Portões abertos para a fé: conheça os antigos templos hindus de Angkor - Turismo - Correio Braziliense

CAMBOJA

Portões abertos para a fé: conheça os antigos templos hindus de Angkor

Com 400km², o Parque Arqueológico é considerado Patrimônio da Humanidade. Não deixe de visitar os templos de Angkor Thom e o Baphuon, do século 11

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postado em 29/10/2015 15:57 / atualizado em 29/10/2015 15:58

Erik de Castro/Reuters - 23/12/12

Entre densas florestas e espetaculares monumentos que expressam, em suas mais importantes cidades, a fusão do poder político e religioso, está o Parque Arqueológico de Angkor, no Camboja. Declarado Patrimônio da Humanidade, tem cerca de 400 quilômetros quadrados, ao norte da Província de Siam Reap, onde hinduísmo e budismo se entrelaçam no auge e na decadência do Império Khmer.


No período compreendido entre os séculos 9 e 15, essa civilização — que para o Ocidente até o século 19 estaria “perdida” — legou ao mundo um dos mais impressionantes e importantes sítios arqueológicos. No esplendor de Angkor Wat — a cidade que é um templo —, está mais uma das maravilhas do mundo selecionada pelo blog 1.001 Lugares pra se viver. Não menos instigante e de misteriosa beleza está Angkor Thom — Grande Capital —, o último núcleo político e religioso do império, um dia instalado em Angkor. O legado da arquitetura do Império Khmer é também encontrado em templos da Tailândia.
Angkor Thom impressiona os visitantes pelas mais de 200 representações talhadas nas pedras e que podem ser vistas em toda a cidade, que tem cinco portões de acesso.“A cidade é cercada por um fosso que se cruza por pontes, algumas de ouro, e dentro dos portões há palácios e templos com torres douradas e ricamente decorados.” Esse é um dos poucos relatos escritos, retirado dos diários do diplomata chinês Zhou Daguan, que, em 1296, visitou Angkor Thom. Ficou impressionado com o que viu.


Ela foi a nova capital, construída após a retomada de Angkor de invasores Cham, em 1181, durante o reinado de Jayavarman VII (1181-1219/20). Foi projetada na figura perfeita de um quadrado, ampliando edificações como o Phimeanakas, o palácio-templo real erguido no século 10 e Baphuon, templo hindu do século 11. Circundada por um fosso e por uma muralha de 12 quilômetros de extensão.


Prepare-se, porque você também vai se impressionar. Antes de cruzar o portal Sul, que se abre sobre a muralha defensiva de 12 quilômetros no entorno da cidade, você percorrerá uma monumental ponte por onde se perfilam, em cada um de seus lados, 54 devas (deusas guardiãs) e 54 asuras (deuses demoníacos). Enquanto as primeiras puxam a cabeça da gigantesca serpente, na direção oposta os asuras fazem força com o rabo da serpente. Bem à frente dessa representação do conto da mitologia hindu sobre o batimento do oceano de leite está o mais bem preservado dos cinco portões de acesso. Ele se eleva exibindo os três enigmáticos e primeiros rostos gigantes que você verá pela cidade. O maior, na torre central, mira a entrada e a saída (norte e sul). Os outros dois olham para o nascente e o poente. Esse portão monumental é “suportado” pela representação de elefantes e guardado por figuras em posição de prece.


O portão da Vitória se inclina diretamente para a área do Palácio Real. Sempre coroados por enigmáticos rostos gigantes entalhados nas pedras, os outros quatro portões foram instalados em direção aos pontos cardeais, de modo que os seus eixos se interceptam ao centro da cidade, onde foi implantada outra joia da arquitetura Khmer: o templo Bayon. À semelhança de Angkor Wat, o templo Bayon é a edificação mais extraordinária de Angkor Thom. Tem a forma geométrica de uma pirâmide de base quadrada. Com a representação de uma montanha, evoca o formato sagrado do Monte Meru, que, tanto para budistas quanto hinduístas, simboliza o centro do universo. Tem 54 torres que exibem mais de 200 monumentais rostos esculpidos em pedra.


Há controvérsias sobre o que esses rostos gigantes, que se tornaram a principal marca de Angkor Thom, representam. Alguns estudiosos acreditam serem os rostos do templo Bayon a personificação do bodisatva Avalokitesvara — que em sânscrito  significa “aquele que enxerga os clamores do mundo”. Nesse sentido, representa a compaixão suprema de todos os budas. Mas sob a forma de governo teocrática em vigor no Império Khmer, contudo, em que o sagrado e o poder político se fundiam na figura do governante, o santuário central do templo traz a imagem de Jayavarman VII — o “rei-deus” que geria o estado em nome de Buda.

 

Evolução
Para o budismo, um bodisatva é a criatura que está pronta para alcançar o estágio de evolução espiritual de Buda, mas faz voto de só alcançá-lo plenamente quando nenhum outro ser ainda estiver no ciclo das encarnações neste mundo.

 

Solos sagrados

 

Tang Chhin Sothy/AFP - 17/6/11

Bayon foi o primeiro templo dedicado ao budismo. O acesso à área sagrada interna se dá por oito torres, em cruz, interligadas por galerias que narram, em alto-relevo, cenas da vida diária de Angkor do século 12: rinhas de galo, comerciantes no mercado, festas e preparo de alimentos. Há também registros de batalhas principalmente contra o povo Cham, do Vietnã do Sul — um dos principais adversários do Império Khmer; além de imagens de dançarinas devadas, guardiães do templo.


