar, de perto, as várias faces do novo Judiciário. Em bate-papos descontraídos, foi possível acessar suas ambições profissionais, o lado engajado que os leva a lutar pelas causas que abraçam, e ver como levam a rotina longe da toga. Por trás dos rostos preocupados que a profissão reflete, existe, sim, muito humor e alto-astral. 

Ser sensível é vital para o juiz

Ana Carneirol/Esp. CB/D.A Press
 
“Olha só quem também estará conosco na próxima segunda: a Fabriziane Figueiredo!” Assim começa a mensagem que circulou no Facebook, este ano, convidando para um debate sobre experiências inovadoras na educação com a jovem juíza que coordena o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Distrito Federal (CJM). E é só assim, em debates sobre o problema que coloca o Brasil no quinto lugar no ranking mundial de assassinato de mulheres, que Fabriziane  é encontrada nas redes sociais.

Avessa à exposição digital, ela investe em debates para levar o recado contra a violência doméstica. A tarefa exige um intenso trabalho em rede, como a participação em  ações do projeto Maria da Penha vai à escola —  criado pelo centro que ela coordena para conscientizar crianças, jovens e comunidades sobre a solução para conflitos familiares.

Formada na Universidade Federal de Juiz de Fora, Fabriziane estreou na dura missão de fazer justiça com apenas 26 anos de idade e sabe que o combate à violência doméstica não se faz sem envolver a sociedade. No Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres, a quinta do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No DF, são registradas 13 mil denúncias de violência contra a mulher por ano. A justiça recebe, em média, um pedido de medida protetiva por hora.

É nesse cenário que Fabrizia concilia — e desdobra — sua vida de jovem mãe e o olhar atento de magistrada às demandas do sofrido contingente de vítimas da violência. Quando era estudante, ela chegou a pensar que o concurso para juiz era algo “para pessoas superdotadas, inatingível”. Mas, sem abrir mão do que gostava — como sair nos fins de semana para dançar ao som de música eletrônica —, traçou uma rotina de estudo e chegou lá. “Ficava feliz, porque me divertia, e chegava mais leve para as provas.”

Música eletrônica

Para a juíza, manter a leveza aliada à determinação ajuda a  cumprir a missão com equilíbrio. Ela considera importante, também, desenvolver empatia com as vítimas atendidas. “Como lido todo dia com diversas formas de violência, existem dois riscos muito grandes: o de ficar doente por absorver tudo ou o de me tornar indiferente. O segundo é o pior, porque você tem que continuar se indignando com a violência para atuar na área, e não quero me anestesiar e não sentir mais nada.”

Ser sensível fortalece. “É na sensibilidade que vou me empenhar mais em buscar a verdade dos fatos e a orientação mais adequada para a vítima, não vou usar aquele modelo pronto que tenho aqui.”

Casos marcantes
Os casos julgados por Fabriziane têm uma particularidade que os torna mais complexos: todos são situações de violência cometidas no âmbito da família. “Isso é diferente de lidar com ocorrências de latrocínio ou tráfico, por exemplo. Aqui, são pessoas que deveriam ser unidas por laços.” São comuns, entre as situações que atende, os casos de pais e outros parentes próximos que cometem abusos e  cárcere privado contra crianças e mulheres.
Uma das situações  marcantes vividas pela juíza envolveu violências psicológicas que raramente são tratadas com a devida importância: “Soubemos de maus-tratos contra três meninas em que o agressor era o próprio pai. Uma delas gostava muito de passar rímel nos olhos, mas ele dizia que ela estava como uma puta, brigava com a menina excessivamente até fazer ela chorar, se borrar toda e limpar.” Fabriziane alerta para esse tipo de violência maquiada como disciplina, pois são comuns situações semelhantes que provocam humilhações e dores físicas e psicológica. “Era uma violência revestida com ares de educação. Ele chegou a obrigar uma delas a lavar vasilhas mesmo depois de chegar de madrugada do hospital, por conta de uma infecção renal. E também obrigava as meninas a ficarem ajoelhadas em caroços de milho por horas e horas.”

