Olheiro digital: software avalia atletas e identifica talentos do esporte

Por enquanto, o programa desenvolvido por pesquisadores brasileiros analisa jogadores de futebol, mas pode ser adaptado para outras modalidades

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postado em 15/09/2015 11:00 / atualizado em 14/09/2015 20:39

Roberta Machado

Assessoria CEPID-CeMEAI/Divulgação

No Brasil, qualquer um é especialista em futebol — até mesmo o computador. Um sistema virtual desenvolvido por pesquisadores de São Paulo é capaz de identificar os melhores atletas de um time e apontar os pontos fortes e fracos de cada jogador. A ideia está sendo desenvolvida desde 2012 por um grupo coordenado pelo Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A tecnologia pode ajudar treinadores e olheiros a encontrar esportistas de talento com um método imparcial. O aval do programa é baseado na análise estatística de uma série de testes físicos e mostra, de forma objetiva, se um atleta tem mesmo a técnica necessária para se tornar um craque.


O projeto iSports já tem um protótipo disponível na internet (http://www.mwstat.com/isports). O programa foi modelado a partir de testes realizados com 102 alunos de uma escola esportiva de São Carlos (SP). Cada criança teve de demonstrar suas habilidades em campo, além de passar por provas físicas. Os resultados dos testes de cada jogador foram registrados em um banco de dados virtual, por meio do qual todos foram comparados. O sistema mostra então quem está acima da média do grupo.


“O software estatístico calcula instantaneamente os indicadores. Cada vez que eu cadastro um atleta e peço um relatório, ele atualiza as informações, gera gráficos, calcula os indicadores e ordena em relatórios específicos”, explica Alexandre Maiorano, que começou a desenvolver o sistema quando ainda era aluno de mestrado. O trabalho também contou com a colaboração do pesquisador do CeMEAI Francisco Louzada e de Anderson Ara, hoje doutorando em estatística na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).


O programa funciona com base em seis indicadores, que determinam os talentos técnicos e o potencial físico de cada jogador. O passe é avaliado com base no resultado de quatro tentativas de chutes em direção a um alvo. O teste de drible é feito com uma corrida em zigue-zague em torno de cones e, para ir bem na prova do chute, o avaliado precisa receber a bola e acertar determinadas áreas demarcadas em um gol. Já a bateria de testes físicos mede o desempenho em uma sequência de corridas com distâncias variadas.


Apoio
O ponto-chave do programa, destaca Maiorano, são as metodologias estatísticas que determinam pesos diferentes para cada teste, combinam os resultados obtidos e criam indicadores que possibilitam a comparação dos jogadores. Anderson acredita que a ferramenta poderia ser usada para facilitar o trabalho de quem tem a tarefa de encontrar talentos em meio a vários candidatos“A detecção de talentos, geralmente, é bem subjetiva. O olheiro assiste a um jogo e vê quais jogadores são bons. A ideia é criar uma ferramenta que permite avaliar os atletas e apontar objetivamente os que mais se destacam”, ressalta Maiorano, que hoje é doutorando pelo Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Estatística da UFSCar/USP. Os testes usados para avaliar os jogadores pelo iSports foram escolhidos a partir da indicação de treinadores e educadores físicos. Mas o método estatístico criado pelos engenheiros é totalmente customizável. O sistema seria capaz de avaliar outros tipos de talento esportivo, voltados para outros esportes.


O sistema é gratuito e funciona totalmente on-line, por isso não exige qualquer tipo de instalação. Ele pode ser acessado pelo professor ou pelo aluno pela internet em computador, smartphone ou tablet. Um técnico consegue, ainda, identificar os principais talentos do time, e o atleta tem a opção de consultar os resultados do seu desempenho sem que a identidade dos demais jogadores seja revelada.

Combinação
Com a ampliação do uso, seria possível comparar atletas de uma cidade inteira ou alunos de uma rede de escolas distribuídas pelo país. Clubes, dessa forma, poderiam descobrir talentos de outra cidade com mais facilidade. “A questão não é substituir os olheiros. Na realidade, o trabalho que esses profissionais fazem é de extrema importância. Eles têm uma percepção subjetiva que, muitas vezes, os testes não conseguem detectar de forma adequada. O problema é que ele não está o tempo todo com o atleta. Esse tipo de sistema vem complementar essa estrutura”, ressalta Louzada. “Através do software, damos a possibilidade de um talento esportivo ser descoberto. Mesmo os indivíduos que moram em cidades pequenas e nunca seriam descobertos por times também poderiam ser vistos”, acredita.


Os criadores do software vão iniciar uma nova fase de testes e disponibilizar o iSports para escolas. Os professores e alunos de centros de treinamento vão usar o protótipo e indicar se ajustes são necessários. Depois disso, o programa estará disponível para adaptação e implementação de avaliações voltadas para diferentes modalidades esportivas.

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