Embora Jayavarman VII tenha sido o primeiro governante a introduzir o budismo Mahayana como religião oficial do Império Khmer, em substituição ao hinduísmo, o templo homenageia várias divindades da mitologia hindu, como Vishnu, responsável pela manutenção do universo e que, ao lado de Shiva e Brama, forma a trindade sagrada. O crescimento do budismo no seio do Império Khmer e as clivagens que se acentuaram nos séculos seguintes entre adeptos do hinduísmo e budistas minaram as bases de sustentação dessa civilização, por muito tempo considerada “perdida” pelo Ocidente. O auge do Khmer alcançado sob Jayavarman VII foi em sucessivas invasões nos séculos seguintes, legando esse tempo de glória Khmer para a história, contado, sobretudo por seus inúmeros templos, não apenas no Camboja, mas também em antigos territórios do império, como o do reino Sião, hoje Tailândia.


Baphuon (século 11) é um dos templos hindus mais importantes. Mantém o tradicional formato de montanha piramidal em referência ao Monte Meru, morada mítica dos deuses. Uma calçada elevada dá acesso ao templo, que tem quatro portões decorados com baixos-relevos de cenas de épicos hindus. Em seu interior, há um Buda Deitado, que provavelmente foi acrescentado ao templo mais tarde, no século 15.


Palácio-templo, o Phimeanakas (século 10) é consagrado ao hinduísmo e também conhecido como Palácio Celestial. Está associado à lenda de uma grande torre dourada que seria ocupada por uma serpente mágica de nove cabeças. Disfarçada de mulher, a cobra teria mantido relações com o rei. Como ele sobreviveu, a linhagem real não foi interrompida. O palácio é uma pirâmide de base retangular, com cinco entradas e as escadarias centrais, ladeadas por leões. Em cada canto da pirâmide, há figuras de elefantes.

 

Nasce o mundo

Batimento do oceano de leite
Na mitologia do batimento do oceano de leite, a grande serpente é enrolada na montanha central — o Monte Meru. Enquanto as deusas devas e os deuses do mal fazem do corpo do animal um cabo de guerra — para frente e para atrás —, o oceano se agitou numa espécie de ordenha que levou à formação da terra e do cosmos.

 

Tang Chhin Sothy/AFP -  4/7/11

A cidade é um templo

Angkor Wat
“A cidade que é um templo” é o maior monumento religioso do mundo e foi escolhido pelo blog 1.001 Lugares pra se viver (www.1001lugarespraseviver.com) como um dos mais espetaculares do mundo, expressão do apogeu da arquitetura Khmer.

Banteay Srei (Cidadela de mulheres)
Esse templo hindu da segunda metade do século 10 está a 27 quilômetros de Siem Reap e se diferencia do conjunto de Angkor pelo emprego de arenito rosado e por não ter sido edificado para a realeza, mas para sacerdotes. É protegido por três muros e pelo que restou de um fosso. No santuário central, há relicários dedicados ao deus hindu, Shiva, um dos três da trindade (é chamado o destruidor). Há, também, no templo, representações de Parvati, consorte de Shiva, do rei macaco Hanuman (o poderorso) e do divino pastor de cabras Krishna, além de Ravana, o rei demônio.

Angkor National Museum/Reprodução

Angkor National Museum
Museu arqueológico que oferece informações sobre a ascensão e a queda do Império Khmer, aspectos de sua cultura e religião.
A visita vale, se possível, antes do passeio aos templos distribuídos pelo Parque Arqueológico de Angkor.

Apsara show
Em vários hotéis de Siem Reap — e em alguns templos —, são realizados jantares com reserva antecipada em que há performances da tradicional dança Khmer. O estilo clássico data da era em que Angkor ocupou o centro político do Império Khmer. As bailarinas são treinadas desde crianças para desenvolverem a flexibilidade do corpo e das mãos, que devem ser capazes de se envergar.

 

Produção de Seda 

Os trabalhos em seda são excepcionais. Essa é uma tradição do Camboja. O comércio data do século 13. Influenciados pela Rota da Seda, os aldeões começaram a criar bichos da seda às margens dos rios Mekong e Bassac. Atualmente, a produção artesanal é recuperada pela cooperativa Angkor Artisans, que faz um trabalho social e sustentável, treinando pessoas nas técnicas, repetindo o mesmo modo de produção.

Com a atividade, geram o sustento de suas famílias.


Uma variedade de larvas da Bombyx mori (uma espécie de mariposa) é cultivada. Essas larvas se alimentam das folhas de amoreira durante três semanas. Depois elas tecem um casulo dourado. O fio de seda desses casulos é, então, lavado e depois tingido com produtos naturais. Desde vestuário até jogos de mesa, a produção das artesãs é diversa.

Goomba King/Divulgação

Fusão de sabores

Ainda pouco conhecida no mundo Ocidental, a maravilhosa gastronomia do Khmer é uma fusão das culinárias tailandesa, vietnamita e chinesa, mas também foi influenciada pela francesa, em decorrência da colonização (1863-1953). O arroz é o alimento principal. Mas os peixes e frutos do mar, as carnes bovina, suína e de frango, hortaliças e frutas são muito consumidos. Se há um lugar no mundo onde a arte de misturar especiarias está avançada, esse lugar é o Camboja.


Para formar o kroeung (foto), eles combinam com maestria ingredientes como cravo-da-índia, canela, gengibre, açafrão, noz-moscada, cardamomo com alho, cebolinha, erva cidreira, coentro, limão entre outros. Um dos pratos populares no jantar cambojano é o kuy teav, uma sopa de massa de arroz feita num caldo à base de carne de porco e vegetais, temperada com camarão seco e condimentos. É servida com camarão fresco cozido. Ainda muito usados nos molhos que acompanham pratos típicos são opra-hok, uma pasta de peixe fermentada e o kapi, uma pasta de camarão fermentada.

 

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