Hobbies
Aproveitando cada momento com o pequeno Matias, seu bebê de 1 ano e 4 meses, a juíza deixou de lado a vida social agitada das festas de sexta a domingo para se dedicar às atividades com o menino. “Eu fico com ele de manhã e faço tudo junto dele, desde ir ao mercado até ao parquinho brincar.” De vez em quando, o trabalho também vira hobby: os livros são companhias permanentes, para se manter sempre atualizada. Bem como os projetos de conscientização, como o Maria da Penha vai à escola, criado pelo Centro Judiciário, que a emocionam por apontar caminhos para a transformação social que tanto busca.

Redes sociais
Fabriziane atua em projetos que a levam a debates em escolas e outros ambientes e opta por se manter distante das redes sociais digitais. Ela acredita que estar fora das redes não prejudica em nada as suas funções.“Eu me protejo bastante delas. Acho que não convém expor a minha vida privada, apesar de acreditar que temos de estar perto da população, construir redes e mostrar caminhos para as pessoas.”

De frente para  a intolerância

Minervino Junior/CB/D.A Press
Criado na área rural de Chapadão do Sul — um pequeno município da região nordeste de Mato Grosso do Sul, com pouco mais de 23 mil habitantes —, o juiz Fábio Esteves se lembra de quando, ainda adolescente, traçou o sonho que o levaria, 22 anos depois, à presidência da Associação dos Magistrados do Distrito Federal, a Amagis. Aluno do ensino médio de uma escola pública da cidade, ele tinha apenas 15 anos de idade quando leu um manual com dicas de profissões para os estudantes e decidiu: iria se preparar para conquistar uma vaga na magistratura.

Já não contava, havia quatro anos, com a presença do pai. Mas a sabedoria do trabalhador rural analfabeto que se esforçava para incentivar os três filhos a estudar e da mãe, que depois de ficar viúva foi trabalhar como empregada doméstica para manter todos na escola, continuou alimentando a tenacidade de Esteves. Aos 17 anos, ele saiu de casa para enfrentar um pré-vestibular e logo estava entre os aprovados no curso de direito da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul.

Concentrado nos livros, Esteves também foi selecionado em um concurso do Banco do Brasil. Em 2004, desembarcou em Brasília como servidor do banco, mas não tirou o foco da meta de chegar à magistratura. “Foi difícil, precisava potencializar os estudos ao máximo para alcançar meu desejo e, assim, chegar à instituição”, conta.

Alcançou rápido: aos 26 anos, o menino pobre do interior estava no seleto time de candidatos aprovados para exercer a função de juiz do Tribunal de Justiça do DF. “Tudo isso foi surgindo com muito trabalho, luta e rompimento de barreiras que exigiram muito de mim.”  

As barreiras podem ser ilustradas com pesquisas da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que apontam a existência de apenas seis negros entre os 400 juízes do Distrito Federal. Em 2005, o número de juízes negros no país se resumia a 0,9% do total. Dez anos depois, em meio às discussões sobre cotas nas universidades e no serviço público, o índice subiu para irrisórios 1,4%.

A toga, no entanto, não colocou um ponto final na luta de Esteves contra a discriminação. “O exercício da profissão sempre nos bota de frente para a intolerância. Uma vez, um advogado comentou, ao me ver: ‘Estamos ferrados. Quem vai julgar é um neguinho’. E acabou indo embora, se sentiu prejudicado na causa, pelo fato de eu ser negro.”

Discriminação

Acostumado a ser tratado como o motorista de alguém, quando sai de um carro, ou como porteiro, ele defende que é necessário falar sobre a presença dos negros na magistratura. “A sociedade não se julga racista, mesmo sabendo que se pratica o racismo. A desigualdade é grave e profunda. Precisamos desse espaço no Judiciário”, diz. Uma sociedade, segundo ele, precisa se sentir representada no poder e, na justiça, é o juiz negro que desempenha esse papel.

O juiz destaca o grande valor das cotas raciais para reduzir essa desigualdade. “A discriminação racial tem um grande poder de desmotivação e impotência para o negro, principalmente crianças e jovens. Eles olham para os cenários de sucesso e não imaginam pertencer àquele lugar.” A reserva de 20% das vagas para candidatos negros nos concursos da magistratura foi criada apenas em 2015, por resolução do Conselho Nacional de Justiça.

