Professores inovam em práticas pedagógicas

Educadores que apostam em atividades relacionando teoria e prática, de forma dinâmica e interativa, estimulam os alunos. Para alguns profissionais, essas iniciativas ainda são um desafio

Wallace Martins/Esp.CB/D.A Press
Reinvenção tem sido a palavra de ordem para os professores nos últimos anos e deve permanecer em evidência em 2018. São tecnologias digitais, brincadeiras, conversas, projetos, tudo usado a favor da aprendizagem. O aluno, agora, é um parceiro na relação de troca que leva ao sucesso na aprendizagem.

Segundo o psicopedagogo e doutor em educação Júlio Furtado, uma relação mais horizontal em sala de aula é o que tem motivado os estudantes. “O aluno de hoje não vai para a escola ouvir verdades, ele vai para descobrir coisas novas, e precisa ser levado em conta no processo de aprendizagem. Ele não aprende mais escutando e, sim, fazendo. Essa é a diferença básica entre o estudante de hoje e o de ontem”, afirma.

A professora Maria Antônia Lopes, 34 anos, é um exemplo disso. Foi na prática que seus alunos do 2º ano, da Escola Classe 1 do Paranoá, desenvolveram a habilidade de produzir um bom texto. A educadora se reinventou e, por um momento, deixou a lousa, o pincel e os longos discursos para colocar em cena personagens de Monteiro Lobato. O objetivo da brincadeira? Falar sobre literatura e redação. 

Maria Antônia conta que utilizou a prática do reconto para que os alunos treinassem a escrita. “Eu corrigia e mostrava os erros de ortografia e estrutura textual. Com o tempo, percebi que eles estavam seguros e eram capazes de fazer seus próprios textos. Sempre dei prioridade para a imaginação deles e parti da premissa de que só se escreve escrevendo”, destaca.

A ideia deu certo. As crianças mergulharam na literatura, se fantasiaram, assistiram a filmes e aprovaram a iniciativa da professora. A aluna Izadora Santos, 8 anos, reconhece a importância do projeto de alfabetização. “Foi assim que eu conheci as obras do Monteiro Lobato e aprendi a ler e a escrever”, comemora. Para o estudante Wallace Santos, 8, a atividade é ideal para colocar o aprendizado em prática. “A gente desenha, faz fotos, escreve e coloca a leitura em dia”, diz. 

Estudantes produzem jornal

 
As aulas de filosofia no Centro de Ensino Médio 1 do Paranoá também foram reinventadas pelo professor Vinícius Silva de Souza, 36. “Comecei a perceber que eu precisava colocar em prática a teoria que ensino”, comenta. Para ele, é importante desenvolver projetos de aprendizagem com o objetivo de despertar a atenção e o interesse dos alunos. “Aproveitei que a disciplina aborda temas sociais e coloquei os estudantes em contato com assuntos sobre bullying, suicídio, aborto, diversidade, religião e autoestima”, explica.

Em sala de aula, os alunos são incentivados a produzir textos para a elaboração de um jornal, o Infozine. O material é composto por conteúdos informativos que são aprendidos em sala, relatos pessoais vivenciados pelos estudantes, poemas e desenhos. O projeto existe há dois anos e circula em edições mensais. “Prezo pela autonomia deles, deixo a turma à vontade para definir o que cada um deve produzir”, completa Vinícius.
 
Wallace Martins/Esp.CB/D.A Press
 
 
“Participar do Infozine me dá uma sensação de liberdade de expressão”, admite o estudante do 1º ano do ensino médio Alisson Teotonio, 16. Para ele, a produção do jornal é uma evolução no processo de ensino e aprendizagem. “Como a cada edição vai mudando o tema, somos estimulados a ter um posicionamento crítico com os assuntos abordados e, consequentemente, isso se reflete na sociedade”, conclui o estudante, que participou de seis publicações do jornal.
 
Na avaliação de Lorena Queiroz dos Santos, 16, também aluna do 1º ano, contribuir para o jornal estudantil é uma forma de aprender o conteúdo didático de uma maneira interativa e dinâmica. “Para conseguirmos colocar em prática, precisamos pesquisar, ter entendimento sobre o tema da edição do Infozine e, a partir disso, a gente desenvolve as produções e passa para o professor Vinícius checar e acrescentar ao jornal. Nesse processo, a gente aprende muito mais”, frisa.

Alunos investigam temas e buscam respostas


Segundo o especialista Júlio Furtado, atualmente, uma das metodologias mais usadas nas escolas tem sido a de projetos. “O professor chega com uma hipótese, um problema, e convoca a turma para, juntos, descobrirem o motivo e as respostas. A sala de aula precisa ser uma grande equipe de pesquisa e o professor, um motivador”, resume. O psicopedagogo ainda indica que tecnologias e mídias sociais, que possibilitam a interação entre os alunos, também podem ser um apoio para os docentes. 
 
