HISTÓRIA

Bibliotecas no Brasil e no mundo oferecem mais do que o acesso a livros

Esses centros do saber se destacam pela beleza e disponibilizam uma gama de opções para o visitante

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postado em 24/07/2017 10:00 / atualizado em 19/07/2017 17:48

esthernfdez/Flickr

Shhhhh. Não adianta nem fingir que não viu o aviso, sempre que você começa a conversar, a sonora onomatopeia de conhecimento global lhe obriga a ficar em absoluto silêncio. No país, existem 7,7 mil bibliotecas públicas, sendo 1.958 delas localizadas na região Sudeste e 500, no Centro-Oeste, segundo o mapa do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), do Ministério da Cultura. O que pouca gente sabe é que muitos dos centros culturais estão passando por revitalizações importantes e ganhando, além de uma simples fachada ou novos títulos, opções cada vez mais diversificadas.


A bibliotecária Kelley Cristine, 45 anos, conhece mais de 35 países e aproveitou para mergulhar ainda mais na cultura local nas estantes abarrotadas de livros em muitas cidades que visitou. “A Biblioteca Pública de Vancouver, no Canadá, foi a que mais me chamou a atenção. O prédio é maravilhoso e, como a cidade tem muita diversidade cultural, lá você encontra tudo quanto é tipo de assinatura de revistas e serviços dos mais variados. Eles promovem também um grupo de passeio que passa pelos principais pontos turísticos da cidade”, conta.

Para ela, mais importante do que a arquitetura do prédio é o serviço prestado pelo local. "Quando fui para a Finlândia, conheci uma das bibliotecas públicas do país, que tem um prédio comum, mas que, na época, chamava muita atenção dos jovens por contar com um acervo gigantesco de jogos digitais. O espaço dispõe de palco para realização de cultos alternativos e apresentações de teatro. Nos dias de espetáculo, lotava bastante."

Arquivo Pessoal

No Brasil, ela cita a Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). "Tive o prazer de visitar o local a convite do ex-reitor. O prédio foi construído com uma concepção completamente diferente da maioria: os andares eram menores para que pudesse haver mais espaço para a parte de integração do público. Ao fim da tarde, sempre tem apresentações de orquestras, piano, coral, tudo no saguão de entrada. Os vitrais das janelas, além de lindos, também chamavam muita atenção", completa.

Outro apaixonado por bibliotecas, o diplomata Daniel Guilarducci, 42 anos, desbravou o acervo de várias delas. Além de se encantar pelo Real Gabinete Português, no Rio de Janeiro, ele visitou a Biblioteca do Congresso, em Washington; a Trinity College, em Dublin, na Irlanda; a Biblioteca Bodleiana, na Universidade de Oxford, no Reino Unido; e a Handelingenkamer, na Holanda. “Viajo muito a trabalho e, sempre que dá, tiro um tempinho para conhecer uma biblioteca local. Além da beleza dos prédios em si, elas me atraem porque são uma referência de estabilidade. Hoje, o mundo muda muito rápido e, quando você entra em um desses locais, é como se tudo continuasse do mesmo jeito. É claro que o conhecimento não estagnou, mas a gente sente essa noção de que é algo fixo, que continua lá”, explica.
Arquivo Pessoal

Entre tantos locais interessantes, para o diplomata, o que mais impressionou foram as dimensões da Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. “É como se a gente estivesse visitando um palácio, porque é um prédio enorme com salas gigantescas e teto  ornamentado com uma mistura de figuras clássicas e elementos da cultura local. Durante a visita, o guia mostrou, por exemplo, o desenho de um anjinho segurando uma bola de futebol americano.” Ainda assim, o emissário classifica o Real Gabinete Português de leitura, localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro, como uma das mais bonitas. “Eu acho que o brasileiro não tem muita consciência desse tesourinho que a gente tem aqui. Para você ter ideia, uma das 42 Bíblias impressas por Johanes Gutemberg, o inventor da prensa, em 1455, faz parte do acervo.”

Preservação
Além de promover o acesso igualitário a publicações dos mais variados tipos, o papel das bibliotecas é preservar algumas das obras mais importantes da história da humanidade. Durante as inúmeras visitas aos templos, Daniel teve a oportunidade de conhecer parte dessas riquezas. “Na Biblioteca Bodleiana, o visitante pode analisar publicações originais do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare. Na Trinity College, em Dublin, estão disponíveis a primeira Proclamação da República e uma das três arpas medievais, instrumento que é símbolo da cidade”, ressalta.

Conhecer esses espaços abriu oportunidade para a bibliotecária Kelley conhecer elementos importantes da história brasileira. “Na Biblioteca Newberry, em Chicago, nos Estados Unidos, a gente encontra os mapas que foram publicados na época do descobrimento do Brasil. Na Biblioteca do Congresso, há uma área destinada à cultura brasileira, onde consegui escutar gravações do poeta Carlos Drummond de Andrade de alguns dias antes da morte dele. São conteúdos extremamente relevantes para a cultura do nosso país que estão sendo preservados lá fora.”