Daí o empenho do juiz em usar a profissão como instrumento de educação. Ele acredita que não basta atuar nos tribunais. Assim, estende a luta contra a desigualdade em aulas de direito e cidadania para jovens de escolas públicas do Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo e Candangolândia. “Queremos preparar os alunos de baixa renda para serem multiplicadores.”

Casos marcantes
Cada um dos casos que marcaram a caminhada de 10 anos na profissão de Esteves lhe trouxe, de formas diferentes, emoções e novas lições. Mas, em matéria de experiência e aprendizado, ele ressalta o caso que acompanhou, durante quatro anos, do triplo assassinato na 113 Sul. As vítimas eram o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, a mulher dele, a advogada Maria Villela, e a funcionária da casa, Francisca Nascimento Silva. “Foi um caso que me trouxe incontáveis ensinamentos. A experiência de ter trabalhado nessa história não tem valor.”

Hobbies
A gastronomia é uma das grandes paixões de Fábio. O fascínio pela cozinha o motiva a se aventurar e descobrir mais e mais sabores e receitas. “Gosto muito de cozinhar e reunir pessoas queridas. Duas coisas que se unem perfeitamente!” Sempre que pode, o juiz convida amigos e familiares para apreciar uma boa comida e falar de coisas boas da vida. Além disso, seu tempo também é dedicado ao projeto Falando Direito — programa socioeducacional voltado para a socialização do conhecimento jurídico entre estudantes da rede pública. Tudo visando ao preparo deles para o exercício da cidadania e à qualificação para vestibulares e concursos públicos.

Redes sociais
Ativo no Instagram e Facebook, o juiz faz questão de destacar a viabilidade da comunicação através da internet. “Acho legal as pessoas acompanharem de perto um pouco mais das mensagens que compartilho.” Mas, para ele, manter as redes sociais é um exercício muito difícil.“Não podemos alimentá-la da mesma forma que as outras pessoas o fazem. É necessário ter cuidado e respeitar alguns parâmetros.” Suas contas são voltadas somente para o viés educativo, promovendo um diálogo pedagógico. Nelas, temas como a questão racial são muito abordados pelo juiz.

Acompanhe:@esteves33; FB: Fábio Francisco Esteves.

“Ouvir permite errar menos”

Antonio Cunha/CB/D.A Press
No segundo ano da faculdade, quando passou a ter contato com professores da área jurídica, dois desejos se revelaram: ser juiz e professor de direito penal. Samer começou, então, a se dedicar com afinco aos estudos e aos concursos públicos. A primeira conquista aconteceu aos 20 anos, quando foi aprovado para o cargo de delegado da polícia, em Goiás.

Cinco anos depois, mais uma vitória o levou ao sonhado cargo de juiz. Ler sua trajetória faz parecer que tudo foi fácil, mas basta conversar alguns minutos com Samer para entender que ele chegou tão jovem a um disputado cargo de tamanha responsabilidade graças a muito estudo, dedicação e seriedade.

Foi de repente. Logo, ele se viu com a grande responsabilidade de decidir não só o seu futuro pessoal e profissional, mas, também, ações que caíam em suas mãos, envolvendo o destino de tantas outras pessoas. “De forma explícita, acredito que não há uma dificuldade divulgada, mas implicitamente as pessoas carregam certo receio por causa da nossa pouca idade”, diz. As dúvidas naturais serviram de estímulo para que ele não se deixasse vencer por medos ou inseguranças e conquistasse, assim, maturidade suficiente para ganhar a confiança de todos.

Dedicação

Para Samer, o grande benefício de começar a se dedicar logo cedo é não levar as coisas com tanto peso ou cobrança. “À medida que envelhecemos, passamos a ter mais responsabilidades e precisamos de mais dedicação para fazer tudo. Quando comecei, meu único objetivo era estudar”, lembra. Segundo o juiz, é importante que o Judiciário esteja extremamente próximo da população e seja sempre fiel a ela. “A ideia do Judiciário jovem é mais aberta às mudanças sociais. Isso permite que aquilo que acontece na sociedade encontre eco rapidamente no Judiciário.”

