Pesquisa aponta que assédio é comum entre usuários da Wikipédia

A plataforma tem políticas e estatutos para combater assédio e vandalismo, mas moderadores ficam sobrecarregados com o volume de comentários

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postado em 08/02/2017 19:24 / atualizado em 09/02/2017 14:13

A fundação Wikimedia divulgou na terça-feira (7/2) uma pesquisa inédita que revela comportamento agressivo dos usuários e editores da plataforma colaborativa Wikipédia. Segundo o estudo, realizado em parceria com a empresa Jigsaw, do Google, 38% dos entrevistados já sofreram algum tipo de assédio no site. Desses, metade se sentiu menos motivada para contribuir com o site no futuro.
 

Um dos comentários usados de exemplo na pesquisa foi deixado anonimamente em março de 2015: “O que você precisa entender enquanto passa as roupas é que a Wikipédia não é lugar de mulher.”
 
A Wikipédia é uma plataforma internacional de conteúdo colaborativo, na qual os usuários — cadastrados ou anônimos — podem contribuir para a criação e edição do conteúdo. A partir do momento em que uma edição é feita e salva, a página é atualizada automaticamente. Para resolver impasses, o site tem, para cada verbete, uma aba de discussão, na qual os usuários podem interagir. 
 
 
Reprodução
 
 
 
A pesquisa trabalhou com o desenvolvimento de sistemas que detectam automaticamente os comentários tóxicos. Isso torna o processo de moderação de comentários muito mais rápido do que se fosse feito só por moderadores. No estudo, foram analisados 100 mil comentários da Wikipédia em inglês, e quatro mil voluntários classificaram cada um deles de acordo com a natureza do assédio, que pode ser insulto, obscenidade ou calúnia.

Os usuários registrados na plataforma compõem a maior parte dos assediadores: 67%. Além disso, um em cada três ataques vem de usuários mais ativos, aqueles com mais de 100 edições. Outro dado preocupante é que só 18% das agressões identificadas receberam advertência ou resultaram em bloqueio do usuário.

Rodrigo Padula, coordenador de projetos da Wiki Educação Brasil, grupo que reúne professores e pesquisadores de plataforma no país, afirma que as agressões verbais ocorrem quando os usuários tentam forçar um argumento. “Muitas vezes, esquecem que existe outra pessoa por trás da tela”, reflete. Padula ressalta, também, que a Wikipédia tem políticas e estatutos que visam combater esse tipo de atitude. “Muita gente acha que pode escrever o que quiser, mas há políticas de controle”, observa. 

Érico Wouters, que começou a trabalhar como editor da plataforma em 2010 e, desde 2012, atua como administrador, garante que, hoje, a punição é mais rígida. Até  2015, a comunidade lusófona — da língua portuguesa — na Wikipédia tinha 30 administradores. Neste ano, o número dobrou. Wouters opina que essa mudança melhorou o ambiente, já que os administradores são capazes de eliminar páginas com conteúdo impróprio e bloquear contas de usuários; o bloqueio pode ser de “um dia até para sempre”. É possível também bloquear endereços de IP, o número único que cada computador ou roteador recebe quando acessa a internet. Assim, é possível lidar com o problema de assediadores e vândalos (aqueles que propositalmente colocam informações falsas na Wiki) recorrentes. 
 
Para Rodrigo Padula, que é editor da Wikipédia há 10 anos, a pesquisa é fundamental para que a comunidade reflita e discuta melhorias para os processos internos.

Os problemas com assédio e vandalismo na Wikipédia refletem um problema maior da internet e, mais especificamente, das plataformas colaborativas. Uma pesquisa de 2014 da Pew mostra que 73% dos usuários da web já observaram assédio online e 40% já passaram por isso. Rodrigo Padula lembrou que assédios acontecem com mais frequência na Wikipédia do que em outras páginas porque é um dos maiores projetos colaborativos do mundo, funcionando 24 horas por dia em dezenas de países.
 
*Estagiária sob supervisão dos editores Humberto Rezende e Anderson Costolli.
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