ROTAS DE FÉ

Nos caminhos da santa por Ávila, Burgos, Valladolid, Segóvia, Palencia...

Valente por necessidade e revolucionária por natureza, Teresa de Jesus nasceu em Ávila, na Espanha, marcou a história e ficou conhecida como doutora da Igreja Católica. Um roteiro por belas cidades, como Medina del Campo e Alba, conta a vida e a trajetória dela no país

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postado em 24/06/2015 19:31 / atualizado em 24/06/2015 17:17

Camila Costa

Wikimedia/Divulgação

“Você sente. E aí tem que largar tudo para seguir a Deus. Ele é quem te dá força e coragem. Assim, temos tudo.” Enclausurada há 13 anos em um convento em Alba de Tormes, na Espanha, irmã Maria de Santa Teresa abriu mão da vida “mundana” para viver em oração pela humanidade. Assim como ensinou a mulher que lhe inspirou o nome, a santa Tereza de Jesus, faz parte da congregação das carmelitas.

Revolucionária por natureza e valente por necessidade, Tereza d’Ávila, como é chamada no Brasil, foi uma freira carmelita que produziu importantes obras religiosas, em grande parte na Espanha. Em outubro próximo, encerram-se as comemorações do 5º Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus — um evento que estimula os cristãos a percorrerem os caminhos feitos por ela.

A irmã brasileira, que segue os ensinamentos de Santa Teresa, vive em um convento de clausura em Alba, província de Salamanca. Ela conversou com o Turismo, mas não autorizou fotografias. Irmã Maria de Santa Teresa nasceu em São Luís, Maranhão, e tem 45 anos. Ela contou que foi para a Europa quando já era monja. Não vê a família há mais de três anos. No entanto, segundo ela, Deus é quem dá força e coragem. A carmelita e outras 10 monjas moram no carmelo de Alba de Tormes.

Para a santa, era essencial que todas tivessem o mesmo comportamento, os mesmos afazeres e as mesmas condições. Passaram, assim, a viver apenas nos conventos, em constante oração e leitura, priorizando a Deus. Nesse formato, Santa Teresa de Jesus fundou 17 conventos de monjas e 2 de freis, em apenas 20 anos. Em uma breve conversa, a irmã explica como vivem as carmelitas na Espanha. “Todas têm um estilo de vida parecido. O essencial é igual. Reza-se sete vezes por dia, mais uma hora sozinha de manhã e outra à tarde. A vida da carmelita é toda de oração, sempre em comunhão com Deus, pois temos que estar em contato com Deus”, explicou.

Camila Costa/CB/D.A Press

Primeira parada


O roteiro religioso de Santa Teresa de Jesus deve começar, estrategicamente, por Ávila. Foi na cidade banhada pelo Rio Adaja que a menina apaixonada por histórias de santo nasceu. Bonita, cheia de vida, com senso de humor, mas foi na adolescência que essas características afloraram ainda mais. A proximidade com um primo, aos 16 anos, preocupou o pai, que optou por colocá-la na igreja. A intenção era resguardar a honra de Teresa. Contrariada, largou as orações pouco depois. Mas um sinal divino a levou de volta às igrejas com 20 anos.

Em Ávila, a chegada é de encher os olhos. Logo na entrada da cidade, um ponto alto dá vista para a muralha que cerca a cidade. É uma das mais bem conservadas da Espanha. É lá que está o Real Monastério de Santo Tomás — um dos sete lugares teresianos.

Pouco antes de chegar em Ávila, vale a passagem por Alba de Tormes, uma antiga vila medieval, onde viveu a família poderosa da Alvarez de Toledo (Duque de Alba). Em 1571, Santa Teresa fundou o Convento da Anunciação. Lugar em que morreria em outubro de 1582, aos 67 anos. É em Alba de Tormes que também ficam guardadas relíquias da santa e onde pode ser visitado um quarto, chamado de celda, no qual ela morreu. O local é perfeitamente construído como no dia da morte. Uma imagem dela, deitada na cama, surpreende pela perfeição.

