FESTAS JUNINAS

Quadrilhas apresentam anarriês à sua moda em cada canto do país

A dança surgiu lá na França e foi trazida para o Brasil no século 19. Caiu no gosto popular e, ainda hoje, mesmo com todas as programações modernas, mantém a tradição. Mas cada região monta as quadrilhas à sua maneira

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postado em 27/05/2016 10:00 / atualizado em 25/05/2016 15:27

Prefeitura de Caruaru/Divulgação

São João, são João, acende a fogueira do meu coração.” É um versinho da música Sonho de Papel, que consta do repertório de várias festas juninas Brasil afora. Acompanhada pelo som da zabumba, do triângulo e da sanfona, a composição de Alberto Ribeiro pode até se repetir nos arraiás, mas cada região do país homenageia Santo Antônio, São João e São Pedro à sua maneira.

 

Fogueiras, mastros, quadrilhas, decoração com bandeirinhas e música — embalada pelo ritmo do forró — compõem o quadro de uma autêntica festa junina, mas há diferenças. O modelo tradicional, herdeiro do Nordeste, recebe boas doses de tempero local — referências folclóricas, inclusive.

 

Nas quadrilhas, a regionalização fica clara. Também chamadas de matulas, começaram como danças populares na França. “Era uma dança camponesa, a que as elites deram um verniz de sofisticação”, explica o especialista em história da Universidade de Brasília Jaime de Almeida. Com o passar do tempo, o ritmo tomou os salões da Europa e se espalhou pelo mundo. “Há referências até no faroeste americano”, diz.

 

Na segunda metade do século 19, o costume chegou ao Brasil com as elites imperiais. Não demorou muito e tomou o caminho da roça. Caiu no gosto popular. Alguns resquícios dessa “circulação cultural”, conta Almeida, permaneceram. O “anarriê”, em matutês, é o derrière, em francês. O mesmo vale para o “balancê”, versão aportuguesada do balancer.

 

Os personagens (noivos, pai da noiva, padre, sacristão, juiz e delegado) são outra adaptação brasileira. Eles encenam o casamento matuto, cuja comemoração é a quadrilha. A história é representada com bastante humor e os participantes capricham no sotaque caipira. Em alguns estados, outras danças movimentam o arraial. Veja quais:

 

Embalo nordestino

Prefeitura de Campina Grande/Divulgação

Na Região Nordeste, o são-joão é celebrado em sítios, paróquias, nos arraiais e nos espaços públicos das cidades. Duas delas se destacam. Em Caruaru (PE), a festa começa em 4 de junho. Dezenas de carros alegóricos desfilam pelas ruas. Também há carroças ornamentadas, cortejo de bacamarteiros (grupo que carrega armas de fogo antigas), encenações de casamentos matutos, performances de bandas de pífano e de grupos folclóricos. Em Campina Grande, milhares de pessoas se divertem no Forródromo. O local recebe apresentações do tradicional forró pé de serra, de cantores e até desfiles de jegues. O tom das quadrilhas é tradicional, dado pelos casamentos matutos.

 

Entre caipiras

Gerardo Lazzari/Wikimedia Commons

Originadas na roça, as festas de hoje também ocupam escolas e clubes nos centros urbanos. As quadrilhas são tradicionais, exceto no estado de São Paulo, onde há rodeios e festas de peão boiadeiro. Em outros estados, a comemoração é tradicional e os trajes imitam o caipira típico, com chapéu de palha, camisa xadrez e calça remendada. As mulheres usam vestidos coloridos e volumosos.


Tradição sulista

TV Tradição/Reprodução

As festas do Sul proporcionam um tour pela cultura regional. Alguns participantes usam trajes caipiras, outros investem em roupas tradicionais gaúchas. Os homens usam trajes de peão; as mulheres, roupas de prenda (vestidos volumosos). Em Santa Catarina e no Paraná, há apresentações de quadrilhas, com o tradicional casamento na roça, e grandes fogueiras. A dança das fitas, ao redor de um mastro, faz sucesso na região.

 

Espetáculo do Norte

Élcio Farias/Amazonas Notícias

A criação de bovinos, introduzida por Portugal nas cidades de Belém (PA), Parintins (AM) e Manaus (AM) resultou no boi-bumbá, também conhecido como bumba meu boi, dançado em homenagem aos santos em junho e outras datas do ano. Os grupos mais famosos disputam o título de campeão no Bumbódromo de Parintins, entre 28 e 30 de junho. A história encenada durante as apresentações é sobre um boi de estimação que perde a língua por desejo de uma mulher grávida, mas precisa voltar à vida para agradar a seu dono. Um pajé faz o animal voltar a viver, para a alegria do elenco. Todos cantam e dançam ao redor de um boi cenográfico, ornado com flores e fitas coloridas, e conduzido pelo tripa, que dança embaixo do animal.

 

Influências da fronteira

Mayke Toscano/Gcom/MT

Países vizinhos, como o Paraguai, contribuem com elementos culturais nas festas juninas da região. A polca paraguaia é dança famosa em cidades da fronteira. Em Mato Grosso, o Festival de Quadrilha do Araguaia acontece há 15 anos. A competição é uma das mais esperadas na cidade. Os trajes são bem elaborados e os grupos capricham na sincronia. No estado de Goiás, a música sertaneja embala os participantes. 

 

» Baixa temporada

O Ministério do Turismo (MTur) pretende fazer do são-joão um produto turístico nacional e agitar a baixa temporada, que não tem um fluxo de turistas tão expressivo quanto o verão. A meta é atrair estrangeiros e estimular brasileiros a participar da festa nos meses de junho e julho. “Queremos expandir a imagem do Brasil para além do carnaval e reduzir a sazonalidade do turismo”, indica a coordenadora de Posicionamento de Produtos do MTur, Fabiana Oliveira. Valorizar a cultura nacional é um dos objetivos. “A ideia do são-joão é mais forte no Nordeste, talvez por causa do sertão. A festa tem caráter religioso, mas também faz referência à colheita”, sugere Oliveira. No Norte do país, o boi-bumbá e o folclore de maneira geral são os grandes homenageados. No Sul, as festas e trajes tradicionais dos gaúchos são os pontos marcantes, afirma a coordenadora.

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