AVENTURA SOCIAL

Na rota dos antigos quilombos do Vale do Jequitinhonha, um povo acolhedor

Criatividade para driblar as dificuldades do dia a dia, vontade de vencer e persistência impulsionam moradores das comunidades sertanejas, que abrem suas casas aos visitantes

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postado em 28/11/2015 09:30 / atualizado em 27/11/2015 21:29

Elizabeth Colares

Elizabeth Colares/EM/D.A Press

É amor à primeira vista, mas para conhecer toda a riqueza que a região do semiárido mineiro oferece são necessários vários dias. O Vale do Jequitinhonha guarda uma grata surpresa ao visitante. Com patrimônio imaterial imensurável, que é passado de geração em geração, o povo, apesar de praticamente esquecido pelos governantes, recebe a todos de braços abertos, pronto para dar o melhor de si e mostrar que nem só de terra rachada vive o Vale. As comunidades quilombolas estão preparadas para abrigar o turista e mostrar o que sabem fazer de melhor: sorrir, cantar, cozinhar, tecer, criar, receber, contar causos e cativar.

O roteiro é diferente e inusitado. É preciso deixar o conforto do lar para se embrenhar sertão adentro, se hospedando em casas de nativos e convivendo com toda uma infraestrutura simples e até mesmo deficitária, quando se trata de estradas. Mas a ideia de conhecer uma cultura que acumulou riquezas imateriais e mantém a tradição herdada dos antepassados, especialmente na religiosidade, nos cânticos e na criatividade para driblar as dificuldades do dia a dia, atrai mais pessoas do que se imagina. É o que se chama de turismo social, pois tem a intenção de, principalmente, gerar renda para os moradores e, em contrapartida, oferecer ao turista um pouquinho do saber das comunidades.

A ideia é mostrar para todo o mundo a beleza e a diversidade do local, e que a cultura quilombola tem muito a acrescentar e a encantar. A começar pela gastronomia, que vai arrebatar de vez quem ainda tinha dúvida se que estaria indo para o lugar certo. Mas prepare-se para fazer uma dieta alimentar na volta, porque, com certeza, você vai precisar. É difícil resistir a tantas guloseimas fresquinhas, servidas em cada lugar onde se chega.

Quitandas de todo tipo e comidas típicas como a galinha caipira, quiabo, molho de mamão verde com carne de sol cozida, angu de fubá de produção própria, tropeiro com feijão-de-corda e infinitas variedades que estimulam a gula de qualquer mortal. Os doces, bolos e biscoitos são capítulo à parte, com destaque para o de polvilho escaldado e frito na hora. Tudo com receitas que passam de mães para filhas, por várias gerações.

Resistência
A forte manifestação religiosa, presente tanto nos cânticos quanto nas danças, é outro atrativo importante.  As congadas são um tesouro muito bem guardado pelos quilombos. É certo que essa manifestação esteve por um tempo meio esquecida, mas foi resgatada por pessoas que lutam para manter sua origem viva.

Alessandro Borges de Araújo, de 27 anos, resiste às pressões para sufocar a história. E se esforça para fazer valer a tradição em Berilo, cidade com cerca de 12 mil habitantes, distribuídos na sede e nas comunidades próximas. “A dança do congado aqui é resistência. Enquanto puder contribuir para mantê-la viva, o fare.” Representantes em cada comunidade nas regiões de Berilo, Chapada do Norte e Minas Novas lutam pela preservação de seus bens e por dias melhores. E o turismo vai ajudar um pouco nesse papel de desenvolvimento.

Para visitar a região, pode escolher qualquer época do ano, mas a melhor  é a partir de março, quando as chuvas, que começaram agora em novembro, terão passado e transformado a paisagem de vermelha (marcada pela poeira), para verde e colorida pelas flores. Quando os rios, que agora estão por um fio, voltam a brotar e a convidar para um mergulho. E, quem sabe, até as estradas  ofereçam melhor acesso às localidades, já que, atualmente, o percurso é coberto por cascalho, com vários pontos críticos (BR-367 – Berilo/Araçuaí).


“Chora bananeira/
bananeira chora/
chora bananeira/
adeus, eu vou embora.

Eu joguei água pra cima/
aparei com a caneca/
menininha bonitinha/
cinturinha de boneca”


(Versos cantados pelas fiandeiras e artesãs de Córrego do Rocha, em Chapada do Norte)

 

 

Cantigas aquecem a alma e o coração

Elizabeth Colares/EM/D.A Press

Entre os quilombos, uma maneira de contar a história e até mesmo de brincar com ela é por meio da música. Versos divertidos e reveladores transitam de um lado para o outro, numa resposta a alguma provocação. E, assim, como numa festa, ao realizar as tarefas do dia a dia, na lavação de roupa, tudo é envolvido pela cantiga.