 

Em Vallodolid e Soria

 

Wikimedia/Divulgação

No coração de Castela e Leão — comunidade autônoma da Espanha — estão Medina Del Campo e Valladolid. Medina Del Campo fica a 155km de Madri, capital do país, e tem muitos lugares teresianos para visitar, como o Convento de San Juan de La Cruz, de San José — esse, inclusive, foi a segunda fundação de Santa Teresa — e a Capela de São João da Cruz. Mas é no Convento de San Juan que estão numerosas obras de arte relacionadas com o altar sagrado e a vida de Santa Teresa.

Em Valladolid está a quarta fundação de Carmelitas Descalças de Santa Teresa. A igreja é um verdadeiro museu, com belas esculturas de Gregorio Fernández. O convento tem obras de arte no claustro, no coro.  

Palencia

Na rota de Santa Teresa de Jesus, a próxima parada é Palencia. De carro, cerca de 40 minutos distante de Valladolid. Ela foi duas vezes à cidade: em 13 de janeiro de 1582 e em junho de 1582, acompanhada por sua enfermeira, Anne de São Bartolomeu.

Após Palencia, Teresa começou, em 29 de maio, a caminhada que resultaria na fundação de Soria. Ela chegou na cidade, hoje com 45 mil habitantes, em 2 de junho de 1581. O visual é romântico, com traços renascentistas e barrocos.

A construção teve o trabalho direto da santa, e foi formalmente inaugurado em 14 de junho de 1581. Essa foi a penúltima fundação de Teresa. E não só isso. Quem vive a cidade acredita que a santa fundou muito mais do que mais um convento, e sim, “um estilo de vida”. Teresa deixou um legado. De obras, escritos e espiritualidade. (CC)


Abrigo aos  peregrinos
Palencia está localizada na parte central norte da Espanha, na comunidade autônoma de Castela e Leão. É uma cidade espanhola tradicional, tranquila e convidativa. Tem praças enormes, atraentes, praticamente todas com wi-fi. Além de ser um local de muita oferta gastronômica. No século 11 foi construído um hospital para os viajantes.

 

Wikimedia/Divulgação
 

 

Entre a catedral e o castelo

 

Alba é uma província de Salamanca. Santa Teresa chegou por lá em 1570, onde criou a sétima fundação. O trajeto é religioso, mas a cidade tem um valor que salta às paredes das igrejas. Tudo é encantador. Desde o prédio da Universidade de Salamanca, uma construção do século 13, ao prédio do acervo geral dos artigos da Guerra Civil, às ruas cheias de becos e vielas. Um charme à parte. Na universidade, por exemplo, turistas perdem horas em frente à fachada, em busca do tradicional sapo conhecido por dar sorte aos estudantes. Quem acha o desenho dele na parede terá, de acordo com a superstição, notas boas. A lenda, hoje, é mais do que história. É fonte de renda. Vendedores ambulantes ganham até 3 euros por um chaveiro pequeno de sapinho.

Outra parada obrigatória é ao Castelo Duque de Alba. Um palácio renascentista do século 16, onde Santa Teresa ia com frequência. A visita é uma verdadeira viagem no tempo. É possível contemplar pinturas originais da época, feitas por um italiano, datadas de 1567.

Outra obra de relevância é um busto de mármore do Duque de Alba. O castelo fica logo na chegada à Alba. E a vista é esplêndida. Fica de frente para boa parte da construção da cidade e para, privilegiadamente, o Rio Tormes. Em uma das paredes do castelo também é possível ver o símbolo das Huellas Teresa de Jesus. Em português, uma menção aos caminhos percorridos pela santa. “Devemos traduzir nossos sonhos em feitos, nossas palavras em obras, nossas aspirações em ação”, dizia Teresa.

Catedral


A Catedral da cidade é bela, proporcionalmente ao tempo que levou para ser construída. Ao todo, 200 anos. Tem 46 metros de altura, 16 capelas e, da cúpula central ao chão, cerca de 70 metros de altura. Um paraíso de concreto trabalhado em boa parte em ouro e mármore. Destaque especial para a capela dedicada a Santa Teresa de Jesus e a visita à Torre Medieval da Catedral. O passeio noturno custa 6 euros.

