RIO GRANDE DO SUL

Terra das sete irmãs: conheça as vinícolas da rota do vinho, no sul do país

A rota brasileira do vinho reúne o estilo de vida dos imigrantes estrangeiros que chegaram à Serra Gaúcha e o espírito empreendedor do brasileiro às modernas técnicas de produção de vinho e suco de uva

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postado em 14/10/2015 18:31 / atualizado em 14/10/2015 16:06

Bernardo Bittar /

O vinho tem conquistado cada vez mais pontos no paladar nacional, e os empresários do setor não perderam tempo em criar formas de divulgar — e vender, claro — os seus produtos. Além de investirem nas mais modernas técnicas de plantio, colheita e produção da bebida, oferecem diversas atividades para atrair os consumidores. E não precisa ser conhecedor de vinhos para aproveitar.Vale a pena conhecer as vinícolas gaúchas e curtir uma aventura diferente — que não se resume apenas na degustação do produto — sem gastar em dólar.


Entre janeiro e março, os meses de colheita, a programação fica ainda mais intensa. As uvas são colhidas e masseradas durante esse período, e, além de se transformarem em vinho e suco, dão vida a eventos sazonais (e deliciosos!), como a Fenavinho e a Vindima, em Bento Gonçalves; e a Festa de Uva, em Caxias. Quando os galhos das parreiras estão cheios, toda ajuda é bem-vinda. Quem quiser pode aproveitar a oportunidade e participar do processo. E, claro, experimentar um bocado de cada variedade.


Contudo, visitar as vinícolas entre junho e agosto é praticamente um convite às refeições mais longas, diante de uma bela mesa italiana. Além disso, a neblina e o frio conferem certo charme e romantismo às rotas. Durante épocas mais amenas, é possível praticar esportes e fazer trilhas. Existe uma cachoeira, propriedade de família Geisse, dos espumantes, que fica disponível para visitação mediante reserva. No fim de setembro, a Avaliação Nacional de Vinhos, realizada pela Associação Brasileira de Enologia, encerra o calendário de atividades “must go”.

 

Vinícolas

Bernardo Bittar/CB/D.A Press
 

Aurora — Bento Gonçalves
Empresa criada em 1931 por 16 famílias de colonos, a Aurora produz, hoje, 50 milhões de litros de vinhos e sucos por ano. Trata-se de maior cooperativa do segmento no país, atualmente com mais de 1,1 mil famílias no comando. As duas bebidas alcoólicas mais vendidas deles são o Sangue de Boi e o Country Wine, ambos de uma linha mais básica. Enquanto isso, o requintado suco Casa de Bento, totalmente natural e sem conservantes, reposiciona a vinícola no mercado nacional. “Falamos de produtos muito diferentes, pois cada um deles tem o seu público”, disse o enólogo André Peres Jr.


Também fazem parte do pacote premium o moscatel rosê e o branco colheita tardia feito com as uvas semillon e malvasia. “Esse tipo de rótulo faz com que a nossa conta de matéria-prima seja bastante superior à quantidade de vinhos produzidos. Para se ter uma ideia, usamos 65 milhões de quilos de uvas para fazer 50 milhões de litros de bebidas por ano”, completou Peres. A empresa é conveniada com agências de turismo locais e, uma vez por semana, recebe visitas gratuitas e oferece degustações, também sem taxa, aos turistas. Contudo, é necessário agendar uma data e um horário para ser recebido.


Além de contar com um café recém-inaugurado, a sede da Aurora, localizada na zona central de Bento Gonçalves, tem uma adega recheada de itens raros, como safras antigas, e também conta com uma sala de degustações para grupos de pequeno e médio portes. Nessa atividade, o aporte financeiro e as reservas são necessários. Quem gostar de exclusividade pode negociar e tentar fazer uma visita ao vinhedo deles no município de Pinto Bandeira. A paisagem é incrível e é possível almoçar ou jantar no local.

Bernardo Bittar/CB/D.A Press

Miolo — Bento Gonçalves
Desde que renovou um dos vinhedos em frente à sede da empresa, em Bento Gonçalves, para produzir o tinto Miolo 43, safra 2008, batizado em alusão ao número do lote onde as uvas merlot e cabernet sauvignon foram produzidas, a Miolo conquistou uma nova fatia de mercado. Passou a ser vista como uma empresa de vinhos finos. A mudança é resultado dos estudos do herdeiro de marca, Adriano Miolo, enólogo estudioso e apaixonado pela bebida que a família produz. “Os vinhos brasileiros não eram reconhecidos. Não falo apenas de Miolo, mas de todas as outras. É uma recente conquista”, declarou.


