SEMANA SANTA

Ouro Preto, cidade onde os cortejos da Paixão ocorrem há três séculos

Ruas de pedras cercadas por antigos casarões formam o cenário de uma das mais religiosas cidades brasileiras. Flores formam tapetes que mostram os caminhos da fé por onde seguem as procissões, que anunciam a alegria da Páscoa

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Juarez Rodrigues/EM

Rituais, liturgias e cânticos não são os únicos elementos de uma celebração religiosa. No mundo inteiro, eventos como esse costumam ter procissões de peso. São cortejos solenes em que padres e fiéis desfilam carregando imagens de santos. O costume começou com os primeiros cristãos, na Roma Antiga. Eles se apropriaram dos cortejos de vitória ensejados pelo Exército e adicionaram, à sua maneira, demonstrações de fé.


Além de atravessarem os séculos, as procissões navegaram pelo oceano e chegaram ao Brasil com as primeiras bandeiras portuguesas. Em Ouro Preto, por exemplo, a inauguração da Matriz do Pilar, em 1733, foi acompanhada de uma procissão grandiosa, descrita em Triunfo eucarístico, do cronista Simão Ferreira Machado, lançado em Lisboa um ano depois.


A fama em torno das longas caminhadas da Eldorado mineira não existe à toa. Elas são cheias de encantos. Não por acaso, serviram de inspiração para poemas dos autores como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles. Bandas de música, com suas marchas e dobrados, ao lado de coros e convidados especiais, apresentam-se durante os atos litúrgicos e enchem as ladeiras íngremes de música.

Tapetes

Juarez Rodrigues/EM

Na cidade onde arte e fé se confundem, a paixão de Cristo é rememorada há mais de três séculos. Todas as paróquias, inclusive nos distritos, celebram a semana santa. A malhação do Judas virou tradição e atrai, principalmente, as crianças. A barulhenta festa acontece na Capela do Senhor do Bonfim, na tarde de domingo.


Antes disso, na noite de sábado, não se surpreenda ao ver as ruas cobertas por tapetes coloridos, feitos de serragem. Moradores e turistas se empenham na tarefa, desde a Matriz do Pilar à Matriz de Antônio Dias, passando pelo centro. A tarefa fica menos árdua graças aos grupos de seresta, que se apresentam para quem confecciona o tapete e desfilam ao longo dele, anunciando a alegria da Páscoa por meio da música.

 

Rivalidade
Se hoje o evento é organizado graças à colaboração entre as paróquias, há alguns séculos, o cenário era bem diferente. Quando Ouro Preto era metrópole do garimpo, a semana santa era o principal evento do ano. Logo, a rivalidade entre os garimpeiros se refletia, também, na condução dos eventos da cidade. Os desbravadores do sertão, vindos de São Paulo e responsáveis por descobrir as minas, ficavam na paróquia de Antônio Dias. Os que saíam de Portugal (donos do território e reinóis) reuniam-se na freguesia do Pilar.

Fernando Helbert/PMPO

 

Para evitar confusões entre os jacubas (moradores de Antônio Dias e comedores de farinha) e os mocotós (habitantes do Pilar, acostumados com fartura de carne), as paróquias celebravam a semana santa alternadamente: a cada ano, um dos grupos assumia direção dos festejos.

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