Mas se reinventar nem sempre é uma tarefa fácil. Rever os conceitos e atualizar as práticas é um desafio para muitos profissionais. Furtado explica que alguns professores tendem a seguir as mesmas técnicas com as quais eles foram educados. “Isso fica de uma forma muito profunda na atitude do professor. Ele precisa se libertar disso, o que não é fácil. Não é só aprender uma nova maneira de fazer e ser e, sim, se libertar da velha maneira de ser e fazer", enfatiza.
 
“Esse aluno vai se tornar uma pessoa que valoriza e acredita na aprendizagem e, mais que isso, ele passa a ter vontade de aprender. Ele se torna alguém curioso, que busca soluções, alguém de quem você pode esperar novas ideias” 
Júlio Furtado, psicopedagogo 

Thaiane Ferreira, diretora de Formação Continuada, Pesquisa e Desenvolvimento Profissional do Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação (Eape), ressalta que, para atrair os alunos a uma participação efetiva na escola, é necessário que o professor adquira algumas habilidades. “Ele precisa perceber o discente como protagonista do processo de aprendizagem dele. Quando o professor investe nesse sujeito, ele tem o processo garantido. Não basta o repasse de um conteúdo para um estudante calado, pois aquele aprendizado não vai fazer sentido”, detalha. Ela ainda completa: “Vejo a relação professor e aluno cada vez menos autoritária e mais dialógica”.    
 
Adquirir habilidades para poder se reinventar tem se tornado mais que um desafio: um grande investimento. Para o psicopedagogo Júlio Furtado, os benefícios são diversos e vão muito além da aprendizagem dos conteúdos tradicionais. “Esse aluno vai se tornar uma pessoa que valoriza e acredita na aprendizagem e, mais que isso, ele passa a ter vontade de aprender. Ele se torna alguém curioso, que busca soluções, alguém de quem você pode esperar novas ideias”, conclui.

Investir em formação de professores é essencial


A formação é determinante para o desenvolvimento de qualquer profissional e com o professor não é diferente. Se reinventar exige muito mais que criatividade. Para Thaiane Ferreira, da Eape, a formação dos profissionais é primordial para bons resultados na escola. “A formação continuada é um dos elementos principais que oportuniza a ressignificação do processo de aprendizagem. Assim, o professor pode se atualizar e adquirir novos conhecimentos para reconstruir a prática dele em sala de aula”, afirma. 
 
A professora Maria Antônia conta que se vira como pode, mas que nem todos os professores têm a mesma disposição. “Eu procuro muita coisa na internet, seria bom se tivéssemos mais opções para irmos atrás desse tipo de informação. Eu tenho essa habilidade, mas tem professor que não tem”, comenta. Thaiane afirma que, no caso dos professores da rede pública, a Eape oferece cursos que envolvem conteúdos de linguagem, criatividade, oficinas pedagógicas, entre outros. A diretora explica que os professores mais antigos têm prioridade na seleção.
 
Outras oportunidades, no entanto, podem ser aproveitadas por docentes de ambos os sistemas. O professor Vinicius Silva de Souza destaca a importância de os educadores estarem atentos às programações de workshops da área de atuação. “Após minha formação, participei de eventos na UnB sobre política e formação cidadã dos alunos, e isso me serviu de inspiração para refletir sobre como tornar as aulas práticas”, exemplifica. “É preciso explorar o campo da tecnologia, conhecer o que está em alta no momento e trazer essas novidades para a educação”, completa.
 
O psicopedagogo Júlio Furtado ressalta que, além de formação, é preciso oferecer estrutura, como equipamentos e espaço para que os professores possam inovar. Para ele, outro ponto importante é a valorização dos profissionais, que faz parte de um conjunto de fatores importantes que fazem a diferença no dia a dia do professor, refletindo diretamente no aprendizado dos alunos. 
  

Regras de ouro

Confira dicas para repensar as metodologias de ensino


Resgate a curiosidade dos alunos
» Arrisque em metodologias ativas. Não traga a resposta, mas incentive o aluno a ir atrás dela. Se tem uma coisa que não motiva é começar a explicar muito como são as coisas. 

Ouse com a tecnologia 
» Use a tecnologia a seu favor e, quando não souber como, peça sugestões aos alunos. Eles têm uma genética bem mais inovadora.

Faça do mundo uma grande sala de aula 
» Saia da sala de aula e use os espaços que estão perto de você. Tem química na padaria, geografia na rua, história nas calçadas, biologia nas plantas.

Fonte: Júlio Furtado