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Blogs e comunidades das redes sociais viram verdadeiros memoriais póstumos

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postado em 01/11/2011 08:00

Kleber Lima/CB/D.A Press


Familiares acreditam que a internet ajuda a enfrentar o luto, a trocar experiências e a cultuar os entes queridos com fotos e vídeos.

Mensagens como “Descanse em paz” e “Vá com Deus” lotam o perfil das redes sociais de quem já morreu. Além de bater papo e enviar e-mails, agora a comunicação via internet é usada para manter viva a lembrança dos falecidos. Por exemplo: no Orkut — ainda a maior rede social do país — existe a comunidade Profiles de Gente Morta. Os 84.570 membros são parentes que anunciam a causa da morte e publicam o perfil do ente querido e, também curiosos. Mas por que ainda seguir um “amigo” que nunca mais vai movimentar a conta na rede? Para homenageá-lo virtualmente.

Além disso, as redes sociais passam a ser mais um recurso para amenizar a dor do luto, segundo a psicóloga Ciomara Schneider. Como é mais uma forma de comunicação em que as pessoas comentam sobre casamentos, aniversários e outros momentos, a morte também faz parte da vida, apesar de as pessoas evitarem falar sobre o assunto. “Lá, é como se as pessoas estivessem tirando a dor que sentem e partilhando com os outros. Isso é bom”, explica.

Registro da dor
O que mais chamava a atenção em Luciana Gonçalves era o sorriso e o cabelo, “negro como o de um corcel”, como compara carinhosamente o marido, Woltony de Lucena, 33 anos. Essa última característica marcante foi sumindo aos poucos. Luciana teve câncer de pulmão e, com a quimioterapia, os fios caíam aos montes no banho, na hora de penteá-los, no balançar da brisa. Mas, o sorriso, esse nunca se perdeu. Principalmente porque, na mesma época, ela descobriu que estava grávida. Na internação, Luciana de repente acordou com uma vontade sem explicação de contar a sua história para o mundo. Perguntou a Woltony — que é engenheiro de informática — como se construía um blog. No dia seguinte, bem cedinho, ela já tinha feito o www.lucianaewoltony.blogspot.com.

“Somos um casal apaixonado! Temos um filho lindo chamado Pedro. Estou lutando pela vida da minha filha, Helena, que está crescendo na minha barriga e lutando contra um câncer, que, se Deus quiser, está com os dias contados!”, diz, na apresentação da página.

Eles lutaram até o fim para que a doença atendesse aos pedidos digitados. Na ponte aérea entre Brasília e São Paulo, à procura de tratamento, as postagens eram frequentes, como uma forma de desabafo do casal. Na fase mais crítica, em que Luciana estava cedada, ela abria os olhos devagarinho e fazia gestos com os dedos de digitação. Woltony entendia: era hora de escrever pela esposa na web.

Helena nasceu perfeita. E Luciana piorou da doença. Tudo foi registrado no diário on-line que parentes e amigos acompanham assiduamente. Em 27 de junho de 2010, Woltony fez o post que não queria. “O amor da minha vida descansou hoje.”

Os dias se passaram e, como prometeu à mulher, Woltony compartilha as dificuldades e as alegrias dos filhos no blog. “Conto coisas lá que não falo nem para meu pai”, diz o recente funcionário público. “Percebi que faz bem a mim e aos outros. Conheci pessoas de outros estados que passaram por isso, e até estrangeiros já comentaram. O feedback é muito bom para seguir em frente.” Até o fechamento desta edição, foram 223 postagens e mais de 7 mil comentários.

Memória viva
O estudante de direito Renato de Mélo tinha19 anos quando morreu em um acidente de carro, em 28 de outubro de 2010. Gostava de cantar e tocar no violão músicas sertanejas. A família do garoto ficou abalada. Nas missas em homenagem a Renato, a tia Marta Alves, 41 anos, observou a reunião de um número grande de pessoas. Todas com alguma história que merecia ser contada. Alguém precisava escrever essas memórias. “Vamos fazer um blog?”. Os parentes toparam, e foi o melhor amigo, Guilherme Mazzaro, o responsável pela construção da página renatodemelo.blogspot.com

“É uma forma de mantê-lo vivo”, explica Marta. A ideia é compartilhar a dor e as experiências com pessoas que passaram pela mesma situação. Expor reações e sentimentos com os que ficaram. Mas apesar de ter tido o insight do memorial on-line, nunca teve coragem de ver o portal. Quem alimenta o blog até hoje é a então namorada, Maria Paula Braga Dias, 19 anos. “É bom escrever sobre o que aconteceu e receber comentários. A internet foi uma das coisas que mais me ajudaram a superar a perda”, conta a estudante.

E o blog foi além das expectativas de amenizar a dor. Maria Paula sugeriu às mães dos outros três meninos que também estavam no acidente que fizessem o mesmo. “Muitas pessoas conheceram a história do Renato pela internet e passaram a dar mais valor à vida. Pensei em parar, mas quando eu não postava, as pessoas reclamavam. Então, continuei, porque também me faz bem.” Além da página, a família fez uma comunidade no Orkut e publicou vídeos no YouTube.

Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press

Sites que podem ajudar

ProBlogger.com
Oferece dicas sobre como preparar os parentes e os amigos para lidar com a morte.

HumanArchives.org
Cria uma espécie de memorial. É possível incluir fotos e vídeos.

Legacy.com
Monitora obituários de jornais e oferece um serviço para criar livros de visita para as pessoas deixarem pensamentos e memórias.

MyDeathSpace.com
O usuário tem informações sobre os membros do MySpace que já morreram. É possível também deixar comentários de memória.
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