Há 25 anos, a grife funciona comercialmente. A primeira safra rendeu apenas 8 mil unidades, um número bem distante das 10 milhões de garrafas fabricadas hoje pelo Grupo Miolo, detentor das empresas Almaden e Terranova. Uma curiosidade é que o locutor esportivo Galvão Bueno faz parte dos sócios do conglomerado. “Ele é apaixonado por vinhos”, lembrou Adriano.
Apenas no ano passado, a vinícola Miolo recebeu cerca de 200 mil pessoas. O número foi 10% maior que os registrados em 2014. A estrutura conta com uma sala de degustação, visitas aos parreirais e às caves e cursos de degustação. “Infelizmente, nessas atividades, os turistas são expostos às condições de São Pedro”, brincou o empresário. Apenas grupos com mais de 15 pessoas precisam fazer agendamento prévio.


Quem tiver tempo sobrando pode tentar marcar um wine garden, uma espécie de piquenique a céu aberto com comes e bebes e espaço para crianças. No menu, existem sanduíches típicos com muito queijo e presunto cru, doces e belisquetes inspirados na Itália. Muitos ingredientes que vão para a mesa são produzidos em uma horta orgânica cultivada especialmente para isso.

Bernardo Bittar/CB/D.A Press

Salton — Bento Gonçalves
Sem dúvida, a vinícola Salton é o mais teatral dos endereços de região. A todo momento, ocorre uma espécie de “tributo” à família e à história de empresa. Seja nos afrescos pintados à mão, seja nos produtos criados e batizados em homenagem a alguém que fez parte do empreendimento. Ao mesmo tempo em que enaltecem o passado, os chefes de empresa pensam no futuro. Por isso, modernizaram a sede, criaram produtos mais requintados e expandiram as vendas para o exterior. “Não adianta colocar chapéu e avental de colono. Precisamos investir em tecnologia e vender para outros lugares do mundo”, argumentou o presidente da empresa Daniel Salton.


Capaz de produzir entre 8 e 12 mil garrafas por hora, o prédio colonial abriga um passeio ainda pouco explorado. Trata-se de uma assombrosa caverna, decorada com anjos e luzes exóticas, cujo fim é uma sala de jantar cercada de rótulos especiais. Nesse lugar, é possível beliscar um ou dois pratos (sem cheiro e sem gordura, para não interferir nas bebidas armazenadas)

 

com a família ou os amigos. Via de regra, o espaço comporta 12 pessoas sentadas, e, possivelmente, será um hit nos próximos anos. Aliás, outra novidade ainda em fase de implantação é um tipo de laboratório onde os visitantes poderão criar seus próprios rótulos a partir de misturas de vinhos de base. Tudo com a ajuda de um enólogo, claro.


Além dos espumantes, a empresa oferece uma poderosa carta de vinhos. Entre os destaques, o premiado Talento, um assemblage (mistura) de cabernet sauvignon, merlot e tannat. Ele e foi servido aos papas João Paulo Segundo, em sua última visita ao Brasil, em 1997; e Francisco, na passagem do pontífice pelo solo brasileiro, em 2014. A réplica das taças onde os clérigos experimentaram a bebida fica exposta em uma prateleira na parte subterrânea de empresa.

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Dal Pizzol — Bento Gonçalves
Para a surpresa, a butique não é apenas mais um empreendimento familiar cuja determinação foi o ponto de partida para o progresso. A Dal Pizzol vai além. Construiu um pequeno museu para contar a história do vinho no mundo, produz almoços e jantares típicos para visitantes — ou gente especializada — e raramente muda detalhes dos rótulos que produz há décadas. Dentro de antigos fornos de uma olaria (empresa de produção de tijolos), ficam guardados os tesouros de grife. É possível visitar e, durante alguns meses do ano, almoçar ao lado dela, sob perfumadas parreiras.


O vinhedo do mundo é um capítulo à parte. Abriga 395 espécies de uvas em um mesmo terreno (o que torna o espaço uma das maiores coleções do mundo). Há sabores do Afeganistão, do Egito e a última aquisição, uma videira de 600 anos vinda de Eslovênia, está prestes a chegar. As variedades servem para produzir, todo ano, o Vinum Mundi, um assemblage com cerca de 160 variedades de uva, entre brancas, tintas e rosadas. “A emoção predispõe que as pessoas aceitem o que lhes é apresentado. Por isso, emocionar é o nosso grande desafio”, declarou Rinaldo Dal Pizzol.


Ao longo desses 41 anos de existência, curiosamente, a empresa elabora vinhos que potencializam as características de cada variedade diretamente na garrafa. Ou seja, o envelhecimento é feito sem usar barris de carvalho. Apenas um rótulo, produzido para uma ocasião especial, fugiu à regra. “Esse tem sido nosso diferencial”, acrescentou a enóloga e gerente comercial de Dal Pizzol Simara Troian.

