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NOS TRILHOS

Conheça o Expresso do Oriente, a locomotiva mais famosa de todos os tempos

Há 40 anos a mítica linha de trem fez a última viagem no roteiro chique entre Paris e Istambul. Ele marcou o mundo com sua trajetória de elegância e inspirou enredos de filmes e livros

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postado em 19/05/2017 10:00 / atualizado em 18/05/2017 17:24

Captured Entropy/Flickr

Quem nunca ouvir falar sobre o Expresso do Oriente? A locomotiva a vapor que já foi cenário de filmes, ambiente de livros e levou muita gente ilustre nos seus vagões fez a sua última viagem há 40 anos, a serem completados no próximo sábado, dia 20. Símbolo de sofisticação no transporte ferroviário em 1883, quando fez a primeira viagem na rota Paris-Istambul, hoje vive na memória dos apaixonados por trens e na história das grandes viagens dos séculos passados.
 
Criada para atender à alta classe social, a locomotiva transportou reis como Leopoldo, da Bélgica, e Eduardo VIII da Inglaterra, o príncipe Aga Khan, o papa Pio XII, a espiã Mata Hari e outros grandes políticos, músicos e celebridades de todo o mundo. No cinema, os vagões do Expresso do Oriente viveram as aventuras do mais famoso detetive do mundo, James Bond, o 007. No filme Moscou contra 007, de 1963, o ator Sean Connery luta contra os inimigos da coroa britânica. Na literatura, a escritora e rainha dos romances policiais Agatha Christie embalou mais uma história de suspense no trajeto do trem mais conhecido do mundo; Assassinato no Expresso do Oriente.
 
Fredtour/Reprodução
Idealizado pelo empresário belga Georges Nagelmackers, o lendário Orient-Express tinha como propósito percorrer os quase três mil quilômetros de distância numa média de 75 horas. Todo esse tempo passado dentro do trem deveria ser de muito glamour. Para que isso ocorresse, os vagões foram inspirados nos luxuosos apartamentos parisienses. Tanta riqueza a bordo fez com que o valor da passagem fosse extremamente elevado. Se compararmos aos dias atuais, um tíquete custaria cerca de 20 mil euros, ou seja, 60 mil reais por pessoa. Os viajantes, portanto, eram selecionados entre as classes sociais mais altas.
 
» Ponto de partida rumo ao sucesso
Editoria de Arte/CB/D.A Press
Desde sua primeira viagem até a última, a rota feita pela locomotiva mudou algumas vezes, seja por questões políticas, seja por logística. Demorou quase sete anos para que a rota se firmasse no eixo Paris-Istambul. No começo não havia uma ligação ferroviária direta entre as duas cidades devido a questões naturais, como por exemplo o rio Danúbio e o Mar Morto, que impediam a livre circulação do trem.
 
Em 1883, ano da inauguração do Expresso do Oriente, da estação Gare del’Este, em Paris, só partiam trens duas vezes por semana para a cidade de Giurgiu, na Romênia. A rota contava com a visita em Estrasburgo, Munique, Viena, Budapeste e Bucareste. Chegando ao destino, Giurgiu, todos os passageiros eram obrigados a desembarcar e partir de barco pelo rio Danúbio, pois na época não havia uma ponte que permitisse que o Expresso Oriente chegasse a Ruse, Bulgária, lugar onde deveriam tomar outro trem que os levaria até Varna, cidade onde pegavam um ferryboat para finalmente chegar a Istambul.
 
O sucesso era tamanho que houve a necessidade de aumentar as rotas e incluir novas cidades no percurso até Istambul. Em 1885, depois de dois anos de circulação, o trem, que antes partia apenas duas vezes por semana, passou a sair de Paris todos os dias. O trecho Paris-Giurgiu foi mantido duas vezes por semana, e criou-se Paris-Viena que tinha saídas diariamente, além do trecho Viena-Ni? ( na Iugoslávia, atual Sérvia). A rota que desembarcava em Ni? obrigava os passageiros a pegarem uma carruagem para cruzar a fronteira da Bulgária, que ainda não tinha ferrovias finalizadas, para por fim chegarem em Istambul.
 
Apenas em 1889 a rota ferroviária foi completada até Istambul. Já não era preciso que os passageiros fizessem baldeações, em barcos ou carruagens, para chegar no destino. Depois de dois anos de serviço consolidado, em 1891 o trem foi oficialmente batizado como Orient- Express (Expresso do Oriente).
 