Há quatro anos no cargo, ele busca, diariamente, contribuir para um mundo mais justo e igualitário. Acredita que é preciso proporcionar oportunidades àqueles que são menos favorecidos. “É preciso ouvir o outro e se colocar no lugar do mesmo. Essa proximidade com o povo permite que você erre menos, porque passa a conhecer a realidade.” Samer garante que poucas coisas lhe fazem tão bem quanto tomar decisões justas.

Casos marcantes
Dois casos marcaram fortemente a carreira do novo juiz. Em um deles, a absolvição de um réu que, muito emocionado, chorou aliviado. No outro, Samer condenou um pai pelo abandono afetivo da filha. Na difícil decisão, foi necessário analisar a história de vida dos envolvidos para chegar a um resultado que melhor favorecesse a criança. Para ele, são situações como essas que tornam essencial o trabalho do magistrado. “Quando emito algo que é capaz de trazer justiça, me sinto realizado. Com o tempo, posso ter certeza se minha decisão foi realmente adequada e, quando confirmada, é um benefício duplo.”

Hobbies
Além da academia, Samer gosta de correr e jogar golfe. Em seu tempo livre, aprecia uma boa leitura. Gosta de biografias e clássicos que, para ele, nunca envelhecem. Como Shakespeare e Machado de Assis. Os livros Helena, Memórias póstumas de Brás Cubas e A tempestade têm destaque na estante.

Redes sociais
“Há algum tempo, comecei a publicar textos reflexivos semanalmente e, aos poucos, eles foram ganhando certo impacto, o que fez com que as pessoas passassem a me procurar no instagram ou facebook.” Atualmente, são mais de 56 mil seguidores no Instagram. O conteúdo se divide entre textos, aulas que ministra e um pouco da vida social. Porém, em respeito ao seu trabalho, Samer nunca traz à tona os casos que chegam às suas mãos. “Acredito que a participação das redes sociais pode ser extremamente positiva, desde que se tenha cuidado no que é exposto”, recomenda.

Acompanhe: @sameragi; @profsameragi; @cpiuris.


Sem espaço para  preconceito

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
Quem vê o terninho no corpo e a toga ao seu lado quase não acredita quando ela dá o primeiro sorriso. Retraída nos primeiros momentos, Lorena logo se sente à vontade em compartilhar um pouco sobre sua vida. Antes mesmo de se formar na faculdade, ela já ocupava os dias prestando concursos de nível médio. Em 2010, tomou posse como técnica judiciária no Tribunal de Justiça do DF e começou a acompanhar, de perto, o cargo tão desejado que tem hoje.

Em 2014, sua vida mudou. Em julho, assumiu o cargo de analista judiciário na área de direito do TJDFT e, finalmente, três meses depois, conquistou, aos 26 anos, o cargo de juíza. “Costumo falar que a magistratura é um estudo permanente. Foram muitos anos de prática, esforço e estudos dedicados aos concursos, sempre com tantas fases. Acho que isso me ajudou a chegar aqui.”

Área sensível

A pouca idade nunca foi empecilho dentro do Judiciário. Segundo Lorena, desde que ingressou no cargo, há três anos, somente pontos positivos bateram à sua porta. Apesar de um concurso ser cercado de angústia e estresse, hoje, além da realização pessoal e profissional, que veio cedo, é possível dividir o tempo entre carreira e família. “Sou muito feliz e realizada. Não me vejo fazendo outra coisa.”

Para ela, ter um corpo judiciário jovem possibilita acompanhar o avanço da sociedade. As relações homoafetivas são um exemplo — para juízes de pouca idade, demandas como essa tendem a ser tratadas com mais naturalidade, deixando alguns preconceitos antigos de lado.

“A área criminal é muito sensível, porque todos os presos do DF passam por aqui. Assim, acompanhamos situações complicadas, como pessoas drogadas ou que moram nas ruas.” Quando se depara com casos como esses, é que Lorena percebe a importância de uma base na educação e uma família estruturada. “Não sei se consigo mudar isso com o meu trabalho, mas acredito que posso ir melhorando de acordo com as oportunidades e chances que dou às pessoas”, conta, emocionada. 