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Peterlongo — Garibaldi

A centenária empresa viveu dias de glória. Projeto de um italiano radicado no Brasil, foi produtora dos champanhes servidos pela Presidência da República, durante o mandato de Getúlio Vargas, serviu a rainha Elizabeth II, tornou-se a bebida oficial usada para as inaugurações de navios nos Estados Unidos. Trata-se de única empresa no Brasil que tem registro e autorização judicial para declarar-se uma produtora de champanhe.


Com o passar dos anos, no entanto, os rótulos pintados a ouro e as receitas cuidadosas foram substituídos por soluções mais rápidas e mais baratas. Foi a primeira vez que os itens produzidos em Garibaldi se tornaram populares. Novamente, a empresa resolveu guinar. Após a entrada de Luiz Carlos Sella, diretor da Peterlongo, a prioridade voltou a ser o investimento em produtos finos. “É pra isso que essa empresa foi criada. Desejo e trabalho para alcançar essa meta”, disse.


Na parte subterrânea do prédio, erguido em 1910, onde, até hoje, são produzidos vinhos e champanhes usando o método champenoise, o mesmo utilizado pelo monge francês Don Pèrignon, fica uma espécie de museu. No castelo, sede de Peterlongo, existe uma cozinha e uma sala de jantar, para pacotes fechados, uma loja de vinhos e itens feitos a partir de bebida (como cremes e shampoo) e, em breve, haverá um hotel.


O espaço deverá ser totalmente ambientado com os móveis da família Peterlongo, que administrou o negócio até 2002. Atualmente, embora o grupo seja conduzido por alguns investidores, o nome e a tradição do clã foram preservados e mantém-se como uma das principais forças do negócio.

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Geisse — Pinto Bandeira
Ideia de um espanhol que se mudou para o Brasil no intuito de fortalecer, como diretor, a marca Chandon, a Cave Geisse é resultado de muita espera — para comprar o terreno certo, para desenvolver as melhores receitas e, claro, para a perfeita evolução delas. Nenhuma das 230 mil garrafas produzidas por ano sai de adega antes da hora. Ainda que a produção seja três vezes menor que a demanda, a família Geisse pretende continuar pequena, mas poderosa.


Segundo Daniel Geisse, filho do fundador da marca, “as terras do Sul têm vocação para produzir bons vinhos. Com a técnica e o tempo necessário, não há por que não haver produtos de qualidade no mercado”, declarou o diretor. Ao saírem de Serra, as garrafas seguem principalmente para São Paulo, onde aparecem no cardápio de restaurantes estrelados como o Dom, de Alex Atala; e o restô de Roberta Sudbrack, cujo nome é um homônimo. Nesses endereços, as unidades podem custar até R$ 350, o triplo do preço praticado na produtora.


“Cave Geisse não está na boca de todo mundo”, informou Daniel. Quem conseguir uma garrafa e tiver um bom motivo para abri-la terá uma agradável surpresa com a reação de bebida em boca. Os gases delicados, presentes no momento em que você der um gole, logo desaparecem. Tudo de propósito. Tudo incrível.

Bernardo Bittar/CB/D.A Press

Don Giovanni — Pinto Bandeira
A Don Giovanni criou um complexo enogastronômico no intuito de abocanhar gourmets e enólogos em uma tacada só. É a única vinícola entre as visitadas pela reportagem do Correio onde é possível encontrar hospedagem e alimentação com facilidade. Talvez, diria, até com certo improviso. “A ideia é trazer conforto ao nosso visitante, pois os espumantes e os vinhos produzidos aqui merecem ser degustados com calma”, garantiu Daniel Panizzi. O visitante que bebeu demais, por exemplo, corre o sério risco de conseguir um quarto em cima da hora. Tem coisa melhor?


Não é preciso, necessariamente, fazer check-in para aproveitar a comida. Além disso, o grupo de enólogos de empresa pode harmonizar todos os pratos e as bebidas. Quase 80% dos produtos cultivados no local servem para produzir espumantes. Mas, entre os charmes do lugar, está a pequena produção de alcachofras, matéria-prima para o risoto recordista de vendas da cantina Don Giovanni.


Em ocasiões especiais, especialistas podem acompanhar o desenvolvimento de algum produto, experimentando o mesmo item produzido em safras diferentes. “Mas isso não acontece a todo momento”, completou Panizzi. Itens relacionados ao vinho ainda estão presentes em uma loja localizada no térreo. Em busca de sustentabilidade, os irmãos que controlam os vinhedos fazem uso de tecnologia TPC, para reduzir drasticamente o uso de agrotóxicos. 

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