» Tempos de glória
Andrei 105/Flickr
Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1914, a circulação do trem precisou ser interrompida devido ao caos instaurado na Europa. Só quatro anos mais tarde, o serviço foi retomado, em 1918, quando o conflito foi encerrado. O documento que oficializou o fim da guerra, Armistício de Compiègne, foi assinado em um dos vagões do Expresso do Oriente, fato que aumentou a popularidade da locomotiva e marcou a sua existência na história.

O trem não conseguiu escapar do envolvimento na política mundial. A rivalidade entre a França e a Alemanha resultou na construção de um túnel que ligava a Suíça e a Itália, chegava até Istambul e evitava passar na Alemanha. A nova rota ganhou mais uma locomotiva, batizada de Simplon Orient Express. Todo o luxo e conforto do original foram mantidos, obedecendo ao padrão de excelência da companhia.

Com a expansão dos serviços, outra rota foi criada. Dessa vez, os trens partiam de Zurique para Budapeste, e a locomotiva foi batizada de Arlberg Orient Express. Com tanto sucesso e tantas linhas cruzando toda a Europa, o ano de 1930 foi o apogeu para a companhia de Georges Nagelmackers. A empresa contava com três serviços fixos — Expresso do Oriente, Simplon Orient Express e Alberg Orient Express — e com milhares de fãs, de todo mundo, que desejavam viver essa experiência.

A bordo
Por todo lado muito ouro, madeira e veludo. A composição principal do Expresso do Oriente tinha cabines com uma ou duas camas e um lavabo, não havia chuveiros. Durante o dia, as camas se transformavam em um sofá e assim se formava uma sala de estar acarpetada, com mesa de centro e diversos elementos decorativos para proporcionar uma viagem confortável ao passageiro.
Eon60/Flickr
Os espaços comuns, como refeitórios, eram grandes salas luxuosas, com som ambiente, geralmente de músicas clássicas, tocadas por um pianista. Grandes chefes europeus eram responsáveis pela cozinha. A bordo era servido o que havia de melhor e mais fino. As bebidas eram as mais especiais da época. Diversos garçons ao dispor da tripulação durante 24 horas por dia, além dos mordomos responsáveis pelo atendimento das mínimas vontades dos passageiros, quando estivessem em seus aposentos.
Pinterest.com/Reprodução
A cabine dos amantes era a mais disputada de todo o trem. Havia lista de espera para comprá-la, porque todos queriam experimentar das peculiaridades oferecidas. Nela havia regalias extras como champanhe de boas vindas, cigarros finos à vontade e um projeto de decoração diferenciado, no estilo romântico e ainda mais conforto.
Pinterest.com/Reprodução
 

Os funcionários, por outro lado, não tinham sequer parte do conforto que proporcionavam. Poucos tinham o privilégio de esticar as pernas no final do dia. Alguns dormiam em redes ou cadeiras que eram instaladas do lado de fora das cabines, porque precisavam estar sempre de prontidão. 

 

» Declínio após a 2ª guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a companhia interrompeu novamente seus serviços devido a sabotagens constantes nos trilhos por toda Europa. Em 1945, o funcionamento foi normalizado, embora com um número menor de trens circulando, porque com a Cortina de Ferro (divisão da Europa em Oriental e Ocidental), os países do Leste europeu se desligaram da companhia Expresso do Oriente e resolveram criar suas próprias linhas ferroviárias.

 

O declínio do Expresso do Oriente começou logo após a Segunda Guerra Mundial. O ditador Adolf Hitler destruiu metade da frota da companhia, porque ele pegava os vagões e os achatava para que eles pudessem ser transformados em tanques, caminhões ou outros instrumentos utilizados em batalhas. A concorrência causou um grande impacto econômico na frota da Orient que, em 1960, encerrou as atividades do trecho complementar do Simplon Orient Express. A partir daí, o serviço foi substituído pelo Golden Arrow, que não fazia parte da companhia.

 

Em 1962, somente o Simplon Orient Express ainda circulava na Europa. As outras duas rotas foram colocadas fora de circulação, tanto a rota original do Expresso do Oriente, quanto o Alberg Orient Express. Mas a única rota restante não durou muito tempo, em questão de meses, ainda no mesmo ano, o Simplon Orient foi retirado de circulação e foi trocado por um trem mais lento, batizado de Direct Orient Express. Ele fazia o mesmo trajeto que o Simplon, saia diariamente de Belgrado e partia duas vezes por semana para Atenas e Istambul.

 

Os anos gloriosos do expresso oriente foram realmente entre as duas grandes guerras. O declínio da companhia foi tão rápido quanto seu crescimento. Em 1977, o Direct Orient Express fez sua última viagem Paris-Istambul, em 20 de maio de 1977. Deixando para trás uma grande história que, será para sempre um marco mundial.
 