Casos marcantes
Dentre os inúmeros casos comoventes com que Lorena lida diariamente, um que marcou sua trajetória foi a história de uma senhora de 70 anos, presa em flagrante ao tentar entrar com drogas no Complexo Penitenciário da Papuda. Quando interrogada, a mulher chorava desesperada e pedia perdão. Explicou que tudo não passou de uma tentativa de ajudar o filho que estava sendo ameaçado na prisão.

Segundo a juíza, além de não ter renda suficiente nem ajuda do governo, a senhora tinha em casa uma filha especial, que dependia dela, e o filho preso era a única pessoa que a ajudava nas despesas. Hoje, ela responde ao processo em liberdade. “Foi algo que me tocou muito. Casos marcantes vão bem além daqueles que são relatados na mídia.”

Hobbies
Além de ser a sua segunda profissão, dar aulas mantém Lorena atualizada e permite uma ótima interação com os alunos. No tempo livre, faz academia, joga tênis e se divide entre a família e o marido.

Redes sociais
A juíza mantém seu instagram atualizado exclusivamente com conteúdos jurídicos. “Estamos em um mundo que exige essa exposição e as redes sociais podem trazer inúmeros benefícios. Para mim, que dou aula, é possível ter um retorno dos alunos, por exemplo.” Lorena ressalta que é essencial ter cuidado e não expor a opinião sobre julgamentos e casos que são trabalhados diariamente.

Realização é fazer a diferença

Minervino Junior/CB/D.A Press
Ainda na faculdade, Jaylton se inspirou em alguns professores que atuavam como juízes. “Via tudo aquilo como algo bonito, que poderia fazer a diferença na vida das pessoas.” Logo que terminou o curso, começou a advogar e viu a oportunidade de reduzir o ritmo de trabalho e focar nos estudos para a magistratura. Em três anos, alcançou a aprovação. Ele  conta que foi o hobby da música que o ajudou a pagar os estudos.

Aos 31 anos, quando ingressou na magistratura, sentiu a leveza da conquista e, ao mesmo tempo, o peso de tomar decisões que nem sempre afetariam só uma pessoa, mas a toda uma família. Realização, para ele, é fazer a diferença na vida das pessoas que precisam ter acesso à justiça. “Se atrelarmos o desempenho profissional a princípios igualitários, livres de cor, raça ou situação financeira, trazemos benefícios não só para a sociedade, mas para nós mesmos.”

Casos marcantes
Passando por uma das varas criminais, Jaylton decretou a prisão de um réu. Um mês depois, recebeu uma carta do pai do condenado, pedindo perdão pelo que o filho havia feito e implorando para que fosse solto, pois contribuía para o sustento da família. “Isso me tocou muito. Sofri, porque não poderia soltá-lo, apesar dos pais estarem passando necessidades, porque senti na pele o sofrimento deles.”
 
 
Hobbies
A música sempre encantou o jovem juiz. Ele participou de bandas, estudou piano e teclado. Gosta de futebol, mas confessa que é um “verdadeiro perna de pau”. Seu lazer se divide entre reuniões familiares, música, idas a bares com amigos.

Redes sociais
Para acabar com a visão de juízes como pessoas inacessíveis, Jaylton viu, nas redes sociais, uma forma de mostrar para as pessoas que é possível alcançar seus sonhos. Por meio de dicas e algumas histórias, o novo juiz mostra que o judiciário está cada vez mais antenado com a realidade social. “As minhas redes sociais, assim como as do Samer, mostram um pouco da nossa rotina profissional, mas, principalmente, o que é preciso para alcançar um grande objetivo.”

Para ele, a rede social, quando utilizada para o bem e para a aproximação, deve ser aproveitada com todo seu potencial. Ele acredita que o juiz do século XXI é um profissional inserido socialmente, que interage com a sociedade e está atento às transformações sociais. “Quando damos uma palavra de conforto e esperança, ou mostramos para nossos seguidores e amigos que também sofremos e lutamos para chegar onde estamos, ensinamos que somos pessoas mais sensíveis aos problemas dos outros.”

Jaylton também encontrou, no YouTube, a oportunidade de compartilhar a paixão pela docência. “Desde os 23 anos, leciono em cursos jurídicos. Após passar no concurso da magistratura, resolvi criar um projeto de ensino jurídico gratuito pela internet.” Assim, todas as terças-feiras, ele dá aulas de direito processual civil, ao vivo, pelo Instagram e, mais tarde, as disponibiliza no YouTube. “Minha intenção é, além do contato, ajudar quem não pode pagar um curso preparatório.”

