DINAMARCA

Monarquista e liberal: além da política, a realeza é vista nos castelos

Uma das democracias mais sólidas da Europa, o país se destaca pela estrutura multipartidária do Parlamento, que se traduz no consenso. A realeza está presente na política e nos cenários de verdadeiros contos de fadas

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postado em 01/07/2015 19:32 / atualizado em 02/07/2015 14:39

Mariana Laboissière

VisitDenmark/Divulgação
 

Há um diálogo entre o contemporâneo e o histórico na Dinamarca, seja na arquitetura, com a funcionalidade entre edificações antigas e modernas, seja no sistema político, estruturado em uma monarquia constitucional. Nesse país nórdico, rainha e primeiro-ministro coexistem. No início do mês passado, as ruas de Copenhague estavam abarrotadas de cartazes com fotos de candidatos ao posto de representante do povo no Parlamento. Em 19 de junho, com o resultado das urnas, o cenário partidário na Casa mudou de vermelho para azul. Helle Thorning-Schmidt, que tentava se reeleger como primeira-ministra, foi derrotada por Lars Lokke Rasmussen. Assim, o Partido Social-Democrata deu lugar ao Partido Liberal.


Agora, é Rasmussen quem terá de dialogar com Margrethe II, a atual rainha, herdeira de uma história real de cerca de 10 séculos. O próximo sucessor do trono é o filho dela, Frederik. A forte presença da monarquia na Dinamarca transparece no volumoso acervo de relíquias em museus e nos incontáveis castelos distribuídos pelo território. Somente na ilha de Funen, são 123 construções como essas. Historiadores acreditam que a peça de Hamlet, tragédia escrita por William Shakespeare, tenha como pano de fundo umas dessas construções dinamarquesas, precisamente o castelo de Kromborg, na Zelândia do Norte. Isso se deve à riqueza de detalhes na narrativa dele. A edificação foi levantada pelo rei Frederik II, entre 1574 e 1585, e fica próxima da costa da Suécia. Por anos o local serviu como parada obrigatória de navios estrangeiros, que tinham que pagar uma taxa pela travessia.

VisitDenmark/Divulgação

“O castelo foi construído com materiais caros. As várias janelas de vidro são exemplo, pois, naquela época, o material tinha um altíssimo valor. Então, todos que atravessassem por aqui viam como o reino dinamarquês era poderoso”, conta uma das guias do Kromborg. Discurso reforçado também na área interna do castelo, por meio da tapeçaria, muitas tecidas com ouro, ou no mobiliário elaborado e no grande salão, onde tantas festas e banquetes foram realizados. “Durante essas reuniões, os convidados tinham que comer cerca de 8kg de comida cada um. E não podiam fazer desfeita. As comemorações duravam dias, até uma semana”. O ambiente mistura a arquitetura barroca com a renascentista, ao remontar a época da transição entre o catolicismo e o luteranismo na Dinamarca. Em 2000, ele foi adicionado à lista da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio Mundial.


Mas engana-se quem imagina que tais construções estejam associadas apenas à nobreza. Em alguns castelos é possível se hospedar, como é caso do Broholm, de 350 anos, em Funen, que, além do hotel, tem um restaurante aberto ao público. Os quartos remontam a épocas passadas, com lustres luxuosos, pisos de tábua corrida e bustos esculpidos séculos atrás, e pinturas nas paredes. Os responsáveis pelo local tentam manter os cômodos no formato mais original possível, a ponto de não instalarem aparelhos de TV e manterem alguns quartos sem banheiros. Nesse caso, o hóspede precisa concordar em dividir um banheiro, na área externa, com outros clientes. A diária mais barata custa algo em torno de R$ 400. O espaço também costuma ser alugado para outros eventos, como casamentos, noivados e reuniões de negócio.

 

Banquetes sem fim - Os historiadores contam que, para comer sem parar, os convidados usavam uma pena de ganso que,
ao ser colocada na garganta, causava-lhes vômitos. Havia um espaço separado no salão para a regurgitação coletiva.

Wikimedia/Divulgação
 

 

Um reino encantado

VisitDenmark/Divulgação
 

Não há como visitar a Dinamarca sem conhecer a história do mais famoso escritor do país, Hans Christian Andersen, autor de dezenas de contos infantis, como A Pequena Sereia, O Patinho Feio e Soldadinho de Chumbo — adaptados, mais tarde, para as telonas em versão não tão fiel às originais — e outros não tão conhecidos, como A pequena vendedora de fósforos, A princesa e a ervilha e A roupa nova do imperador.


Bustos e esculturas espalhados pelo território retratam a importância de Andersen para os dinamarqueses. Ele também está em nome de ruas e em um museu, localizado no município de Odense, onde ele nasceu, em 1805. Dedicado à vida e à obra do escritor, o prédio abriga um vasto acervo de objetos pessoais, documentos e produções, como trabalhos de recorte em papel.
O visitante é levado a um mergulho no passado, quando abre-se a porta da que seria a casa onde Hans Christian viveu durante a infância. Historiadores contam que, por anos, a família do escritor dividiu um mesmo quarto. Gavetas de cômodas e bancos com tampos que se abrem seriam usados como camas para crianças na época. A história de pobreza marcou a vida do escritor e influenciou seus contos, somada à rejeição, em função da alta estatura e da fisionomia fora dos padrões. Andersen não se casou ou teve filhos.


Fato é que Christian Andersen perseverou e se mostrou um “homem além do seu tempo”, como muitos o descrevem. Após a morte do pai, ele precisou ganhar o seu sustento e acabou atuando em diferentes áreas ligadas à cultura. Antes de conquistar notoriedade com a escrita e entrar na universidade, trabalhou como cantor e ator em Copenhague.

Jos Martin/Divulgação

A importância de Andersen é tamanha que no Tivoli Gardens — um dos parques de diversão mais antigos do mundo e verdadeira atração em Copenhague — há um brinquedo dedicado exclusivamente aos contos do escritor. Para quem não sabe, o espaço, cheio de áreas verdes, luzes e cores, inspirou Walt Disney a criar a Disneylândia, na Califórnia. O ambiente une a diversão à boa cozinha e à arquitetura. Algumas áreas trazem influências de cultura de países orientais. Um teatro a céu aberto traz detalhes da China e as cortinas simulam o abrir da cauda de um pavão. Além de bons restaurantes, há um hotel dentro do parque. Quem tiver interesse de visitar o Tivoli deve ficar atento, pois no inverno ele fecha as portas, só abrindo de abril a setembro.

 

Sereia apaixonada
Uma das atrações de Copenhague é a estátua da Pequena Sereia, que virou uma espécie de símbolo local. Localizada em um porto, próximo ao parque de Kastellet. Feita em bronze, a escultura tem 1,25 metro de altura. Ela foi construída em 1913, em homenagem ao conto de Andersen, que fala sobre a história de uma sereia que se apaixona por um príncipe que salvou de um afogamento. Mas, diferentemente da história adaptada pela Disney, a sereia morre no final.

 

Faça amor

A Dinamarca ganhou os noticiários no ano passado, após uma agência de viagens lançar uma propaganda e uma promoção encorajando os dinamarqueses a viajar para aumentar a taxa de natalidade no país. O slogan “Do it for Denmark”, que significa, em português, “Faça pela Dinamarca”, causou burburinho. A empresa teve a ideia a partir do interesse do governo em combater a queda no número de nascimentos no país.

 

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