TURISMO RELIGIOSO

Caminhos habitados pela fé: Israel, Irã, França e Espanha pelos leitores

Viagens em busca de experiências espirituais fazem muito sucesso entre os brasileiros. E para prosseguir nessas jornadas reflexivas, os fiéis estão dispostos a ir longe. Confira as histórias de leitores que foram para Espanha, França, Israel e Irã movidos pela crença

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postado em 24/06/2015 19:32 / atualizado em 24/06/2015 19:04

Laisa Queiroz /

No início do século passado, Fernando Pessoa já dizia que a fé é o instinto da ação. A frase pode não ser uma das mais marcantes do escritor, mas representa um dos fenômenos do turismo mundial nos últimos anos. Em busca de experiências que proporcionem muita reflexão e um contato mais real com o sagrado, viajantes escolhem alguns destinos justamente pela relação que eles têm com a fé de cada um.

Entre os brasileiros, na maioria católicos, os locais escolhidos costumam guardar histórias de personalidades cristãs. A professora de espanhol Tatiane Brito, por exemplo, escolheu o Caminho de Santiago para trilhar enquanto esteve na Espanha. Dona de uma agência de turismo, Mércia Crema organizou um roteiro na França pelos locais por onde passou Joana D’Arc. Já o advogado José Carlos Berci optou por seguir os milenares passos de Jesus e foi com a esposa para Israel.

Como fora do Brasil há grandes populações de outras religiões, além do cristianismo, não faltam opções de viagem para quem segue outras crenças — e também para quem não segue nenhuma, mas tem curiosidade. O também advogado Rutênio Araújo é muçulmano e escolheu o Irã como destino que mais bem se encaixava na proposta de expandir a fé islâmica. Confira, abaixo, as histórias de cada um deles.

 

Arquivo Pessoal

Estudo aprofundado

 

O advogado pernambucano Rutênio Araújo, 52 anos, converteu-se ao islamismo em 1988, inicialmente voltado para o sunismo. Duas décadas depois, começou a estudar a outra vertente da religião, o xiismo, que, embora muito associado ao fanatismo pelo senso comum, é, historicamente, o ramo mais ligado ao intelecto dentro do islã. Para isso, ele decidiu visitar a mais importante comunidade xiita do mundo: o Irã.

“Senti a necessidade de ir até lá estudar, principalmente porque muitos livros traduzidos que encontrei aqui no Ocidente não eram exatos. Assim, passei 90 dias entre as cidades sagradas iranianas”, explica. Mashhad, Qom, Shiraz, Isfahan, a capital Teerã e as ruínas de Persépolis estão entre os locais visitados por Rutênio. “Fui com o propósito de estudar, mas reconheço que o país é lindo. Não recebe mais turistas, principalmente, pela imagem negativa que é passada na mídia”, defende.

Além das mesquitas e de outros pontos de peregrinação, chamou a atenção do advogado a casa onde viveu Molla Sadra, considerado o maior filósofo iraniano, que inseriu outras áreas de estudo em seu trabalho, como direito, teologia, teosofia e gnose. “O povo de lá é muito amável. Muito diferente da ideia que eu tinha antes de ir. E o fato de eu ter escolhido viver como um xiita em um país onde não existe uma sociedade em que isso é ensinado fez com que eles também tivesse muita admiração por mim.” Em vez suvenires, Rutênio trouxe de lembrança três caixas de livros em inglês (já que ainda não fala a língua persa) para continuar os estudos no Brasil.

 

 

Arquivo Pessoal

Andar com perseverança 

 

Em agosto de 2014, a professora de espanhol Tatiane Brito, 34 anos, estava na Espanha, estudando pelo programa Brasília Sem Fronteiras, do governo do Distrito Federal. Durante a estadia, resolveu explorar o país de uma maneira menos tradicional: a pé. O caminho escolhido foi o de Santiago de Compostela. “Já havia visto em filmes e lido a respeito, e sempre quis ir”, conta.