Por sua vez, as fiandeiras e  as artesãs de Córrego do Rocha, em Chapada do Norte, entoam animados versos enquanto preparam o algodão para tecer inúmeras peças artesanais: “Chora bananeira/bananeira chora/chora bananeira/adeus, eu vou embora. Eu joguei água pra cima/aparei com a caneca/menininha bonitinha/cinturinha de boneca”. Mais adiante, na comunidade de Quilombo, a marujada reúne desde os mais antigos aos mais novinhos em torno da dança e da música. Flauta, violão e tambor não podem faltar.

Os mais religiosos certamente vão se emocionar com a oração cantada, que reúne homens, mulheres e crianças num canto de fé. Um dos momentos mais esperados e, ao mesmo tempo, surpreendente, é a entrada dos moradores da comunidade Catitu do Meio, com seus trajes típicos e organizados, na Igreja de Santa Luzia, cantando o terço em coro. Uma coisa é certa, o turista vai encontrar motivos de sobra para ver, aprender e se divertir com cada uma dessas modinhas.

Hospedagem
Integrantes de 10 comunidades quilombolas pertencentes a Berilo, Chapada do Norte e Minas Novas vêm sendo preparados há dois anos pela ONG Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (Cedefes) para receber o turista interessado em conhecer o modo de vida, as manifestações culturais, a comida e o artesanato. As cidades sedes têm boa estrutura de hospedagem e alimentação e servem como ponto de apoio para interessados em visitar cada um dos quilombos. Para dormir em algum deles, deve se informar sobre em quais se pode fazer isso. Vários já têm capacidade para acolher.

Zeca dos Santos Soares é um dos que tiveram treinamento para receber visitantes e conhece bem as riquezas do lugar. Morador de Santiago, ele se dedica à agricultura e à horta, plantando banana, marmelo, coco e batata, entre outros. “A terra aqui dá de tudo. A água está um pouco difícil, mas daqui a pouco começa a chover e melhora.” A mulher dele, Maria dos Anjos, coordena a escola local e é cozinheira, além de artesã. A casa está pronta para receber turistas para o café da tarde.

Em Berilo, as casas de Selma e de Eni estão preparadas para hospedagem; na Comunidade Roça Grande. Na Chapada do Norte, em Córrego do Rocha, há a casa da Cida; e casa de Dona Saninina, em Moça Santa (povoado de Caetés). Em Minas Novas, há as casas de Nete e de Lica em Macuco; do senhor Marciano e dona Beota em Quilombo; de Maria de Olímpio em Santiago; e de Maria de Lourdes, em São Pedro do Alagadiço. Muitos estão se preparando para receber os visitantes e apostam no turismo como geração de renda e melhoria da qualidade de vida.

* A jornalista viajou a convite da ONG Cedefes e do Oi Futuro

 

Serviço

Como ir

De carro

Belo Horizonte/Berilo (560 quilômetros)
Use as BRs 135 e 367

De ônibus

Há dois carros que saem todas as noites da Rodoviária de Belo Horizonte: um vai até Minas Novas, passando por Diamantina (empresa Pássaro Verde); e outro vai até Araçuaí, passando por Guanhães (empresa Gontijo)

Onde ficar
Em Berilo

Hotel Pousada Vale de Minas
(33) 3737-1622

Em Minas Novas

Palace Hotel JK – (33) 3764-1107

Nessas cidades, haverá receptivo familiar para almoço e café da tarde em todas as comunidades. A previsão é que sejam grupos de até 12 pessoas (uma van), mas sempre agendando com antecedência. Para quem for de carro próprio, o ideal é contratar um monitor de turismo local.

Central de Reservas e Informações da rota dos Quilombos:
e-mail: turismoquilombolamg@gmail.com

 

 

Personagem da notícia

Elizabeth Colares/EM/D.A Press

Sanete nasceu e sempre viveu na comunidade quilombola de Mocó dos Pretos, no município de Berilo, no Médio Jequitinhonha. E conta, com orgulho, que aprendeu com a mãe várias manifestações e que faz questão de repassar para os 11 filhos (vivos, como gosta de ressaltar, ela teve 15) a tradição da família. Ela lamenta pelas várias famílias que acabam indo embora, por não terem condições de sobreviver quando chega a seca e o trabalho fica escasso. E lembra que, antes, eles iam, trabalhavam nas colheitas de cana e de café, por exemplo, e voltavam. “Hoje, eles estão levando suas famílias e não voltam mais.” Mas Sanete diz acreditar em dias melhores e que sua luta não será em vão. “Já está melhorando. As comunidades estão sendo reconhecidas pelo governo, graças a um trabalho intenso e contínuo.”

 

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