Nem só de redes sociais, notícias em tempo real e conversas instantâneas é feita a internet. Mesmo com vocação para o fluxo contínuo de informações, a web também é uma plataforma que colabora para a solidificação de hábitos nem tão recentes assim, entre eles, o da leitura. Foi pensando nisso que dois amigos criaram o projeto Livro Livre, que pretende tirar obras de estantes empoeiradas e levá-las à população sem acesso a esse tipo de ferramenta.
A ideia surgiu na Festa Internacional Literária de Paraty (Flip) de 2008. Ao participarem da feira, o hacker Pedro Markun e a jornalista Isabel Colucci ficaram surpresos com a ausência de livros na cidade. “Havia uma livraria do evento, mas a população local participava pouco da festa. Os moradores não estavam familiarizados com o assunto”, diz Isabel. A dupla, então, foi a um sebo e comprou 500 títulos, que foram doados aos moradores de Paraty. Cada livro continha uma etiqueta com instruções que começavam com o seguinte aviso: “Este livro não é um presente!”.
Na etiqueta elaborada por Pedro e Isabel, havia também um código, referente ao cadastro da obra no site www.livrolivre.art.br. O verso da capa recomendava, ainda, que o usuário entrasse na página e postasse suas opiniões sobre a obra depois da leitura. Além disso, o leitor deveria deixar o título em algum lugar público e avisar aos outros internautas sobre a “libertação”. A ideia dos dois amigos era fazer com que o caminho percorrido pelos livros livres fosse acompanhado por todos.
Pedro Markun conta que, a princípio, o projeto seria temporário e voltado apenas aos 500 títulos doados durante a Flip de 2008. “Mas o trabalho ganhou dimensão. Uma semana depois, eu recebi um e-mail de um senhor do Nordeste elogiando a iniciativa e avisando que ele também queria libertar os seus livros”, lembra Pedro. Atualmente, o site tem 5,4 mil obras cadastradas e espaço para troca de experiências entre internautas.
“O site existe para unificar e dar coesão ao projeto. As pessoas costumam perguntar onde podem achar determinada obra, nos dizem onde encontraram algum material ou onde vão deixá-lo”, enumera Isabel Colucci. “A internet é a espinha dorsal da iniciativa, ela permite que os objetivos cheguem a uma camada ainda maior. Existem muitas pessoas no Brasil que distribuem livros, mas há pouco espaço para a discussão desse trabalho”, completa Pedro.
O hacker planeja um futuro ainda mais ambicioso para o Livro Livre: a integração com plataformas móveis, como celulares e tablets. “Assim o projeto vai realmente deslanchar. Vai permitir que as pessoas encontrem um livro no metrô, por exemplo, e avisem à rede por SMS ou via Twitter”, exemplifica. “Não parece, mas hoje o tempo que a pessoa leva até chegar ao computador já é considerado longo.”
InspiraçãoO Livro Livre não é uma ideia genuinamente nacional. Pedro e Isabel se inspiraram no Bookcrossing, rede com cerca de 600 mil usuários já bastante difundida na Europa e nos Estados Unidos. O Bookcrossing funciona tal qual um Orkut ou Facebook: é possível criar um perfil e participar de comunidades e fóruns, inclusive em língua portuguesa. Por que, então, não importar a ferramenta para o Brasil em vez de criar um site semelhante por aqui?
Pedro explica que há duas razões: uma pragmática e outra “filosófica”. “Eu tive uma semana para colocar esse projeto no ar. Na época, o Bookcrossing não oferecia uma tradução satisfatória para o português e, querendo ou não, a barreira do idioma ainda é um problema. Ainda mais para o público que nós queríamos atingir”, esclarece.
Além disso, a essência do projeto estrangeiro é outra. O Bookcrossing surgiu como um clube de leitura. As pessoas entram e se cadastram para participar de atividades lúdicas, basicamente. “Mas no Brasil, onde o índice de analfabetismo funcional é gigante, não dá para fazer um projeto simples assim. A iniciativa precisa ter um caráter de militância e engajamento social para dar certo”, reforça Pedro. O hacker afirma que ainda é difícil convencer os tradicionais leitores brasileiros — geralmente, a elite das classes A e B — a doarem seus livros. Ele próprio sofreu antes de doar seus mais de 2 mil títulos. “Mas isso precisa ser quebrado. Ninguém ganha nada mantendo pilhas de livros com poeira na estante.”
Manipuladores de bitsPedro Markun trabalha atualmente como hacker, modificando programas ou peças de computador para que eles ganhem novas funcionalidades. Ele sempre esteve engajado em projetos de mobilização social e hoje atua no grupo Transparência Hacker, que procura criar ferramentas para melhorar o acesso do cidadão às contas governamentais. A profissão de Pedro é diferente da atividade do cracker, termo usado para identificar pessoas que usam seus conhecimentos em informática para fins ilícitos, como o roubo de senhas de cartão de crédito na internet, por exemplo.
Falhas na formaçãoA Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) define o analfabeto funcional como a pessoa que estudou menos de quatro anos. Na prática, essa população consegue ler e escrever frases simples, mas tem dificuldades para interpretar textos ou colocar ideias mais elaboradas no papel. No Brasil, uma em cada cinco pessoas é analfabeta funcional, segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Esta matéria tem: (3) comentários
Autor: Roni Vedovo
Há vários anos "desovo" livros lidos em locais públicos. Não preciso acumular objetos. Se alguém estiver interessado na leitura, aproveite. | Denuncie |
Autor: Roberto Fedele
CORRIGINDO - NO BRASIL NÃO HÁ O INCENTIVO À LEITURA DENTRO DAS ESCOLAS. | Denuncie |
Autor: Roberto Fedele
NO BRASIL NÃO O INCENTIVO À LEITURA DENTRO DAS ESCOLAS, OU SE HÁ, AINDA É MUITO TÍMIDO. OS ALUNOS SE DEFENDEM DIZENDO - "DE QUE ME ADIANTA APRENDER ISSO?" - SOME-SE AINDA - COMO FOI DITO NA MATÉRIA - O ANALFABETISMO FUNCIONAL. RESUMINDO, POR DESINFORMAÇÃO, O BRASILEIRO DEIXA DE ASSIMILAR INFORMAÇÃO. | Denuncie |