A rota medieval, que é Patrimônio da Humanidade, há quase 12 séculos de existência e vários caminhos para escolher. Tatiane fez os últimos 100km do Caminho Francês (que tem 700km no total) em uma semana. Para ela, a maior dificuldade é o cansaço, mesmo para quem tem bom preparo físico. “Depois de muitos quilômetros percorridos, os dedos dos pés começam a sangrar e joelho dói bastante, entre outras partes do corpo que também incomodam. É preciso abrir mão do conforto: esperar para tomar banho, dormir em beliches de quartos coletivos, comer o que tem à disposição e carregar na mochila apenas o que é indispensável.”

Os peregrinos, como são chamados os que percorrem o caminho, costumam se hospedar em albergues muito simples, normalmente em construções antigas. Eles também contam com um passaporte específico para o trajeto. “O documento é carimbado no ponto de início e no fim, além de igrejas, bares e restaurantes onde você passa, dependendo do trecho.” Todos esses locais, além de plantações nas estradas de terra e da observação dos próprios peregrinos, chamaram muito a atenção da professora. “Eu me emocionei muito com a celebração da missa quando terminamos o caminho, na Catedral de Santiago de Compostela”, lembra.

 

Arquivo Pessoal
 

Religião e psicologia

 

Dona de uma agência de turismo, a empresária Mércia Crema, 65, foi com um grupo até a França, em maio, para refazer os passos de Joana D’Arc, da cidade onde ela nasceu, Domremy, até Rouen, onde morreu, queimada viva. O marido, o antropólogo e psicólogo Roberto Crema, conduziu o passeio.

“Contemplamos a história e também o lado espiritual de Joana D’Arc, que libertou a França da Inglaterra porque escutava vozes”, explica. A maior parte do grupo era de psicólogos e, muitos deles, católicos. Fizeram um percurso de 2.300km de ônibus e passaram por várias cidades do interior da França. Todos os locais continham histórias da heroína que  demorou quase cinco séculos para ser canonizada pela Igreja.

Em 2009, Mércia fez outra viagem de cunho religioso. O foco era, também, uma mulher que teve muita importância (e levantou polêmicas) dentro do cristianismo: Maria Madalena. Depois da morte de Jesus, conta a história que ela foi viver no sul da França. Ainda em 2015, ela e o marido vão até a Ásia, dessa vez, para explorar o budismo e o hinduísmo.
 

 

Frederico Bottrel/EM/D.A Press
 

Passos bíblicos

 

Em julho de 2012, o advogado José Carlos Berci, 60, passou 12 dias em Israel com a mulher. Católicos atuantes, os dois realizaram um sonho antigo: seguir os passos de Jesus nos locais por onde ele passou. Durante a excursão, aproveitaram para fazer a renovação do matrimônio na chamada Terra Sagrada. “Ler a Bíblia aqui é uma coisa, mas fazer o mesmo lá, onde tudo aconteceu, é muito diferente e profundo. Além de renovar a fé, você passa a conhecer histórias que não são contadas por aqui. Lá, descobri, por exemplo, onde foi parar a cruz em que Jesus foi crucificado.”

Eles visitaram a metrópole Tel Aviv e diversas cidades citadas na Bíblia: Nazaré, Canaã, Jerusalém, Belém, Jericó, Cesareia, entre outras. O Mar Morto, o Muro das Lamentações, e o Santo Sepulcro, e o Monte das Oliveiras marcaram presença no roteiro. “A maior dificuldade foi andar no calor de 46ºC que faz na região árida.”

Por fim, Berci dá algumas dicas para quem pretende ir até lá. “O check-in no aeroporto de lá é muito demorado, pois revistam tudo, então é bom ir com mais horas de antecedência. Não ande nunca sem o passaporte, porque, dependendo dos lugares que você vai visitar, é necessário apresentá-lo. Não é aconselhável andar sozinho. E não é necessário falar hebraico, mas inglês é muito importante para se comunicar com os locais.”
 

 

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