EXPERIÊNCIA

Mais fácil do que se imagina: descubra o turismo na Coreia do Norte

Apesar de toda a tensão do regime, é possível - e permitido, com exceção dos sul-coreanos - visitar a terra de Kim Jong-un. Para chegar ao país há apenas uma conexão: a partir da China

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postado em 11/10/2017 20:00 / atualizado em 11/10/2017 11:20

Renato Alves/CB/D.A Press

Pyongyang — O permanente conflito verbal com os Estados Unidos e as ameaças de atingir países considerados inimigos com ogivas nucleares desenvolveu a imagem de que a Coreia do Norte não pode ser amigável com os turistas estrangeiros ávidos a captar o maior volume de imagens dos cenários e cidadãos norte-coreanos. Chegar à Coreia do Norte — e entrar — é mais fácil do que se imagina, quando se sabe que o país vive sob uma ditadura que ignora convenções mundiais de direitos humanos, mantém relações diplomáticas com poucas nações e está tecnicamente em guerra com a Coreia do Sul há mais de cinco décadas.

 

O processo para a obtenção do visto é rápido e pouco burocrático: o turista só precisa enviar uma foto e cópia de algumas páginas do passaporte por e-mail. E pronto. Segundo as agências que operam no país, o índice de vistos negados é extremamente baixo. Com exceção de jornalistas ocidentais e os cidadãos sul-coreanos em geral, o visto, na verdade, é apenas um trâmite formal, tratado pela agência que organiza o tour em que o turista se incluirá. Basta ter a documentação pessoal em dia, se inscrever na agência e pagar por um dos pacotes oferecidos. Há opções em grupo ou em um tour individual, sempre com guias locais.

Renato Alves/CB/D.A Press

O preço do pacote varia de acordo com o número de pessoas que pretendem fazer a mesma viagem, pela mesma empresa, no mesmo período. Em setembro, uma viagem individual de uma semana custava entre 2.800 e 3.000 euros. O valor incluía transporte interno, motorista, dois guias, tradutores, taxas turísticas e as diárias em um hotel de quatro estrelas, com as três refeições incluídas.

 

Além disso, o viajante tinha que pagar as passagens aéreas da sua origem a Pequim (ida e volta) e os voos (ida e volta) da Air Koryo, de Pequim a Pyongyang. A viagem, de uma hora e 45 minutos, custava 550 euros. O preço do pacote podia cair até 1.300 euros, dependendo do volume de turistas em um grupo. Por exemplo, a partir de 15 pessoas, é fretado um ônibus, diminuindo o preço do transporte.

As viagens para Pyongyang, capital da Coreia do Norte e principal cidade do país, partem de Pequim com voos operados pela Air Koryo, a empresa aérea norte-coreana. Os pagamentos na Coreia do Norte devem ser feitos em dinheiro em espécie, de euros, dólares ou yuan chinês.
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Uma das mais conhecidas agências que oferecem esse serviço, a britânica Koryo Group leva, anualmente, até 40 grupos de 20 de turistas cada, a Pyongyang, em tours “all inclusive”, com passagem aérea a partir de Pequim, alimentação, hotel, transporte e passeios pela Coreia do Norte.

Curiosidade crescente
Os vizinhos chineses são a maioria entre os turistas na Coreia do Norte, seguidos por russos e norte-americanos. Estima-se que entre 4.000 e 5.000 cidadãos de países ocidentais visitem a Coreia do Norte anualmente. Cerca de 20% (de 800 a 1.000), pessoas com passaporte dos Estados Unidos.

 

Passeios controlados

 

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É fácil chegar à Coreia do Norte, mas não circular pelas suas cidades, nem por suas estradas. Menos ainda por suas zonas rurais, onde, dizem organismos internacionais, há miséria, fome e campos de trabalho forçado. Não há liberdade para se locomover fora do local de hospedagem. Os guias sempre acompanham o visitante, durante o rígido itinerário, geralmente baseado em visitar a capital, ainda que alguns também incluem viajar à Zona Desmilitarizada, na fronteira com a Coreia do Sul.

Sequer é dado ao turista que contratou os serviços de uma agência em Pequim a opção de escolher o hotel e o roteiro da viagem. A única certeza é de que os estabelecimentos determinados pelo regime são de categoria quatro estrelas. Padrão definido pelo governo norte-coreano para estabelecimentos construídos há mais de 30 anos, com mobília e acabamento da época.

No Koryo Hotel, considerado o melhor do país, há água quente e energia elétrica sem interrupção. Há quase todos os serviços e produtos de um estabelecimento do mesmo nível no mundo ocidental.  Além de barbearia, salão de beleza, massagem, bares, salão de jogos, piscina, entre outros, há um pequeno supermercado, uma farmácia e uma loja de roupas e calçados, com peças importadas de grifes famosas, a preços razoáveis. A Coca-Cola, por exemplo, custava, em setembro, 1 dólar.

Regras e protocolos têm de ser seguidos rigidamente. Eles começam pela já citada exigência da contratação dos serviços de uma agência credenciada e da companhia permanente de guias norte-coreanos. Quem desobedece alguma regra, por mais tola que ela possa ser, do ponto de vista estrangeiro, paga caro.
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O turista na Coreia do Norte ficará hospedado sempre na capital do país. E terá uma agenda cheia, com programação de visita aos principais monumentos de Pyongyang. O roteiro é definido por agentes do Estado e inegociável, imexível.

Entre as atrações estão as estátuas de bronze dos dois falecidos líderes, a Torre Juche, o segundo maior arco de triunfo no mundo — o maior é o da Cidade do México —, o Palácio das Crianças — onde meninos e meninas farão uma apresentação de música e dança — o museu da guerra da Coreia — com a versão norte-coreana do conflito  —, o imenso e excêntrico zoológico  — onde os visitantes alimentam os bichos com qualquer tipo de guloseima  —, o moderno e muito bem cuidado parque aquático  — onde biquínis são proibidos.
Renato Alves/CB/D.A Press

Alguns roteiros incluem uma viagem de 200km até a fronteira com a Coreia do Sul, para visitar Panmunjom, a zona desmilitarizada, e conhecer como é a divisão das duas Coreias. Em alguns casos, há voos para o Baektu, o monte mais alto da Coreia do Norte, um vulcão em repouso com maravilhosos panoramas naturais. Também há a possibilidade de uma visita aos dois palácios construídos para abrigar os milhares de presentes recebidos pelos falecidos pai e avô de Kim Jong-un, distantes mais de 150km da capital e em uma região montanhosa belíssima.

Mas o turista também é submetido a tours bastante cansativos e poucos atraentes, como visitas a fazendas (como uma plantação de maçãs e um criadouro de tartarugas) e a fábricas (por exemplo, uma engarrafadora de água mineral). Com direito às mais detalhadas explicações dos guias. (RA) 

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