EXPERIÊNCIA

Voo ao mundo diferente: conheça os caminhos até a Coreia do Norte

Embora moderno e espaçoso, o aeroporto só tem rotas para Pequim, na China, e para a Rússia, operados pela Air Koryo e Air China

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postado em 12/10/2017 10:00 / atualizado em 11/10/2017 12:47

Renato Alves/CB/D.A Press


O Aeroporto Internacional Sunan, em uma cidade com o mesmo nome, a 24km da capital Pyongyang, foi inaugurado em julho de 2015. O terminal é seis vezes maior que o antigo e tem lojas e restaurantes. Um oferece fondue de chocolate. Ao contrário da capital norte-coreana, oferece serviço de wi-fi, a cinco dólares por 15 minutos de acesso, em uma cafeteria da sala de embarque internacional. No entanto, são oferecidos apenas duas opções de rotas —  para a China e para a Rússia, em duas companhias aéreas: Air Koryo e Air China.


A estatal norte-coreana foi considerada a pior companhia aérea do mundo por quatro anos seguidos. O título foi concedido pela consultoria internacional Skytrax, que usa quesitos como eficiência, qualidade do serviço de comida e entretenimento a bordo para classificar as empresas de aviação comercial. A Air Koryo ficou em último lugar em todos os quesitos, entre 600 aéreas pesquisadas.

Herança
O que mais pesa contra a estatal norte-coreana é a idade da frota. São mais de 20 anos sem comprar aviões novos. Alguns são da década de 1960, adquiridos em parceria com a extinta União Soviética, que, enquanto teve dinheiro, sustentou a Coreia do Norte, a exemplo do que fazia com Cuba e outros países comunistas.

Como algumas das aeronaves têm mais de 60 anos, elas não dispõem da tecnologia que proporciona segurança dos modelos atuais. Os pilotos voam sem apoio de computadores de bordo e outros equipamentos. A operação é toda na base do papel e caneta. Com exceção de um Antonov ucraniano — modelo criado para o transporte de cargas, quando o país integrava a URSS —, os demais aviões são os antigos russos Ilyushin e Tupolev.

Além disso, comprar uma passagem pelo site da empresa é quase impossível. A solução é adquirir o bilhete no escritório da Air Koryo em Pequim, por cerca de 600 dólares, com taxas incluídas. O curto voo é realizado sem nenhum susto, com partida e chegada pontuais.
Renato Alves/CB/D.A Press

Outra reclamação é a qualidade do entretenimento a bordo, que oferece apenas material com propagandas do governo. As comissárias servem a única refeição do voo de uma hora e meia cerca de 30 minutos após a decolagem. Ela se resume a um hambúrguer (não é fácil distinguir a carne) e três opções de bebida: cerveja norte-coreana, suco de maçã verde gaseificado (quente) e água (também quente).

Atrações para fãs
Fãs de aviação do mundo inteiro viajam para a Coreia Norte com o intuito de conhecer a frota da Air Koryo. Há excursões regulares só para esse interesse, com voos pelos país. Muitas das aeronaves da companhia não são mais operadas em serviços comerciais em nenhuma outra empresa aérea, sem contar operadores governamentais e de carga. São modelos como Antonov 24, Ilyushin 18, Ilyushin 62, Ilyushin 76, Mil 8, Tupolev 134, Tupolev 154 e Tupolev 204.

Memória

Prisões e morte

Renato Alves/CB/D.A Press
Os riscos de se visitar a Coreia do Norte foram expostos ao mundo após a prisão e morte de Otto Warmbier. Sentenciado a 15 anos de cadeia por supostamente ter roubado uma placa de propaganda, o estudante norte-americano passou dezessete meses trancafiado em um presídio norte-coreano. Morreu uma semana após ser enviado para casa, em junho de 2017, já em coma.

Três outros norte-americanos continuavam presos na Coreia do Norte, até setembro de 2017. Mas eles não foram como turistas. Trabalhavam lá, sendo dois em uma universidade privada coreano-americana e um em um hotel localizado em uma zona econômica especial no norte do país.

O pai de Warmbier, Fred, acusou as empresas que promovem o turismo na Coreia do Norte de “alimentar” o regime ditatorial. Depois da morte do estudante, os Estados Unidos começaram a estudar a proibição de viagens de seus cidadãos a ao país de Kim Jong Un. Em função da morte do seu cliente Otto Warmbier, a Young Pioneer Tours afirmou que não incluiria mais cidadãos dos Estados Unidos nas suas visitas.