Agora, uma licença à santa para a vida e a noite da cidade. Salamanca é uma cidade universitária. Respira juventude, bem diferente de outras regiões. Tem encantos em cada esquina. Mas, a cor da cidade é uma das coisas que mais chamam atenção. Tem uma luminosidade natural, de tom dourado, explicada pela origem das pedras usadas na maioria das construções. São pedras de arenito, usadas nas construções mais antigas. Por isso, o turismo por lá pode — e deve — ser feito a pé. O centro histórico, onde está a Praça Maior, é, inclusive, classificado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1988. A praça é, de fato, maior. Em beleza, em deslumbre, tanto que é considerada uma das mais bonitas da Espanha. De dia é linda, e, à noite, é de tirar o fôlego.



Tradição
De Segóvia a Ávila, além de muitas coincidências arquitetônicas, uma coisa é universal. O cochinillo. É o nome dado ao leitão servido em seis pedaços, a 23 euros por pessoa. No restaurante José María, em uma ruazinha simples, o prato é a especialidade da casa. Mais do que isso, é uma atração. Todos param para ver o anfitrião servindo o famoso cochinillo. A maciez da carne e a casca fina e crocante dispensam faca. O corte é feito com o próprio prato onde será servido o porco ao cliente. No mesmo local também é possível saborear a melhor croqueta da Espanha. Um bolinho de creme bechamel e presunto cru ibérico.

 

 

Percorra Santiago

 

Camila Costa/CB/D.A Press

Além de transbordar história e arte, ser um grande centro de desenvolvimento e comércio, Burgos preserva tudo isso sem perder a veia espiritual. A cidade faz parte de um dos trajetos religiosos mais conhecidos do mundo, o caminho de Santiago de Compostela. A rota de peregrinação existe há 12 séculos e leva até a cidade de Santiago, na Espanha, além de ser considerada Patrimônio da Humanidade, com a Serra de Atapuerca e a catedral da cidade. Aproveitando a proximidade da Serra de Atapuerca, onde foram encontrados os vestígios mais antigos da presença humana na Europa, a cidade sedia o Museu da Evolução Humana.

A Catedral de Burgos merece destaque à parte. Foi construída em 1221, dedicada à Virgem Maria. Tem 17 capelas particulares com personagens importantes para a história da catedral. Mesmo quem não é amante de arquitetura ou religão encanta-se com a estrutura do lugar. Uma das partes mais comentadas é a escultura do Papamoscas. Uma estátua curiosa de um boneco articulado que abre a boca quando os sinos são badalados, a cada hora.

É comum encontrar quem esteja na catedral por motivos religiosos. Uma promessa ou um encontro espiritual pessoal, a exemplo de um grupo de amigos de Recife, que decidiram fazer o caminho de Santiago de bicicleta. Ao todo, seis pessoas toparam o desafio. Nos primeiros dias do percurso, a pedalada era de 35km por dia. “Todos dizem que a vida de quem faz esse caminho muda completamente. Vamos descobrir se muda mesmo”, afirmou a médica Flávia Emery, 54 anos.

Quando chegaram à Catedral de Burgos, o grupo estava no sexto dia da jornada, que tem 800km e pode durar, pela rota mais tradicional, 33 dias. Um dos principais ensinamentos do Caminho de Santiago é viver com o essencial, já que é quase impossível fazer o trajeto carregando muitas coisas.

A Espanha “profunda”
Wikimedia/Divulgação

Pertinho de Madri está a província de Segovia. Fica a menos de 100 quilômetros. Apesar de perto, a ida para a cidade merece atenção. Por si só, é encantadora. Verdadeiros cenários de filme. Pistas abraçadas por grandes rochedos, neblina nas primeiras horas da manhã. A cidade é pequena, mas, curiosamente, tem uma loja enorme apenas de coisas da China. O aconchego de 56 mil habitantes permite hábitos simples, como as caminhadas pela calçadas, tranquilamente.