Olly Courtney/Flickr
Rotas moderna 
Atua
tualmente, algumas rotas circulam pelos trilhos que o Expresso Oriente percorreu. Não há dúvida de que o glamour não é o mesmo, mas muitos passageiros que utilizam esses trens querem relembrar ou tentar se aproximar com o que foi vivido nas décadas de 20 e 30. As empresas DB (Alemanha) e OBB (Áustria) compraram o pouco que restou da Orient Express e administram rotas que saem de Paris-Estrasburgo. O nome é o mesmo, mas hoje se perdeu totalmente o legado de trem luxuoso e renomado. Agora serve apenas como lembrança e uma excelente maneira de sair da Áustria e ir para a França.
 
O empresário James Sherwood comprou vários vagões da antiga Orient Express e os reformou. Então, criou a sua linha chamada Venice-Simplon Orient Express. É importante deixar claro que não há relação da nova frota com a anterior. O serviço cobrado é de 1.200 libras, aproximadamente 5 mil reais por pessoa e opera entre Veneza e Londres, entre os meses de março e novembro.
 
» Palco de histórias
Cenário de grandes obras cinematográficas, literárias e musicais, o trem carregou artistas de todo o mundo, que quiseram retratar a exclusiva realidade que seus personagens viveram a bordo.
 
Assassinato no Expresso do Oriente
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

General Ebooks/Reprodução
Sem dúvida, essa obra da escritora inglesa, Agatha Christie, é o maior marco feito sobre o Expresso Oriente. A autora, mundialmente famosa por escrever histórias policiais, quis se aventurar em um dos vagões do Expresso do Oriente. Na trama de Assassinato no Expresso do Oriente, o detetive Hercule Poirot — personagem mítico da escritora — tem a missão de desvendar um assassinato ocorrido na locomotiva, em uma noite de nevasca em que o trem foi impedido de seguir o trajeto.A vítima tinha vários inimigo se o detetive precisava descobrir quem matou o homem. Agatha Christie, como em todos os seus livros, deixa o suspense até a penúltima página. A todo momento são mostradas diversas evidências de quem seria o possível assassino, mas a dúvida sempre paira em todo o livro. Até que o final é surpreendente e, mais uma vez, a escritora arranca fôlegos e ganha mais fãs em todo o mundo.


N
as telonas

c1n3/Reprodução
O sucesso do romance policial de Agatha Christie ganhou os cinemas. O primeiro filme baseado na obra da autora foi lançado foi em 1974. Com direção de Sidney Lumet e roteiro de Paul Dehn, teve como protagonista o ator Alberty Finney, que interpretou o detetive Hercule Poirot. Mais tarde, em 2001, o diretor Carl Schenkel deu vida ao novo filme sobre O Assassinato do Expresso Oriente.

 

Dessa vez, o ator Alfred Molina fez o protagonista da trama. O cinema Hollywoodiano, mais uma vez, dará vida ao livro de Agatha Christie. No dia 10 de novembro, o mundo verá Johnny Depp se aventurando pelos vagões da locomotiva mais famosa do mundo, sob a direção de Kenneth Branagh. O elenco contará com grandes nomes do cinema, como Michelle Pfeiffer e Penélope Cruz.

 

Outras obras
 
Cinema para sempre/Reprodução
James Bond também não deixou de completar uma de suas missões a bordo da locomotiva. No filme Moscou Contra 007, de 1963, ele precisa ajudar uma agente soviética a fugir do seu país e usa como cenário o Expresso do Oriente. Além disso, em 2004, no filme A volta no mundo em oitenta dias, o trem  é cenário do longa-metragem. O músico francês, Jean Michel Jarre, também embalou um sucesso baseado na locomotiva. Ele compôs a música Orient Express, que fez parte da sua turnê na China.
 
 
 
Haamile/Reprodução
Vários autores de todo o mundo escreveram livros a respeito do Expresso do Oriente. Alguns deles são: The Orient Express: The History of the Orient Express Service from 1883 to 1950 — Anthony Burton 
(A História do Expresso do Oriente de 1883 a 1950); Venice Simplon Orient Express: The World’s Most Celebrated Train — Shirley Sherwood ( O Trem Mais Celebrado do Mundo); Bradshaw’s Continental Railway Guide — George Bradshaw (O Guia dos trilhos de Bradshaw’s); Stamboul Train (Vintage classics) — Graham Greene (O trem de Istambul).

 

 

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