As duas outras principais agências de viagens que organizam esse tipo de excursões, a Koryo Tours, no Reino Unido, e a Uri Tours, sediada em Nova Jersey (EUA), disseram, em julho de 2017, que estavam “revisando” a venda de pacotes de viagens à Coreia do Norte para clientes norte-americanos. Todas as empresas tiveram turistas detidos na Coreia do Norte, mas em nenhum caso com consequências tão graves quanto as enfrentadas por Warmbier. (RA)

 

Proibida de operar 

 

Renato Alves/CB/D.A Press
Norte-coreanos e soviéticos fundaram a companhia aérea em 1954, com o nome de Chosonminhang. Por três décadas do período da Guerra Fria, ela voou para as principais capitais comunistas, como Moscou, Berlim e Praga. A ajuda soviética minguou. Sem dinheiro para manutenção e aquisição de novas aeronaves, a Air Koryo foi perdendo voos.

A frota começou a virar peça de museu e, em 2006, foi proibida de operar na União Europeia, por questões de segurança. Até a China, maior parceira comercial da Coreia do Norte, proibiu a operação dos aviões mais antigos da companhia em seu território.

O país do “Grande Líder” só não ficou isolado do mundo da aviação porque a empresa havia comprado, em 2008, dois Tupolevs 204-300 usados e encomendado um novo Antonov An-148 (voo inaugural em 2004), com capacidade inferior a 100 passageiros. A frota atual inclui nove aeronaves. Com ela, a Air Koryo mantém três destinos internacionais: Pequim e Shenyang, na China, e Vladivostok, na Rússia.

A Air Koryo integra a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), que preza pela segurança dos seus membros. Oficialmente — como é uma estatal administrada por um governo ditatorial, pode haver sonegação e falsificação de informações — o histórico de acidentes da companhia norte-coreana é pífio. Há só dois registros em 63 anos de atividade. Um em 1983 e outro em 2006. Nesse último sequer houve feridos. (RA)


DEPOIMENTO

Experiência inesquecível

Pyongyang —
 Aeroporto Internacional de Pequim. Na fila do check-in, encontro os primeiros norte-coreanos desde a minha última visita à Embaixada da Coreia do Norte, em Brasília. Reconheço-os principalmente pelos indefectíveis botons com os rostos dos dois ditadores do país, chamados pelos norte-coreanos de “Grande Líder” e “Querido Líder”. Todos discretos, a falar em voz baixa. Homens com ternos e calçados simples, em cores neutras, mas impecavelmente bem cuidados.

Espero todos despacharem suas bagagens, limitadas a uma peça de 23kg por pessoa. Limite respeitado só por estrangeiros. Vejo um norte-coreano colocar enormes caixas sobre a balança, que somam 120kg.

Um homem sem o uniforme da Air Koryo atende os passageiros. Ele só olha o meu passaporte, digita um computador e me dá o cartão de embarque para Pyongyang, impresso em um bilhete Air China, a única além da Air Koryo com voo para a Coreia do Norte. Meu voo é pela Air Koryo.

Ao embarcar, uma grata surpresa. Viajaria em um dos dois Tupolevs 204-300 da Air Koryo, os mais novos aviões da frota. As comissárias de bordo receberam a todos com sorrisos. Os compartimentos de bagagem de mão têm um tamanho normal. A cabine é dividida em várias partes, separadas por áreas pequenas isoladas das poltronas por cortinas. 

Viajo sentado entre um grupo de homens norte-coreanos de meia idade. Pela curiosidade por tudo, é notório que estão em um avião pela primeira vez (para os norte-coreanos autorizados pelo governo a viajar, há ainda as opções de trem e navio). Um deles pergunta à aeromoça para que serve o saco de enjoo. 

Outra boa notícia: a aeronave tem vídeo para instruções de segurança e entretenimento. Uma má: o único vídeo a ser exibido ao longo de toda a viagem seria um concerto militar em comemoração ao aniversário do Partido Comunista. Há as opções de pegar, na entrada, a revista e o jornal oficial, recheado de fotos de norte-coreanos felizes e do atual líder, também sempre sorridente.

Escolho um exemplar do The Pyongyang Times, jornal em inglês editado e distribuído só a estrangeiros. Lembro de uma das dicas valiosas colhidas antes da viagem, em minhas leituras sobre o regime de Pyongyang. Não devo dobrar o jornal de qualquer maneira. Tampouco posso me desfazer dele. Jamais, em hipótese alguma, jogá-lo fora, amassá-lo ou rasgá-lo. 

Todas as edições do jornal, como as de todos os periódicos entregues aos norte-coreanos, vêm sempre com uma fotografia de Kim Jong-sun como principal imagem da capa. Portanto, qualquer dano a um jornal ou a uma revista dessas é visto como um desrespeito, uma ofensa e até uma agressão aos norte-coreanos. 

Desfeita tratada como crime, punível com severa advertência e multa até prisão, a depender do estrago feito no veículo de comunicação e do humor das autoridades locais. Sendo assim, não me resta outra opção a não ser voar com o jornal todo aberto no colo. Menos mal que ele tem o formato tabloide e os assentos da Air Koryo são limpos e confortáveis, com espaço suficiente para as pernas de uma pessoa de 2 metros de altura. Tenho 1,84m. 

 

O repórter Renato Alves viajou à Coreia do Norte no período de 2 a 11 de setembro 

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