Espírito empreendedor invade a sala de aula

Atividades voltadas ao empreendedorismo contribuem para o desenvolvimento de habilidades como criatividade e autonomia

Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press
Você sabe o que é ser um empreendedor? Se engana quem relaciona a palavra empreendedorismo somente à abertura de empresas. O conceito se refere a habilidades como proatividade, criatividade e comprometimento. Por isso, tem sido trabalhado também em escolas, com o objetivo de preparar os jovens não apenas para o mercado de trabalho, mas também para o futuro.

Segundo Álvaro Domingues, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe), o empreendedorismo tem sido tratado de forma variada nos colégios. Ele explica que, tanto nas instituições de ensino particulares quanto nas públicas, o tema é oferecido como conteúdo extracurricular. “Geralmente, se trabalha com estudos de caso, com instigações de como proceder em certas situações”, afirma. Princípios de processos de produção e sobre a criação e gestão sustentável de uma empresa também costumam ser abordados.

O especialista em gestão empresarial e empreendedorismo Gilberto Porto destaca que trabalhar essa temática nas escolas é fundamental, e reflete na atuação dos alunos em sala de aula e futuramente, na carreira que ele desejar seguir. “Muita gente acha que empreender é só abrir empresas. O perfil de um empreendedor está baseado na busca de oportunidades, em uma postura proativa”, assegura.
 
Porto afirma que o empreendedorismo ainda está muito baseado em necessidades, e não em oportunidades, o que precisa mudar. Ele ainda aponta que é necessário abordar o assunto desde cedo com os jovens e as crianças. “Assim, você terá um aluno que sabe liderar, que coordena, se preocupa com prazos, que sabe gerenciar o tempo com os colegas, capaz de perceber as habilidades do outro.”  
 

Alunos e professores criam cooperativa 


No Centro de Ensino Fundamental 14 de Ceilândia, o professor de história Antônio Jucá e outros docentes montaram, com os alunos, uma cooperativa para a produção de bananas desidratadas. Para ressecar as frutas, eles construíram um secador, usando como base uma calha que estava inoperante.
 
"É um projeto para a vida. Na cooperativa, eles entendem como funciona o mercado de trabalho, aprendem a trabalhar em equipe, a tomar decisões, a ser responsáveis e a cumprir horários"
Antônio Jucá, professor de história 
 
A iniciativa envolve os alunos do 6° ano e ainda conta com a colaboração dos veteranos do 9° ano. O professor Jucá relata que todo o processo de produção e gestão da cooperativa é responsabilidade dos próprios estudantes. “É um projeto para a vida. Na cooperativa, eles entendem como funciona o mercado de trabalho, aprendem a trabalhar em equipe, a tomar decisões, a ser responsáveis e a cumprir horários”, destaca. 
 
Na atividade, os alunos colocam em prática o conhecimento adquirido em sala de aula. Jucá explica que a técnica de secar as frutas exige conhecimento em diversas disciplinas, como ciências e geografia, além da matemática, na hora de tratar das finanças do negócio. Com o auxílio da professora da disciplina, os estudantes colocam os números em planilhas, somam os lucros e dividem entre eles, com direito a recibo comprovando o pagamento.

Aprendendo a economizar e a fazer cálculos


Erica Tawany dos Anjos, 11 anos, aprendeu a economizar e a fazer planos com o dinheiro. “Eu estou juntando para comprar um celular ano que vem”, diz. Ela reconhece os benefícios que a atividade traz: “Temos que ter a responsabilidade de produzir, vender e somar os lucros. A gente trabalha igual a empresário. Quem sabe eu não viro uma? Isso está me preparando para o futuro”.
 
Já a estudante Beatriz Maia, 11, percebeu que o lucro só vem com muito trabalho e dedicação. Para garantir a venda dos produtos, a pequena tem a própria estratégia. “Faço com que o cliente se sinta confortável. Mostro que a nossa banana é muito boa”, relata. A aluna ainda comenta que os pais têm aprovado a atitude. “Eles me apoiam e observam meu compromisso em vir aqui fazer o meu trabalho”, comenta.
 
A atividade do secador solar despertou o espírito de liderança no jovem José Augusto de Moura, 15. O aluno participa do projeto há três anos e, atualmente, auxilia os professores na coordenação da equipe, além de ajudar os estudantes mais novos nas atividades. Este ano, José Augusto ingressará no ensino médio, mas afirma que não sairá do projeto. “Eu aprendi muito e, agora, quero repassar meu aprendizado aos novos alunos.”

Parceria para levar o empreendedorismo a escolas


Com o objetivo de levar o empreendedorismo para as instituições de ensino, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) desenvolve o Programa Nacional de Educação Empreendedora. Segundo a psicóloga e diretora de Administração e Finanças do Sebrae-DF, Cassiana Abritta, a iniciativa atende 40 escolas particulares no DF e caminha para chegar a mais instituições.
 
Em 2017, foi firmada parceria com a Secretaria de Educação para expandir o programa a cerca de 240 escolas públicas até 2019. “Precisamos dar oportunidades para as crianças serem protagonistas da história delas. São ensinamentos que elas levarão para a vida”, afirma Cassiana.