 

Conheça

Bibliotecas  que vale a pena visitar:

 

» No Brasil

Biblioteca Mário de Andrade (São Paulo, SP)

Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo/Flickr

Com mais de 3 milhões de itens, a Biblioteca Mário de Andrade, no coração da cidade de São Paulo, é considerada um dos maiores centros culturais do Brasil. Além das frequentes exposições de arte e das salas de leitura, a biblioteca também oferece encontros com escritores, pesquisadores e artistas, lançamentos de livros, oficinas, saraus, palestras e apresentações musicais.
» Horário de funcionamento: todos os dias, das 8h às 22h.

Biblioteca da Floresta (Rio Branco, AC)

Luis Olarte/Pinterest

Inaugurada em 2007, a Biblioteca da Floresta é o maior centro de informação indígena da América Latina. Além da decoração característica, o acervo possui milhares de publicações sobre os povos ribeirinhos, seringueiros e comunidades aborígenes da região. Logo na entrada, o visitante pode aprender um pouco mais sobre a vida do ativista Chico Mendes, que lutou a favor dos seringueiros da Bacia Amazônica. Exibição de filmes e atrações para crianças também fazem parte da programação.
» Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h às 17h.

Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia (Salvador, BA)


Fundada em 1582, a Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador, é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e reúne algumas das publicações mais raras da literatura mundial. O acervo, preservado pelos monges do convento baiano, que também é aberto para visitação, conta com mais de 200 mil volumes. Os 60 mais raros estão disponíveis para consulta on-line no site www.saobento.org/livrosraros.
» Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h.

Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro, RJ)

Adriano Ferreira/Flickr

Fundada em 1837 por um grupo de imigrantes portugueses, o Real Gabinete Português de Leitura conta com um acervo de mais de 350 mil volumes e recebe um exemplar de cada livro lusitano que é publicado no país. Além de apreciar a arquitetura clássica e colocar a leitura em dia em uma das salas que lembram antigas catedrais, os visitantes podem aproveitar o passeio para conhecer algumas das obras de arte da Pinacoteca.
» Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 9h às 18h.

» No mundo


Biblioteca Khizanat al-Qarawiyyin (Fez, Marrocos)

Em funcionamento há mais de mil anos, a biblioteca da Universidade de Al-Qarawiyyin é uma das mais antigas do mundo. Recém-aberto ao público após um período de restauração estrutural, o centro tem museu e  café e abriga mais de 4 mil manuscritos, entre eles, um Alcorão do século 19 escrito em kufic, uma variação antiga da caligrafia árabe escrita em pele de carneiro e um dos originais do Muqaddimah, uma das primeiras publicações a apresentar ideias sobre filosofia, sociologia, ciências sociais, história e economia.
» Horário de funcionamento: não informado.

Biblioteca Pública de Salt Lake City (Utah, Estados Unidos)

Skyscraper City/Flickr

A arquitetura deslumbrante e os vários ambientes da Biblioteca Pública de Salt Lake City devem impressionar até quem não se interessa pelo acervo de aproximadamente 500 mil publicações. O prédio principal dispõe de seis andares, cada um com a própria trilha sonora, salas de leitura, cibercafé e espaço destinado às crianças. Pinturas, esculturas, jardim no terraço, quatro lareiras que formam uma coluna de fogo — quando observadas de certa distância — e até mesmo uma cachoeira artificial completam o passeio.
» Horário de funcionamento: de segunda a quinta, das 9h às 21h; sextas e sábados, das 9h às 18h; e domingos, das 13h às 17h.

Biblioteca Apostólica Vaticana (Vaticano)

HEN-Magonza/Flickr

O menor país soberano do mundo tem um dos templos mais antigos da história. Com um acervo de mais de 1,6 milhão de livros, 8,3 mil incunábulos (nome dado aos livros impressos nos primeiros anos da imprensa, no século 15), 150 mil manuscritos e cerca de 300 mil moedas e medalhas, o centro tem a missão de conservar a produção artística humana e guarda os segredos da sede da Igreja Católica.
» Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h45 às 17h15.

Biblioteca Pública de Kansas City (Missouri, Estados Unidos)

Jonathan Moreau/Flickr

Um dos principais centros de entretenimento da cidade norte-americana, a Biblioteca Pública de Kansas City tem uma fachada nada convencional. A entrada do prédio, que foi reformulado em 2004, representa 22 lombadas gigantes de títulos escolhidos via votação popular. Desbravando os cinco andares do edifício, o visitante encontra diversas salas de leitura, centro profissionalizante, café, áreas exclusivas para crianças e, claro, um acervo gigantesco de livros e filmes.
» Horário de funcionamento: de segunda a quarta, das 9h às 21h; quintas e sextas, das 9h às 17h; sábados, das 10h às 17h; e domingos, das 13h às 17h.

 

A casa do Rock and Roll
Se você é fã do bom e velho heavy metal, não se esqueça de passar na Biblioteca do Metal na próxima visita a Helsinque, na região central da Irlanda. Lá, você encontra centenas de livros, CDs, DVDs e vinis sobre a história do estilo musical. O local conta ainda com um estúdio próprio, que pode ser utilizado para ensaios e gravações.

 

* Estagiário sob a supervisão de Ana Sá

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