Os banquinhos nas praças são tantos que é impossível até contar. Sempre cheio de amigos ou de casais de idosos. É nesta cidade medieval charmosa que está a nona construção da Santa Teresa de Jesus. Além do trajeto teresiano, não se pode deixar passar uma visita ao dramático Alcázar, uma fortaleza encastelada no alto de penhasco, ao Aqueduto e à Catedral. Um trio de atrações.

O termo “Espanha profunda” é popularizado na região por mostrar uma cultura mais interiorana do país. Todo esse trajeto teresiano é um grade desconhecido para a maioria dos turistas, que optam, quase sempre, pelos roteiros tradicionais, como Barcelona. Em Segóvia, a região é castelhana, as freiras são carmelitas, e lá começou a reforma da igreja por Teresa.

Ainda existe, inclusive, um legado judeu forte na região. “Santa Teresa enfrentou a igreja. Foi uma mulher revolucionária e valente”, afirmou uma fonte da Secretaria de Turismo de Segóvia. Foi na cidade, no Convento de São José dos Carmelitas Descalços, que Teresa começou a escrever The Mansions. (CC)

 


Homenagens
Por ocasião da comemoração do 5º Centenário do nascimento de Santa Teresa, em 2015, na cidade de Ávila, surge a união das cidades Teresianas, sob o nome Huellas Teresa de Jesus, como uma proposta cultural e do patrimônio para divulgar o trabalho e o legado declarado da Igreja por meio da apresentação de diferentes Fundações Conventuais da santa.

 

Santa Teresa em nove cidades

1 – Convento de Santa Clara
Foi fundado em 1224, com a invocação de Santa Catarina, que logo mudou para Santa Clara. Em 1834, tornou-se quartel e, depois, a sede do governo militar.

2 – Convento de São Francisco

O convento pode ter sido fundado por Francisco de Asis, em 1241. No século 17, um incêndio destruiu o mosteiro, caso em que tudo seria abandonado após o confisco, sendo, mais tarde, convertido em Hospital Provincial. Depois, virou a sede do Colégio Universitário de Sória.

3 – Convento de Conceição
O Convento de Nossa Senhora de Conceição foi fundado em 1569. Em 1812, durante a Guerra da Independência, foi demolido. Hoje em dia, o local é ocupado por uma escola.

4 – Convento de Santo Domingo

No século 16, foi fundado, em anexo à magnífica igreja românica de São Tomé, um convento dominicano. Desde 1853, ocupando o prédio das Clarissas.

5 – Convento das Mercês
Datado do século 16, o Mosteiro Mercedários do Claustro e a igreja de uma só nave são preservados e transformaram-se em quatro seções. O edifício ficou abandonado muitos anos, até ser convertido em um hospital das Irmãs da Caridade. Hoje, é usado para fins culturais.

6 – Convento de Carmen
Foi fundado por Santa Teresa em uma casa doada por Beatriz Beaumont, em 1581. Um pequeno mosteiro para os monges também foi construído, em anexo. Ambos pertencem hoje à Ordem das Carmelitas Descalças.

7 – Convento de Santo Agostinho
A história remonta no século 13, quando ocuparam como um convento freiras e monges cistercienses, até que um incêndio destruiu tudo. Os restos, no século 16, viraram o Convento de Nossa Senhora das Graças.

8 – Monastério de San Juan de Duero

Construído entre os séculos 12 e 13 por monges hospitaleiros. A parte mais importante desse conjunto é seu espetacular claustro românico.

9 – Monastério de São Paulo
Fundado no século 13 pela Ordem do Templo. Um antigo mosteiro, atravessado por um túnel através do Caminho São Saturio.

Reforma da ordem religiosa

» Preceitos pregados por Santa Teresa de Jesus
» Conventos deveriam ser pobres;
» Monjas com direitos e deveres iguais;
» Monjas cultas, dedicadas à leitura;
» Prática da oração íntima e individual.
 

Camila Costa/CB/D.A Press
 

 

A jornalista viajou a convite do Escritório de Turismo da Embaixada da Espanha

 

 

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