Acompanhe Prof. Jayton Lopes Jr.

Sempre é possível lutar pela vida

Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
A magistratura, para Theresa, é a realização de um trabalho feito para uma vida inteira. Ser mulher em um ambiente que, segundo ela, ainda é muito masculino, apesar de dificultar o caminho na profissão abre portas e oportunidades para as pessoas do mesmo sexo. Com 15 anos de atuação como juíza, Theresa já passou por diversas áreas e aponta as mais marcantes — a Vara de Violência Doméstica do Paranoá, na qual passou quatro anos, e a Vara de Família.

“A profissão exige um perfil introspectivo, onde é preciso aprender a trabalhar sozinha.” Ela preferiu a magistratura a advogar, pois se viu em uma área em que podia atuar de forma independente, sem hierarquia e com justiça, equilibrando, assim, as relações. Quando ingressou no cargo, muito nova, enxergou nos mais velhos o apoio para encarar algo que lhe parecia tão assustador.

Entre gerações

O trabalho muito difícil no primeiro ano fez com que a jovem juíza lidasse com novas responsabilidades de um ponto de vista mais humano. “Aqui temos a oportunidade de parar e resolver questões pontuais de uma pessoa. A intenção não é reconhecimento, longe disso. É apenas ajudar o próximo.”

Hoje com mais experiência, ela não deixa de ressaltar o quão especial pode ser o trabalho do Judiciário quando feito entre gerações, com troca de experiências e diferentes opiniões. “Quem chega tem muito entusiasmo e vontade de trabalhar e todos temos muita experiência sobre o espírito humano. A evolução depende da troca.”

No Fórum do Recanto das Emas, Theresa faz questão de mostrar melhorias como a inauguração de uma brinquedoteca e o espaço para amamentação. Tudo para oferecer apoio às mulheres atendidas, que também trabalham muito e cuidam dos filhos.

Na profissão, ela quer seguir à risca a missão de pacificação e inclusão social, dando voz para que as pessoas exponham suas questões e construam noções de civilidade e cidadania. n

Casos marcantes
Foi na Vara de Violência Doméstica que Theresa presenciou os casos mais marcantes nos 15 anos de profissão. Ela compartilhou, emocionada, a história de uma menina, de nove anos, que após a morte da mãe assumiu o papel de “esposa” na vida de seu padrasto. O homem abusava da criança e a manteve em cárcere privado por três anos. Quando resgatada, a juíza optou por ouvi-la, por videoconferência, durante o julgamento do agressor.

“A menina falou sem parar por uma hora e notei que aquela tinha sido a primeira vez que alguém dava ouvidos a ela. Quando questionei se estava bem, ela parou, olhou para a câmera e disse sorrindo que estava tudo certo. Nesse momento, desabei”, relata, emocionada. Para Theresa, isso lhe fez crer que é sempre possível continuar lutando pela vida e encará-la com bondade. “Me deu mais vontade de trabalhar, pois vi que a possibilidade de resgatar alguém está bem ali, nas minhas mãos.”

Hobbies
A juíza é interessada na psicologia. Sempre estudando, optou pela área durante a realização de um mestrado. Ela garante que o tema a auxilia muito na profissão de magistrada, uma vez que a faz enxergar com outros olhos a história de cada um. Leitura e escrita não ficam para trás — a literatura tem espaço especial no lazer de Theresa. Com orgulho, ela mostra o livro A mulher e a justiça: a violência doméstica sob ótica dos direitos humanos, que organizou com amor e dedicação. Com tudo isso, ela ainda encontra tempo para um cineminha e lazer com a família.

Redes sociais
No Facebook, aberto para qualquer visitante, Theresa tem contato com pessoas do país todo e juízes até mesmo de fora do Brasil. “Acredito que as redes sociais são uma forma de percebermos o que as pessoas pensam e esperam de nós.” Apesar de ter conta no Instagram, ela admite a falta de tempo para alimentar a conta.

Acompanhe: FB: Theresa Karina de Figueiredo G. Barbosa.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.